https://www.youtube.com/watch?v=ug-FUzTUpMw
Um Blog destinado a discutir assuntos de ordem institucional, política, ética, longe do inferno definido nas supostas redes sociais, onde a covardia, a irresponsabilidade, o ressentimento e todas as paixões baixas se manifestam. Aqui, procuro pensar, sem ferir ou humilhar ninguém. Na internet, sobretudo nas mentirosas páginas "sociais", encontramos a besta fera descrita por Platão (Rep.. 588c): θηρίου ποικίλου καὶ πολυκεφάλου. Lúcido Platão!
Flores
Flores
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
Revista imprensa, a guerra ainda não estava no auge, mas o perfume não era agradável. O pior viria...Roberto Romano
Por:
Pedro Venceslau
Crise com chopp:
oito personalidades analisam o cenário brasileiro
“A
crise na mesa do bar”
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Uma
mesa de bar revela verdades escondidas. Parece ser o cenário
ideal para conversas descomprometidas em que a opinião
– até a mais ácida, quem sabe –
não se deixa intimidar. A Revista IMPRENSA reuniu,
em uma mesa de bar, nesta matéria que CONTATO reproduz
parcialmente com exclusividade - Estela Ribeiro, apresentadora
da TV Cultura, Gustavo Petta, presidente da UNE, Marcelo
Bonfá, apresentador do programa “Outro Olhar”,
Roberto Romano (Filósofo), Zé do Caixão
(cineasta), Eduardo Suplicy (senador), José Ângelo
Gaiarsa (psiquiatra) e Márcia Tiburi (programa Saia
Justa, da GNT). Entre um chopp e outro, servimos um prato
tão amado quanto refogado de jiló: a crise
política. O resultado foi esta conversa. Este papo
completo você encontra na próxima edição
de IMPRENSA .
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Pedro
Venceslau: O Governo tem acusado a imprensa de estar promovendo
um linchamento na cobertura da crise. Vocês acham que os jornalistas
estão forçando a barra?
GUSTAVO
PETTA: Estão dando mais espaço para as denúncias
de hoje do que deram para denúncias passadas. Um exemplo:
no governo Fernando Henrique, no episódio de compra de votos
para a emenda da reeleição, ficou provado, com uma
gravação, que houve um crime. Mas eles [Governo] conseguiram
impedir uma CPI. No caso dessa crise de hoje, quem está fazendo
a cobertura mais desproporcional é a revista Veja, que é
um panfleto norte-americano escrito em português.
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MARCELO
BONFÁ: O fato é que o presidente só deu uma
entrevista coletiva até hoje. Só recebeu jornalistas
uma vez. Isso contribui...
ESTELA
RIBEIRO: Recebeu a moça em Paris... aquela entrevista polêmica.
E depois fez aquele pronunciamento...
Pedro Venceslau: Vocês acreditam que existe uma predisposição da imprensa para bater no Lula?
ROBERTO
ROMANO: Nesse momento, não dá para brincar de Chapeuzinho
Vermelho e Lobo Mau. A imprensa não é Chapeuzinho
Vermelho e nem o Governo é Lobo Mau. A imprensa de esquerda
não é diferente. Ela é mais intolerante do
que boa parte da imprensa burguesa.
JOSÉ
MOJICA MARINS [ZÉ DO CAIXÃO]: O povo só toma
conhecimento do que está acontecendo lá fora através
da imprensa. Mas sempre existem aqueles que ficam meio calados e
os que batem mais forte. É uma questão de redação.
Só não acredito que, hoje em dia, as revistas tomem
posições de esquerda ou direita. É tudo uma
questão de vendagem.
ESTELA:
O que antigamente era divulgado em pílulas ou matérias
em alguns telejornais e revistas, agora é televisionado integralmente.
O bombardeio de denúncias, embora sem provas, que a gente
assiste todas as tardes na CPI é infinito.
BONFÁ:
O Gustavo falou da revista Veja. Só que no Brasil a população
se informa por rádio e TV, e não por revista e jornal.
A cobertura que está valendo é a cobertura por telejornais...
PETTA:
Mas as revistas acabam ajudando a formação da opinião
pública e pautando a própria TV.
