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quarta-feira, 26 de maio de 2021

A missa negra de 1964 Fundação Casper Libero, Seminário sobre os 40 anos do golpe militar no Brasil. Roberto Romano/Unicamp

 

A missa negra de 1964

Fundação Casper Libero, Seminário sobre os 40 anos do golpe militar no Brasil.
Palestra de Roberto Romano/Unicamp.

A missa negra de 1964


Dr. Roberto Romano/Unicamp



O golpe de Estado de 1964 repetiu um fenômeno antigo da vida política que atormenta os coletivos nacionais em toda a história da humanidade, desde o surgimento do poder judicamente organizado. Platão analisa na República os golpes que determinam a passagem dos regimes, do aristocrático ao democrático e tirânico. E Aristóteles resume a técnica das artimanhas contra a legitimidade política do seguinte modo: " de uma parte, o mundo é feito de artifícios e malícias e, de outra, os reinos são derrubados por meio de fraudes e finuras. Não seria ruim defendê-los com meios idênticos”. Após vencer a conjuração de Catilina, Cicero enuncia as frases que definem o ideal do governo justo, contra os que enxergam no poder apenas o seu interesse pessoal e, por semelhante motivo, ensaiam derrubar governantes: "O abandono da utilidade comum contraria a natureza (…) a conservação do povo deve ser a lei soberana de todas as ações”. Luciano Canfora, historiador do pensamento político antigo e moderno, publicou um livro (traduzido no Brasil) onde são coletados os atos dos filósofos a serviço dos poderosos e de seus golpes. O título do volume é expressivo: Um ofício perigoso (1) A antiguidade clássica conheceu, portanto, a prática, a noção e as justificativas teóricas dos golpes de Estado.

Mas é na fundação dos Estados nacionais europeus, sobretudo a partir do século 15, que o problema do golpe assume características profundas e abala a própria idéia de poder legítimo. Maquiavel é uma fonte a ser lida, sobretudo pelos conselhos que ele dirige aos conspiradores imprudentes. Se o segredo é a exigência da ação estatal, o mesmo segredo deve ser reduplicado pelos que desejam derrubar governos. Tarefa quase impossível, numa empreitada golpista, manter a própria lingua longe das orelhas dos que protegem o Estado. Maquiavel, com os seus pares da época, observa com extrema atenção os clássicos gregos e latinos, sobretudo um tratado de Plutarco, o De garrulitate, onde são apresentados todos os perigos da fala sem peias e o quanto esse vício perdeu vários conspiradores e governantes.

O continuador de Maquiavel nas reflexões sobre os atentados ao poder, com certeza responde pelo nome de Gabriel Naudé (1600-1650). Segundo Naudé, o golpe de Estado é “um conjunto de ações ousadas e extraordinárias que os príncipes são constrangidos a executar quando os negócios tornam-se difíceis ou desesperados, contra o direito comum, sem manter mesmo nenhuma ordem ou forma de justiça, ameaçando o interesse do particular pelo bem público”. (2)

Quando se fala em governo legítimo ou justo, também se toca num ponto espinhoso da filosofia política, bem anterior a Platão. Este último, não por acaso, inicia a República, o maior livro sobre ética e política do Ocidente, com o debate entre Trasímaco e Sócrates ao redor da legitimidade e da força. Governo justo e leis idem derivam do poder físico, enuncia Trasímaco. Se a monarquia é forte, ela é justa. Se a aristocracia e a democracia são fortes, o mesmo ocorre. Platão conduz todo o seu texto para negar essa tese, ancorado na idéia de que a justiça é um bem fugidío (Sócrates a compara a uma caça, enrustida num arbusto, e que deve ser surpreendida pelos homens) e que ela só pode resultar do saber e da técnica correta do governo.

Os pensadores do Renascimento, de Montaigne a Francis Bacon, deste a Maquiavel, todos buscam distinguir a força física (ao dispor do governante) e a legitimidade ostentada e, não raro, sem fundamentos sólidos. Daí a separação —ainda hoje polêmica— entre a moral dos homens comuns e a moral dos dirigentes.

Naudé, a partir daquela separação entre as duas formas da moralidade, também distingue duas justiças. “Uma é natural, universal, nobre e filosófica”. A outra é “artificial, particular, política, feita e destinada às necessidades dos governos e dos Estados”. (3) Ou seja: na condução do Estado, a moral se inverte e deixa de obedecer os parâmetros comuns. O governante hábil não pode ser preso pelos limites legais e pela tradição de legitimidade dos títulos, usos e costumes.

Da nova licença atribuída ao governante surge a noção moderna de golpe de Estado. Segundo Naudé, naqueles golpes tudo é invertido em relação à normalidade (do direito, da economia, dos valores). Naudé chega a dizer que no ato político do golpe, o efeito precede a causa e o esperado não se produz. Cito o próprio escritor renascentista: “nos golpes de Estado, vemos a tempestade cair antes dos trovões; as matinas são ditas antes que o sino toque; a execução precede a sentença; tudo se faz ao modo judaico; (…) um indivíduo recebe o golpe que imaginava dar, outro morre quando pensava estar em segurança, um terceiro recebe o golpe que não esperava; tudo ocorre à noite, no escuro e entre névoas e trevas”.

Entre as frases terríveis de Naudé, recolho a mais bruta : “a execução precede a sentença”. Do governante derrubado aos seus apoiadores ou supostos cúmplices, o golpe de Estado elimina o direito a um julgamento segundo regras estabelecidas. Eles são punidos primeiro e depois sentenciados pelos novos dominantes. Note-se também a forma das frases, em Naudé : o golpe de Estado inverte os valores jurídicos, religiosos, morais. Chrétien-Goni, comentador nosso contemporâneo, lembra a insistência de Naudé na forma subvertida dos golpes. Tudo se faz, naqueles atentados ao direito público e particular, de trás para a frente. Essa é uma característica das liturgias diabólicas, como nas missas negras, onde a cruz é posta de cabeça para baixo e a cerimônia é lida de trás para a frente. (4)

A repugnância trazida contra o satanismo dos golpes faz com que a sua maioria seja denominada, pelos seus promotores, como um contra-golpe preventivo. Foi esse o procedimento adotado pelos insubordinados de 1964. A terminologia é muito importante nos momentos graves da vida política. Assim, para fugir da sombra negra que segue todo golpe, o de 1964 foi apresentado como algo que impediria a tomada do poder pelos “subversivos” (socialistas, comunistas, sindicalistas) e garantiria o verdadeiro regime democrático. Em vez de golpes, os militares e civís brasileiros contrários ao governo Goulart ordenariam uma “revolução”.

Esse é o sentido inteiro do Ato Institucional 1, atribuído na sua maior parte a Francisco Campos. Diz o início daquele texto : “O que houve e continuará a haver neste momento, não só no espírito e no comportamento das classes armadas, como na opinião pública nacional, é uma autêntica revolução”. Assim, caem por terra as noções de legitimidade e de soberania vigente. Arremata o texto que assegurou longos à ditadura militar : “A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constitucional. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como o Poder Constituinte, se legitima por si mesma (...) Ela edita normas jurídicas, sem que nisto esteja limitada pela normatividade anterior à sua vitória (…) Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é que recebe deste Ato Institucional, resultante do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legitimação’’. (5 )


Francisco Campos, intelectual de triste memória para os brasileiros democratas, redator da famosa “Polaca” —a Constituição autoritária imposta à nação em 10 de novembro de 1937— conhecia perfeitamente os enunciados de Carl Schmitt. Este último, autor do importante livro “A ditadura, das origens da idéia moderna de soberania à luta de classes proletárias”(1921) descreveu a lógica dos golpes de Estado e das normas impostas pelos que sobem ao poder por seu intermédio. (6) É dele, também, a mais famosa fórmula do golpe de Estado: “Soberano é quem decide sobre o estado de exceção”. (7) O jurista germânico polemizou contra Hans Kelsen : ao contrário do que afirma o positivista jurídico, o problema da soberania ainda existe no mundo moderno. (8) Mas Schmitt, coerente crítico da soberania exercida pelos Parlamentos, na encruzilhada supostamente sem esperanças do sistema representativo (9), acentua o poder do Chefe do Estado, o protetor da Constituição que exerce a soberania acima dos entraves da legalidade e das regras. O dirigente opera segundo a lógica da excepcionalidade. Em O Protetor da Constituição, (10) encontra-se a referência ao Poder Moderador, tal como definido no Império Brasileiro, como um dique contra a soberania popular e contra o que dela sobrou após as Revoluções Francêsa e Americana. A importância do poder moderador situa-se, justamente, no controle da soberania popular ou das pretensões parlamentares.

