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O CALDEIRÃO DE MEDÉIA*
O problema da soberania popular, da soberania estatal e das ciências,
hoje.
Roberto Romano**
"As ciências constituem um fraco poder, porque elas não são
reconhecíveis em qualquer homem de modo eminente, salvo num pequeno número, e, nestes
últimos, sobre poucas coisas. A ciência é de uma tal natureza, que ninguém pode dar-se
conta de sua existência, sem a possuir numa larga medida".(1)
É assim que o grande teórico do Estado moderno, Thomas Hobbes, indica o dilema do saber
científico e da política. Para que o povo aceitasse o conselho dos cientistas, seria
preciso que ele mesmo fosse dono de saberes. Ora, o vulgo não é capaz disto. E o número
dos sapientes é diminuto. E mesmo no campo erudito, os verdadeiros sábios se
especializam, conhecendo corretamente poucas coisas. O grande número de populares
ignorantes, de um lado, e a pequena quantidade dos cientistas de outro, impedem pensar que
o mando seja mantido pelo conhecimento. Contrário à democracia, Hobbes busca em outros
planos a força do Estado também recusando o axioma platônico do rei filósofo, ou do
filósofo rei.
Mas o descarte das ciências e dos cientistas enquanto fontes de poder
legítimo, em Hobbes, também passa pela crítica da idéia que autoridades e povo fazem
do conhecimento. Quem é visto como verdadeiro conhecedor pela massa? Não o cientista,
mas o que amplia o saber: "As artes de utilidade pública", segue o Leviatã,
"como as fortificações, a fabricação de engenhos e instrumentos de guerra,
constituem um poder, porque contribuem para a defesa e para a vitória. Embora sua mãe
verdadeira seja a ciência, mais precisamente as matemáticas, como elas nasceram pelas
mãos do artífice, são consideradas como dele saídas, passando a parteira por mãe aos
olhos do vulgo".
A metáfora do parto, utilizada por Hobbes retoma a linha socrática do
saber ocidental. O programa platônico, afastado num aspecto, retorna ao pensamento
hobbesiano por outra via. O aristocratismo da República continua no pensador
inglês. A multidão jamais constitui uma fonte de saber. Muito pelo contrário. O povo
nunca deve ser ouvido nos assuntos científicos, porque se prende às aparências, não
atinge a essência das coisas racionais. A medicina é arte difícil. A política
socrática propõe-se enquanto medicina da polis. Sócrates, num outro diálogo
platônico, mostra o que pensa do povo, ao propor o seguinte exercício: se grande número
de crianças é posto diante do cozinheiro e do médico, ambos lhes dirigindo um discurso,
qual dos dois será o escolhido como guia? O cuca dirá aos pequenos: "Eu preparo
doces variados, enquanto ele, o médico, lhes força a fazer regime". O médico
afirma: "Eu faço isto para o seu bem". O cuca será eleito.(2)
Na democracia, o povo/criança mal educada, pensa que sua vontade não
pode encontrar nenhum obstáculo. Nela, o excessivo arbítrio dos indivíduos conduz à
catástrofe do Estado, gerando o mando tirânico, o exato oposto da democracia. Estas
páginas da República, o livro fundador da teoria do Estado no Ocidente, ecoam em
Hobbes. Neste último, o povo deixa de ser "criança", e se torna, no De Cive,
perigosa e estulta massa sempre prestes a subverter a república, porque seduzida pelos
sofistas. Os demagogos seriam como a bruxa Medéia, a qual enganou as filhas de Peleu, rei
da Tessália: "estas mal avisadas, querendo rejuvenescer o pai decrépito, o
deceparam, o cozinharam esperando vê-lo inutilmente, renascer". O povo comum,
continua Hobbes, "não é menos louco do que estas pobres filhas de Peleu, quando,
desejando reformar o governo do Estado, persuadido por algum ambicioso(...), após
dilacerar a república, a consome mais do que a reforma, por um fogo inextinguível".(3) Note-se as metáforas usadas por Hobbes. Elas foram extraídas de
Platão, com modificações. No grego, o demagogo é cozinheiro que estraga o regime (o
termo tem esta origem) político. Em Hobbes, o sentido da imagem é o mesmo. O estatuto do
povo é sempre o de ignorância sobre a ciência e a política.
No século 18, duas atitudes foram tomadas pelos teóricos do Estado e
da ciência. A primeira, avançada por Imanuel Kant, propõe a cidadania no plano moral,
mas sem conceder ao povo o direito de ampliar sua iniciativa no governo da república das
letras e da política. É célebre o dito kantiano sobre o nexo entre o vulgo, os
cientistas, os demagogos (tanto os opostos quanto os defensores do governo): "o povo
vai ao sábio, como se procurasse um mágico (...) entendido em coisas sobrenaturais.
Porque o ignorante tem uma opinião excessiva do sábio, de quem espera algo. É fácil
prever que se alguém tivesse a esperteza de se apresentar como taumaturgo, ganharia a
preferência popular". Segue-se a frase brutal de Kant: "O povo quer ser
dirigido, isto é, (na linguagem dos demagogos), ser enganado. Mas ele não quer ser
dirigido pelos cientistas universitários (pois sua sabedoria é muito elevada para ele),
mas pelos agentes do controle, pelos técnicos do governo, pelos funcionários da
justiça, pelos médicos, pelos padres".(4)
Apesar de tudo o que separa Kant de Hobbes, nesse ponto ambos aprovam o
socratismo: o povo só atinge a opinião na política e na ciência, a famosa "doxa".
Ele quer resultados técnicos, sem penetrar nas aporias da pesquisa, a não menos famosa
"epistême". Estamos, nesta senda, a um passo da violenta diatribe hegeliana
contra a soberania popular, e do conseqüente desprezo votado ao povo no que diz respeito
à ciência.(5) O homem do povo não precisa de razão científica
ou tecnológica para ser livre. "Kant conclui que a liberdade moral não depende do
saber e das luzes no sentido clássico do termo (...) a racionalidade (moral) pode se
exercer sob forma imediata, sem inteligência e sem objeto: para ser livre e virtuoso,
não é preciso ser cientista".(6)
A outra atitude foi assumida por Denis Diderot e Condorcet. O pai da Enciclopédia
desejou ampliar os conhecimentos técnicos e científicos do povo. Seu "Plano de
Universidade para a Rússia", escrito a pedido de Catarina II, insiste na idéia de
que uma "universidade é uma escola cuja porta está aberta indistintamente para
todos os filhos de uma nação, e onde mestres pagos pelo Estado os iniciam no
conhecimento elementar de todas as ciências".(7) Seguidor de
Francis Bacon, Diderot considera indispensável, para atingir o Estado onde a liberdade
estivesse assegurada, um saber científico e técnico espalhado na massa do povo.
Condorcet levou ao máximo a tese da educação do povo, para que este exerça
corretamente a sua soberania. O cidadão, diz ele, deve "se perguntar se não é
vítima de um escrutínio deformado ou cheio de truques. Todo votante deve saber que mesmo
as opiniões majoritariamente verdadeiras podem ser, por efeito de procedimentos viciados,
combinadas num resultado globalmente errôneo." Deste modo, não existe democracia
real sem povo instruído, a começar pelo cálculo geométrico, terminando nas técnicas e
nas artes.(8)
Para que nosso tema apresente uma latitude maior, passemos à questão
da soberania popular em Rousseau e nos seus discípulos imediatos. Estes foram apontados
como irracionais, dada a recusa rousseoista das técnicas e das ciências. A fenda
aberta por Rousseau, entre natureza e artifício, empurrou a doutrina da soberania popular
para os antípodas da razão de Estado, e da razão simplesmente. Rousseau e seguidores,
após o triunfo provisório do terror, foram vistos como primitivos e inimigos da
ciência. Mais importante do que esta vexata questio, até hoje matéria de
muitas disputas acadêmicas, foi a doutrina sobre a soberania popular negada pelos
contra-revolucionários. Descartando, contra Rousseau, a soberania do povo, os
conservadores termidorianos afastaram ainda mais a massa e os cientistas. Mas recomecemos,
seguindo etapas.
No terceiro ano da Revolução Francesa, foi escrito um discurso cuja
tônica era a desconfiança no governo representativo. "A soberania é uma,
indivisível e inalienável, e vós a dividís repartindo-a, e a perdeis, transmitindo-a.
Os ilustres homens a quem chamastes para fazer uma nova Constituição não têm outros
direitos do que vos submeter as suas idéias. Numa palavra, o poder dos representantes é
como um raio de sol refletido num espelho. Vós sois esta luz, a qual eu comparo ao astro
diurno, e os deputados são o cristal que reflete o poder que neles depositastes e que só
iluminarão a terra graças ao fogo que de vós emana".
Continua nosso orador: "A autoridade do povo, reunida numa ou em
várias mãos, eis o nascimento da aristocracia, eis os perigos da outorga de uma
potência. Se os deputados podem prescindir de vós para fazer leis e a sua sanção lhes
parece inútil, neste instante nascem os déspotas e vos tornais escravos... Como um
mandatário público pode imaginar que o mero título de representante da soberania pode
possuir o próprio direito da soberania? Como eles podem acreditar que a opinião da
soberania que a eles é confiada por vós pode conter em si o direito de decisão
absoluta? As piores desgraças vos esperam se não for resolvido este problema. Estais
perdidos se eles vos impõem leis que não aprovastes".
O autor das frases acima é o Marquês de Sade. O texto se intitula
"Idéias sobre o modo de sanção das leis". Recordemos a causa dessas palavras.
Estamos em 1792. Fracassou a primeira Assembléia Legislativa. Surge a Convenção,
supostamente eleita por sufrágio universal. Supostamente, porque dos votos estavam
excluídos os monarquistas, de um lado, e a massa dos sem propriedade, de outro. Aos
representantes, expressando certa minoria, foi concedido o papel de encarnar a Nação
soberana seguindo nisto as doutrinas de Sieyes. Seus poderes, teoricamente, não tinham
limites. Nenhuma força interna adversa poderia persistir. A primeira potência sob
ameaça era a Comuna de Paris. Esta última, nas palavras de Soboul, "municipalidade
insurrecional, estava ameaçada de desaparecimento ante a representação nacional".
