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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Roberto Romano, profesor de Etica y Filosofía Política de la Unicamp: “Michel Temer difícilmente resistirá en el palacio”

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Roberto Romano, profesor de Etica y Filosofía Política de la Unicamp: “Michel Temer difícilmente resistirá en el palacio”

Autor: La Tercera

El docente señala que la situación del mandatario "es más grave que la crisis que llevó al suicidio del Presidente Getulio Vargas, y más peligroso de lo que ocurrió con el golpe de 1964, la caída de Jânio Quadros, Fernando Collor y otros hechos.

Roberto Romano, profesor de Etica y Filosofía Política de la Unicamp: “Michel Temer difícilmente resistirá en el palacio”
Foto: Reuters
 
“No soy profeta, pero…”, dice el profesor de Etica y Filosofía Política de la Universidad Estatal de Campinas (Unicamp), Roberto Romano, tras recordar una entrevista suya publicada el lunes en Brasil donde aseguraba que Michel Temer “aguarda el momento de salir”. En esta entrevista con La Tercera Romano analiza el impacto de la denuncia del diario O Globo.

A su juicio, ¿qué tan grave es hoy la situación política en Brasil?
El hecho es más grave que la crisis que llevó al suicidio del Presidente Getulio Vargas, y más peligroso de lo que ocurrió con el golpe de 1964, la caída de Jânio Quadros, Fernando Collor y otros hechos. No existe un liderazgo político nacional que pueda asegurar la continuidad estable del gobierno y de las instituciones. Crece el deseo de grandes sectores de la población de un golpe militar.

¿Cobra fuerza el impeachment de Temer?
Sí, crece el número de los que quieren el impeachment del Presidente. Difícilmente él resistirá en el palacio.

Además de la oposición, partidos de la base de Temer, también apoyarían el impeachment. ¿Cómo se explica este giro?
No es un giro. Las bancadas de apoyo al Ejecutivo, en el Congreso brasileño, son habitualmente compradas, sin mayor compromiso ideológico o doctrinario. Es lo que ocurre hoy: los comprados no tienen compromisos con Temer (como no tuvieron con Dilma). Ellos tienen compromiso con su supervivencia política, que se torna algo desesperado hoy en día.

¿Cree posible que se adelanten las elecciones?
Es posible, pero casi inviable. En primer lugar, porque no hay estadistas que puedan candidatearse con éxito, además de Luiz Inácio Lula da Silva, él mismo amenazado por la Operación Lava Jato. La elección indirecta, por el Congreso, tropieza en el hecho de su ilegitimidad. Como buena parte de los parlamentarios están implicados en investigaciones sobre corrupción, ellos difícilmente podrán elegir un estadista que consiga apoyo de la población, de los empresarios, de las iglesias, de los movimientos sociales.

El senador Aécio Neves fue separado del cargo por sospechas de corrupción. ¿Cómo queda la carrera presidencial en el PSDB?
El ya perdió toda fuerza política. Ha perdido el cargo de presidente del PSDB y, con certeza, no tendrá una cantidad de votos ni siquiera para cargos menores del Estado. Está desmoralizado de forma definitiva.

¿Cómo repercute toda esta situación en la candidatura de Lula para 2018?
Lula, como señalé previamente, es el único candidato conocido en todo Brasil, su popularidad es elevada. Pero tiene problemas con la justicia. La historia brasileña, desde 1899, es la sucesión de golpes de Estado, como lo es por demás en toda América del Sur. Golpes y contragolpes marcan la historia política brasileña.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O que está por vir?

Intelectuais do IFCH-Unicamp fazem projeções sobre desdobramentos das delações da JBS
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução
Manifestantes protestam na Avenida Paulista (acima), em São Paulo, e em Brasília (abaixo) 
Qual é o cenário futuro diante das denúncias da JBS contra Michel Temer e Aécio Neves, que podem levar à renúncia do presidente e à prisão do já afastado senador? É a questão que os professores Reginaldo Moraes, Walquíria Leão Rêgo, Roberto Romano e Marcelo Ridenti, todos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, procuram comentar, com a ressalva de que se tratam de palpites, diante de fatos ainda nebulosos demais.

Reginaldo Moraes, professor do Departamento de Ciência Política
Foto: Antoninho Perri

O que se pode prever é que o governo Temer está em uma encruzilhada fatal, que ele próprio provocou, porque foi se envolvendo cada vez mais na tentativa de apagar os rastros das operações obscuras que tinha feito, e criava mais rastros ainda. A questão mais grave que se coloca agora é que para qualquer outra solução no pós-Temer, supondo que ele de fato caia, vai sobrar o quê?

Constitucionalmente, tem a linha de sucessão. Os presidentes da Câmara e do Senado estão igualmente na mira, muito comprometidos com dificuldade de controlar seu próprio futuro. Sobraria a bomba nas mãos da presidente do STF, que é uma pessoa absolutamente despreparada para qualquer coisa, mas é o que vai sobrar se a linha sucessória for mantida. Se não for mantida, você tem uma ruptura política, uma saída heterodoxa fora da previsão constitucional, que pode ser uma eleição direta.

A subida da presidente do STF resultaria numa eleição indireta mais adiante. Ela ocuparia a cadeira do Temer para convocar a eleição indireta do novo presidente, arrastando isso até 2018. Seria esse o trajeto, repetindo 54, com a morte do Getúlio. Só que esse caminho também é extremamente delicado. Ela teria que, de certo modo, conter manifestações para eleição direta, teria que chamar repressão policial e militar para conter as pressões.

O cenário é muito delicado. Aparentemente quem tomou a dianteira parece ter sido as Organizações Globo: não sei se tinham a carta na manga, mas provavelmente, a partir de agora, é essa que têm. Provavelmente tentarão trabalhar por ela. Eleição direta é a última coisa que querem no momento, sobretudo com o quadro de desmantelamento das lideranças conservadoras, alinhadas com a Globo e que estão todas muito mal na fotografia.