O ponto importante, nos textos de Schmitt que se refletem na justificativa jurídica do golpe em 1964, sobretudo a partir do Ato institucional 1, encontra-se na sua defesa da exceção como elemento mais relevante do que a regra (defendida pelos liberais). A exceção, ao mesmo tempo em que nega a soberania popular ao modo jacobino, permite a Schmitt o retorno a Thomas Hobbes. Schmitt (e seus êmulos brasileiros) encontram em Hobbes o estratagema ditatorial, sempre apto para ser usado por todos os que negam a forma democrática. Em Hobbes, julga Schmitt (se ele tem razão ou está desprovido de fundamentos, apenas os especialistas em Hobbes podem dizer), existiria a tese de um “governo que pode se reclamar da necessidade concreta, do estado das coisas, da força da situação, para outras justificações não determinadas pelas normas, mas pelas situações (…). Isso encontra o seu princípio existencial na adequação ao fim, na utilidade (…) na conformidade imediatamente concreta das suas medidas”. (11 )

A ditadura, resposta adequada para um estado de exceção, não precisa da legitimidade ao modo antigo e prescinde da legalidade positiva, ao modo de Kelsen e dos liberais. Sua força reside no fato de que ela emerge na crise, quando as formas jurídicas não garantem o povo e o Estado. Essa doutrina encontra-se na essência da idéia de “revolução” que justificou o golpe em 1964. Além de ser-lhe atribuída o mister de contra-golpe preventivo, com o fim do governo legítimo, nele proclamava-se uma nova soberania, não mais advinda do povo, não mais adstrita ao Parlamento, não mais sujeita à legalidade mas cuja fonte era o próprio soberano que, pelo golpe, apodera-se do Estado. Daí que o Parlamento e toda outra ordem jurídico-político receberia sua existência e razão de ser do novo soberano. Os resistentes deveriam ser banidos da vida pública nacional. Essa é a lógica da depuração do Parlamento, com as cassações de parlamentares, catedráticos, etc., e de todos os atos seguintes do poder militar.

Mas o desejo da nova ordem, não submetida aos pressupostos da antiga, elevou-se no tempo longo, no Brasil, desde os anos do integralismo e da ditadura varguista. Não é possível esquecer que uma revista como A Ordem, importante veículo das idéias católicas e conservadoras, pregava o fim do liberalismo político e jurídico. Também não esqueçamos que um patrono de Carl Schmitt, Donoso Cortés, foi publicado pela Editora Vozes de Petrópolis para auxiliar na tarefa da racionalização da luta contra o pensamento liberal. Em termos de idéias, o solo estava preparado para as doutrinas e a propaganda da ordem, feita pela ditadura militar e por seus intelectuais, sobretudo os situados no campo jurídico.

Mas a busca da ordem também possuiu outros motivos que, embora tão relevantes quanto os de cunho ideológico, exerceram um papel real no golpe e nos seus dias posteriores. Na imensa tragédia vivida pelo Brasil naqueles tempos, dois personagens foram estratégicos. Refiro-me aos militares e os eclesiásticos.

Falemos dos segundos, para depois passar aos soldados. Após o Concílio Vaticano 2 a Igreja Católica começava a enfrentar movimentos de base de leigos e sacerdotes que representavam obstáculos à Hierarquia. As secularizações aceleradas dos padres, o seu empenho em lutas civís, prenunciavam a quebra de algo sagrado no ordenamento católico, a dignidade eminente do bispo, submetido apenas à Sé Romana.

Elias Canetti, no monumento político intitulado Massa e Poder, enuncia que o catolicismo recusa toda violência de massa. Os dignatários católicos gostam de dirigir multidões seguindo um ritmo e uma lentidão programados. Para que todos tenham lugar na Igreja é preciso impedir que setores dela exerçam violência sobre os demais. Um grupo militante, portanto, ao movimentar massas de modo autônomo, atinge a suscetibilidade dos pastores e neles suscita o desejo do retorno à ordem costumeira. Diz Canetti: “Até hoje não houve sobre a face da terra Estado algum que soubesse defender-se de tantas maneiras diferentes contra a massa. Comparados com a Igreja, todos os poderosos dão a impressão de serem modestos diletantes”. A autoridade hierárquica abarca todo o fiel, e todos os fiéis, integralmente. Caso oposto, não há catolicismo. “A vinculação entre os fiéis”, afirma Canetti, “é impedida de mais de uma forma. Eles não pregam uns aos outros; a palavra santa lhes é ministrada já mastigada e dosada; ela é, justamente na sua qualidade de santa, protegida dele. Até mesmo seus pecados pertencem aos sacerdotes”. O peso da Autoridade, na instituição católica, sobretudo antes do Vaticano 2, é tremendo. Isso faz com que as massas religiosas se mostrem publicamente sob a direção da Hierarquia, mas que os indivíduos se movimentem isolados, sem formarem massas autônomas e auto-reguladas. “Quem observa as filas dos que vão comungar” diz ainda Canetti, “vê até que ponto cada qual se preocupa apenas consigo mesmo. Os que estão na sua frente ou atrás lhe importam ainda menos do que o próximo com o qual se relaciona na vida diária”.

A Igreja ama o ritmo lento: “qualquer coisa que ela mostre é sempre mostrada lentamente. As procissões são um exemplo impressionante. Elas devem ser vistas pelo maior número possível de pessoas, elas fluem lentamente”. Falar em Igreja Católica significa perceber o isolamento administrado pelos sacerdotes no interior de certa massa. Mas a prudência eclesiástica, sua calma no pastoreio, tem limites. “Não é sempre que a Igreja pode se permitir sua elegante reserva, sua aversão diante da massa aberta, o veto que impôs à gênese desta massa. Existem épocas em que ela é ameaçada por inimigos externos; épocas em que a apostasia se propaga com tanta rapidez que somente é possível combatê-la com os meios da própria epidemia. Nestas épocas a Igreja vê-se obrigada a opôr massas próprias às massas inimigas. Os monges se convertem então em agitadores que, fazendo suas pregações, cruzam o país, instigando as pessoas a uma atividade que em condições normais se preferia evitar”.

Essas teses de Canetti descrevem bem tudo o que foi experimentado pela Igreja no período de 1964. Desde longa data clérigos e intelectuais previdentes, como Thales de Azevedo e o Padre Júlio Maria, anunciavam o colapso institucional da Igreja no Brasil. O Vaticano 2, provocando um aggiornamento do clero e dos leigos, ajudou as massas do catolicismo, em parte, a entrarem nos movimentos pelas mudanças sociais, sobretudo no campo explosivo da reforma agrária. A deserção dos fiéis iniciava o processo que hoje atinge formas numerosas e esvazia os templos em proveito dos auditórios laicos ou pentecostais, nos estádios e na televisão.

Desafiada em sua idéia de ordem natural da sociedade, tolhida a disciplina hierárquica com frequência inquietante, e vendo as massas dirigirem-se para setores secularizados, com o perigo socialista, ou mesmo —lembremos que estamos em plena colheita da Guerra Fria— comunista, surgem na Igreja os padres e os monges designados por Elias Canetti. A Cruzada do Rosário, do Padre Peyton, as múltiplas marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, os movimentos católicos conservadores que passam a disputar espaço com a Ação Católica especializada, em especial a juventude estudantil e universitária, que rumavam para opções políticas e até mesmo ideológicas opostas às da hierarquia (é o caso da Ação Popular, a AP, liderada por Betinho, cujo teórico foi o jesuíta Padre Vaz) todos esses movimentos responderam às ameaças, reais ou supostas, à Igreja.

Milhões e milhões de fiéis foram conduzidos às ruas sob o báculo dos hierarcas fortemente ajudados pelos golpistas e pela imprensa, para mostrar —mais uma vez na história republicana, depois das demonstrações de força que marcaram os Congressos Eucarísticos— que a Igreja deveria ser levada em conta no futuro e no presente institucional brasileiro. Convergiu a Igreja, na sua face hegemônica, com os setores privilegiados e particulares que tramavam contra o governo.

Assim, nas palavras do Padre Alberto Antoniazzi, o golpe 1964 “leva a uma ´reunião extraordinária dos Metropolitas´em 27-29 de maio, da qual sai uma declaração que aceita a intenção da ´Revolução de livrar o País do comunismo e agradece aos militares, mas faz ressalvas e o voto de que a reconstrução do País siga a Doutrina Social da Igreja”. (12) A Igreja acolheu com excelente ânimo o pior golpe dentro do golpe, o Ato Institucional número 5. No Comunicado de 19 de fevereiro de 1969, os bispos, reunidos na CNBB, propõem ao governo tirânico uma “leal colaboração” para melhor cumprir “as reformas de base”, sepultadas com o governo Goulart. Naquele texto, ainda, eles reconhecem a legitimidade do novo regime “institucionalizado em dezembro último” e chegam a considerar que os poderes de exceção permitiriam “realizar rapidamente as reformas de base”. Para mostrar que a proposta de “leal colaboração” era dirigida a um poder inimigo de todas as reformas de base, basta referir os dados sobre a dívida externa do Brasil. “No momento do golpe de Estado em 1964, a dívida externa tinha subido para 2,5 bilhões de dólares; e quando o último general deixou a Presidência, em 1985, a dívida estava em mais de US$ 100 bilhões. Assim, se multiplicou por quarenta em pouco mais de vinte anos de ditadura. Essa ditadura foi beneficiada pelo apoio indefectível do governo dos Estados Unidos e do Banco Mundial, que viram nela um aliado estratégico no continente sul-americano em um contexto de expansão da revolução cubana e das grandes lutas anticapitalistas e antiimperialistas. É importante notarmos que, antes do golpe de Estado de 1964, o Banco Mundial tinha se recusado a emprestar dinheiro para o Brasil, sob o comando do progressista presidente João Goulart (…), que tinha feito a reforma agrária”. (13) Ao mesmo tempo em que os bispos ofereceram “leal colaboração” ao governo militar reforçado pelo AI-5, eles reconheceram que, em face da repressão generalizada conduzida pelos militares, as elites católicas sofriam ameaças o que as conduzia a ser afastar da Igreja, penetrando numa “perigosa clandestinidade”. (14)