Esta vontade de aniquilar a cidade mais importante no processo revolucionário, até
aquele momento, foi expressa por Lasource, um representante do interior: "É preciso
que Paris seja reduzida em 83 por cento de sua influência, como cada um dos demais
departamentos". (Cit. por Soboul).
Na Comuna de Paris brotavam, a cada instante, novas massas dos sans
cullottes, reivindicando uma economia contra os dogmas da propriedade, guardados mesmo
por jacobinos. Os Girondinos, para atenuar o poder de fogo da Comuna, apelavam para uma
"federação", na qual o particularismo reinaria, através das administrações
locais. Os Montanheses, deputados de Paris, seguiam relutantemente as forças populares da
grande urbe.
Entre os dois "partidos", havia o centro, reunindo
oportunistas que "temiam o povo, no fundo; a violência arbitrária e sanguinária
lhes repugnava e, para eles também, a liberdade econômica tinha o valor de um
dogma" (G. Lefebvre). Durante algum tempo, os Girondinos pareceram senhores da
Convenção, baseados na desconfiança dos interioranos contra a Comuna e os sans
culottes parisienses, o medo de massacres, a raiva contra as palavras de ordem nocivas
à propriedade. Roland, representando esta facção burguesa, tudo fez para destruir a
Comuna a qual, ao ser dissolvida, em novembro, havia perdido seus poderes excepcionais e
suprimido seu Comitê de Vigilância. Roland, economista e ministro de plantão, na
época, denunciava a "prodigalidade da Comuna, que mantinha o pão a 3 soldos, à
custa dos contribuintes". Mesmo Saint-Just, radical em outros prismas,
"como economista ortodoxo" no debate sobre o comércio dos cereais,
"mostrou que o único remédio para a carestia era reprimir a inflação"
(Lefebvre).
Voltemos às advertências de Sade. Os atos políticos lembrados,
mostram que o discípulo de Rousseau soube, de modo certeiro, identificar a virada que se
anunciava na Convenção. Mudança que surgiria, com toda plenitude, no Termidor, após a
derrota da Comuna e de outras políticas cuja premissa era a soberania popular direta.
Notemos a torção realizada por Sieyès, na própria idéia de soberania: esta, de
"popular", passou a ser "nacional". O deslizamento precisa ser
acompanhado nos textos de Rousseau e de Sieyès. Lembremos alguns traços conhecidos das
duas teorias tão próximas e tão distantes.
Para Rousseau, a soberania é inalienável. Se há "pacto"
para existir "governo" (gouvernement) o povo "perd sa qualité de
peuple". Só o povo é legislador, mesmo que ele precise ser instruído por um
sábio, porque nem sempre ele pode ver o bem que ele sempre deseja. Mas o sábio
só propõe leis: "le peuple même ne peut, quand il le voudrait, se dépouiller
de ce droit incommunicable". O que é o governo, sobretudo para os homens que o
asseguram? "Um emprego no qual, enquanto simples funcionários (officiers) do
Soberano, eles exercem em seu nome o poder de que são depositários, e que ele pode
limitar, modificar ou retomar quando bem lhe aprouver, sendo a alienação de um tal
direito incompatível com a natureza do corpo social e contrário ao fim da
associação". Instituindo o Governo, o Soberano povo converte a Soberania "em
Democracia". Cidadãos tornam-se magistrados, funcionários do Soberano. Reunido em
Assembleia, o Soberano mostra-se onipotente, o poder executivo fica suspenso.
Toda Constituição é provisória, os "empregos"
governamentais são revocáveis. Sempre que o administrador assume uma autoridade
independente do soberano, ele viola o "traité social",
dissolvendo o próprio Estado, constituindo um "novo Estado" só composto pelos
próprios executivos, excluindo os cidadãos. Estes, a partir deste momento, retornam à
liberdade natural, e não são obrigados, embora sejam constrangidos, a obedecer. "O
soberano só pode ser representado por ele mesmo". Deste modo, deputados eleitos não
podem ser "representantes" mas "comissários", ou
"delegados". O que o Povo "en personne" não faz, não é lei.
Povo "representado" não é povo, nem livre.
Sieyès, ao contrário, pensa os deputados como representantes,
possuindo um mandato geral. Mesmo concedendo que este mandato está "ao dispor"
de quem o concedeu — o povo — sendo revocável e limitado, Sieyès elogia o
regime representativo. Tudo, diz ele, no estado social, é matéria de representação, e
os homens aumentam sua liberdade quando concordam em serem representados tantas vezes
quantas seja possível. O argumento é que, embora tenhamos uma só autoridade política
— o próprio corpo social — existem diferentes órgãos daquela autoridade,
baseados em diferentes comissões dadas pela sociedade. Trata-se de um "concurso de
poderes". No Contrato Social encontramos a nota célebre de Rousseau sobre o
direito de propriedade e a péssima administração: "sob os maus governos", a
"igualdade é somente aparente e ilusória; serve só para manter o pobre na miséria
e o rico na usurpação. Na realidade as leis são sempre úteis aos que possuem e
prejudiciais aos que nada têm, donde se segue que o estado social só é vantajoso aos
homens quando todos eles têm alguma coisa e nenhum tem demais".
A tese acima passou, na pena de muitos comentaristas, como um paradoxo
de Rousseau. Mas o nexo entre apropriação legal e excludente, entre propriedade e tipo
de governo, foi estratégico nas ações e doutrinas dos que escreveram sobre a vida
política antes e durante a Revolução. Para ficar com o exemplo de Sieyès: nas suas
"Observações sumárias sobre os bens eclesiásticos" (1789), ele afirma que os
corpos morais (clero, cidades etc.) têm direitos sagrados no que tange à propriedade,
bem como os indivíduos.
Em Rousseau, a propriedade só pode ser uma concessão do soberano,
constituído no pacto social. O soberano, caso os particulares ricos sejam infiéis ao
público, tem o direito de lhes retirar o direito sobre bens. O corpo político decide que
haverá propriedade. Em sua edição do Contrato, M. Halbwachs chega a dizer que,
em plena lógica do sistema rousseoísta, o soberano "poderia admitir que todos os
bens permanecerão comuns e que, tal como estado de natureza, os frutos da terra são para
todos, mas a terra não é para ninguém, ou, ainda, que a terra só pertence ao
soberano". Rousseau indica o liame entre soberania popular, subordinação do governo
a ela, limitações da propriedade e governos que a desviam, dando como resultado a
desigualdade econômica e social. O pensador gerou a distinção, no pensamento jurídico
e político, entre "soberano" e "governo".
Robert Derathé registra o fato de que essa distinção, com fortes
conseqüências na feitura das leis, não existe na maioria dos países que hoje se julgam
democráticos. Neles, "é raro que uma lei possa ser votada sem o assentimento do
governo". Mantendo-se a desconfiança de Rousseau diante dos maus governos,
autônomos face ao povo, podemos ter uma noção das imensas dificuldades, para os seus
seguidores, na Convenção, quando eles precisaram administrar, ao mesmo tempo, a
sacrossanta propriedade e os sans culottes parisienses, na Comuna. Indecisos entre
a burguesia e as massas, os jacobinos terminaram num zigzag que os conduziu à
guilhotina.
Tomemos Robespierre. Nos primeiros tempos da Revolução, ele sustentou
a idéia, pouco ortodoxa em termos rousseoístas, da soberania dos deputados. Apenas
depois de 1791, quando se convenceu de que a Assembléia Nacional não tinha força para
vencer os inimigos da França, insistiu sobre a soberania popular. Mesmo assim, no
discurso proferido em 24 de abril de 1793, sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, Robespierre, falando sobre a propriedade afirma: "Ao definir a liberdade
como o primeiro dos bens humanos, o mais sagrado entre os direitos naturais, dissestes com
razão que ela tinha como limite os direitos alheios. E por que não haveis aplicado tal
princípio à propriedade, uma instituição social?". Entre as medidas avançadas
por ele, esquecidas pelos convencionais, está "o princípio do imposto
progressivo". Na "Declaração" escrita por Robespierre, lemos: "o
direito de propriedade é limitado, como todos os demais, pela obrigação de respeitar os
direitos dos outros". Para garantir este ponto, o artigo 16, do mesmo texto, termina
afirmando que "o povo, quando lhe agrada, pode mudar o seu governo e os seus
mandatários". No artigo 26 temos a doutrina sobre governo: "As funções
públicas não podem ser consideradas como sinais de superioridade, nem como recompensa,
mas como deveres públicos. Os delitos dos mandatários do povo devem ser severa e
agilmente punidos. Ninguém possui o direito de se pretender mais 'inviolável' do que os
outros cidadãos. O povo tem o direito de conhecer todos os atos dos seus mandatários;
estes devem prestar contas fiéis da sua gestão e sujeitar ao seu juízo com
respeito".
No discurso "Sobre a Constituição", pronunciado em 10 de
maio de 1793, Robespierre coloca a aporia ainda hoje irresolvida nos Estados republicanos
que se julgam democráticos: "Dar ao governo a força necessária para que os
cidadãos respeitem sempre os direitos dos cidadãos; e fazer isto de um modo tal que o
governo nunca possa violar estes mesmos direitos". O governo, continua, "é
instituído para fazer a vontade geral respeitada. Mas os governantes possuem uma vontade
particular: e toda vontade particular tenta dominar a outra". Qualquer constituição
deve, segundo Robespierre, "defender a liberdade pública e individual contra o
próprio governo". De modo rousseoísta, ele ataca: "o povo é bom e seus
delegados são corruptíveis: é na virtude e na soberania do povo que precisamos buscar
uma barreira contra os vícios e o despotismo do governo... A corrupção dos governos tem
sua fonte no excesso do seu poder e na sua independência nos confrontos com o povo
soberano". Robespierre invectiva a "velha mania dos governos de querer muito
governar".