Aqueles que estão caindo em desgraça não serão cabritos silentes. Ninguém vai prender Aécio, porque agora cai o Aécio, mas também a mesada do Cunha e toda a proteção que ele tinha graças a esse acordo. Delação e esperneios do Cunha. Não sobra pedra sobre pedra. Isso significa mesmo no curto prazo um deus nos acuda não só do lado do governo, mas de sua base aliada. Acho que todo mundo no Congresso está procurando um lugar para se esconder. Vão sobrar apenas as forças políticas ideologizadas que têm existência como corrente política de fato e não como legenda de aluguel. Quem tem esse tipo de composição são a ultradireita e a ultraesquerda. Vai ter mais polarização. O cenário é de desmanche, muito preocupante.

Walquíria Leão Rêgo, professora do Departamento de Sociologia
Foto: Antonio Perri

Parece-me que há um conflito entre a Procuradoria Geral da República, alguns ministros do Supremo e algumas forças políticas; que essa luta estava um pouco prevista, com as rachaduras nas próprias forças golpistas que atentaram contra a democracia brasileira, contra o projeto mais igualitário dos governos petistas. De outro lado, essa crise mostra a degradação das instituições, uma crise muito grave sobretudo envolvendo o Judiciário brasileiro, que está se mostrando de uma grande imoralidade.

Acho que o grande projeto deles é não deixar ocorrer as eleições em 2018, porque para permiti-la eles teriam que arrumar alguma coisa para impedir a candidatura Lula, que já é muito forte. Não dá para saber, nem eles estão se entendendo. Por que a Globo, que sempre ataca o Lula, de repente parece fazer diferente? Não dá para entender o que acontece. Acho que podemos imaginar vários cenários possíveis, inclusive um golpe ainda mais à direita do que já foi.

Tenho percebido que as forças populares estão se organizando e está havendo uma adesão bastante grande. Basta ver como foi em Curitiba no depoimento do Lula, embora a Globo tenha escondido isso. Essa guerra de se apropriar da informação e não transmitir ao povo é de um terror inexplicável. As manifestações de apoio a Lula em Curitiba foram uma demonstração de que a sua candidatura é popular e muito forte. As pessoas sabem que o Lula não é ladrão. Não existe uma prova sequer. Mas isso faz parte de técnicas muito conhecidas que os nazistas usavam, mantendo a pessoa como suspeita o tempo todo.

Alguém disse que Lula se reuniu com ele, como se um presidente da república não pudesse se reunir com ninguém. Falas como estas não pegam mais ninguém, a não ser uma classe média que tem muito ódio. Como eles vão fazer agora? Vão condenar o Lula por um apartamento que eles sabem que não é dele? O juiz Moro e aquela turminha dele ficou fora dessa operação, isso também é estranho. Essa operação que pega o Aécio e o Temer foi feita sem a Lava Jato. Tudo indica que o próprio Judiciário golpista está rachado.

Eu acho que o golpe é esse: eleição indireta, suspender as eleições e evitar o Lula. Eles não têm compromisso nenhum com a democracia. Agora vai depender muito da capacidade popular de reação, mas eu acho que o golpe é mais à direita ainda e vem repressão. Pode acontecer até o inesperado. Está muito esquisito, para dizer o mínimo.

Roberto Romano, professor do Departamento de Filosofia
Foto: Antoninho Perri

Em um primeiro cenário, podemos ter o governo Temer aprofundando a compra do Legislativo e ameaçando o Judiciário. Trata-se de um cenário terrível, mas é bom lembrar que ele já tem feito isso para conseguir as reformas, distribuindo verbas, perdoando dívidas de Estados e municípios e distribuindo cargos, ou seja, Temer tem aprofundado a corrupção. Essa situação tende a se agravar, como é sabido. O preço dos corruptos aumenta de acordo com a situação do perigo em que está o chefe do Executivo.

Isso aconteceu com todos os ex-presidentes e, no caso do Temer, isso é agravado por sua origem, já que ele não foi eleito para o cargo. A chamada base aliada é, na verdade, a base de achaque.  A cada vez que Temer tiver que pagar pela sua permanência – e não mais pelas reformas –, aumentará a instabilidade jurídica no país. Nem cabe falar aqui de outro componente – os trabalhadores estão sendo jogados para a incerteza jurídica absoluta.

Num segundo cenário, o TSE, alertado por esse fato gravíssimo [as delações dos donos da JBS], cassa a chapa Dilma-Temer. Como Temer havia nomeado dois ministros recentemente para o TSE, esperava-se que ele tivesse maioria para escapar da cassação. Seria, sem dúvida, caso o TSE opte pela cassação, a decisão menos traumática, afinal trata-se de uma decisão tomada pela Justiça.

Num terceiro cenário, no caso de uma eleição indireta pelo Congresso, a solução seria mais traumática porque teríamos um sem número de políticos reféns da Lava Jato. Você acaba elegendo um presidente da República escolhido por políticos suspeitos.

Por fim, há a possibilidade da renúncia de Temer – acho o impeachment a menos provável das hipóteses, já que a manipulação da base aliada, quase toda comprada, supera em muito a capacidade de mobilização da oposição. Ademais, um processo de impeachment demandaria muito tempo, bem mais inclusive que o da presidente Dilma.

Essas quatro possibilidades, no meu ponto de vista, acentuam a instabilidade do governo, da economia e da vida dos trabalhadores brasileiros.