Após a ditadura militar, o papel da Igreja como defensora dos direitos humanos foi idealizado por muitos intelectuais e movimentos políticos. É preciso cautela para ser justo no caso. De fato, muitos bispos e padres, além dos leigos, lutaram pela justiça e contra o arbítrio. Mas a linha oficial da Igreja foi mais do que ambigüa: ela apoiou o regime, dando-lhe bençãos. O episódio brasileiro teve muitos antecedentes na história mundial. Recordo apenas a Concordata de Império entre a Igreja e o nascente (e legal) governo de Adolf Hitler. No artigo 1 do mencionado documento, podemos ler: “O Reich alemão garante a liberdade da profissão e o exercício público da religião católica”. No artigo 32 se enuncia: “Em razão das atuais circunstâncias particulares da Alemanha e em consideração das garantias criadas pelas disposições da presente Concordata, de uma legislação que salvaguarda os direitos e as liberdades da Igreja Católica no Reich (…) a Santa Sé editará disposições excluindo para os eclesiásticos e religiosos o ingresso nos partidos políticos e sua atividade a este respeito”. No artigo 5 pode-se ler: “No exercício de sua atividade sacerdotal, os eclesiásticos gozam da proteção do Estado do mesmo modo que os empregados do Estado”. (15) Como os bispos que apoiaram o golpe de Estado em 1964, a Santa Sé acreditou que uma ditadura poderia ser aceita sem que os próprios fiéis fossem obrigados à “perigosa clandestinidade”. Felizmente, para a restauração da plena democracia, muitos religiosos não aceitaram as ordens das autoridades religiosas.

Discutamos a outra instituição que, desde a Colônia, assegurou o território nacional e o Estado, as Forças Armadas. Para elas, como para a Igreja, a ordem hierárquica é essencial. Após a ditadura getulista, quando houve certa unidade de comando e obediência nas casernas, os soldados se preocuparam com a pequena democratização do governo Dutra, as crises do governo democrático de Vargas, as sucessivas formas de golpes e contra-golpes de setores parlamentares que buscavam apoio nos quartéis (as famosas “vivandeiras”) antes do governo Juscelino. Após todos esses eventos, quando foram duramente questionadas a unidade de comando e a hierarquia, ocorreu a renúncia de Jânio Quadros, acuado por um parlamento hostil, sem maioria sólida possível. Na ocasião, com o veto do Alto Comando à posse de Goulart e com o parlamentarismo instalado pelo Congresso, ocorreu uma fratura perigosa aos olhos dos militares. Essa fenda ameaçaria a Federação, de um lado, e a unidade das Forças Armadas. Refiro-me ao apoio do III Exército e demais setores leais ao vice-presidente da República, sob liderança de Leonel Brizola.

Dada a cura provisória da crise institucional e federativa, com o parlamentarismo, os militares aparentemente aceitaram o status quo obtido pelos que dirigiam o Congresso. Mas a fratura ocorrida no interior dos quartéis, de modo público e notório, permaneceu na consciência militar à espera do que poderia ocorrer.As sucessivas manifestações de insubordinação dos soldados e patentes menores evidenciaram um processo geral de perda da autoridade do Executivo. As manobras políticas a diminuíram ainda mais. Seria preciso dar um basta aos que assim quebravam a hierarquia. A Igreja colocou massas nas ruas. As Forças Armadas prepararam a tomada das mesmas ruas pelos canhões. Quando as duas maiores forças de imposição do mando, uma espiritual e outra física, sentem que estão à beira da ruptura interna, e se quebra a linha de comando, elas reagem para sobreviver e tentam cortar a fonte de seus males, pelo menos a mais aparente. Se o governo não conseguia impor sua autoridade, mas até incentivava gestos de rebelião, era urgente substituir o governo, com a conivência do Congresso, manifestada sempre que golpes civís ou militares anteriores foram perpetrados.

É preciso ter uma idéia muito realista do soldado profissional no mundo político. Um soldado é feito para executar o monopólio da força física estatal na guerra. Seu alvo é garantir a integridade do Estado com armas letíferas contra inimigos exteriores. Em caso de conflito civil, sua função continua tendo como essência a morte dos adversários. Para que este fim seja alcançado plenamente, o militar deve obedecer ordens de modo perfeito. Um movimento muito importante na propaganda golpista, em 1964, foi a Sociedade Brasileira Tradição Familia Propriedade (TFP). Aquele setor foi inspirado pelos teóricos da contra-revolução romântica do século 19, incluindo o pensador espanhol Donoso Cortés. “Um soldado”, enuncia Donoso Cortés, “é um escravo em uniforme”. A frase encontra-se no famoso Discurso sobre a Ditadura (1849). Alí, o teórico ataca a democracia representativa e ironiza todos os que confiam numa Constituição estável e permanente. Segundo Cortés, nada no mundo pode garantir estabilidade, porque o próprio Deus age por meio de golpes —os milagres— e age ditatorialmente. Cito o espanhol cuja presença fez-se notar nos piores golpes de Estado, na Espanha e na América do Sul, de Franco aos que derrubaram Salvador Allende :

“Gobierna Dios siempre con esas mismas leyes que el mismo se impuso en su eterna sabiduría y a las que nos sujetó a todos. No señores; pues algunas veces, directa, clara e explicitamente manifiesta su voluntad soberana quebrantando esas leyes que El mismo se impuso e torciendo el curso natural de las cosas. Y bien, señores: cuando obra asi, no podria decirse, si el lengaje humano pudiera aplicar-se a las cosas divinas, que obra dictatorialmente?”

Esse discurso inspirou o já mencionado Carl Schmitt, jurista que muito colaborou com Adolf Hitler, bastante lido por pessoas como Francisco Campos e outros personagens de nossa república. Quando Cortés diz que o soldado é escravo em uniforme, ele afirma um traço vital que esteve presente no golpe de 1964.

Ainda Elias Canetti fornece uma chave antropológica para a compreensão das Forças Armadas em 1964. A sentinela que permanece imóvel é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Os motivos habituais de ação, como os desejos, o temor, a inquietude que constituem a vida humana, são reprimidos dentro dele. Todo ato seu deve estar sancionado por uma ordem. O momento vital na existência de um militar é o da posição atenta diante do superior. A educação do soldado começa no instante em que lhe são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens. O aspecto anguloso do soldado mostra que ele se adaptou aos muros, sendo um prisioneiro satisfeito. Para ele, a ordem tem valor supremo. Integra a sua formação que ele aprenda a obedecer ordens sozinho ou na companhia de outros. Os exercícios o habituam a movimentos executados com os demais. Todos devem realizá-los de modo absolutamente idêntico. O indivíduo torna-se igual aos outros. É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas umq ue a recebe, ou todos. O uniforme, além das outras funções bélicas, evidencia a perfeita igualdade de todos na obediência às ordens.

A disciplina define o exército. Trata-se de uma dupla disciplina. A declarada é a ordem, tal como descrita acima. A outra é a promoção. Esta última corresponde à capacidade de um militar para ser aguilhoado internamente pela ordem. Para cada ordem atualizada, fica um espinho dentro dele. Se é soldado raso, ele não pode desfazer-se desses espinhos, aninhados em seu corpo e alma. Ele obedece e se torna cada vez mais rígido em sua obediência maquinal. Para sair desse estado, só com a promoção. Quando promovido, ele se desfaz —nos outros— dos seus aguilhões/ordens. A disciplina secreta consiste no uso dos aguilhões/ordens armazenados.

Essa disciplina responde pelo fato de os exércitos mais poderosos do mundo terem seguido ordens de partidos totalitários, pelo menos até que vislumbrassem a derrota, sem pestanejar. “Estou cumprindo ordens”. Sem tal frase, inexistiriam o fascismo, o nazismo, o stalinismo. O Alto Comando é o que menos ordens recebe, mas mesmo assim ele as recebe de quem possui autoridade para tal. Essa cadeia verticalizada de obediência, no caso dos soldados rasos, só explode nas situações de guerra onde o inimigo é disseminado, como nas guerras de guerrilha. Nessas horas a solidariedade horizontal conta mais do que as ordens vindas de cima. Há um bom livro de David Hansen, The Western Way of War: Infantry Battle in Classical Greece, (16) que evidencia esse traço.

Na vida comum, quando não há guerrilha do inimigo externo ou interno, o exército segue a disciplina e a ordem das promoções. Para que ambas existam é preciso que a hierarquia e o próprio instituto militar sobrevivam. É absurdo para um soldado que cumpriu ordens a vida toda e subiu até o posto de coronel ou general de brigada, imaginar que suas próprias ordens não serão obedecidas. Nesse caso, mesmo que o Alto Comando permita a “insubordinação” e mesmo que o comandante supremo —o Chefe de Estado— assuma uma suposta “abertura democrática” face aos exército, quebrando a ordem rígida e a disciplina, eles serão desobedecidos, numa suprema tentativa de restaurar a ordem comum, com o golpe de Estado.