Apesar dessas proclamações, o político termina afirmando que
"no governo representativo não existem leis constitutivas tão importantes quanto as
que garantem a regularidade das eleições". E a solidez de uma Constituição se
baseia "na bondade dos costumes, no conhecimento e no sentido profundo dos sagrados
direitos do homem". Empurrado pelas massas e cercado pelos contra-revolucionários de
todos os matizes, dentro e fora da Convenção, o setor jacobino encara, finalmente, o
problema do governo comum e suas diferenças com o governo revolucionário. O primeiro
conserva a República, o segundo funda a mesma. O governo revolucionário extrai sua
legitimidade da "mais santa dentre as leis, a salvação do povo" e da
necessidade. Governo revolucionário não significa "anarquia nem desordem. O seu fim
é, pelo contrário, reprimir as duas coisas, para conduzir ao domínio das leis (...)
quanto maior o seu poder, quanto mais sua ação é livre e rápida, tanto mais é
necessária a boa fé para dirigi-lo". (Relatório apresentado em 25 de dezembro de
1793 à Convenção, em nome do Comitê de Salvação Pública). A mudança de
"soberania popular" para "ditadura" é clara. A última salva o povo.
Mas, e se os ditadores usufruírem o poder para si apenas? A resposta
de Robespierre desalenta: o ditador deve ser virtuoso. Já Diderot advertira o perigo do
tirano amável e querido pelo povo. No mínimo, seus sucessores, ou ajudantes,
eternizariam a escravidão voluntária das massas. Através de muitos meandros,
finalmente, deu-se, na Convenção jacobina, o que temia Rousseau: o governo, para
"instituir" a boa República, tornou-se "superior" à população.
Este ensaio de autonomia dos "funcionários do universal", frutificou de muitos
modos. Madame de Stael ressalta, nas Considerações sobre a Revolução Francesa, que
após o Termidor, com o advento do governo militar e burocrático de Napoleão, foram
mantidos vários prismas formais das Constituições revolucionárias, sobretudo os que
forneceram ao Corso instrumentos para eliminar do campo político os seus adversários. Os
sans culotte, nas Assembléias Populares, insistiam na idéia e na prática da
soberania do povo e na revocabilidade tanto dos deputados (chamados por eles
"mandatários") quanto dos funcionários públicos. Em 1º de setembro de 1792,
a seção "Poissonière" declara: "considerando que o povo soberano tem o
direito de prescrever aos seus mandatários a via a ser seguida para agir conforme a sua
vontade", os deputados deveriam ser discutidos, aprovados ou reprovados pelas
Assembléias primárias. A Assembléia Geral do "Marché-des-Innocents" decidiu,
em 25 de agosto de 1792," que os deputados serão revocáveis por vontade de seu
Departamento", bem como "todos os funcionários públicos".
Todas essas noções deixam de ser veiculadas e propostas, com a
constituição do governo revolucionário e com a ditadura do Comitê de Salvação
Pública, o qual "revocou" estas práticas de soberania popular.(9)
Os ditadores, na empresa do Estado, "despediram o povo", como este podia
despedi-los antes do governo "instituinte". Como disse, este ato de expulsar o
povo da cena decisória, serviu para os que derrubaram Robespierre, e assim por diante, de
golpe em golpe, passando pelo grande Napoleão, e pelo pequeno, até a época da Comuna de
Paris, com o governo Thiers, fruto lídimo e máximo da contra-revolução Termidoriana.
Alain Badiou, em texto grave de conseqüências, escreveu recentemente
sobre o conceito de "termidoriano".(10) Neste estudo, o
autor discute certas idéias recebidas na historiografia habitual, incluindo a marxista de
Soboul e outros, para quem o 9 Thermidor consistiu no "fim do Terror". Isto,
argumenta Badiou, não é verdade. "A Convenção Termidoriana foi, ela mesma,
fundada num massacre terrorista. Robespierre, Saint-Just, Couthon, foram executados no 10
Termidor, com dezenove outros, sem nenhum julgamento. Em 11 Termidor, a quantidade é de
71 mortos, a mais elevada de toda a revolução".
Ou seja: o procedimento do Terror não se confinou nas mãos dos
jacobinos. Ele foi usado pela contra-revolução durante os anos 94 e 95. É preciso
recordar a idéia de que a ditadura jacobina deveria estar em "boas mãos"
virtuosas. Esta base subjetiva, comenta Badiou, expõe a precariedade desta política. Os
Termidorianos, justamente, usaram o poder ditatorial à imagem da constituição do Ano 3.
Nela, a Virtude foi substituída pelo "mecanismo estatal da autoridade dos
proprietários, o que significou instalar a corrupção no coração do Estado". Não
se faz nenhum segredo, naquele texto, da ruptura entre povo e dirigentes do Estado. No
artigo 366, diz-se com clareza solar: "Toda tropa não armada deve ser
dissolvida". As petições, segundo o artigo 364, devem ser estritamente individuais.
"Nenhuma associação pode apresentar petições coletivas, a não ser as autoridades
constituídas, e apenas para objetivos próprios às suas atribuições". E,
finalmente no artigo 361: "Nenhuma assembléia de cidadãos pode se qualificar como
sociedade popular". Com o Termidor, muda o alvo dos governantes terroristas. Ele,
agora, são os que afirmam o caráter popular da soberania. A fonte do Terror é o Estado,
baseado no censo dos proprietários. Não tem razão, pois, a historiografia que fala no
"fracasso" jacobino e na irrupção da "verdadeira" essência
burguesa, com a totalidade do processo revolucionário.
Não houve "fracasso", mas o "fim" de uma
política, a jacobina. Citando Saint-Just: " o que desejam os que não querem nem
virtude nem terror?". Os termidorianos, avança Badiou, não querem um Estado baseado
na virtude, mas querem o terror estatal. A virtude foi substituída pelo interesse. Qual
interesse? O dos proprietários e do mercado. Citando o termidoriano Boyssi d'Anglas, em
discurso de 5 Messidor, ano 3: "Devemos ser governados pelos melhores (...) ora, com
poucas exceções, só podemos encontrar semelhantes homens entre os que, possuindo uma
propriedade, são apegados ao país que a contém, às leis que a protegem, à
tranqüilidade que a conserva".
Enquanto a "virtude" era uma determinação subjetiva,
"os melhores", dos termidorianos são uma figura objetiva da propriedade
"condicionada absolutamente".(11) Para o termidoriano, o
país não é, como para o jacobino, o lugar possível das virtudes. Ele é o receptáculo
da propriedade. A lei, para o termidoriano, não é máxima derivada do nexo entre
princípios e situação. Ela é apenas o que protege a propriedade. A insurreição, para
o termidoriano, não é dever sagrado. A sua reivindicação principal é a
tranqüilidade. Badiou traz a noção de "termidoriano" para nossos dias.
"Meditar sobre a corrupção", diz ele, "não é hoje uma tarefa
inútil". Um termidoriano, por definição política, é um corrompido. Ele é um
"aproveitador da precariedade das convicções políticas. Mas em política só
existem convicções (e vontades). "E historicamente, como indica corretamente
Badiou, "os termidorianos são, o dossier é claro, corrompidos no sentido
corrente. E não é por nada que eles vieram depois do Incorruptível. Citemos o dinheiro
inglês, que eles receberam com abundância, o saque dos bens nacionais, o açambarcamento
dos grãos. Citemos a pilhagem militar (Termidor também é a passagem da guerra
republicana, defensiva e baseada em princípios, à guerra de conquista e rapina) e o
mercado de fornecimento aos exércitos".
Ademais, Badiou lembra o conúbio termidoriano com os donos de escravos
e das colônias. Ou seja, para todo termidoriano, "histórico ou de hoje, a categoria
da Virtude é declarada sem força política". Para ter eficácia, é preciso que a
política seja interesse do mercado. É isto o que Badiou chama o "fim" de uma
política, com o velho oportunismo, incluindo pessoas "de esquerda" que vendem a
alma por um cargo, no primeiro ou último escalão. "Um termidoriano é
constitutivamente (como sujeito) alguém à procura de um lugar". O mais terrível,
arremata Badiou, é que os "termidorianos históricos não foram aristocratas
exteriores, restauradores, ou mesmo girondinos. Eles eram gente da maioria robespierrista
da Convenção".
Os defensores da soberania popular são "irracionais",
segundo os termidorianos. Boyssy d'Anglas, o mesmo que falava dos proprietários como os
"melhores governantes", forneceu o exemplo em seu discurso: "Se forem dados
a homens sem propriedade os direitos políticos, sem reserva, e se eles sentarem nos
bancos legislativos, eles excitarão ou deixarão excitar agitações sem temer os
efeitos; eles estabelecerão ou deixarão estabelecer taxas funestas ao comércio e à
agricultura, porque não terão sentido, nem temido, nem previsto, as terríveis
conseqüências, e eles nos precipitarão enfim nas convulsões violentas das quais
estamos apenas saindo".(12)
Assim, mantendo a máquina estatal e afastando a soberania popular, os
termidorianos, até e depois da Comuna, utilizaram a repressão, o terror, para garantir
os proprietários e os "empregos governamentais" para os intelectos acadêmicos,
ou suficientemente letrados para servir como escribas e racionalizadores do social. Após
certo tempo, os "engenheiros da sociedade" foram submetidos aos
"economistas", nova casta de infalíveis servidores do Estado e dos governos,
grandes protetores da santíssima propriedade.