Marcelo Ridenti, professor do Departamento de Sociologia
Foto: Antoninho Perri


[Sobre o cenário futuro]. Posso dar um palpite, porque ninguém sabe. Primeiro precisamos ver qual será o destino do Temer. Ele pode ter um arroubo de renúncia, mas não acredito que vá fazer isso, porque não cabe nele e, depois, porque ficará desprotegido em termos de foro privilegiado para um julgamento. Acho que ele vai tentar resistir o máximo que puder, o que pode levar a um processo de impeachment. Mas esse processo de impeachment seria complicado porque Temer tem um apoio muito forte no Congresso Nacional.

Outra possibilidade que talvez lancem mão é aquele processo que já possui parecer contrário do Tribunal Superior Eleitoral, para cassar a sua vitória e de Dilma. Se a crise se agravar muito, talvez essa chapa acabe sendo cassada. Se isso acontecer a norma é a eleição indireta, sendo que não existe uma legislação clara sobre como fazê-la nesse contexto. A legislação diz que o Congresso vota, mas não diz quem pode ser votado, quem seriam os candidatos: se seria um membro do Congresso, se pode ser uma pessoa de fora. Então, está tudo muito no ar, ninguém sabe o que pode acontecer.

E, seguramente, os empresários e o pessoal que cuida da economia estão muito preocupados, porque estavam apoiando as tais reformas do Temer. Fica mais difícil votar tudo isso. Ainda estamos muito próximos desta denúncia, afora que virão outras denúncias pela frente. Tem mais gente denunciando, nem tudo está aclarado. O cenário é de que novas bombas virão dessa cumplicidade entre o empresariado e o governo.

Havendo a saída do Temer, o que está determinado é uma eleição indireta, a menos que a Câmara e o Senado, em conjunto, façam alguma lei determinando eleições diretas. Ontem até o Caiado [Ronaldo] parece que falou pela eleição direta. Duvido que façam isso, provavelmente vão deixar o Temer pagar sozinho, ele e a cúpula mais próxima. Vão ficar empurrando com a barriga, muito possivelmente até a próxima eleição.

Talvez as forças dominantes da economia pressionem muito, para independentemente da crise, aprovarem as tais reformas que estão elaborando, sobretudo a trabalhista, que está bem andada, e a outra da Previdência. Resta saber se haverá clima político no Congresso para aprovar tudo isso, com essa crise do governo. Talvez seja difícil.

Acho que estão todos meio espantados, porque sobra pra todos, são poucos que escapam. Por exemplo, ninguém tem comentado sobre o [Rodrigo Rocha] Loures, o deputado para quem o presidente da República encaminhou para fazer as tratativas [no Congresso], onde ele estava quando estourou a notícia? Em NY. E com quem? Com o seo [João] Dória.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

As Hostes Políticas de Edir Macedo Ano 10 - número 37 Abril - Junho 2017 por Roberto Romano

Artigo

Ano 10 - número 37
Abril - Junho 2017
por Roberto Romano
É nascido em Jaguapitã (PR), integrou a Ordem dos Dominicanos, fez doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, tendo como orientador Claude Lefort. Publicou livros e artigos sobre a Razão de Estado, a igreja católica e a universidade. Tem como temas favoritos a política, a ética e a estética, sobretudo no século 18 francês. É professor titular aposentado da Unicamp, onde dirigiu 37 teses, entre mestrado e doutoramento. Foi presidente da Comissão de Perícias da Unicamp.

As Hostes Políticas de Edir Macedo

Depois de muito subestimado, Trump acabou eleito presidente dos Estados Unidos da América contra todas as previsões de especialistas, cientistas políticos, comunicólogos, sábios e videntes. Proclamado o resultado, videntes, sábios, comunicólogos, cientistas políticos e especialistas tentam apagar as pegadas erráticas, abrindo um leque de causas para o inesperado desfecho. Inesperado para eles que pensaram ditar a realidade e induziram grande parcela da opinião pública mundial a acreditar em suas verdades.

A vitória de Marcelo Crivella para a Prefeitura do Rio de Janeiro levanta questões sobre a originalidade de sua igreja, a Universal do Reino de Deus. No artigo, é indicada a forma do catolicismo organizacional como um dos elementos de sua baixa numérica e política na sociedade brasileira. Em contrapartida, a estrutura da Universal, ao contrário da católica, valoriza intensamente o leigo, o que potencializa forças políticas antes adormecidas que, somadas ao imenso instrumental da igreja, sobretudo na mídia, ajuda a entender a maré montante do pentecostalismo político de hoje.
O Brasil nasceu católico, mas sua forma jurídica, desde a origem, manteve o controle estatal sobre a vida religiosa. Fomos descobertos no absolutismo, quando o poder estatal disputou com radicalidade a soberania contra o domínio transcendente. Estávamos na era dominada por Maquiavel e pela raison d’État. Naquele tempo, a ética da rota respublica christiana foi posta em questão por teóricos (Maquiavel é apenas um de extensa lista) e governantes. A Reforma traz um complicador a mais nos elos entre mando religioso e civil. Se Lutero radicaliza a ruptura com a autoridade visível da igreja, ele reforça o poder dos príncipes que aderem à nova confissão. João Calvino, apesar da obediência pregada aos crentes diante do mando civil, expõe vias para a radicalização laica e, mesmo, democrática, da ordem política. Não é exagero dizer que boa parte da moderna democracia tem como base a reforma protestante na vertente calvinista.

Sob o Padroado, a Coroa portuguesa faz da Igreja mero departamento do poder civil. No Império não é diferente. Apenas com a República, para a qual contribuiu a Questão Religiosa, o catolicismo tem certa independência para agir no país. Mesmo assim, até meados do século 20, é difícil separar os alvos do Estado e as sendas da Hierarquia. Antes e depois da ditadura getulista, ocorrem conúbios entre “autoridades civis, militares, eclesiásticas”. A meta religiosa reside na conquista do mundo moderno para atraí-lo ao rebanho, num inaudito movimento de centralização, cujo ápice é o Concílio Vaticano 1 e o dogma da infalibilidade papal. Os bispos percebem o Brasil como terra a ser evangelizada. Uma das técnicas para conseguir tal alvo consiste em impor a “soberania espiritual” ao mando secular.