No Brasil em 1964, unidos à inquietude das altas hierarquias religiosas e à insubornição ao governo civil e às angústias diante das movimentações de massas na sociedade e nos quartéis, os militares seguiram quem lhes prometia restaurar a ordem e manter a carreira, a promoção. Quando a sociedade no seu todo —por suas lideranças— não sente-se ameaçada, o ato dos militares não encontra terreno fértil, mesmo dentro do exército. Lembremos, no início da redemocratização espanhola após a ditadura franquista, a tentativa de golpe em que os protagonistas ficaram sozinhos com seus revólveres no Parlamento ameaçado. Recordamos aquela situação tragicômica, com os políticos agachados e os golpistas a gritar frases desconexas.

Um golpe militar ocorre quando, às tensões externas, somam-se a angústia e as incertezas internas de manter tôda uma existência baseada na disciplina, na hierarquia das ordens, na carreira e na promoção. Foram decisivos o pânico e a insegurança sentidos nas duas maiores instituições da ordem no país, a espiritual, a Igreja Católica, e as Forças Armadas, com seu medo de se fragmentarem, perdendo-se irremediavelmente.

Assim, tivemos pelo menos três elementos importantes na geração do golpe de 1964 ( muitos outros existem e eles serão tratados pelos demais participantes do simpósio) : em primeiro lugar, a pregação jurídica contrária ao liberalismo, bem conhecida de autores como Francisco Campos e outros. Em segundo, a Igreja Católica, com a hierarquia. Em terceiro, as Forças Armadas com a disciplina. Da síntese desses três elementos, somados aos demais, surgiu a justificativa do golpe de Estado. Não é preciso ser adepto de Gabriel Naudé para constatar que os anos da ditadura, sem nenhuma exceção, exercitaram a diábolica missa negra que danou indivíduos e grupos de modo irremediável: torturas, assassinatos praticados nos estabelecimentos do Estado, censura, intolerância e violência anônima. Os perseguidos deveriam provar a sua inocência, sem que ao Estado se exigisse a prova de sua culpa. Vivemos muito tempo sem direitos e sem o Estado de Direito. A única comemoração que faz plena justiça ao golpe, será a feita no cotidiano de nossa vida cívica. Por pior que seja a democracia, ela garante pelo menos parte dos nossos direitos à vida e ao pensamento. Os donos do estado de exceção desconhecem direitos. Respeitemos o regime democrático. Este é o culto mais indicado, se os cidadãos quiserem fugir dos horrores vividos pela ditatura instituida em 1964.

Notas

(1) São Paulo, Ed. Perspectiva, 2Itálico003 (trad. Nanci Fernandes e Mariza Bertoli)

(2) Naudé, Gabriel : Considerations politiques sur le coups d’etat. Roma, 1639. Georg Olms, Ed. 1993.

(3) Naudé, citado por Jean-Pierre Chrétien-Goni: “Institutio Arcanae”, in Lazzeri, Christian e Reynié, Dominique: Le Pouvoir de la raison d´État, Paris, PUF Ed, 1992, p. 139.

(4) Jean-Pierre Chrétien Goni, op. cit. pp. 139-140.

(5) Para uma análise jurídica desse ponto, cf. Dr. Carlos Fernando Mathias de Souza, da Universidade de Brasília : “Evolução histórica do Direito brasileiro (XXX): o século XX”. O texto, bastante amplo, pode ser encontrado na Internet, no seguinte endereço eletrônico : http://www.unb.br/fd/colunas_Prof/carlos_mathias/anterior_28.htm

(6) Die Diktatur. Von den Anfängen des modernen Souveränitätsgedankens bis zum proletarischen Klassenkampf- Munique/Leipzig, Duncker &Humblot Ed., 1928 (2a ed.).

(7) “Souverän ist, wer über den Ausnahmezustand entscheidet” . Esta é a primeira frase do escrito sobre a teologia política de Carl Schmitt. Cf. Politische Theologie. Vier Kapitel zur Lehre von der Souveranität. Munique, Duncker & Humblot, 1934. O enunciado apresenta-se não apenas em autores da chamada “direita” internacional, mas também em textos da “esquerda”, como por exemplo em Walter Benjamin. Tem toda razão Jean Pierre Faye, linguista e teórico do pensamento totalitário, quando refere-se à uma “ferradura” terminológica que reúne os vários matizes da paleta ideológica. Durante o nazismo, com a “colaboração” entre URSS e Alemanha, chegou a ser cunhada a expressão tremenda: “nacional-bolchevismo”. Mas estas são análises que devem ser feitas em outras ocasiões….

(8) Kelsen, em Das Problem der Souveränität, no contexto amplo das relações juridicas —internacionais sobretudo— diz que “o conceito de soberania deve ser radicalmente eliminado”. Uso a tradução italiana : Kelsen, Hans : Il problema della sovranità. Milano, Giufrrè, 1989.

(9) Cf. Die geistesgeschichtliche Lage des heutigen Parlamentarismus. Munique, Duncker & Humblot Ed., 1926. Existe uma edição brasileira do texto : Carl Schmitt, A crise da Democracia Parlamentar. Trad. Inês Lohbauer, São Paulo, Scritta Ed., 1996.

(10) Carl Schmitt : Der Hüter der Verfassung. Texto ideado em 1929, mas publicado mais tarde. Uso a edição de 1969 (Berlim, Duncker & Humblot).

(11) Cf. Schmitt, Carl: Legalität und Legitimität (1932). Cito na tradução italiana: Le categorie del ´politico´. Bologna, Il Mulino, 1972, p. 217.

(12) Cf. Antoniazzi, Alberto : Conjuntura Social e Documentação Eclesial. 641. “Leitura Sócio-pastoral da Igreja no Brasil. (1960-2000), A Igreja Católica e a atuação política.” No site http://www.cnbb.org.br/estudos/encar641.html

(13) Cf. Eric Toussaint, autor de "A Bolsa ou a Vida", publicada pela editora Perseu Abramo, 2001): “Acordo com o FMI, estágio atual da Auditoria da Dívida e as responsabilidades do Governo Lula”. No site da Fundação Perseu Abramo, com o seguinte endereço: http://www.jubileubrasil.org.br/dividas/eric.htm

(14) Cf. Declaração dos Membros da Comissão Central da CNBB. São Paulo, 18 de fevereiro de 1969. Texto reproduzido integralmente em Igreja e Governo, Extra 3, Ano I, fevereiro de 1977, pp. 32-33. Cf. Roberto Romano: Brasil, Igreja contra Estado. SP, Kayrós Ed. 1979, p. 182.

(15) Cf. O texto citado integralmente em Mathivon, A. : Catholicisme, National-Socialisme et Concordat du Reich. Paris, Librairie Génerale du Droit et Jurisprudence, 1936. Cf, também: Lewy, G.: “Le Concordat entre l ´Allemagne et le Saint Siège”, in L´Église Catholique et l ´Allemagne Nazie (Paris, Stock, 1964). As desculpas católicas pelo mau passo podem ser encontradas em Gillod, M. (introdução): Catholicisme Allemand (Paris, Cerf, 1956).

(169 University of California Press, 1989.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

As Hostes Políticas de Edir Macedo. Roberto Romano Revista Interesse Nacional.