Com o Estado napoleônico, fruto do Termidor antidemocrático, refluiu
definitivamente a tese da instrução do verdadeiro soberano, o povo, para que ele pudesse
exercer suas prerrogativas. A partir daí, foram separados por um abismo os ideais
democráticos e o saber. A maior parte das propostas de governo e de conhecimento
científico apartaram o povo e os intelectuais. Para Augusto Comte, estratégico se
quisermos entender o Estado, a ciência e a tecnologia em nosso país, a liderança
política pertence aos cientistas e aos industriais. Ao povo destinam conhecimentos
elementares.
Comte recusou a soberania baseada na opinião. A democracia, pensava
ele, é um governo que apenas substitui o dogma da infalibilidade papal por outro, o da
infalibilidade popular. Tais doutrinas desmembrariam "o corpo político, colocando o
poder nas classes menos civilizadas". A forma democrática seria a "fonte das
revoluções". "Nem a opinião dos reis, nem a opinião dos povos podem
satisfazer a necessidade fundamental de organização que caracteriza os tempos
atuais".(13) Mesmo avesso à soberania "das classes menos
civilizadas", Comte propôs uma "Biblioteca do Proletário" cujo conteúdo
até hoje seria considerado "utópico" por muitos que reduzem a educação das
massas ao manejo técnico. Entre as obras a serem lidas pelos proletários, temos a Aritmética
de Condorcet, a Álgebra e a Geometria de Clairaut, O Curso de Análise
de Navier, as Reflexões sobre o Cálculo Infinitesimal de Carnot, A Teoria das
Funções de Lagrange, etc.(14) Uma lista assim, em nossos dias,
se atualizada, seria rara mesmo nos primeiros anos da graduação universitária.
Os positivistas brasileiros formularam o desejo de ampla educação
técnica das massas, sob controle dos sociólogos. Lembremos o projeto de educação
proletária, submetido ao Governo Provisório por Teixeira Mendes, através de Benjamin
Constant (25.12.1889). "O aperfeiçoamento do homem, mesmo no ponto de vista
exclusivamente material, é mais importante do que o melhoramento dos aparelhos
industriais, por que (...) não houve nunca instrumento bom para o operário ruim. O
desenvolvimento da indústria moderna vai exigindo do proletário cada vez maior
instrução para bem manejar as máquinas. E, por outro lado, a vida republicana exigindo
que cada cidadão cumpra espontaneamente o seu dever, vai impondo a cada um maior grau de
moralidade e instrução para a prática e o conhecimento do mesmo dever. E como conseguir
tudo isso enquanto o filho do proletário, isto é, a massa da nação futura viver na
miséria e ao abandono de todos os recursos?".(15)
Apesar dessas noções comoventes, o programa positivista recusa a
democracia eletiva, prega a ditadura dos intelectuais competentes, unidos aos empresários
e banqueiros. Há em Comte uma tese que julgaríamos nova, caso a víssemos estampada nos
jornais. Cito o teórico: "Em cada república particular o governo propriamente dito,
isto é, o supremo poder temporal, pertencerá naturalmente aos três principais
banqueiros, respectivamente dedicados de preferência às operações comerciais,
manufatureiras, e agrícolas".(16)
Algo no programa positivista sobre o Estado é estratégico para a ciência e a
técnica. Trata-se da eminência do Executivo contra os demais poderes. No positivismo,
semelhante ditadura foi nuclear, herança mantida e ampliada ao longo de nossa história
republicana. A versão menos rigorosa desta ditadura encontra-se nas fórmulas de Pierre
Laffite, defendidas por Benjamin Constant: a "preponderância do Governo sobre as
Assembleias, preponderância que se caracteriza sobretudo pela iniciativa; e, em segundo
lugar, pela concentração numa única pessoa, dessa ação diretora governamental".(17) Esta noção se transformou em prática no Exército, onde o programa
positivista encontrou larga audiência. A colaboração da Escola Politécnica no impulso
aos batalhões de engenharia, e a aplicação direta de saberes por militares na defesa
nacional deve-se a esta atitude centralizadora, baseada em conhecimentos científicos e
técnicos.
Nada a estranhar se os engenheiros militares, com seus pares civis
positivistas, êmulos de Luiz Pereira Barreto, tenham formado a espinha dorsal dos planos
científicos e políticos, durante muitos governos republicanos, mesmo na ditadura Vargas,
a qual abriu os primeiros espaços para uma experiência em grande escala de produção
científica e técnica com bases nacionais. Como disse o Sr. Fernando Henrique Cardoso, os
oficiais militares "constituiam um grupo educado que passava boa parte de sua
formação nas cidades e que se define profissionalmente por sua relação com o Poder
(...) sacerdotes de um culto que lhes era familiar, o do Estado".(18) Na consciência militar brasileira, temos as metas de concentrar a
ciência e a técnica, conseguir a tutela do poder civil, impor a eminência do executivo,
engendrando intelectuais que se definem pelo culto ao Estado e pelas iniciativas nestes
planos.
Semelhante exame de várias doutrinas sobre a ciência e o Estado,
sobre a opinião pública e os cientistas, leva aos seguintes itens:
1) Desde Hobbes, a ciência e a técnica são matérias do Estado. O
povo deve obedecer e não tem forças para captar a ciência, e as suas diferenças face
à mera aplicação utilitária, imediata.
2) Numa via, a kantiana, depois a hegeliana, o povo é
ignorante em termos científicos, e não pode se arvorar em patrono do conhecimento. Este
é propriedade do Estado, como a ciência, e não de uma suposta soberania popular.
3) O setor das Luzes mais democratizante, através da Enciclopédia
e de Condorcet, lutou por uma formação ampla do povo, para que ele pudesse
governar e decidir sobre todas as questões de seu interesse, dentre as quais a ciência e
a técnica, ocupando lugar eminente. Em Rousseau e nos seus discípulos, foi acentuada a
soberania popular, mas longe das ciências e das técnicas. Deste modo, soberania do povo
e misologia foram identificados pelos conservadores, que indicaram no Terror o reino da
ignorância popular, quando de fato trata-se de outros pontos diversos ao do saber. O
fulcro real, efetivamente, era o controle social da propriedade.
4) Com o Termidor, ergueu-se a tutela dos intelectuais sobre o povo, e
uma proteção especial do Estado, no tocante ao ensino e à pesquisa científica.
5) Afastada a soberania popular, o Estado tornou-se o sujeito,
especialmente no Executivo, das ciências e das técnicas. Assim, ele foi posto acima da
sociedade e das formas de pesquisa científica.
6) A mediação entre sociedade e universidade ou laboratórios de
pesquisa deu-se por intermédio do Estado, especialmente do Executivo, uma vez que os
Parlamentos e o Judiciário foram excluídos da iniciativa, na formulação das políticas
científicas e tecnológicas.
7) Esta situação tem origens remotas, como vimos, mas indica uma
curva lógica de Hobbes até os nossos dias. Ou os pensadores defendem a soberania do
Estado (como Hobbes, enquanto paradigma), e nesse caso os cientistas e seus trabalhos são
atributos estatais, ou eles defendem a soberania popular, sendo então os cientistas
autônomos diante do Estado, apesar de receberem dele a remuneração, e ligam-se às
nações e ao povo soberano (o paradigma aqui é a Enciclopédia francesa). O
positivismo tentou unir formação técnica das massas, com a negação de sua soberania.
Assim, reforçou a ditadura de um só homem, posto no ápice do poder Executivo, tendo a
força da iniciativa em tudo o que se refere aos negócios públicos, especialmente no
plano educacional e científico.(19)
A "mundialização" afetou a "iniciativa" do
Executivo, no mesmo passo em que colocou em cheque os demais poderes do Estado, os
Parlamentos e o Judiciário. Seja qual for o sentido desta palavra, é claro pelo menos
que os atores sociais clássicos tendem a considerá-la sob vários prismas. Os políticos
a enxergam como algo que supera o Estado nacional. Os sindicalistas nela encontram uma
nova oposição entre capital e trabalho, induzida pela crescente importância do setor
financeiro no capitalismo. Os intelectuais, em especial os economistas, nela encontram um
novo crivo entre trabalho qualificado e trabalho não qualificado.(20)
Com a globalização,(21) ou contra ela, uma
realidade espanta: hoje, a partilha de riquezas e de saber planetários é cada vez mais
alarmante. Os 20% mais ricos do mundo guardam mais de 80% do PIB mundial. O número dos
pobres cresce no ritmo da população da Terra, 2% ao ano. Estas cifras são apresentadas
pela ONU e pelo Banco Mundial. Mas o nome e a propaganda não podem esconder por muito
tempo um traço: os Estados Unidos e outros Estados nacionais supostamente moribundos,
exportam hoje bens mais intensivos em trabalho do que os que eles compram no exterior.
São mercadorias que exigem mais trabalho e menos capital as exportadas pelos países
ricos. A vantagem destes últimos diante dos pobres reside na composição de sua mão de
obra, a parte do trabalho nela qualificado.(22) E não existe
trabalho nacional qualificado sem, antes, um pesado investimento em ciência e técnica.
Embora aceitando-se esse ponto, nota-se uma desvalorização do Estado
nacional enquanto força da vontade política. Entre países que mantêm a soberania e se
preocupam com a qualidade de sua mão de obra e a propaganda de uma reorganização
territorial, uma "república mundial utópica", como pensar um mundo político
onde o Estado não tenha o papel dirigente, a iniciativa em todos os campos?(23)
Seja afirmando a debilidade do Estado nacional, seja negando-a é consenso indicar que, ao
lado do papel cada vez mais amplo do capitalismo financeiro, neste processo tem-se a
revolução técnica unida à informática, a qual afeta profundamente o nexo entre
capital e trabalho. Indicam vários teóricos: os trabalhadores sem instrução
técnico-científica empobrecem, enquanto os demais tornam-se mais ricos.(24)
Como enuncia Daniel Cohen, este fenômeno deve-se menos à globalização do que a uma
forte mudança tecnológica.