Tensas, as relações entre Igreja e poder civil vivem instantes de afastamento mútuo, mesmo de hostilidade, ou de plena concórdia. Com a ditadura Vargas ela ganha muito, sobretudo no campo do ensino. Boa parte dos curricula oficiais, impostos ao país, foram elaborados por bispos ou acadêmicos a eles unidos. É o caso de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que molda as planilhas educacionais do Brasil por longas décadas. Tais planilhas sobrevivem à era Vargas, à ditadura de 1964 e mesmo ao governo civil e à Nova República. No período inaugurado pelo golpe de 1964, alguns bispos e leigos resistem ao arbítrio, às torturas e prisões, o que ocasiona choques com o Estado. Mas, não é possível ignorar o acordo antes e após o coup d’État, consagrado em colaboração de hierarcas e autoridades laicas e consignado em documentos oficiais que abençoam o regime de força. Em determinadas situações podemos dizer, sem exagero, que as formas estatais e católicas constituem um todo solidário.

A igreja católica percebe com maior acuidade a perda de sua força social a partir dos anos 50 do século 20. Pensadores como o Padre Júlio Maria e Thales de Azevedo mostram o quanto o catolicismo está longe de controlar grandes massas populares. A proposta de tais acadêmicos e clérigos se encontra no ataque à modernidade, cujos efeitos seriam letais ao mundo religioso tradicional. A tônica seguida liga-se à defesa dos antigos valores, algo comum naqueles anos na intelectualidade católica. A Revista Eclesiástica Brasileira, a Revista Vozes de Petrópolis, praticamente todas as publicações de doutrina e proselitismo insistem na reconquista do mundo perdido para a secularização, a maçonaria, o espiritismo, o positivismo, o liberalismo e, last but not least, o protestantismo. No relativo ao liberalismo, importa notar que um grande inspirador de Carl Schmitt, Juan Donoso Cortés, é publicado pela Editora Vozes, o Ensaio sobre o Catolicismo, o liberalismo e o socialismo, manifesto contra a democracia e as formas seculares de pensamento político. A tônica empregada pela propaganda eclesiástica é a de uma simbiose entre nacionalidade brasileira e igreja católica. Em tal movimento, a palavra definitiva é a do Sumo Pontífice: “A igreja e o Estado devem ser unidos um ao outro como alma e corpo, que constituem no homem um todo natural”.

Não é possível olvidar o papel relevante, direto ou indireto, da LEC (Liga Eleitoral Católica) até meados do século 20. Para ir contra as ameaças modernas, Dom Sebastião Leme instaura a revista A Ordem e o Centro Dom Vital, em boa parte dirigido por Alceu Amoroso Lima. Criada em 1932, a LEC busca afugentar das mentes católicas as candidaturas aos cargos políticos de liberais, maçons, comunistas, socialistas, espíritas, protestantes. A lista de candidatos, afixada nas igrejas e demais espaços religiosos, serve como sinal de ortodoxia e, de outro lado, frouxidão dos renitentes. Em 1962, a LEC assume a denominação de Aliança Eleitoral pela Família. Assim, a atuação dos bispos e leigos católicos, para garantir a hegemonia eclesiástica no Estado, tem muitas faces. A LEC é das mais agressivas, pois ensaia banir da vida pública setores minoritários, numa demonstração cabal de intolerância. Os protestantes sofrem muito com semelhante política de exclusão.

Com o Concilio Vaticano 2 ocorre em parte a mudança de rumos eclesiásticos. Em vez de presa aos muros da tradição, a igreja tenta se abrir ao mundo, vendo nele não um campo de morte, mas terreno a ser preenchido pelos valores cristãos e humanos. Os documentos conciliares, em especial a Constituição Lumen gentium mudam a perspectiva da pastoral e das formas doutrinárias. Não mais pensada como poder que deve enfrentar o mundo com anátemas, a igreja se percebe como peregrina no tempo, cuja orientação seria o Eterno, mas sem descuidar da finitude, das dores e alegrias humanas. É deixada nas sombras do pretérito a reivindicação de “soberania espiritual”, as pretensões de usar o Estado, contra toda a crônica laica que o marca desde o século 16, como instrumentum regni. O Vaticano 2 interrompe, pelo menos provisoriamente, o fluxo de anátemas contra o mundo laico e as formas religiosas que ameaçam o catolicismo.

Ditadura de 1964 enfrenta uma igreja dividida

A forma católica tem uma lógica muito própria, que desafia os mais diferentes pensadores. Carl Schmitt, para descrever tal lógica usa o termo “complexio oppositorum”, porque não é possível atribuir ao todo eclesiástico uma doutrina política única. Sua sabedoria consiste, justamente, em não sucumbir às formações de seitas, cumprindo seu núcleo dirigente (no ápice da hierarquia) a função de acomodar as contradições existentes na ordem interna e externa. Sempre que um setor da igreja se pretende autônomo em relação ao todo, a Hierarquia move correções rápidas que podem ir das admoestações à excomunhão. Após o Vaticano 2 o catolicismo passa por forte desarrazoado sobre sua essência e missão. Sacerdotes aos milhares, perdido o cosmos da tradição tridentina contrária à modernidade, sentem o solo eclesiástico como problemático: nem mais totalmente sagrado, como quer a Contrarreforma, nem secular. As práticas litúrgicas são abaladas, formas costumeiras de piedade abolidas. Os templos perdem esculturas sacras, a reza do terço durante a missa é proibida, novenas e procissões suspensas. Falta ao clero, progressista ou não, saber ou prudência antropológica e de psicologia de massas. O fiel católico passa a viver o sagrado como algo incerto. É dada a partida para a busca de experiências místicas outras, ou simplesmente o abandono das crenças religiosas. A responsabilidade não reside apenas no clero laicizado. Mas, ele é importante para a perda de solidez da fé tradicional católica. Já no Pontificado de Paulo VI, a hierarquia eclesiástica busca moderar o impulso racionalista que toma parte do clero e dos leigos. A Encíclica Humanae vitae (1968) dá o sinal de alarma. Na igreja brasileira, ainda em 1968, surgem os primeiros sinais do “freio” aplicado aos bispos, padres e leigos que radicalizam as teses conciliares. Todo o final do pontificado de Paulo VI é hamletiano: ora pende para o progressismo teológico e pastoral, ora ao conservadorismo centralista da Santa Sé.