Depois de muito subestimado, Trump acabou eleito presidente dos Estados Unidos da América contra todas as previsões de especialistas, cientistas políticos, comunicólogos, sábios e videntes. Proclamado o resultado, videntes, sábios, comunicólogos, cientistas políticos e especialistas tentam apagar as pegadas erráticas, abrindo um leque de causas para o inesperado desfecho. Inesperado para eles que pensaram ditar a realidade e induziram grande parcela da opinião pública mundial a acreditar em suas verdades. Depois de muito subestimado, Trump acabou eleito presidente dos Estados Unidos da América contra todas as previsões de especialistas, cientistas políticos, comunicólogos, sábios e videntes. Proclamado o resultado, videntes, sábios, comunicólogos, cientistas políticos e especialistas tentam apagar as pegadas erráticas, abrindo um leque de causas para o inesperado desfecho. Inesperado para eles que pensaram ditar a realidade e induziram grande parcela da opinião pública mundial a acreditar em suas verdades.A vitória de Marcelo Crivella para a Prefeitura do Rio de Janeiro levanta questões sobre a originalidade de sua igreja, a Universal do Reino de Deus. No artigo, é indicada a forma do catolicismo organizacional como um dos elementos de sua baixa numérica e política na sociedade brasileira. Em contrapartida, a estrutura da Universal, ao contrário da católica, valoriza intensamente o leigo, o que potencializa forças políticas antes adormecidas que, somadas ao imenso instrumental da igreja, sobretudo na mídia, ajuda a entender a maré montante do pentecostalismo político de hoje. O Brasil nasceu católico, mas sua forma jurídica, desde a origem, manteve o controle estatal sobre a vida religiosa. Fomos descobertos no absolutismo, quando o poder estatal disputou com radicalidade a soberania contra o domínio transcendente. Estávamos na era dominada por Maquiavel e pela raison d’État. Naquele tempo, a ética da rota respublica christiana foi posta em questão por teóricos (Maquiavel é apenas um de extensa lista) e governantes. A Reforma traz um complicador a mais nos elos entre mando religioso e civil. Se Lutero radicaliza a ruptura com a autoridade visível da igreja, ele reforça o poder dos príncipes que aderem à nova confissão.  João Calvino, apesar da obediência pregada aos crentes diante do mando civil, expõe vias para a radicalização laica e, mesmo, democrática, da ordem política. Não é exagero dizer que boa parte da moderna democracia tem como base a reforma protestante na vertente calvinista.  Sob o Padroado, a Coroa portuguesa faz da Igreja mero departamento do poder civil. No Império não é diferente. Apenas com a República, para a qual contribuiu a Questão Religiosa, o catolicismo tem certa independência para agir no país. Mesmo assim, até meados do século 20, é difícil separar os alvos do Estado e as sendas da Hierarquia. Antes e depois da ditadura getulista, ocorrem conúbios entre “autoridades civis, militares, eclesiásticas”. A meta religiosa reside na conquista do mundo moderno para atraí-lo ao rebanho, num inaudito movimento de centralização, cujo ápice é o Concílio Vaticano 1 e o dogma da infalibilidade papal. Os bispos percebem o Brasil como terra a ser evangelizada. Uma das técnicas para conseguir tal alvo consiste em impor a “soberania espiritual” ao mando secular.Tensas, as relações entre Igreja e poder civil vivem instantes de afastamento mútuo, mesmo de hostilidade, ou de plena concórdia. Com a ditadura Vargas ela ganha muito, sobretudo no campo do ensino. Boa parte dos curricula oficiais, impostos ao país, foram elaborados por bispos ou acadêmicos a eles unidos. É o caso de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que molda as planilhas educacionais do Brasil por longas décadas. Tais planilhas sobrevivem à era Vargas, à ditadura de 1964 e mesmo ao governo civil e à Nova República. No período inaugurado pelo golpe de 1964, alguns bispos e leigos resistem ao arbítrio, às torturas e prisões, o que ocasiona choques com o Estado. Mas, não é possível ignorar o acordo antes e após o coup d’État, consagrado em colaboração de hierarcas e autoridades laicas e consignado em documentos oficiais que abençoam o regime de força. Em determinadas situações podemos dizer, sem exagero, que as formas estatais e católicas constituem um todo solidário. A igreja católica percebe com maior acuidade a perda de sua força social a partir dos anos 50 do século 20. Pensadores como o Padre Júlio Maria e Thales de Azevedo mostram o quanto o catolicismo está longe de controlar grandes massas populares. A proposta de tais acadêmicos e clérigos se encontra no ataque à modernidade, cujos efeitos seriam letais ao mundo religioso tradicional. A tônica seguida liga-se à defesa dos antigos valores, algo comum naqueles anos na intelectualidade católica. A Revista Eclesiástica Brasileira, a Revista Vozes de Petrópolis, praticamente todas as publicações de doutrina e proselitismo insistem na reconquista do mundo perdido para a secularização, a maçonaria, o espiritismo, o positivismo, o liberalismo e, last but not least, o protestantismo. No relativo ao liberalismo, importa notar que um grande inspirador de Carl Schmitt, Juan Donoso Cortés, é publicado pela Editora Vozes, o Ensaio sobre o Catolicismo, o liberalismo e o socialismo, manifesto contra a democracia e as formas seculares de pensamento político. A tônica empregada pela propaganda eclesiástica é a de uma simbiose entre nacionalidade brasileira e igreja católica. Em tal movimento, a palavra definitiva é a do Sumo Pontífice: “A igreja e o Estado devem ser unidos um ao outro como alma e corpo, que constituem no homem um todo natural”.Não é possível olvidar o papel relevante, direto ou indireto, da LEC (Liga Eleitoral Católica) até meados do século 20. Para ir contra as ameaças modernas, Dom Sebastião Leme instaura a revista A Ordem e o Centro Dom Vital, em boa parte dirigido por Alceu Amoroso Lima. Criada em 1932, a LEC busca afugentar das mentes católicas as candidaturas aos cargos políticos de liberais, maçons, comunistas, socialistas, espíritas, protestantes. A lista de candidatos, afixada nas igrejas e demais espaços religiosos, serve como sinal de ortodoxia e, de outro lado, frouxidão dos renitentes. Em 1962, a LEC assume a denominação de Aliança Eleitoral pela Família. Assim, a atuação dos bispos e leigos católicos, para garantir a hegemonia eclesiástica no Estado, tem muitas faces. A LEC é das mais agressivas, pois ensaia banir da vida pública setores minoritários, numa demonstração cabal de intolerância. Os protestantes sofrem muito com semelhante política de exclusão. Com o Concilio Vaticano 2 ocorre em parte a mudança de rumos eclesiásticos. Em vez de presa aos muros da tradição, a igreja tenta se abrir ao mundo, vendo nele não um campo de morte, mas terreno a ser preenchido pelos valores cristãos e humanos. Os documentos conciliares, em especial a Constituição Lumen gentium mudam a perspectiva da pastoral e das formas doutrinárias. Não mais pensada como poder que deve enfrentar o mundo com anátemas, a igreja se percebe como peregrina no tempo, cuja orientação seria o Eterno, mas sem descuidar da finitude, das dores e alegrias humanas. É deixada nas sombras do pretérito a reivindicação de “soberania espiritual”, as pretensões de usar o Estado, contra toda a crônica laica que o marca desde o século 16, como instrumentum regni. O Vaticano 2 interrompe, pelo menos provisoriamente, o fluxo de anátemas contra o mundo laico e as formas religiosas que ameaçam o catolicismo.
Ditadura de 1964 enfrenta uma igreja dividida
A forma católica tem uma lógica muito própria, que desafia os mais diferentes pensadores. Carl Schmitt, para descrever tal lógica usa o termo “complexio oppositorum”, porque não é possível atribuir ao todo eclesiástico uma doutrina política única. Sua sabedoria consiste, justamente, em não sucumbir às formações de seitas, cumprindo seu núcleo dirigente (no ápice da hierarquia) a função de acomodar as contradições existentes na ordem interna e externa. Sempre que um setor da igreja se pretende autônomo em relação ao todo, a Hierarquia move correções rápidas que podem ir das admoestações à excomunhão. Após o Vaticano 2 o catolicismo passa por forte desarrazoado sobre sua essência e missão. Sacerdotes aos milhares, perdido o cosmos da tradição tridentina contrária à modernidade, sentem o solo eclesiástico como problemático: nem mais totalmente sagrado, como quer a Contrarreforma, nem secular. As práticas litúrgicas são abaladas, formas costumeiras de piedade abolidas. Os templos perdem esculturas sacras, a reza do terço durante a missa é proibida, novenas e procissões suspensas. Falta ao clero, progressista ou não, saber ou prudência antropológica e de psicologia de massas. O fiel católico passa a viver o sagrado como algo incerto. É dada a partida para a busca de experiências místicas outras, ou simplesmente o abandono das crenças religiosas. A responsabilidade não reside apenas no clero laicizado. Mas, ele é importante para a perda de solidez da fé tradicional católica. Já no Pontificado de Paulo VI, a hierarquia eclesiástica busca moderar o impulso racionalista que toma parte do clero e dos leigos. A Encíclica Humanae vitae (1968) dá o sinal de alarma. Na igreja brasileira, ainda em 1968, surgem os primeiros sinais do “freio” aplicado aos bispos, padres e leigos que radicalizam as teses conciliares. Todo o final do pontificado de Paulo VI é hamletiano: ora pende para o progressismo teológico e pastoral, ora ao conservadorismo centralista da Santa Sé. A ditadura instaurada em 1964 enfrenta uma igreja dividida entre a maioria dos antístites que apoiam o regime e a minoria que o combate. Padres e leigos radicalizados seguem a letra conciliar, mas tal fato não basta aos mantenedores do poder curial. Após o brevíssimo governo de João Paulo I, a eleição de João Paulo II sinaliza um Termidor eclesiástico. O pontífice opera uma intervenção duríssima em dioceses, seminários, instituições católicas, na busca de orientar a barca de Pedro para um catolicismo devocional. Como Pio XII, João Paulo privilegia a diplomacia conservadora, age com notórios ditadores como Pinochet, une-se a Reagan e outros. Episódios como sua participação no caso Irã-contras são reveladores do absolutismo por ele imposto à Igreja.Some-se o desarrazoado do clero e dos leigos em termos culturais e pastorais, à política agressivamente conservadora de João Paulo II e teremos um desarmamento das hostes católicas em termos missionários e prosélitos. Com o pontífice polonês, a Igreja perde suas forças progressistas, ou pelo menos elas são silenciadas (o caso do cardeal Paulo Evaristo Arns, cuja diocese foi dividida de alto a baixo por Woytila). O combate do Vaticano à Teologia da Libertação consiste em uma técnica do Sumo Pontífice e de seus auxiliares (como o Cardeal J. Ratzinger, depois Bento XVI) para impor um modelo eclesiástico contrário ao Concílio. João Paulo II retoma o “catolicismo político” que domina a Santa Sé e vastos setores católicos nacionais no seu trato com o Estado e a sociedade. Em tal paradigma, interessa manter a mão segura sobre os fiéis, o controle interno do episcopado e dos teólogos e os alvos estratégicos da Igreja em termos planetários. É uma versão nova da antiga “raison de l’ Église” de onde brota a própria raison d’état. Ao mesmo tempo, os católicos conservadores não mais sentem que entre eles e o corpo eclesiástico há uma unidade sólida, como a ocorrida no final do século 19 e inícios do século 20. As divisões de São Pedro estão submetidas à incerteza quanto aos rumos a serem tomados. É em tal momento que as formas protestantes, não as tradicionais, mas as desafiantes da ortodoxia eclesial (reformada ou católica) apresentam seu maior crescimento em setores próximos aos “negativamente privilegiados”.