Este último autor mostra duvidar do possível preenchimento do abismo
que se abre, mesmo nas economias fortes, entre os trabalhadores sem instrução
tecnológico/científica e os que se qualificaram neste prisma. Neste campo, outros
autores defendem a aplicação de recursos na mão de obra, tornando-a cara (à diferença
das flexibilizações do trabalho, com seu barateamento, propostas entre nós e nos outros
países intermediários entre o desenvolvimento e o atraso) com o fito de tender para a
diminuição do deficit social. Trata-se de, via Estado, diminuir as desigualdades
mais gritantes entre os trabalhadores, requalificando-se a mão de obra para o trabalho
exigido pelas novas técnicas. Nas teses de um novo keynesianismo afirma-se que o
sistema capitalista, se quer sobreviver a si mesmo, deve preservar o Estado providência e
sua vontade de reduzir as desigualdades.(25)
Assim, após o Tratado de Maastricht, e o seu atual questionamento,
após a vitória da esquerda na França, após o fim da URSS, com uma nova estratégia de
defesa, e após as experiências neoliberais, se esboça a tendência de se redimensionar
a soberania nacional, e mesmo velhas questões como a soberania do povo. Não se fala mais
com certeza sobre o "fim" do Estado nacional.
Como todos os demais aspectos do Estado anterior ao neoliberalismo
(saúde, educação, comércio, indústria etc.), o plano da ciência e da técnica volta
a ser algo que merece uma consideração, em termos de políticas públicas, estatais.
Para conseguir uma vida mais segura, os países ricos da Europa e de outros continentes
investem na educação de seu povo, fornecendo maior cuidado aos itens científicos e
técnicos. Este aspecto define a hegemonia no próprio mercado planetário, locus de
uma luta entre companhias com abrangência mundial, mas sediadas em determinadas nações,
que delas recebem muito, mas que a elas também fornecem apoio tático armado e
diplomático essenciais.
Não se trata de ignorar as teses que afirmam o fim do Estado nacional
e da universidade idem. Mas importa não ficar mesmerizado pela propaganda, mesmo que sob
aparência acadêmica, a qual avança, sem provas lógicas, históricas e outras, a idéia
de que mesmo nos países ricos, como os europeus e nos EUA, sumiu o Estado nacional. Este
diagnóstico mostra todo seu equívoco no trabalho de Bill Readings, The University in
Ruins.(26) Alí, o autor afirma que a
universidade estadunidense atingiu a era do comércio absoluto, desvinculando-se do Estado
nacional norte-americano. Os campi seriam algo assim como o shopping center
do bairro, onde alunos buscam "mercadorias" — técnicas — adequadas
para vencer no campo do trabalho, cada vez mais elitista pelas diferenças na formação
dos indivíduos e grupos. O livro traz muitos aspectos verdadeiros, mas
"esquece" alguns elementos básicos. Por exemplo, ele se cala sobre os
investimentos estatais, combinados com os particulares, na pesquisa científica e técnica
tendo em vista produzir, em universidades importantes, ciências que se traduzam em
engenhos de guerra cada vez mais sofisticados. Se não há soberania nacional e hegemonia
em escala do planeta, por que este setor é vivo, nos países ricos?(27)
As desigualdades entre os trabalhadores qualificados e os não
qualificados tendem a se afirmar como desgraça inelutável, ou exigem o retorno
(naturalmente com muito engenho e arte) do Estado à iniciativa das políticas
educacionais, de ciência e tecnologia. Os desníveis nas sociedades ricas tornam-se
espantosos quando eles são pensados comparando-se os habitantes dos países pobres e dos
países ricos. Assim, é preciso redimensionar o Estado, trazendo à cena os outros
poderes obnubilados ao longo dos séculos 19 e 20, os poderes Legislativos e Judiciários.
Quando se fala em esgotamento político dos Estados nacionais deve-se dizer, com maior
propriedade, esgotamento do modelo onde o Executivo, tendo à sua frente um homem e sua
pequena equipe, adquirem nominalmente força demiúrgica excepcional. Os Legislativos,
pela sua representatividade mais ampla e diversa e os Judiciários, desde que abram novas
frentes de ação, além das velhas atitudes elitistas e do jargão que os separam dos
povos, podem reinventar o político, recolhendo sugestões da sociedade mais ampla, ou
abrindo frentes para harmonizar os interesses legais da produção e da força de
trabalho.
Para isso, é mister que as universidades e institutos de pesquisa
entrem, com os poderes políticos e com os mais amplos setores sociais, numa lógica nova
do nexo entre sábios e povo ignorante. Não é mais possível aceitar o elitismo
acadêmico que mantém os campi enquanto espaço de pureza e rigor científicos,
como se a tarefa de educar os povos fosse tarefa imediata do Estado nas suas três faces,
e como se a mediação universitária não fosse urgente. Por outro lado, não é mais
possível, dada a crise do Executivo, crise projetada sobre o político em geral e sobre o
Estado, de modo indevido, que a comunidade científica persista em manter relações quase
unilaterais com este poder, ignorando os dois outros e a sociedade envolvente.
Torna-se importante rever a história do Estado e da ciência na idade moderna,
procurando os projetos que se perderam, como é o caso dos Enciclopedistas, os
re-orientando a partir dos avanços científicos atuais. A educação das massas torna-se
um crivo de soberania. Os Estados que aplicarem verbas, engenhos e tempo nesta missão,
podem ter esperanças de alguma relevância, inclusive comercial, nos próximos anos.
Hobbes e Sócrates têm alguma razão: um povo não educado para a ciência, só percebe e
só recebe aparência, sombras de riquezas, brilho de empréstimo. Intelectuais
descomprometidos politicamente com seu país, podem ter a certeza, vã, de superioridade.
Políticos que manipulam massas ignaras não possuem poder, mas ilusão de mando que pode
se esfarelar ao primeiro sopro de uma crise mundial, em termos econômicos e políticos.
_________
* Foram citados de maneira habitual apenas os textos
imprescindíveis. O autor considera perfeitamente conhecidos os trabalhos clássicos de
Robert Derathe sobre Rousseau, os livros de Albert Soboul sobre a Revolução Francesa e
outros.
** Professor de Filosofia da UNICAMP.
(1) The sciences are small Power; because not eminent: and
therefore, not acknowledge in any man; nor are at all, but in a few; and in them, but of a
few things. For Science is of that nature, as none can understand it to be, but such as in
a good measure have attayned it. Leviathan, Chapter 10. Edited by C.B.
Macpherson. London, Pelican Classics (Penguin Books) 1977, p. 151.
(2) Cf. Platão, "Gorgias" (521 C - 522 C). Trad. Leon
Robin, Pleiade, Oeuvres Completes de Platon, v. 1.
p. 481-182.
(3) Hobbes, Thomas. Le Citoyen ou Les Fondements de la
Politique. Trad. de Samuel Sorbiere (secretário de Hobbes em Paris), 1649. Uso a
edição da Ed. Flammarion, Paris, 1982. p. 226-227.
(4) Das Volk will geleitet, d.i. (in der Sprache der Demagogen)
es will betrogen sein. Es will aber nicht von den Fakultätsgelehrten (denn deren Weisheit
ist ihm zu hoch), sondern von den-Geschäfsmannern derselben, die das Machwerke (savoir
faire) verstehen, von den Geistlichen, Justizbeamtun. Arzten geleitet sein...". Note-se
que a palavra mais frequente nesta passagem é o verbo "dirigir". O povo quer
ser dirigido, deseja soluções prontas na religião, no direito, na medicina. É, deste
modo, presa fácil dos milagreiros e demagogos. Cf. Der Streiten der Fakultäten, in
Werkausgabe, F.A.M. Suhrkamp, 1977. T. 11, 1.
p. 294-295.
(5) Cf. "Fundamentos da Filosofia do Direito", § 317,
quando Hegel opõe a "opinião pública" à ciência e cita Ariosto: Che'i
volgare ignorante ogn'riprenda/ E parli piu di quelche meno intenda. In Werke in
zwanzig Banden. F.A.M. Suhrkamp Verlag. 1970.
(6) Cf. Kintzler, Catherine. Condorcet L'Instruction Publique
et la Naissance du Citoyen. Paris. Minerve/Folio. 1984, p. 44-45.
(7) Plan d’une Université. In Oeuvres (ed. L.
Versini). Paris. Robert Laffont, 1995, T. 3, p. 411 e ss.
(8) Cf. Kintzler, Catherine. op. cit., p. 87 e ss. Esta autora
desenvolve longamente o ideal condorcetiano do Homo suffragans, com base na
instrução científica e técnica das massas. Seu livro é fundamental para todo debate
sobre a instrução.
(9) Citações em Iring Fetcher, La Filosofia Politica di
Rousseau. Per la Storia del Concetto democrático di libertà. Milano, Feltrinelli,
1972, p. 262-263.
(10) Qu’est-ce qu’un Thermidorien? In: La République
et la Terreur, org. por Catherine Kintzler e Hadi Rizk, Paris, Kimé, 1995, p. 53-64.
(11) Cito sempre Badiou.
(12) Citado por Badiou, op. cit., p. 62.
(13) Cf. Plan des Travaux Scientifiques Nécessaires Pour
Réorganiser la Societé (1822). Écrits de Jeunesse. Paris, Mouton, 1970, p.
248-253.
(14) Cf. Catéchisme Positiviste. Paris, Flammarion, 1966,
p. 51-55.
(15) Documento citado e analisado por Ivan Lins, História do
Positivismo no Brasil. São Paulo, Cia. Editora Nacional Coleção Brasiliana, v. 322,
1964, p. 364 e ss.
(16) Catéchisme Positiviste, ed. cit., p. 245.
(17) Citado e analisado em Lins, 1, op. cit., p. 330-331.
(18) F.H. Cardoso, Dos Governos militares a Prudente de Moraes.
In: História da Civilização Brasileira. São Paulo, DIFEL, 1975, t. 3, v. 1,
p. 30.