A ditadura instaurada em 1964 enfrenta uma igreja dividida entre a maioria dos antístites que apoiam o regime e a minoria que o combate. Padres e leigos radicalizados seguem a letra conciliar, mas tal fato não basta aos mantenedores do poder curial. Após o brevíssimo governo de João Paulo I, a eleição de João Paulo II sinaliza um Termidor eclesiástico. O pontífice opera uma intervenção duríssima em dioceses, seminários, instituições católicas, na busca de orientar a barca de Pedro para um catolicismo devocional. Como Pio XII, João Paulo privilegia a diplomacia conservadora, age com notórios ditadores como Pinochet, une-se a Reagan e outros. Episódios como sua participação no caso Irã-contras são reveladores do absolutismo por ele imposto à Igreja.

Some-se o desarrazoado do clero e dos leigos em termos culturais e pastorais, à política agressivamente conservadora de João Paulo II e teremos um desarmamento das hostes católicas em termos missionários e prosélitos. Com o pontífice polonês, a Igreja perde suas forças progressistas, ou pelo menos elas são silenciadas (o caso do cardeal Paulo Evaristo Arns, cuja diocese foi dividida de alto a baixo por Woytila). O combate do Vaticano à Teologia da Libertação consiste em uma técnica do Sumo Pontífice e de seus auxiliares (como o Cardeal J. Ratzinger, depois Bento XVI) para impor um modelo eclesiástico contrário ao Concílio. João Paulo II retoma o “catolicismo político” que domina a Santa Sé e vastos setores católicos nacionais no seu trato com o Estado e a sociedade. Em tal paradigma, interessa manter a mão segura sobre os fiéis, o controle interno do episcopado e dos teólogos e os alvos estratégicos da Igreja em termos planetários. É uma versão nova da antiga “raison de l’ Église” de onde brota a própria raison d’état.

Ao mesmo tempo, os católicos conservadores não mais sentem que entre eles e o corpo eclesiástico há uma unidade sólida, como a ocorrida no final do século 19 e inícios do século 20. As divisões de São Pedro estão submetidas à incerteza quanto aos rumos a serem tomados. É em tal momento que as formas protestantes, não as tradicionais, mas as desafiantes da ortodoxia eclesial (reformada ou católica) apresentam seu maior crescimento em setores próximos aos “negativamente privilegiados”.

Comunidades eclesiais de base

Já nos anos 60 a 80 do século passado, o frei Francisco Cartaxo Rolim, pesquisador das religiões novas e fundamentalistas do protestantismo mostra que o crescimento daqueles setores tem como premissa a ausência de muitos intermediários entre a piedade dos crentes e a ordem coletiva eclesial. Ele chama a atenção para o sentido de iniciativa, atribuído ao militante religioso protestante pentecostal, em contraste com a rigidez imposta na estrutura católica e confissões protestantes tradicionais. De outro lado, a igreja católica tenta mover seus adeptos da base para a militância com as Comunidades Eclesiais de Base. Deixando-se o desmanche de setores daquele movimento pela ação de João Paulo II (muitos animadores leigos e clérigos são perseguidos pelo Vaticano), as referidas comunidades coexistem com a estrutura antiga da igreja, estrutura vertical que privilegia os membros hierárquicos, a começar com os vigários das paróquias que acolhem as CEBs. Ao longo do tempo, tal problema é discutido nas próprias comunidades e nos estudos de intelectuais católicos. E. Hoornaert, em texto preparado para as discussões das CEBs, analisa a estrutura hierárquica da igreja, que tende a abafar a iniciativa missionária dos leigos e instâncias inferiores do clero. Hoornaert indica de modo gráfico o leigo católico no mais baixo escalão da pirâmide religiosa, ente passivo movido pelo clero:

Bispo
Padre
Leigo

Do bispo ao leigo, o padre é uma “correia de transmissão”. Para o máximo de atividade e iniciativa, os bispos; rumo ao mínimo, os leigos. Assim, torna-se muito grande o risco de fazer das CEBs apenas celeiros dinâmicos de clericalismo. Hoornaert apresenta, para atenuar tal falha, outro modelo de organização católica. Nele temos a seguinte forma:

bispo
leigo
padre
O padre, então, é destituído do papel de centro religioso (o culto) para se tornar um traço de união dos leigos com a igreja. O padre apenas articularia as relações comunitárias.

Com o advento de João Paulo II e de uma Hierarquia definida pela raison d’État em consonância com a raison de l ‘Église (tal foi o sentido da Realpolitik católica sob aquele Pontífice), a verticalidade que põe o leigo no mais baixo plano da instituição é retomada com rigor. O signo eclesiástico no Concílio Vaticano II, sob João XXIII e ainda Paulo VI, é o de uma abertura ao diálogo com o mundo. Sob João Paulo II muros espirituais são edificados quase ao mesmo tempo em que o Muro de Berlim é destruído. Livre do comunismo, a Santa Sé pratica uma política diplomática de pleno acordo com as premissas de Ronald Reagan, Pinochet e similares. Se existem teólogos e sociólogos católicos que, ainda sob João Paulo I, sonham com uma igreja democrática ou mesmo socialista, João Paulo II desmente tais devaneios. Com ele, o fiel volta à passividade e toda iniciativa cai novamente nas mãos do clero e da Hierarquia.