EDUARDO
SUPLICY: Quando o Pedro Collor de Melo deu aquela entrevista à
Veja, em 1992, eu liguei para o José Dirceu – deputado
federal – e disse: “vamos ouvir o Pedro”. Fomos
até o hotel Maksoud Plaza [onde Pedro estava hospedado] e
o ouvimos por cinco horas. Saímos de lá tão
indignados que fomos para a minha casa juntos e escrevemos o requerimento
para formar a CPI. Foi isso que deu origem à campanha por
ética na política, à CPI e ao afastamento de
Collor, em dezembro daquele ano.
JOSÉ
ÂNGELO GAIARSA: Logo que eu vi o começo da crise na
Veja, me deu vontade de escrever para eles algo assim: “Na
sua próxima capa diga quem no Brasil é honesto”
[risos]. Eu só acredito na honestidade de um brasileiro que
teve oportunidade de ser desonesto e não foi. Porque a simples
declaração de que eu sou honesto não prova
nada.
ESTELA:
Eu acho que o papel da imprensa, ao televisionar essas situações
todas, é mostrar para as pessoas o que está acontecendo,
e, a partir daí, elas terem um segundo para pensar e esperar
que tudo isso precisa ser provado, antes de qualquer coisa.
MÁRCIA
TIBURI: A imprensa não é consciente da sua condição
de poder, e isso não permite que ela se trate como tal. Se
a imprensa mostra qual é o seu jogo, ela deixa de ser um
poder como dominação e se transforma justamente num
poder de expressão.
MOJICA: Eu não tenho nada contra o Lula. Aliás, ele é fã dos meus trabalhos. Mas eu acho que ele foi infeliz numa coisa que está abalando praticamente o Brasil todo. Quando ele se orgulha em dizer que chegou à Presidência da República sem precisar passar por vereador e que não precisou de estudo, isso vai mexer com as crianças, que vão dizer: “Por que eu tenho que estudar?”.
Pedro
Venceslau: A grande maioria do povão que acompanha a crise
nos telejornais só guarda da matéria as palavras “crise”,
“dinheiro”, “mensalão”, “Jefferson”
e “mala”.
ROMANO:
E cueca [risos].
BONFÁ:
Você ainda acha que ele é a nossa cara?
GAIARSA:
Eu não sei se é tão mau que ele seja a nossa
cara. Eu acho ótimo.
BONFÁ:
Ainda sobre a questão da cobertura... É fundamental
no regime democrático a imprensa estar viva, forte. A cobertura
do “Jornal Nacional”, por exemplo, mudou muito e hoje
é a mais profissional.
| |
Pedro
Venceslau: Está mais independente?
BONFÁ:
Ninguém é imparcial totalmente. Claro que as empresas
têm o interesse delas.
ROMANO:
Esse é o drama da Caros Amigos. Sempre tem carta de leitor
dizendo: “Como vocês aceitam propaganda do Governo?”.
E eles tentam justificar...
BONFÁ:
Tem que sobreviver, né?
MÁRCIA:
Isso é também uma corrupção. Eu gosto
muito daquela frase: “A publicidade é a prostituição
da ação”. Eu acho que é um contra-senso
haver publicidade política como há no Brasil. É
um absurdo. A publicidade é sempre enganadora e mentirosa.
MOJICA:
Eu acho que no mundo todo política não é mercadoria.
Aqui no Brasil é. Porque aqui sou eu que lido com uma série
de empresários que procuram financiamento das minhas fitas.
A primeira coisa que me perguntam é: ‘Você tem
amizade com algum político?’. Se eu indicar fulano,
cicrano, beltrano, eles vão comprar. Então, a política
se torna uma mercadoria...
BONFÁ:
Zé, você acha que hoje existe liberdade de imprensa?
MOJICA:
Eu acho que não.
GAIARSA:
Os malefícios do jornalismo. Como ele também guerreia
para vender notícia, para chamar atenção, ele
produz no público uma coisa que os místicos chamavam
de dissipação de espírito. Ninguém se
concentra nos problemas importantes do Brasil.
Pedro
Venceslau: Vamos levantar outro ponto de debate. O Petta, recentemente,
liderou uma passeata que ficou conhecida como “pró-Lula”.