Comunidades eclesiais de base

 

Já nos anos 60 a 80 do século passado, o frei Francisco Cartaxo Rolim, pesquisador das religiões novas e fundamentalistas do protestantismo mostra que o crescimento daqueles setores tem como premissa a ausência de muitos intermediários entre a piedade dos crentes e a ordem coletiva eclesial. Ele chama a atenção para o sentido de iniciativa, atribuído ao militante religioso protestante pentecostal, em contraste com a rigidez imposta na estrutura católica e confissões protestantes tradicionais. De outro lado, a igreja católica tenta mover seus adeptos da base para a militância com as Comunidades Eclesiais de Base. Deixando-se o desmanche de setores daquele movimento pela ação de João Paulo II (muitos animadores leigos e clérigos são perseguidos pelo Vaticano), as referidas comunidades coexistem com a estrutura antiga da igreja, estrutura vertical que privilegia os membros hierárquicos, a começar com os vigários das paróquias que acolhem as CEBs. Ao longo do tempo, tal problema é discutido nas próprias comunidades e nos estudos de intelectuais católicos. E. Hoornaert, em texto preparado para as discussões das CEBs, analisa a estrutura hierárquica da igreja, que tende a abafar a iniciativa missionária dos leigos e instâncias inferiores do clero. Hoornaert indica de modo gráfico o leigo católico no mais baixo escalão da pirâmide religiosa, ente passivo movido pelo clero:

 

BispoPadreLeigo
Do bispo ao leigo, o padre é uma “correia de transmissão”. Para o máximo de atividade e iniciativa, os bispos; rumo ao mínimo, os leigos. Assim, torna-se muito grande o risco de fazer das CEBs apenas celeiros dinâmicos de clericalismo. Hoornaert apresenta, para atenuar tal falha, outro modelo de organização católica. Nele temos a seguinte forma : bispoleigopadre

 

O padre, então, é destituído do papel de centro religioso (o culto) para se tornar um traço de união dos leigos com a igreja. O padre apenas articularia as relações comunitárias. Com o advento de João Paulo II e de uma Hierarquia definida pela raison d’État em consonância com a raison de l ‘Église (tal foi o sentido da Realpolitik católica sob aquele Pontífice), a verticalidade que põe o leigo no mais baixo plano da instituição é retomada com rigor. O signo eclesiástico no Concílio Vaticano II, sob João XXIII e ainda Paulo VI, é o de uma abertura ao diálogo com o mundo. Sob João Paulo II muros espirituais são edificados quase ao mesmo tempo em que o Muro de Berlim é destruído. Livre do comunismo, a Santa Sé pratica uma política diplomática de pleno acordo com as premissas de Ronald Reagan, Pinochet e similares. Se existem teólogos e sociólogos católicos que, ainda sob João Paulo I, sonham com uma igreja democrática ou mesmo socialista, João Paulo II desmente tais devaneios. Com ele, o fiel volta à passividade e toda iniciativa cai novamente nas mãos do clero e da Hierarquia.Seria um milagre se, com tamanha perda de iniciativa dos leigos, a igreja Católica deixasse de perder fiéis para igrejas e seitas de origem protestante que não apenas valorizam o laicato, mas dele fazem um meio eficaz de missão e atividade prosélita. Não é o caso, aqui, de fazer uma história do protestantismo no Brasil. E também não há espaço e tempo para efetuar uma crônica das igrejas pentecostais e messiânicas surgidas nas últimas décadas. Vale refletir sobre as características de uma delas, a Universal do Reino de Deus, instaurada por Edir Macedo. Dentre as várias confissões que ocupam a cena política, trata-se da mais ativa e bem-sucedida. O fundador do empreendimento tem uma história de sucessos no mercado. Em seus trabalhos profissionais anteriores à sua vida religiosa, operou com matemática, estatística e outros meios para aferir números sobre o social. Ele usa técnicas eficazes de administração empresarial. Uma nota pequena, que une sentido de oportunidade com a ocupação do espaço. Certo dia em Bauru (SP), visito a matriz católica em dia de semana. Para chegar às portas do templo é preciso subir muitos lances de escada. O visitante encontra a igreja fechada com cartazes indicativos de horários para o atendimento e outros avisos. Na rua situada atrás da sede católica há uma Universal do Reino de Deus. A casa fica no plano da calçada, nenhuma dificuldade para o acesso. As portas abertas guardam dois fiéis que convidam os transeuntes para a entrada. Só tal comparação mostra a diferença entre a prática do catolicismo e a da igreja nova. Além de usar o espaço de modo sagaz, os pastores movem crentes como pregoeiros da religião, acolhendo todo e qualquer um dos que habitam a cidade.

Universal ataca a igreja católica

 