Seria um milagre se, com tamanha perda de iniciativa dos leigos, a igreja Católica deixasse de perder fiéis para igrejas e seitas de origem protestante que não apenas valorizam o laicato, mas dele fazem um meio eficaz de missão e atividade prosélita. Não é o caso, aqui, de fazer uma história do protestantismo no Brasil. E também não há espaço e tempo para efetuar uma crônica das igrejas pentecostais e messiânicas surgidas nas últimas décadas. Vale refletir sobre as características de uma delas, a Universal do Reino de Deus, instaurada por Edir Macedo. Dentre as várias confissões que ocupam a cena política, trata-se da mais ativa e bem-sucedida.

O fundador do empreendimento tem uma história de sucessos no mercado. Em seus trabalhos profissionais anteriores à sua vida religiosa, operou com matemática, estatística e outros meios para aferir números sobre o social. Ele usa técnicas eficazes de administração empresarial. Uma nota pequena, que une sentido de oportunidade com a ocupação do espaço. Certo dia em Bauru (SP), visito a matriz católica em dia de semana. Para chegar às portas do templo é preciso subir muitos lances de escada. O visitante encontra a igreja fechada com cartazes indicativos de horários para o atendimento e outros avisos. Na rua situada atrás da sede católica há uma Universal do Reino de Deus. A casa fica no plano da calçada, nenhuma dificuldade para o acesso. As portas abertas guardam dois fiéis que convidam os transeuntes para a entrada. Só tal comparação mostra a diferença entre a prática do catolicismo e a da igreja nova. Além de usar o espaço de modo sagaz, os pastores movem crentes como pregoeiros da religião, acolhendo todo e qualquer um dos que habitam a cidade.

Universal ataca a igreja católica

Uma organização simples e rápida ordena a praxis dos militantes pentecostais na Universal. A hierarquia conta com bispos, pastores, obreiros distribuídos pelos centros urbanos, sobretudo nos que contam maior número dos “negativamente privilegiados”, para usar a terminologia weberiana. Com agudeza de espírito, para quem opera em país onde a desigualdade econômica e política é escandalosa, a doutrina assumida segue a trilha da esperança na prosperidade, vinculada à doação integral do fiel à causa da igreja. Em atos e propaganda que, para os católicos e protestantes tradicionais beiram a simonia, a salvação, a cura, o enriquecimento, o consumo de mercadorias caras, são prometidos desde que os dízimos apareçam nos cofres, generosos. É como se o monge Tetzel tivesse reencarnado hoje, em vestes pentecostais, sem nenhum Lutero para lhe fazer frente.

A Universal ataca com dureza e constância a igreja católica, inclusive com propaganda obscena. Em programas seus de TV são trazidos testemunhos, nunca revistos pelas autoridades civis, de supostas freiras que teriam fornicado com padres assassinando rebentos, enterrando-os nos muros conventuais, etc. Nota-se o abuso dos libelos muito correntes no século 18, com imaginário escandaloso feito para persuadir os católicos de que sua religião, além de idólatra (recorde-se o famoso “chute na santa”) é apodrecida moralmente. Mas, a bateria de ataques não se limita ao catolicismo. Ela se volta contra a umbanda, o kardecismo e, mesmo, outras confissões protestantes que não seguem as palavras de Macedo. A intolerância é norma seguida por bispos e pastores, ampliada pelos crentes. Toda intolerância é unida ao fervor, quanto mais certeza da verdade, mais o crente assume missões de conquista e para expulsar os diferentes. Nos últimos tempos, manifestações de intolerância brutal ocorrem contra os seguidores da umbanda. O risco dos atos cai todo sobre o crente, os pastores se eximem e, mesmo, lançam proclamações de inocência. Algo similar ocorre com os supostos milagres. As delegacias de polícia brasileiras estão plenas de boletins de ocorrência nos quais os crentes desiludidos reclamam milagres não ocorridos, mesmo após doações, não raro de grande porte, para a igreja. Os pastores, é quase regra, sempre afirmam ter feito apenas uma benção e um pedido ao ser divino. O resto ficaria por conta da fé praticada pelo crente. Um ponto grave reside no chamado “Desafio a Jesus”. O desempregado entrega aos pastores cheques pré-datados e, assim, “desafia Jesus” para conseguir um posto de trabalho. Casos vieram à tona de cobrança, inclusive em órgãos de defesa do crédito, dos referidos cheques. Enfim, há toda uma sequência de fatos que fariam as delícias de Erasmo de Rotterdam, militante intelectual contra o charlatanismo milagreiro no Renascimento, ou de Voltaire.

Ao dar prosseguimento à tradição norte-americana do evangelismo televisivo e radiofônico, a Universal consegue uma força expansiva incomum, mesmo para as demais tendências pentecostais. Ao adquirir a Rede Record, um quartel general permanente é assegurado para a pregação e ataques às demais religiões. Gradativamente, vem à forma uma técnica usada desde tempos imemoriais para atrair fiéis: templos cada vez mais amplos e luxuosos, verdadeiras catedrais exibem poder e força aos crentes alistados e candidatos. O Templo de Salomão é mimesis do que fez a igreja católica em milênios. Mas, a burocracia simplificada e muito eficaz não deixa aqueles monumentos vazios. Eles são usados sempre para os cultos, as pregações, a coleta dos dízimos.