No dia seguinte, houve uma passeata contra o Lula. Eu fiz essa introdução
para levantar o debate. Dá para comparar o Collorgate com
esse caso de hoje.
BONFÁ:
A diferença é que o Lula não convocou ninguém
para ir às ruas defendê-lo...
Pedro
Venceslau: Pois é, houve uma mobilização espontânea.
Mas o que eu queria levantar é se dá para comparar
o escândalo Collor com o de Lula. Você tem o Delúbio
e o PC. A Karina Somaggio e o motorista Eriberto. Existem personagens
muito parecidos.
PETTA:
A imprensa procura sempre polarizar opiniões. Nossa mobilização
teve como objetivo exigir a apuração dos casos de
corrupção. Nós achamos que não adianta
só cassar seis ou sete deputados.
BONFÁ:
Não dá para comparar Collor e Lula. Eu acho que o
Lula não ficou com nada para ele.
ROMANO:
Esse governo cometeu uma série de erros estratégicos
em relação à democracia. Não se trata
de comparar com um governo como o do senhor colorido, de se comparar
com o pior, mas de se comparar com aquilo que se pretendia. Se a
gente for comparar com o pior, não dá para entender
o choque.
BONFÁ:
O Lula era um super-herói, né? As pessoas compraram
a imagem, quando votaram nele, de super-herói. Eu não
votei nele...
ROMANO:
Eu votei.
BONFÁ:
Quando grande parte da população votou nele, estava
apostando em um governo mais democrático, popular, enfim,
mais preocupado com o social.
MÁRCIA:
O Lula não é nada disso que o Collor foi. Ele tem
uma história bem mais bonita.
BONFÁ:
E sabe por que a popularidade dele não cai? Porque ainda
não chegou a merda nele.
SUPLICY:
O presidente Lula é um patrimônio extraordinário
do povo brasileiro. Mais do que isso, dos povos e dos países
em desenvolvimento.
MÁRCIA:
Existe uma lei, um respeito à figura dele. Nós não
podemos nem sonhar com um impeachment neste momento.
PETTA:
O próprio Congresso é também um alvo de questionamento
muito grande.
BONFÁ:
É uma instituição que não tem credibilidade
julgando outra que não tem credibilidade...
BONFÁ:
E vai ficar quem?
ROMANO:
A dona Geane [risos].
Pedro
Venceslau: Senador, o que o senhor tem a dizer sobre a crise no
PT?
SUPLICY:
Alguns tiveram que sair do partido, não por vontade própria
- como a Heloísa Helena, e os deputados federais, Babá,
Luciana e João Fontes, que foram expulsos porque não
votaram a favor da Reforma da Previdência. Muitos outros estão
pensando: será que vale a pena permanecer? No meu ponto de
vista, sinto que entrei no PT como uma decisão de vida
PETTA:
O que o senhor [senador] espera do PT neste momento?
SUPLICY:
Que eles digam como as coisas aconteceram, por mais duras e graves
que sejam as conseqüências. Para conseguirmos superar
essa crise, precisamos colaborar para que a verdade venha toda à
tona. O presidente deve se manifestar indo ao Congresso, dizendo
o que sabe. Vocês acham que seria uma coisa impossível?
Não seria recomendável na situação presente?
ROMANO:
Se fosse ao Congresso, o presidente assumiria a função
de Chefe de Estado e Chefe de Governo em sua plenitude.
MÁRCIA:
Seria digno ele se expor em uma entrevista coletiva e enfrentar
a dureza das perguntas. Obviamente não esperamos nenhuma
pergunta deselegante ou não civilizada. Por isso, não
vejo porque o medo do debate.
MOJICA:
O mais importante é a transparência. Por mais que haja
perguntas indelicadas, se ele se abrir, for sincero e disser o que
sabe, vai ganhar o público e a mídia.
GAIARSA:
As perguntas serão muito duras e difíceis, mas ele
conseguiria responder. Ninguém saberia dizer, como ele, o
que efetivamente aconteceu.
Entrevista de Roberto Romano ao Correio Popular de Campinas, 25/02/2017
http://correio.rac.com.br/index.php?id=/campinas_e_rmc
SAIDA PARA CRISE ESTÁ NA ORGANIZAÇÃO DOS INDIGNADOS.