Uma organização simples e rápida ordena a praxis dos militantes pentecostais na Universal. A hierarquia conta com bispos, pastores, obreiros distribuídos pelos centros urbanos, sobretudo nos que contam maior número dos “negativamente privilegiados”, para usar a terminologia weberiana. Com agudeza de espírito, para quem opera em país onde a desigualdade econômica e política é escandalosa, a doutrina assumida segue a trilha da esperança na prosperidade, vinculada à doação integral do fiel à causa da igreja. Em atos e propaganda que, para os católicos e protestantes tradicionais beiram a simonia, a salvação, a cura, o enriquecimento, o consumo de mercadorias caras, são prometidos desde que os dízimos apareçam nos cofres, generosos. É como se o monge Tetzel tivesse reencarnado hoje, em vestes pentecostais, sem nenhum Lutero para lhe fazer frente. A Universal ataca com dureza e constância a igreja católica, inclusive com propaganda obscena. Em programas seus de TV são trazidos testemunhos, nunca revistos pelas autoridades civis, de supostas freiras que teriam fornicado com padres assassinando rebentos, enterrando-os nos muros conventuais, etc. Nota-se o abuso dos libelos muito correntes no século 18, com imaginário escandaloso feito para persuadir os católicos de que sua religião, além de idólatra (recorde-se o famoso “chute na santa”) é apodrecida moralmente. Mas, a bateria de ataques não se limita ao catolicismo. Ela se volta contra a umbanda, o kardecismo e, mesmo, outras confissões protestantes que não seguem as palavras de Macedo. A intolerância é norma seguida por bispos e pastores, ampliada pelos crentes. Toda intolerância é unida ao fervor, quanto mais certeza da verdade, mais o crente assume missões de conquista e para expulsar os diferentes. Nos últimos tempos, manifestações de intolerância brutal ocorrem contra os seguidores da umbanda. O risco dos atos cai todo sobre o crente, os pastores se eximem e, mesmo, lançam proclamações de inocência. Algo similar ocorre com os supostos milagres. As delegacias de polícia brasileiras estão plenas de boletins de ocorrência nos quais os crentes desiludidos reclamam milagres não ocorridos, mesmo após doações, não raro de grande porte, para a igreja. Os pastores, é quase regra, sempre afirmam ter feito apenas uma benção e um pedido ao ser divino. O resto ficaria por conta da fé praticada pelo crente. Um ponto grave reside no chamado “Desafio a Jesus”. O desempregado entrega aos pastores cheques pré-datados e, assim, “desafia Jesus” para conseguir um posto de trabalho. Casos vieram à tona de cobrança, inclusive em órgãos de defesa do crédito, dos referidos cheques. Enfim, há toda uma sequência de fatos que fariam as delícias de Erasmo de Rotterdam, militante intelectual contra o charlatanismo milagreiro no Renascimento, ou de Voltaire. Ao dar prosseguimento à tradição norte-americana do evangelismo televisivo e radiofônico, a Universal consegue uma força expansiva incomum, mesmo para as demais tendências pentecostais. Ao adquirir a Rede Record, um quartel general permanente é assegurado para a pregação e ataques às demais religiões. Gradativamente, vem à forma uma técnica usada desde tempos imemoriais para atrair fiéis: templos cada vez mais amplos e luxuosos, verdadeiras catedrais exibem poder e força aos crentes alistados e candidatos. O Templo de Salomão é mimesis do que fez a igreja católica em milênios. Mas, a burocracia simplificada e muito eficaz não deixa aqueles monumentos vazios. Eles são usados sempre para os cultos, as pregações, a coleta dos dízimos. Com a imitação dos grandes templos católicos, vem uma liturgia que assume sinais e gestos oriundos do catolicismo, do judaismo, até mesmo da umbanda e do espiritismo. Tal performance dá ao crente jejuno o conforto de encontrar práticas por ele conhecidas, mas transfiguradas e postas como lícitas. Com o Templo de Salomão fica patente tal escolha, pastores e bispos usam parâmentos judaicos que recordam de modo oblíquo a filiação no novo cenáculo ao antigo, destruído na antiguidade israelense. Macedo e assessores reintroduzem aspectos abandonados pelo protestantismo, restaurando inclusive signos imagéticos, algo abolido na Reforma e atenuado na igreja católica após o Vaticano II. O ambiente do culto mostra faces do sagrado, hierofanias ocorridas nos templos da Universal.Com tais inovações eficazes para o crescimento do rebanho, a Universal consegue mover seus adeptos em todos os sentidos. O mais grave é o político. Como é natural, o aumento do número de crentes com título de eleitor atrai políticos de todos os coloridos ideológicos. Quando preso, acusado de crimes graves, Edir Macedo tem o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva, Aloysio Nunes e outros que não pertencem ao espectro da direita. Mas, também conservadores e direitistas apreciam a disciplina da igreja, a qual conta com o sentido de iniciativa dos seguidores. Meio rápido de adquirir votos, a proximidade de bispos e pastores ajuda políticos e igreja. Prestígio repartido, os sucessos nas urnas trazem prosperidade a candidatos, mesmo os que não pertencem às hostes de Macedo. Dispondo, pois, de ampla rede de TV e rádio, jornais impressos que ampliam sua circulação em épocas eleitorais (no Brasil, quase permanentes), além do apostolado pessoal e virtual (via internet), a Universal é sólida base para qualquer candidatura aos cargos públicos. O partido político que serve como braço secular da igreja é o PRB. Essa agremiação foi esteio do Partido dos Trabalhadores nos governos Luiz Inácio Lula da Silva, quando o vice-presidente da república pertence ao PRB, e de Dilma Rousseff. Pouco antes do impeachment que afasta a mandatária, a Universal e o PRB rompem com o seu governo, agraciados pela administração Temer com cargos e benefícios. Importa sublinhar o elo entre políticos proeminentes e os quadros da Universal. Em todas as ocasiões importantes para a igreja, líderes de quase todos os partidos nacionais se apresentam. Nas eleições, pactos entre bispos e pastores, com lideranças políticas, são assumidos. No primeiro dia do Templo de Salomão se apresentam para il bacia mano praticamente todos os poderes da república, a presidente, o governador do estado de São Paulo, etc. Senso de oportunidade política não rende apenas para os candidatos à permanência nos cargos ou à sua primeira investidura. A própria presença conspícua de pessoas com prestígio amplo abrilhanta, junto aos fiéis e alheios, a imagem de vencedora atribuída à Universal. Não tem sido levado em conta com afinco, entre acadêmicos, o livro lançado em 2008 por Edir Macedo. Naquele volume, que norteia os atos políticos da Universal, o autor afirma ser possível e necessário que ela chegue à maioria dos poderes estatais. “Tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional”. Dentre as teses enunciadas por Macedo temos a seguinte: “A potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo, quanto no Executivo, em qualquer que seja o escalão, municipal, estadual ou federal”. No mesmo tempo em que o volume é publicado, o sobrinho de Macedo, Marcello Crivela, se candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PRB. Naquele ano, havia a expectativa de aumentar consideravelmente o número de parlamentares ligados à Universal e às igrejas congêneres. Em 2007, o PRB, de fato, é o partido que mais cresce no país. Tal ponto concede à Universal um instrumento eficaz de luta política.
Universal quer a hegemonia no Estado
Assim, não surpreende que em 2016, finalmente, Crivella seja eleito para governar a cidade do Rio de Janeiro. Ele conta com zelosa militância de fiéis que acreditam ser a sua salvação terrestre prometida em termos de riqueza e poder materiais. A própria estrutura da igreja os leva a uma atividade vigorosa, ao contrário dos leigos católicos e protestantes clássicos. Além disso, a eficaz rede televisiva e radiofônica, além da mídia impressa, é poderoso meio de propaganda das candidaturas da própria Universal ou de aliados. É em busca de semelhante benefício que políticos da chamada esquerda ou da suposta direita brasileira se achegam a Edir Macedo, na esperança de ganhar apoios tácitos e estratégicos, nos parlamentos ou eleições. Desde 2008, a Universal conta com receituário político que ensina a chegar à hegemonia no Estado. É a primeira vez na história brasileira que o protestantismo deixa a condição de minoria perseguida e passa à conquista planejada e racional da maioria para o comando do poder público. Os planos da Universal, com a vitória de Crivella em 2016, começam a se tornar realidade. Mas, para que tal coisa ocorra, é preciso que a igreja católica, as confissões protestantes clássicas, as correntes protestantes de esquerda, percam seus comandados e não apresentem alternativas à marcha pentecostal sob a liderança atual de Macedo. Em política, como no proselitismo religioso, tudo é dinâmico. Se alguns setores ganham potência, é porque os adversários a perdem. Tal regra, que parece óbvia, vem do ensino do grande Maquiavel interpretado por J.G. Fichte: “quem não cresce, diminui enquanto outros crescem”. Para que o crescimento da Universal tenha um limite, importa aos demais setores (católicos, umbandistas, espíritas, liberais, progressistas e outros) arregimentarem forças, imaginarem cenários futuros e, sobretudo, se unirem não apenas no plano espiritual, mas, principalmente, na ação política. Tal perspectiva ainda não aparece na vida pública brasileira.

 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Spinoza: reflexões sobre a vida e a morte Por Roberto Romano/Unicamp – Revista Comciência/Unicamp.

 Revista Comciência/Unicamp.

Spinoza: reflexões sobre a vida e a morte

Por Roberto Romano/Unicamp

 

10/12/2016


Ética de Spinoza insiste no elo entre vida, morte e relações sociais. Não percebemos sempre, mas o trato com os nossos semelhantes é garantia de vida, saúde, felicidade. Parece incrível numa ordem social capitalista constatar que a individualidade isolada segue rumo à morte. Só temos consciência de quem somos porque os outros nos alertam para nossa singularidade. Um coletivo sem abertura ao outro é quase um ajuntamento morto. 

 

O tema “vida” levanta questões filosóficas, éticas e políticas cuja resposta é quase impossível. A diferença entre vida e morte abre as portas para a reflexão sobre a eutanásia, o aborto, o Holocausto, o assassinato frio de pessoas acusadas sem prova, as guerras que assolam países e milhões de pessoas. Tais pontos são afastados das conversas e debates civis e políticos. Inquieta sobremodo a invisibilidade da morte, algo comum na sociedade moderna. Em vez de velar o cadáver na família, o post mortem ocorre em salas higiênicas, como se o falecido fosse apenas “garbage” a ser descartado. Igor Caruso, no pungente A separação dos amantes, mostra que, sem o luto, o morto passa a “viver” na alma do sobrevivente. Afastada toda manifestação ritual do sofrimento (ritos religiosos, civis, sociais) a morte não se completa. Do ponto de vista antropológico é como se os mortos tomassem nas mãos os entes que eles amavam (e por eles eram amados) e os levassem para o Nada.

 

Tudo, em nosso quotidiano, confirma o dito de Karl Marx no 18 Brumário: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Temo que a carência por nós sentida do acatamento aos direitos humanos reside no vazio entre vivos e mortos. Sem as cerimônias e a sensibilidade dos que ainda habitam o planeta, fantasmas encontram lugar na consciência humana invisível. A dor anônima não pranteada gera ressentimentos, tristeza, vingança. Ela produz a sociedade que, no pensamento de Spinoza, mais se assemelha a um hospício.

 

Ética de Spinoza insiste sobre o elo entre vida, morte, relações sociais. Não percebemos sempre, mas o trato com os nossos semelhantes é garantia de vida, saúde, felicidade. Parece incrível numa ordem social capitalista e sem impulso piedoso – piedade não é algo romântico e significa na era antiga o elo dos indivíduos com o coletivo – constatar que a individualidade isolada segue rumo à morte. Spinoza relembra o trato entre vida e morte entre humanos. No livro IV, 39, escólio nota ou comentário para servir ao entendimento dos autores clássicos da Ética demonstrada geometricamente, ele afirma que “o corpo humano precisa de um grande número de outros corpos para se conservar”. A forma do nosso corpo “consiste em que as suas partes se comunicam e seus movimentos seguem determinada relação que o conserva”. Os indivíduos são afetados e afetam de muitos modos. O movimento e o repouso permitem que assumam uma outra forma, o que pode causar sua destruição e os tornar inaptos para afetar e serem afetados, o que é letal. A vida consiste em estar o indivíduo em pleno movimento de expansão e conservação. Tal processo só pode ser experimentado em sociedade.