Com a imitação dos grandes templos católicos, vem uma liturgia que assume sinais e gestos oriundos do catolicismo, do judaismo, até mesmo da umbanda e do espiritismo. Tal performance dá ao crente jejuno o conforto de encontrar práticas por ele conhecidas, mas transfiguradas e postas como lícitas. Com o Templo de Salomão fica patente tal escolha, pastores e bispos usam parâmentos judaicos que recordam de modo oblíquo a filiação no novo cenáculo ao antigo, destruído na antiguidade israelense. Macedo e assessores reintroduzem aspectos abandonados pelo protestantismo, restaurando inclusive signos imagéticos, algo abolido na Reforma e atenuado na igreja católica após o Vaticano II. O ambiente do culto mostra faces do sagrado, hierofanias ocorridas nos templos da Universal.

Com tais inovações eficazes para o crescimento do rebanho, a Universal consegue mover seus adeptos em todos os sentidos. O mais grave é o político. Como é natural, o aumento do número de crentes com título de eleitor atrai políticos de todos os coloridos ideológicos. Quando preso, acusado de crimes graves, Edir Macedo tem o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva, Aloysio Nunes e outros que não pertencem ao espectro da direita. Mas, também conservadores e direitistas apreciam a disciplina da igreja, a qual conta com o sentido de iniciativa dos seguidores. Meio rápido de adquirir votos, a proximidade de bispos e pastores ajuda políticos e igreja. Prestígio repartido, os sucessos nas urnas trazem prosperidade a candidatos, mesmo os que não pertencem às hostes de Macedo.

Dispondo, pois, de ampla rede de TV e rádio, jornais impressos que ampliam sua circulação em épocas eleitorais (no Brasil, quase permanentes), além do apostolado pessoal e virtual (via internet), a Universal é sólida base para qualquer candidatura aos cargos públicos. O partido político que serve como braço secular da igreja é o PRB. Essa agremiação foi esteio do Partido dos Trabalhadores nos governos Luiz Inácio Lula da Silva, quando o vice-presidente da república pertence ao PRB, e de Dilma Rousseff. Pouco antes do impeachment que afasta a mandatária, a Universal e o PRB rompem com o seu governo, agraciados pela administração Temer com cargos e benefícios.

Importa sublinhar o elo entre políticos proeminentes e os quadros da Universal. Em todas as ocasiões importantes para a igreja, líderes de quase todos os partidos nacionais se apresentam. Nas eleições, pactos entre bispos e pastores, com lideranças políticas, são assumidos. No primeiro dia do Templo de Salomão se apresentam para il bacia mano praticamente todos os poderes da república, a presidente, o governador do estado de São Paulo, etc. Senso de oportunidade política não rende apenas para os candidatos à permanência nos cargos ou à sua primeira investidura. A própria presença conspícua de pessoas com prestígio amplo abrilhanta, junto aos fiéis e alheios, a imagem de vencedora atribuída à Universal.

Não tem sido levado em conta com afinco, entre acadêmicos, o livro lançado em 2008 por Edir Macedo. Naquele volume, que norteia os atos políticos da Universal, o autor afirma ser possível e necessário que ela chegue à maioria dos poderes estatais. “Tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional”. Dentre as teses enunciadas por Macedo temos a seguinte: “A potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo, quanto no Executivo, em qualquer que seja o escalão, municipal, estadual ou federal”. No mesmo tempo em que o volume é publicado, o sobrinho de Macedo, Marcello Crivela, se candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PRB. Naquele ano, havia a expectativa de aumentar consideravelmente o número de parlamentares ligados à Universal e às igrejas congêneres. Em 2007, o PRB, de fato, é o partido que mais cresce no país. Tal ponto concede à Universal um instrumento eficaz de luta política.

Universal quer a hegemonia no Estado

Assim, não surpreende que em 2016, finalmente, Crivella seja eleito para governar a cidade do Rio de Janeiro. Ele conta com zelosa militância de fiéis que acreditam ser a sua salvação terrestre prometida em termos de riqueza e poder materiais. A própria estrutura da igreja os leva a uma atividade vigorosa, ao contrário dos leigos católicos e protestantes clássicos. Além disso, a eficaz rede televisiva e radiofônica, além da mídia impressa, é poderoso meio de propaganda das candidaturas da própria Universal ou de aliados. É em busca de semelhante benefício que políticos da chamada esquerda ou da suposta direita brasileira se achegam a Edir Macedo, na esperança de ganhar apoios tácitos e estratégicos, nos parlamentos ou eleições. Desde 2008, a Universal conta com receituário político que ensina a chegar à hegemonia no Estado. É a primeira vez na história brasileira que o protestantismo deixa a condição de minoria perseguida e passa à conquista planejada e racional da maioria para o comando do poder público.

Os planos da Universal, com a vitória de Crivella em 2016, começam a se tornar realidade. Mas, para que tal coisa ocorra, é preciso que a igreja católica, as confissões protestantes clássicas, as correntes protestantes de esquerda, percam seus comandados e não apresentem alternativas à marcha pentecostal sob a liderança atual de Macedo. Em política, como no proselitismo religioso, tudo é dinâmico. Se alguns setores ganham potência, é porque os adversários a perdem. Tal regra, que parece óbvia, vem do ensino do grande Maquiavel interpretado por J.G. Fichte: “quem não cresce, diminui enquanto outros crescem”. Para que o crescimento da Universal tenha um limite, importa aos demais setores (católicos, umbandistas, espíritas, liberais, progressistas e outros) arregimentarem forças, imaginarem cenários futuros e, sobretudo, se unirem não apenas no plano espiritual, mas, principalmente, na ação política. Tal perspectiva ainda não aparece na vida pública brasileira.

Roberto Romano: Os anjos e o PT.