SAIDA PARA CRISE ESTÁ NA ORGANIZAÇÃO DOS INDIGNADOS.
Trump’s Election and Collective Madness W. J. T. Mitchell
November 9, 2016 · 3:11 pm
Trump’s Election and Collective Madness
W. J. T. Mitchell
The shocking election of Donald Trump reminds us that the real
location of mental illness, whether it takes the form of anger or a
melancholic sense of wounding and resentment, is primarily in the group,
not the individual. We sometimes think that the paradigm of madness is
to be found in the individual case. Nothing could be further from the
truth. Paranoia is most effective when it is shared with others;
nurtured in isolation, it shrivels up and dies. It is a long standing
commonplace that human reason of the practical sort, the kind that
involves the management of one’s own affairs generally prevails at the
individual level. Even the famously psychotic Judge Schreber could
perform complex feats of legal reasoning, and convince a court that he
was capable of managing his own affairs. Reason also operates quite
efficiently at the level of tactics and strategy, never more
relentlessly than in warfare, the most dramatic form of collective
madness known to our species. In politics, the supposedly peaceful
sublimation of war, reason moves from the manipulation of weapons and
destruction to the skillful manipulation of unreason; it deploys the
ancient lessons of rhetoric as opposed to logic, of instrumental,
egoistic reason as contrasted with wisdom or Kantian Enlightenment.
Calculated appeals to emotion trump (you will forgive the pun) those of
reason. The heart has reasons of its own, and it is the chief exercise
of cynical, manipulative reason to understand the triggers that set off
collective madness in the mass. See Kelly Ann Conway, Trump’s brilliant
campaign manager, who showed us the power and “reasonableness” of
wiliness, cunning, and clever rhetorical agility.

Trump’s campaign capitalized on all the dark forces in the electorate that lay below the threshold of opinion polls and their data bases, unreachable by rational arguments about policy solutions to shared problems, unembarrassed by transparent lies and demagoguery. Racism, misogyny, xenophobia, anxiety, resentment, paranoia, and a generalized hatred of elites, experts, and established institutions were all mobilized to produce a wave of collective passion seen in the crowds that chanted “lock her up,” and threatened violent revolution if the “rigged” election went against them.
Now that the election, and the frenzy that has swept the American public for the last 18 months, has passed over us, a strange, ambiguous calm will settle over the country. Everyone will urge us to “come together as a nation,” and to heal the wounds that have been opened. Even Trump will remind us that, at heart, he is just a negotiator who has no principles except “the art of the deal” that favors his perception of national interest. The madness, however, has simply gone underground, the wounds festering, leaving the American dream as always, only the blink of an eye removed from the nightmare of our history.
“History is a Nightmare from which I am trying to awake.” –James Joyce, Ulysses
“Insanity in individuals is somewhat rare. But in groups, parties, nations, and epochs, it is the rule.” –Nietzsche
“A single Athenian is a wily fox. A group of Athenians is a flock of sheep.” –Solon
“Every man, seen as an individual, is tolerably shrewd and sensible, see them in corpore, and you will instantly find a fool.” Schiller
“No one ever went broke underestimating the American public.” -P.T. Barnum
“You can fool all of the people some of
the time, and some of the people all of the time, but you can’t fool all
of the people all of the time.” –Abraham Lincoln.
What Lincoln failed to add is, those
are pretty good odds for the success of a determined and skilled con
artist in the short run.
“We Palestinians love Trump because he is
pure Americana. He shows the true face of the American character, and we
feel it is important for the world to see that truth for what it is.”
–Conversations with Palestinians in the West Bank, May, 2016.
To which I replied: “That is easy for you to say in the safety of Palestine.”

Trump’s campaign capitalized on all the dark forces in the electorate that lay below the threshold of opinion polls and their data bases, unreachable by rational arguments about policy solutions to shared problems, unembarrassed by transparent lies and demagoguery. Racism, misogyny, xenophobia, anxiety, resentment, paranoia, and a generalized hatred of elites, experts, and established institutions were all mobilized to produce a wave of collective passion seen in the crowds that chanted “lock her up,” and threatened violent revolution if the “rigged” election went against them.