(19) Dados os limites do tempo e do espaço disponíveis, não
analiso aqui as vertentes do poder e da ciência no campo socialista do século 20. A
tríade Estado sujeito / intelectual tutelar / povo ensinado e dirigido, também imperou
naquelas experiências políticas, não raro com resultados catastróficos. Basta lembrar
a "abolição" dos enunciados de Mendel, por ideólogos como Lyssenko, mais
ocupados em justificar os poderosos do que em definir o verdadeiro. As colheitas
soviéticas se encarregaram de evidenciar a mentira daqueles procedimentos
"científicos".
(20) Cf. Jean Pisani-Ferry, na revista Alternatives
économiques (julho/agosto de 1996).
(21) Engelhard, Philippe: L’Homme mondial. Les sociétés
humaines peuvent-elles survivre? Paris, Arléa, 1966, p. 113.
(22) Cf. Elie Cohen. La Tentation hexagonale. La souveraineté
à l’épreuve de la mondialisation. Paris, Fayard, 1966, p. 38-39.
(23) Cf. Olivier Mongin, Les Tournants de la mondialisation. Revista
Esprit. Novembro de 1996, Boa parte deste trabalho deve muito a este importante
artigo.
(24) Cf. Cohen, D. Richesse des Nations, pauvreté du monde. Citado
por Mongin no artigo mencionado acima.
(25) Olivier Mongin cita Jean-Paul Fitoussi, para esta tese.
(26) Cambridge, Harvard University Press, 1996.
(27) Para uma análise oposta à realizada por Bill Readings, cf.
William I. Robinson: Promoting Polyarchi. Globalization, US Intervention, and Hegemony.
Cambridge, 1996.
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Infelizmente, os senhores convidaram, para falar sobre o tema A Universidade e o Neoliberalismo, um estudioso da Filosofia.
Infelizmente, os senhores convidaram, para falar sobre o tema A Universidade e o Neoliberalismo, um estudioso da Filosofia.
Num primeiro instante, enuncio certos conceitos fundamentais do próprio liberalismo e do Estado para, depois, me referir ao núcleo da questão. Um engano trazido pelo item "neo", aposto ao liberalismo, é o de fazer o espírito olvidar o significado mais duro do próprio liberalismo. Longe de ser um ideário simples e democrático, o conjunto de doutrinas que o termo "liberal" evoca é muito complexo. Ele pode encerrar atitudes libertárias e democratizantes, opostas ao poder absoluto do rei, por exemplo, mas pode também trazer em si mesmo, como veneno escondido, teses contrárias à democracia. Não raro, ele traz alguns dogmas perfeitamente genocidas, justificando as atuais façanhas de seu filho, o suposto "neo" liberalismo. Não existe nenhuma correção de rumos, para pior, no que hoje apontamos sob o "neo". Ele radicaliza os traços mais hediondos do movimento que o gerou nos séculos XVIII e XIX.
Tomemos alguns exemplos teóricos estratégicos. O liberalismo une-se, quase universalmente, ao pensamento de John Locke. Leiamos o que esse pensador afirma no Segundo Tratado sobre o Governo: "o maior e principal fim, pelo qual os homens reúnem-se em sociedade, e se colocam sob um governo, é a preservação da propriedade" (II, 124). Ser homem é ser proprietário, o trabalho fundamentando essa antropologia. Quem não trabalha pode ser, inclusive, escravizado pelos homens "bons", os proprietários. Citemos Locke: um homem, "tendo cometido, por sua falta, um ato que merece a morte, aquele contra o qual foi cometida esta falta, o tem em seu poder, e pode usá-lo, para seu próprio serviço. E isso não é um dano para ele, pois enquanto ele considera o peso de sua escravidão demasiado, diante de sua vida, ele pode, resistindo à vontade de seu senhor, trazer para si a morte que deseja". Comenta a Professora Maria Sylvia Carvalho Franco, em artigo sobre nosso liberal,
"O desleixo no trabalho, atividade basicamente aquisitiva, fundamento da propriedade, justifica, na ordem lógica e ética, no sistema de Locke, o seu confisco e uso em favor dos operosos e racionais. Do mesmo modo, a quebra da paz e harmonia originárias, configurando crime, colocam o delinqüente à mercê do ofendido, cabendo-lhe apreender seus bens–trabalho, propriedades, vida"("All the world was America", Revista USP, Dossiê Liberalismo).
Desse modo,
"a presença do escravo, no Segundo Tratado, nada apresenta de contraditório com o liberalismo: prática e teoricamente (...) a justificativa da escravidão é uma conseqüência última, que deriva dos seus pressupostos: o poder atribuído ao espécime perfeito de confiscar, de modo total, os predicados constitutivos da pessoa humana, naqueles considerados defeituosos e nocivos" (Ibid.).
Nessa tarefa de fundamentar a igualdade dos iguais, os proprietários operosos, Locke move todos os saberes de seu tempo, sobretudo a história natural, classificando os indivíduos segundo suas marcas exteriores. Quem trabalha coloca em operação uma força, oferecida por Deus, e adquire propriedade sobre as coisas exteriores, ao mesmo tempo em que assegura a propriedade de si mesmo. Quem não trabalha não aceita o dom divino, ameaça as propriedades alheias, sobretudo a propriedade sobre o corpo. Desse modo, segundo Locke, os que não trabalham devem ser vistos como "bestas feras" contra as quais os piores castigos precisam ser aplicados e, dentre eles, a perda da existência ou a escravidão.
Quem estuda a história inglesa, desde o final da Idade Média até o século XVII, sabe que os "preguiçosos" compunham, na verdade, a massa de camponeses expulsos de suas terras, as quais passaram ao domínio da aristocracia e dos ricos mercadores. Desse modo, ao atribuir aos desapropriados a "culpa" de sua não propriedade, Locke universaliza argumentos que servem, até hoje, para definir uma desigualdade lógica, fruto de uma desigualdade histórica e economicamente estabelecida.
• • "A série de argumentos sistematizados por Locke, em sua doutrina, é autoconcludente: o conceito de homem como espécie na ordem natural, a lógica e o entendimento classificatórios que o agrupam e distribuem por uma taxinomia, distinguindo os perfeitos e os degenerados; a atualização de sua potencialidade específica, concebida" (Ibid).
Tudo isso conduz a "um inclemente domínio político e socioeconômico".
Inspecionando as doutrina liberais de Locke e comparando-as às falas "neoliberais", conclui a Professora Carvalho Franco
• "Não há como tornar o chamado ‘neoliberalismo’ distinto e menos agressivo que a doutrina clássica: os princípios que sustentam o seu desenvolvimento são os mesmos: propriedade seletiva, mercado soberano, liberdade como prerrogativa de alguns, diferenças, cada vez maiores, atribuídas aos que sucumbem nos processos competitivos" (Ibid).
Esse ponto é nuclear porque, não raro, quando se indicava, antes da onda neoliberal de hoje, certos traços imanentes ao liberalismo, como o perfeito convívio com a escravidão, sempre algum bem pensante dizia não ser possível confundir racismo com liberalismo. Entretanto, o que notamos, nos argumentos de Locke, é a perfeita adequação do principio da propriedade e liberdade de todos os proprietários. Quem não é proprietário é fera que pode e deve ser colocada a serviço dos que são iguais entre si. O escravo pode possuir qualquer pigmentação da pele: basta que ele tenha atentado, ou possa vir a atentar, em algum momento, contra a propriedade, a marca humana dos "homens bons", para ser reduzido ao status de não homem.
Locke não é único liberal prestigioso a proferir essas doutrinas terríveis. Os textos de doutrina jurídica cantam os louvores a I. Kant, o pai do liberalismo e da idéia moderna de autonomia.
Vamos conferir o que diz o teórico da Critica da Razão Pura:
"Os negros da África só receberam da natureza o gosto pelas tolices... Branco e negro, essas duas raças de homens, parecem tão diferentes em sensibilidade quanto na cor. O culto dos fetiches, muito honrado entre os negros, é talvez uma espécie de idolatria tão miserável que parece contradizer a natureza humana. Uma pena de pássaro, um chifre de vaca, uma ostra ou qualquer outra coisa comum, desde que tenha sido consagrada por algumas palavras, torna-se objeto de veneração. Os negros são extremamente vadios e tão tagarelas que é preciso dispersá-los com golpes de bastão" (KANT. Observações sobre o Belo e o Sublime, Quarta Seção, "Sobre os caracteres nacionais").
No juízo negativo, é ressaltado o elemento valorizado no branco europeu: a sua capacidade intelectual, o seu gosto sensível, o seu trabalho. Nesse passo, Kant continua, de modo explícito, um herdeiro direto de Locke, David Hume. No seu ensaio sobre os caracteres nacionais, diz também o liberal Hume:
Suspeito que os negros, e em geral todas as espécies de homem (porque há quatro ou cinco tipos diferentes), são naturalmente inferiores aos brancos. Nunca houve uma nação civilizada de outra compleição, a não ser entre os brancos, nem indivíduo algum tanto nas ações quanto nas especulações. Não existem engenhosas manufaturas entre eles, nem arte, nem ciência (HUME).
Poupo os senhores das teses "científicas" de Hume, um dos mais eminentes filósofos da Luzes, sobre os povos não brancos.
Mesmo Hegel, o poderoso criador da moderna dialética, apresenta uma visão bem definida nesse assunto:
"(...) o negro representa o homem natural em toda a sua selvageria e petulância; é preciso abstrair todo respeito e moralidade, o que chamamos sensibilidade, se desejamos compreendê-lo; nada pode ser encontrado neste caráter que lembre o homem. Os prolixos relatos dos missionários confirmam isto plenamente" (HEGEL. Lições sobre a Filosofia da História).