São Paulo, terça, 5 de maio de 1998


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Os anjos e o PT


A liderança do PT sugeria aos militantes que todos no partido eram anjos e os demais, "farinha do mesmo saco"
ROBERTO ROMANO

Acontecimentos como a escolha do candidato a governador no Rio pelo PT mostram que o autoritarismo deita raízes no mais antigo pensamento político. Os donos nacionais daquele partido, gerados pelo ideário stalinista e semelhantes, enfrentam as oposições internas com chantagem e outras armas violentas. Mostram que pouco mudaria a República sob seu comando. Façamos uma rápida síntese do ideário mais amplo que define a sua lógica.
Alguns escritores vincaram a cultura do Ocidente. Eles modelaram as almas. Depois, seus textos seguiram para o inconsciente, no qual continuam operando de modo eficaz.
Um teórico assim é Dionísio Areopagita. Seus livros principais, "A Hierarquia Celeste", "Hierarquia Eclesiástica", "Os Nomes Divinos", apareceram por volta de 533 d.C., em Constantinopla. O nome do autor era falso: Dionísio teria testemunhado a pregação de São Paulo no areópago.
Só no Renascimento essa piedosa mentira caiu por terra, com a pouco verdadeira "doação de Constantino". Mas o conjunto textual seguiu prestigiosa via: em 827, o imperador romano do Oriente o depositou na igreja de Saint-Denis. Isso serviu para legitimar o rei da França, cuja sagração se dava naquele templo.
Com as traduções de Erigena, os textos tornaram-se vitais na Idade Média. Tomás de Aquino, o doutor da igreja, cita-os 1.700 vezes. A renascença religiosa tomou-os como oráculo. No século 16, ocorreram 44 edições da "Hierarquia Eclesiástica". No século 17, eles justificavam o poder da igreja contra o Estado. Mas já potenciavam a propaganda do rei absoluto diante do papa, dos bispos e nobres.
O que importa em Dionísio? Nele se diz que Deus está além de nossa capacidade de pensá-lo e nomeá-lo. Entre a divindade (supremo abismo) e nós existe uma cadeia de seres intermediários, garantindo uma hierarquia rigorosa. O universo se baseia na ordem. A falta desta última é o grande mal.
Deus pode ser atingido pelos homens, mas só por seus intermediários. "Da matéria até os anjos reina uma infinidade de ordens, cada uma delas guiando seus inferiores e progredindo com eles rumo à divindade" (Durand, Y., "Mística e Política no Século 17, a Influência do Pseudodionísio", revista "Século 17", 1991).
No sistema dionisíaco, bispos e padres espelham a ordem celeste, na qual se movem os anjos. Tudo é mediação: os sacerdotes são o elo entre os homens e Deus, espécie de anjos humanos. A sociedade exige a hierarquia.
A lógica hierárquica plasmou nossa cultura política e religiosa. Não por acaso, a revista brasileira do catolicismo integralista chamou-se "A Ordem". Ainda no século 19, os padrinhos do totalitarismo, como De Maistre, Bonald, Donoso Cortés e Auguste Comte, viam na igreja apenas isso: a mantenedora da ordem.
Esse ideário conduziu milhões às passeatas da direita nacional, gerando o golpe de 64 e o regime castrense. Nele, tivemos excesso de ordem hierárquica e pouquíssima democracia. O controle vertical, como demonstra Canetti em "Massa e Poder", é marca dos exércitos. Um partido não deveria seguir essa linha, sobretudo se estamos diante de uma agremiação democrática.
No século 20, a humanidade caiu no abismo totalitário. A igreja ou colaborou com os nazifascistas ou foi aniquilada enquanto poder autônomo. Mas permaneceu a idéia de hierarquia, agora sem Deus. Os partidos assumiram, a ferro e fogo, os graus de eminência decisória. No topo, as escolhas certas e infalíveis. Entre os seguidores, a obediência cega, surda, muda.
Militantes estupefatos que afirmavam, acatando ordens dos comitês, a essência demoníaca dos inimigos viram-se sem chão sob os pés com o pacto entre URSS e Alemanha, em 1939. Mas o partido era absoluto. A base nada tinha a opinar: bastava-lhe a militância, recheada de slogans e de heroísmo absurdo.
O PT prometeu novidades. Nele, bases e dirigentes teriam voz e voto. Mas, com a certeza atual de nunca chegar ao poder, os seus grupos dirigentes, hierarquias sacerdotais, retomam a forma autoritária nas estratégias e táticas. Em Dionísio Areopagita, só o superior, anjo ou sacerdote, pode conduzir o inferior, o simples cristão, ao divino.
Houve certa época em que a liderança do PT sugeria aos militantes que todos no partido eram anjos e as demais pessoas, "farinha do mesmo saco". Com o realismo em alta, notório com a ida para o governo de um ex-secretário do partido (membro da hierarquia e não da base) e de quadros importantes para o ministério Itamar, a militância foi atingida pela desconfiança em face da ordem angélica. Brizola deu-se muito bem no período Collor, sendo criticado por muita gente, em especial na Folha.
No Rio de Janeiro, as bases ousaram negar as ordens dos arcanjos petistas. Foi um deus-nos-acuda. Tudo estaria de cabeça para baixo. Subversão da ordem! Interessante acompanhar a vida e a morte de muitos sonhos.
Ou o PT aceita a democracia, estranha à mente hierárquica, ou implode. Não existe essência angélica que possa interceder nessa labuta. O codinome do anjo que dirigiu a aliança do Partido Comunista, no pacto germano-soviético de 1939, era Lúcifer.

Roberto Romano, 52, filósofo, é professor titular de ética e filosofia política da Unicamp (Universidade Estadual de

domingo, 14 de maio de 2017

Radio ABC. Roberto Romano analisa depoimento de Lula para Moro

http://www.radioabc.com.br/roberto-romano-analisa-depoimento-de-lula-a-sergio-moro/




Roberto Romano analisa depoimento de Lula a Sérgio Moro

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O cientista político Roberto Romano falou sobre o tema no Jornal ABC desta quinta-feira (11/05/17), um dia após o depoimento do ex-presidente em Curitiba.
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