Now that the election, and the frenzy that has swept the American public for the last 18 months, has passed over us, a strange, ambiguous calm will settle over the country. Everyone will urge us to “come together as a nation,” and to heal the wounds that have been opened. Even Trump will remind us that, at heart, he is just a negotiator who has no principles except “the art of the deal” that favors his perception of national interest. The madness, however, has simply gone underground, the wounds festering, leaving the American dream as always, only the blink of an eye removed from the nightmare of our history.
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REPORT FROM CAIRO ON THE ELECTIONSIn "Arab Spring"
Further Night Thoughts on the Trump ElectionIn "2016 election"
1 Comment
Filed under 2016 election, WJT Report
One response to “Trump’s Election and Collective Madness”
Trump’s election is truly horrifying
and the worst thing that could happen is for those of us insulated by
tenure and big city life to go back to our regular routines. I hope
those opposed to his agenda will seriously contend with the issues that
have led the nation to this point.
That said, one reason “red state” America hates the so-called liberal
elites (Hollywood, academia, the coasts) is that we continually dismiss
them as too stupid to know what’s good for them (and using a pull quote
from Friedrich ‘sum of zeros’ Nietzsche doesn’t help!) I don’t agree
with all of Emmett Rensin’s points in “The Smug Style in American
Liberalism,” but if the Left truly wants to think in terms of
intersectionality, I think we would do well to avoid the fantasy that we
are “rational” agents and they are all morons who let the TV think for
them. Anecdotally, many appear to have voted for Trump for the very
same reason Zizek “endorsed” him last week–to create utter chaos for the
two-party system. With a nation-state split 50/50 (at least in terms
of those who actually voted), I think we might do better to find ways to
engage the other side rather than read an inverted version of “Culture
and Anarchy” at them.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
No Blog do Padre Telmo Figueiredo
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
O que é decoro?
Indecoro
Roberto Romano
Professor
de Filosofia e Ética
Se as mãos de muitos políticos estão sujas, ao menos
limpem a língua.
Com muito sabão!
Quando a realidade política
e social se degrada e atinge o insuportável, o discurso
apodrece, evidencia sinais de morte. As formas administrativas do Brasil
agonizam. Contra o que dizem muitos colegas da universidade, seguidos por
inúmeros jornalistas, discordo da tese
segundo a qual as nossas instituições “funcionam normalmente”. A menos,
claro, que o critério da normalidade seja o hábito de formar quadrilhas para o
roubo das riquezas físicas ou espirituais de um povo.
Mesmo em situações de crise
a instituição e os indivíduos que a manejam devem manter o decoro. Esse é um cálculo difícil.
Um gramático inglês do século 16 exemplifica: se a duquesa vai à corte, ela não
pode usar roupas mais brilhantes do que a rainha. Mas se a mesma pessoa usa
vestimentas inferiores às de suas iguais, é indecorosa. No cálculo do aceitável em sociedade, consideram-se o corpo próprio e
os demais. E cada um merece
tratamento relativo à sua dignidade.
O
decoro surgiu na Grécia e recebeu um nome: Aidós.
Trata-se da vergonha imposta a quem não
se comporta em público. Penas severas eram aplicadas aos que, por educação
falha ou vício de caráter, desrespeitavam os cidadãos de Atenas. Sem a vergonha os valores democráticos
empalidecem porque o corpo e a língua indecorosos mostram que a lei foi
corroída pela selvageria.
![]() |
| PÁRTENON - ATENAS (GRÉCIA) Este templo dedicado à Atenas foi construído entre 480 e 323 a.C. |
Na
Idade Média o decoro foi retomado pelos monges. A roupa e os gestos não
poderiam depor contra um religioso que, supostamente, tinha optado pela
pobreza. Frades vestidos como barões
eram a prova de que os votos sagrados haviam sido desobedecidos. Daí o uniforme das ordens, sem enfeites de
prata, ouro, pedras preciosas. A “dama pobreza”, segundo Francisco de Assis,
exige que seus pretendentes vivam como ela, vestida apenas pela graça divina. A
língua deveria seguir a mesma regra.