 

Quando um coletivo morre? O processo é similar ao ocorrido com o corpo dos que o compõem. Diz Spinoza: “O corpo humano, enquanto a circulação sanguínea continua, bem como as demais funções pelas quais consideramos que um corpo vive, pode mudar sua natureza para uma outra em tudo diferente”. Mudanças ocorrem sem o corpo se transformar em cadáver. Em referência quase certa a Góngora o poeta espanhol Luis de Góngora y Argote (1561-1627), lemos no mesmo passo da Ética que “às vezes um homem sofre mudanças tamanhas que hesitarei muito a dizer que ele é o mesmo”. Góngora perdeu a memória um ano antes de falecer. “Embora curado, esqueceu totalmente sua vida anterior e não acreditava serem suas as obras que havia composto. Poder-se-ia considerá-lo como uma criança adulta se tivesse esquecido também a língua materna. E se tal coisa parece incrível, que diremos das crianças? Um adulto acredita que a natureza infantil é diferente da sua, e não pode se persuadir de que um dia foi criança, se não conjeturasse sobre si mesmo a partir dos outros”.

 

A última frase é capital: só temos consciência do que somos e de quem somos porque os outros nos alertam para a nossa singularidade. Um coletivo sem abertura ao outro é ausência de vida, obscura inconsciência, quase um ajuntamento morto. A Substância (Deus ou Natureza) é infinita e possui infinitos modos. Cada modo reúne infinitas relações. No caso dos seres humanos, a quantidade de nexos por eles mantidos com a natureza e com os semelhantes os enriquece ou empobrece, depende dos afetos assumidos. “Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções” (Ética 3, Definição 3). Indivíduos que desejam o bem e o fazem aos demais alcançam poder maior do que os presos ao ódio e à tristeza, paixões que diminuem a potência de agir. Podemos dizer: os presos aos afetos negativos se aproximam do estado por nós conhecido como morte. Quem amplia seus nexos positivos com os outros se aproxima da vida.

 

É o que afirma a Ética no Livro IV, escólio da proposição 18: “Se dois indivíduos de natureza inteiramente igual se juntam, eles compõem um indivíduo duas vezes mais potente do que cada um deles considerado separadamente. Portanto, nada é mais útil ao homem do que o próprio homem. Quero com isso dizer que os homens não podem aspirar a nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e seu ser, e que busquem, juntos, o que é de utilidade comum para todos”.

 

A doutrina, embora ligeiramente modificada, já tinha sido exposta por Spinoza nos Pensamentos metafísicos, capítulo VI: “Entendemos como vida a força que faz perseverar as coisas em seu ser; e como tal força é distinta dos próprios seres, dizemos justamente que os seres mesmos têm vida. Mas a força pela qual Deus persevera em seu ser nada mais é que sua essência; falam bem, pois, os que dizem que Deus é a vida.”.

 

A vida, portanto, evidencia a essência divina, ou a natureza. Tudo o que os homens fazem para conservar a força vital, sua e de seus iguais, é positivo. Tudo o que os impede de liberar tal poder é negativo. Assim, segundo a Ética, V, proposição 10, escólio, “o melhor que podemos fazer, enquanto não tivermos um conhecimento perfeito de nossos afetos, é idear um método correto de vida, ou seja, princípios seguros, e gravá-los na memória e sempre os aplicar às coisas particulares que se encontram facilmente na vida, de modo que a nossa imaginação seja por eles amplamente afetada e que eles estejam sempre a nossa disposição. (…) Se lembramos a razão de nosso verdadeiro interesse e do bem advindo de uma amizade mútua e de uma sociedade comum, se recordamos que a suprema satisfação da alma nasce do correto método de viver (…) e que os homens, como as demais coisas, agem por necessidade de natureza, a ofensa, ou seja, o ódio que dela brota ordinariamente, ocupará pouco a imaginação e será facilmente superada”. 

 

Vivemos no século XXI uma crise inédita no relacionamento dos indivíduos consigo mesmos e com os outros. Das situações mais comuns às guerras que abalam o planeta, os afetos negativos parecem vencer os positivos. As potências estatais hegemônicas retornam ao uso irrestrito da violência, tal como ocorreu no episódio narrado por Tucídides na Guerra do Peloponeso, sobre o cerco à ilha de Melos.

 

A colônia de Esparta queria ser neutra na luta entre potências. Empurrada pelos atenienses, entra na guerra. No texto, os embaixadores de Atenas dão o ultimato: Melos deve render-se e servir Atenas.  “Não usaremos belas frases, não diremos que nosso domínio é justo (…) sabemos e vocês sabem tanto quanto nós que a justiça só é levada em conta quando a necessidade é igual. Sempre que uns possuem mais força e podem usá-la como puderem, os mais fracos arrumam-se (…) como podem”. Hobbes, em sua tradução de Tucídides, é mais radical: a necessidade exprime o estado de natureza onde todos se enfrentam. Os mais fortes usam sua vantagem momentânea de poderio. Aos mais fracos resta atingir aquele estado de império. É de semelhante trecho, na obra de Tucídides, que brota o hobbesiano bellum omnium contra omnes.

Spinoza rompe com a razão de Estado e com a doutrina sobre o estado de natureza defendida por Hobbes. É célebre o trecho da carta enviada por ele a Jarig Jelles: “O senhor me pergunta qual a diferença entre o pensamento de Hobbes e o meu, no relativo à política: ela consiste em que sempre mantenho o direito natural e só concedo, em qualquer cidade, direito ao soberano sobre os cidadãos na medida em que, pela potência, ele os sobrepuje; é a continuação do estado de natureza” (2 de junho de 1674). A natureza é um campo em que o “peixe grande tem o direito de comer o pequeno”. Mas se os peixes pequenos se unem, formam um indivíduo poderoso diante do qual todo peixe grande sente-se ameaçado. Segundo o Tratado Político, “se dois homens se encontram e unem suas forças, eles têm um poder maior sobre a natureza, e por conseguinte maior direito, do que cada um deles em separado” (cap. II, parágrafo 13). A democracia, união de muitos, é dita por Spinoza como o “regime mais natural”. Ela não dispensa a força, mas exige, para se realizar plenamente, a ciência e a razão. Tais atividades trazem vida aos humanos. Mas se distorcidas pelas paixões, prometem morte, loucura.

 

Talvez mais do que na Guerra Fria, o planeta Terra está ameaçado de morte: armas nucleares nas mãos de meros demagogos (Trump ou Putin), terrorismo de Estado e de movimentos fanáticos, devastação do meio ambiente, usura dos seres humanos pelo chamado neoliberalismo. Como diz em livro recente um pesquisador do totalitarismo, “a vida é sempre unida à morte, mas hoje é a morte que engloba a vida (destruição da biodiversidade natural e cultural, aumento das poluições nucleares, químicas etc.). Acabo de citar Marc Weinstein, L’évolution totalitaire de l’Occident, 2015.

 

Talvez seja o momento de recordar os enunciados de L. Wittgenstein sobre o místico e a vida: “O místico não está em como é o mundo, mas no que é. A solução do problema da vida se entreve no desvanecer-se desse problema. Existe verdadeiramente o inexprimível. Ele se mostra; é o místico. Minhas proposições são explicativas desta maneira: quem me compreende, afinal as reconhece desprovidas de significado, quando subiu através delas, sobre elas, para além delas. (Deve, por assim dizer, jogar fora a escada depois de ter subido por ela). Deve passar acima dessas proposições: então verá o mundo do modo certo”. (Citado por Umberto Eco: Obra aberta).

 

O amor intelectual de Deus, em Spinoza, leva ao conhecimento maior. Nele, os humanos efetuam sua essência divina, a de agir. “Mais uma coisa é perfeita, mais ela age e menos é passiva; inversamente, mais ela age, mais é perfeita” (Ética, 5, proposição 40). Nosso mundo resulta de infindáveis atos, positivos ou negativos. Um elemento negativo reside no culto do sofrimento e da morte. Afinal, “um homem livre pensa o menos possível na morte. Sua sabedoria consiste em meditar, não na morte, mas na vida”. Baseado em que tal frase se sustenta? Numa certeza que poderia ser dita mística: “Sentimos e experimentamos que somos eternos”. Sejamos claros: se a Substância é infinita e reúne infinitos modos, destruída a Terra, Deus nada perde. Nós tudo perdemos. É assim que devemos encarar a corrosão letífera do nosso mundo. Mas, por outro lado, agir para conservar sua força e beleza é um jeito de afirmar o poder divino em nós. A liberdade que não significa arbítrio nem capricho nos faz valorizar o tempo e o espaço nos quais nos movemos e somos. Cada átimo revela o Eterno e, assim, percebemos o valor da vida e da finitude. Para tal feito, devemos valorizar a ciência e a prudência (aprendida por Spinoza de Maquiavel). Afinal, se a salvação “pudesse ser encontrada sem maior esforço, como explicar que ela seja negligenciada por quase todos? Mas tudo o que é precioso é tão difícil como raro”. Omnia praeclara tam difficilia quam rara sunt. É assim que o filósofo finaliza a sua estratégica e ainda hoje negligenciada ética da vida, contra os afetos de morte.

 

Roberto Romano é doutor em filosofia e professor de ética política no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.