Termino a inspeção indicando os liberais de nosso tempo. Segundo os patronos da USP, os Mesquita, donos do jornal O Estado de São Paulo, os pretos seriam, e cito diretamente suas frases, "uma toxina", definida pela "massa impura e formidável de dois milhões de negros subitamente investidos das prerrogativas constitucionais (...) fazendo descer o nível da nacionalidade na mesma proporção da mescla operada" (apud: Capellato, 1993).
Com essa visão excludente, eles pensaram a Universidade de São Paulo, produtora de elites acima do povo "impuro". A universidade, para Mesquita Filho, cumpre no "organismo social" o papel do "sistema nervoso no organismo animal". Cabe-lhe, além disso, "restaurar a disciplina na mente popular" (apud: CAPELLATO, 1993 e ROMANO, 1985). Não espanta, pois, se encontramos teses congruentes, nesse plano, mas agora universalizadas para todo o povo brasileiro, preto ou branco, no liberal, neoliberal e fascista Roberto Campos. A sua doutrina é a de que ainda impera, nos meios "realistas" do Estado e da chamada sociedade civil, o eugenismo, sementeira permanente dos vários regimes deste século, de Mussolini a Pinochet. Os textos de Roberto Campos martelam a única solução para o Brasil: colocar-se de quatro diante dos Estados mais fortes e impedir a existência de novos brasileiros.
Comentando o pungente livro de Viviane Forrester (1997) sobre o cassino financeiro, que joga sempre mais desempregados na miséria, disse Roberto Campos: falar em "excluídos" cito as suas palavras grosseiras, é "empulhação". Na verdade, arremata, muitos dos chamados "excluídos", no máximo, "poderiam ser ditos ‘ainda não incluídos’, fabricados pelo espermatozoide delirante. Aos 18 milhões que moravam nas cidades em 1950, foram acrescentados 100 milhões pela paternidade irresponsável". Desse modo, o economista faz as contas e decide o que deve ser feito com os filhos do esperma delirante. Soluções finais não precisam ser apenas as que usam campos de concentração. Pode-se transformar um país inteiro em imenso campo de morte. Somos, hoje, pouco mais de 160 milhões de habitantes. Se, como afirma Roberto Campos, 100 milhões, dentre nós, surgem apenas da loucura, o diagnóstico está pronto. O tratamento usado, por enquanto, reside nos confiscos de rendas, de emprego, de escolas, de hospitais.
Assim, quando nos referimos ao neoliberalismo, esquecendo o seu vínculo com o próprio liberalismo, perdemos uma continuidade histórica, que alicerçou, nas consciências nacionais e nas classes, "argumentos" que hoje servem para colocar nossos povos na passividade diante dos atentados à vida humana, feitos em nome do livre mercado. A consciência moderna está pavimentada por ideias de exclusão, que parecem o seu contrário, a igualdade e a liberdade de todos. Esse é primeiro ponto que eu gostaria de recordar com os senhores.
O segundo gira ao redor de alguns conceitos importantes para entendermos o que se passa, hoje, no plano do Estado e quais as inovações trazidas pelo neoliberalismo. O Estado moderno, surgido das lutas contra o mando feudal e o poder discricionário da nobreza, pouco a pouco concentrou em si três monopólios essenciais, que definem a esfera pública. O primeiro monopólio é o da força física. Somente a instituição estatal possui o direito de polícia e de arregimentar exércitos. Ninguém, ou nenhuma instituição além do Estado, pode constranger corpos dos cidadãos e dos estrangeiros, em caso de grave ruptura com a vida comum, dentro dos limites do país e fora dele. Desse modo, nenhum particular pode armar-se e constranger os outros particulares com a força física.
No Brasil, apenas para exemplo, temos o costume de tomar como fato corriqueiro a contratação de guardas para nossas casas, como os fazendeiros julgam normal contratar capangas e milícias para suas propriedades, matando cidadãos impunemente. Durante a ditadura, tivemos os esquadrões da morte, as organizações secretas de assassinato e tortura, lideradas e executadas por empregados estatais, como alguns militares, mas sem que esses atos fossem oficiais. A força física do Estado só é um monopólio porque, supostamente, é orientada para preservar a vida de todos os cidadãos. Sendo aquelas organizações dirigidas para a morte de alguns cidadãos e, idealmente, de todos os que se opunham ao governo, elas eram, rigorosamente, anti-estatais, embora semi-oficializadas.
O segundo monopólio é o da norma jurídica. Só o Estado tem a prerrogativa de editar leis com vigor universal, valendo para todos e para cada um dos cidadãos. Nesse sentido, ninguém pode definir o que indivíduos, grupos, classes devem fazer obrigatoriamente. Tendo o Estado três faces, a Legislativa, a Executiva e a Judiciária, só em caso de uma ditadura, atingida por meio de golpe de Estado, um dos poderes, quase sempre o Executivo, se apropria ilegalmente desse monopólio, que deve ser repartido entre os três setores, suprimindo ou colocando o Parlamento e os tribunais sob tutela.
No caso da ditadura militar, os "Atos Institucionais" foram uma usurpação, pelo Executivo ocupado pelos castrenses, de prerrogativas que pertenceriam ao Estado na sua integridade. Em nossos dias, as Medidas Provisórias, embora sem a profundidade dos Atos Institucionais, porque supostamente devem ser ratificadas pelo Congresso, usurpam os plenos poderes do Parlamento e do Judiciário.
O terceiro monopólio é a gestão e alocação do excedente econômico. Só o Estado pode impor taxas, definir impostos obrigatórios para todos os cidadãos. Como só ele retira parte da riqueza produzida pela sociedade como um todo sob forma de impostos, só ele pode aplicar esses recursos. Ou seja, tendo o monopólio da força e da norma jurídica, somado ao monopólio da gestão do excedente econômico, só o Estado pode e deve gerir o que se chama de políticas públicas: saúde, educação, lazer, guerra, segurança interna, cultura, etc. Por mais privatizada e privatizadora que seja a instituição estatal, só ela pode definir o que a sociedade como um todo deve fazer nesses setores.
Nossa tradição estatal se caracteriza, desde a Colônia até hoje, pelo excesso no uso centralizado, posto nas mão de um só poder, o Executivo, desses monopólios que deveriam constituir a característica do Estado. Somos uma Federação regida pelo Executivo Federal e, nela, os poderes locais, os municípios, e regionais, os Estados, são entidades totalmente passivas e dependentes do que se passa no núcleo nacional.
Desde a Colônia, sim, mas também durante o Império, as Regências, a Velha República, as ditaduras Vargas e militar, o governo central abusou da força física. Nossa federação foi imposta através dos canhões, abafando tendências autonomistas e, no limite, separatistas de Norte a Sul. Os Farrapos, a Farroupilha, a República do Equador, os Mascates, etc. foram movimentações derrotadas com muito uso de força física. Isso criou o hábito de considerar "normal" que o governo do centro impusesse a sua vontade na ponta das baionetas ou, como ainda em 1932 em São Paulo, nas patas do cavalos, amarrados no obelisco paulista. Desde então, os atos repressivos do governo, com ou sem golpes de Estado, foram uma constante.
O Executivo federativo também abusou da uniformização legal. Entre nós, as normas legais são ideadas e impostas ao todo do país, sem nenhum respeito pelas particularidades regionais e pelos poderes dos Estados e municípios. É o oposto do que ocorreu na federação americana. Todos sabem que a constituição daquele país é centralista (Kramnick, 1993). Mesmo assim, ela mantém grande autonomia dos Estados, em todas as matérias, da educação à saúde e desta às leis penais.
Temos, também, excesso de centralização fiscal, em detrimento de nossos municípios e Estados. O Brasil é uma pirâmide fiscal invertida: ao contrário de outras federações, onde o retorno dos impostos vai diretamente, em primeiro lugar, aos municípios e às províncias, e apenas a menor parte segue para o governo central, dado que as maiores despesas encontram-se na base; aqui a maior parcela, desde sempre, vai para o centro federativo, que "redistribui" os recursos de acordo com suas conveniências, ou seja, as do Executivo. Certas normas fiscais são um verdadeiro atentado a qualquer autonomia regional ou municipal. A "lei Kandir", que arranca verbas dos Estados, prejudicando a saúde, a educação, a pesquisa, é uma dessas teratologias jurídicas.
Semelhantes excessos no três monopólios do poder resultam na hiperbólica centralização das políticas públicas, produzindo a sua ineficiência. São exemplos disso os casos de Caruaru, da retomada das doenças de massa e outros.
Todo esse processo centralizador segue, com lógica férrea, até às últimas consequências. A centralização de força, norma jurídica, apropriação do excedente econômico desemboca não só na centralização de tudo no Executivo. No interior deste último, ela se concentra nas chamadas "áreas econômicas". Os seus ocupantes não foram eleitos, nem o serão. Trata-se de um exercício irresponsável como o do rei absoluto. Um gabinete do Banco Central concentra maior poder do que todo o Parlamento e, não raro, do que todos os Tribunais. Os planos econômicos, aplicados na calada da noite, preparados por "técnicos", do plano Cruzado ao Real, passando pelo confisco ocorrido no "governo" Collor, todos constituem verdadeiros golpes de Estado, sem que ninguém possa impedi-los, sem que os cidadãos tenham condições de recusá-los. Impostos como a CPMF são assumidos, desviados de sua finalidade propalada, e nenhuma autoridade responsável pode reverter essa situação.
Termino esse ponto com o seguinte elemento: a política nacional, em todos os níveis, não é federativa, não é democrática, não recolhe a iniciativa de todo o Estado, mas tem a hegemonia do Executivo e, dentro dele, da área econômica, decidindo com raciocínio tacanho a maior parte dos negócios públicos, como a educação, a saúde, a Ciência e Tecnologia, etc. Os gabinetes ministeriais desses setores são apenas servos sob comando de seus superiores, os econômicos. Isso tem sido confessado, clara e distintamente, pelo atuais ministros da Educação, da Ciência e Tecnologia, etc.