Da
Renascença em diante, o decoro
passou a nortear as palavras, as roupas, os gestos dos reis, dos nobres, dos
burgueses. Ele é um exercício de
respeito aos outros e meio de garantir o respeito a si mesmo. Quem não tem
prerrogativas, mas quer exercê-las, é indecoroso. Um hóspede que toma o papel
da dona da casa, indicando aos demais o lugar onde devem tomar assento, é
indecoroso. E se a anfitriã deixa o indiscreto fazer o gesto inconveniente, ela
é indecorosa. Sua prerrogativa não deve ser negada sequer pelo marido, pelos
filhos, pais, etc. Se um bispo comum, numa visita papal, ousa dar a bênção Urbi et Orbi... ele não apenas
enlouqueceu, mas seu ato é indecoroso.
Uma
regra que ajuda a decidir as inclinações à moda chinesa, quando pessoas estão
diante da porta: não é a mais jovem, mais bonita, mais velha a ceder a
passagem. Dá o lugar quem o possui.
Se o mais jovem é presidente da República, ele cede a passagem, primeiro aos
velhos, depois às mulheres, depois aos demais. Não é falta de respeito um inferior na escala governamental passar
primeiro. É indecoro do que detém o
mais alto cargo não ceder a passagem, mostra que ele ignora a etiqueta e as
verdadeiras prerrogativas do seu posto.
Assim,
na escrita, diz o citado gramático inglês do século 16: se um autor não usa
imagens no texto, é indecoroso por desprezar a fantasia e o gosto do leitor. Se
as usa aos borbotões, é indecoroso, pois despreza inteligências e culturas. O
poeta decoroso jamais dirá algo como “a face rosada e fina do general”. É
indecente um general ter faces que só cabem às crianças e às raparigas em flor.
Se uma autoridade quer ser
respeitada, deve respeitar o povo (que fica chocado com palavrões e outras marcas de
indecoro). Certas falas devem ser evitadas.
Não por causa do hipócrita “politicamente correto”. Trata-se de algo sério. Os
reitores são “magníficos”, mesmo se não ostentam magnificência. A comunidade
acadêmica é a proprietária do título, usado em seu nome. Deputados, senadores, edis são “excelentíssimos” não porque sejam
dotados de excelência. O título pertence ao soberano, o que possui a maiestas, termo latino para designar o
ente mais elevado no coletivo. Na monarquia, a maiestas é apanágio do rei, que usa o título em nome do povo. Na democracia é o próprio povo que a
empresta, a cada eleição, aos representantes. É assim que o decorum exige tratar o povo com
respeito. Não por “boa educação”, mas por subordinação
da “autoridade” diante de quem a “autoriza”. E a regra funciona para todos
os Poderes, incluindo o Judiciário e o militar. Sem tal respeito, temos
larápios da soberania, não representantes.
A
expressão “soberania popular” e o
termo “majestade” incomodam ouvidos
indecentes. Mas eles permitem reconhecer a força das normas democráticas. Somos
herdeiros do mundo grego e latino em práticas e valores. O Direito e a política
não fogem à regra. No Estado moderno as ideias de soberania e majestade, contra
o exercício ditatorial ou aristocrático do mando, aplicam-se à totalidade dos
cidadãos (Thomas, Y., L’Institution de la Majesté, em Revue de Synthèse, julho/dezembro de 1991).
Faltar com o decoro diante
da maiestas é destruir a fé pública. Um político não tem o
direito de ser leviano. Seu ofício exige ponderação, a gravitas. Para os romanos, a gravitas
comanda uma atitude “que não se curva em proveito do sucesso político
passageiro" (Yavetz, Z., La Plèbe et
le Prince).
O representante não pode
tratar os cidadãos como crianças. Ele deve ser o portador de uma gravitas dicendi. “Suruba”, “canalha” e quejandos
são termos levianos. A boca suja pode ser aceita entre malandros, na sua vida
íntima. Mas na língua de quem decide
sobre os bens públicos, com repercussões vitais sobre o País, semelhantes
vocábulos indicam apenas... levitas
indigna de qualquer democracia.
Se
as mãos de muitos políticos brasileiros estão sujas, que eles pelo menos limpem
a língua. De preferência com muito sabão.
Democracia e Luzes. Aula Magistral, programa de aulas da Unicamp.
Democracia e Luzes. Aula Magistral, programa de aulas da Unicamp.
http://cameraweb.ccuec.unicamp.br/video/76B3RH83KYNO/
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