Temos, pois, que o neoliberalismo se ergue sobre um passado de justificativa de desigualdades e que ele, no Brasil, teve representantes piores do que seus idealizadores europeus. Perto de Roberto Campos, o nosso "liberal", Locke, Hume e Kant são verdadeiras Madres Tereza de Calcutá. Nossa tradição política e jurídica é centralizadora, com base no abuso dos três monopólios, atributos de todo poder de Estado.
Passemos ao nosso problema. Assistimos, no mundo, sobretudo após a II Grande Guerra, algumas revoluções científicas e tecnológicas. A primeira foi a aplicação intensiva de capitais em técnicas inovadoras (energia nuclear, automação, produtos sintéticos, computadores, eletrônica). A segunda ocorreu nos anos 60, com uma segunda geração de computadores, eletrônicos, sintéticos e novas técnicas de comunicação. A primeira foi uma passagem do trabalho intensivo na indústria para o capital intensivo como o centro da acumulação, em escala mundial. A segunda foi do capital intensivo para a tecnologia e saber intensivos. Desse modo, surgem novas indústrias baseadas na tecnologia de ponta e com conteúdos científicos, como eletrônica e computação, telecomunicações, robótica, cibernética, ciência aeroespacial, biotecnologia. Esses fatos dão-se, não por acaso, nos países do Norte. Os efeitos dessas mudanças se fazem sentir, imediatamente, na quebra das barreiras nacionais. Os países do Norte aumentam em escala inusitada o controle das tecnologias, das informações, dos serviços (sobretudo as finanças) enquanto o trabalho intensivo domina os países do Sul, sem que ele passe para a outra fase, já atingida pelos países do Norte. Desse modo, ocorre uma uniformização econômica mundial, orientada segundo as opções dos Estados que possuem bases para acumular lucros, a partir de seu privilegiado status técnico e científico. Esses países concentram o controle financeiro, técnico, científico em benefício e sob gerência de elites nacionais mas com impacto multinacional.
Com isso, medidas que antes e pouco depois da II Guerra tendiam ao aumento da potência de um país, em detrimento de outros, através imediatamente do uso externo do monopólio da força física (como a doutrina Monroe, com o "big stick") ou como, durante a Guerra Fria, requisitavam o uso da forca física unida aos esforços diplomáticos intensos, mais a espionagem, como ocorreu na maior parte dos países da América Central e do Sul, com os Estados Unidos patrocinando golpes de Estado militar para definir seu controle, passam a ser incômodas ou irrelevantes para a política dessas grandes potências. Claro, se preciso, elas apelam para a força física, como ocorre atualmente no embate entre o governo iraquiano e os Estados Unidos. Mas o eficaz mesmo, no domínio, vem das armas técnicas, de informação, de controle financeiro, etc.
Os capitais dos países do Norte são impostos aos dominados, criando-se elites locais transnacionalizadas, sob o comando das elites hegemônicas. Com esse dado, surgem as teses e as práticas de uma "transnacionalização" dos Estados não hegemônicos. Em cada país dominado, temos elites tecnocráticas lideradas por elites localizadas nos EUA ou na Europa. Os instrumentos dessa hegemonia (técnicas de ponta, serviços que empregam intensamente saberes científicos, finanças, etc.) permanecem nos países citados. As elites "locais", as dos países controlados, tendem a não operar mais na lógica do Estado nacional, com os três monopólios definidos acima. Elas abrem mão de conceitos e práticas tidos como "ultrapassados", como os que definem a idéia de "soberania nacional".
Ocorre que os países dominados não são terra apenas de elites. Eles contam com milhões de seres humanos, cujos padrões de vida diminuem em qualidade, em favor dos trabalhadores dos países que possuem os elementos da segunda revolução científica e tecnológica. Enquanto o desemprego diminui nos EUA, por exemplo, sendo o menor dos 20 últimos anos, ele aumenta nos países que abrem mão do incentivo às técnicas, à educação, às ciências em nível de massa. O Brasil é o quinto importador dos EUA não por acaso. A massa de recursos drenados diretamente para a economia americana deixou de ser algo irrelevante no mercado interno daquele país. Acordos como o do SIVAM, sabe-se, assegurariam empregos para americanos do Norte aos milhares. E nada aqui.
Tendo o recurso à força física bruta se revelado ineficaz, com o fracasso das ditaduras militares, e anacrônico em termos da comunicação em escala mundial, o "novo modelo" assumido nas relações de poder, assimétrico entre os países hegemônicos e os dominados, é o da "democracia política", cujo alvo precípuo é o de concentrar as atenções permanentes das massas em processos eletivos, afastando-as o mais possível de suas demandas e exigências sociais. Desse modo, governantes são eleitos, parlamentares idem e seus atos recebem todos os holofotes, de modo a que não se discuta a ação das elites tecnocráticas, não eleitas mas unidas aos centros de decisão transnacionais. O foco principal cai sobre a corrupção dos governantes, no Executivo e nos Parlamentos ou Judiciário, de modo a enfraquecê-los ao máximo, mas sempre em nome da "democracia", ou seja, das eleições permanentes. Nenhuma palavra é permitida sobre os negócios bilionários entre os centros financeiros transnacionais e as elites tecnocráticas subordinadas.
E chegamos ao campo neoliberal. O que significa mesmo esse vocábulo composto? Trata-se de um conjunto discursivo e de um modus operandi destinados, fundamentalmente, a definir condições ótimas para a mobilização total do capital. Por isso, e na lógica que vimos seguindo, o primeiro passo dos seus adeptos e serviçais é o de eliminar, nos Estados submetidos, os três monopólios que indiquei acima. Trata-se de eliminar, ali, o monopólio da força, da norma jurídica e do excedente econômico. Para que o capital tenha certeza de não se perder naquelas terras, urge estabilizar a sua economia, segundo os parâmetros ideais para ele, capital transnacional. E isso deve ser feito no maior número possível de países para que, surgindo dificuldades em um deles, o capital possa dele sair e penetrar, com segurança mínima, nos outros. Se aparece uma zona de turbulência na Ásia, é preciso que o Brasil ofereça condições para o acolhimento desses capitais. Assim, estabilidade financeira, obtida à custa do retraimento das demandas sociais das massas, e juros altos são polos de atração dos mencionados capitais.
É tempo de introduzirmos um complicador nesse panorama. Falamos dos três monopólios do Estado moderno. Mas esses monopólios, como vimos no caso brasileiro, variam de país a país. Em nosso caso, eles foram açambarcados pelo Executivo federal. Ocorre que, sendo capitalista, nosso Estado, com hegemonia absoluta do Executivo, ainda apresenta uma face dupla e contraditória. Ele, ao mesmo tempo, providencia, através de suas elites irresponsáveis, nos gabinetes econômicos, as condições para a acumulação transnacional dos capitais e ainda representa a nação que não é possível transnacionalizar, a maioria de milhões, marginalizados do movimento financeiro, técnico, científico, educacional, de saúde, etc. Como é evidente a contradição dessas duas faces, os Estados submetidos são claramente entidades hamletianas; para eles, "to be, or not to be, that is the question". Os governantes, não apenas enquanto demagogia, mas por uma contradição real, precisam, ao mesmo tempo, abrir os cinco dedos, indicando políticas sociais responsáveis, e fechá-los, para recolher impostos, definir normas jurídicas, aplicar a força física em proveito do capital transnacional.
Assim, no mesmo passo em que se anunciam programas retumbantes de "comunidades solidárias" e "universidades" idem, os governos devem, como prioridade absoluta, assumir medidas que reduzem os referidos programas à poeira. Eles devem adotar políticas fiscais e monetárias (usando o monopólio do excedente econômico) que assegurem a "estabilidade" para os capitais transnacionais. E precisam providenciar a estrutura básica para a atividade econômica global (aeroportos, portos marítimos, rede de comunicações, sistemas educacionais, de acordo com o que o capital internacional requer de seu país) . Eles devem, além disso, e ao mesmo tempo, prover a ordem social, ou seja, a estabilidade política, o que exige produzir ou manter instrumentos de coerção e controle das consciências.
Ou seja: ao contrário do que se afirma em muitas teses de "ciência política", "filosofia política", "história", "economia", não estamos assistindo ao fim do Estado nacional, com os três monopólios descritos. Existe, sim, a passagem dos Estados nacionais para o status de Estados neoliberais, onde os três monopólios são empregados para conciliar interesses contraditórios: os interesses das grandes massas dos excluídos pelo processo de acumulação de saberes e riquezas e os interesses dos capitais transnacionais.
Chegamos ao tema "A universidade e o neoliberalismo". A universidade reúne o que se chama o setor "intelectual". Nela, residem e operam os grupos e indivíduos que um autor italiano, Antonio Gramsci, indicou como "os técnicos em legitimação". Voltemos rapidamente aos três monopólios: eles só podem ser empregados por longo tempo se forem "legítimos". Quando ocorre o abuso deles, por exemplo, sem que a sociedade civil tenha delegado o seu uso a autoridades eleitas, como na ditadura, os intelectuais unidos ao regime de exceção (caso de Roberto Campos, Delfim Netto e outros) produzem "argumentos" para legitimar tal emprego. Também o Estado neoliberal possui semelhantes "experts" em legitimação. Eles "teorizam" as condições ideais de controle e mando, apresentando a política empírica, a que se faz sob o comando do capital transnacional, como a "única via possível".
Tanto nos países hegemônicos como nos subordinados, a "comunidade" formada pelos "experts em legitimação" produz mais do que simples nexos teóricos. Sem ela, a prática do controle político e econômico é impossível. É de seu interior que surgem os "técnicos" e "assessores" cujo fim, nos ministérios e demais organismos de governo, é a elaboração de políticas públicas que permitam reunir, num só ato, os traços contraditórios: responder às demandas de saúde, educação, etc. das grandes massas e as bases para a expansão, sem demasiados sustos, do capital transnacional.
Hoje, como indica Robert Cox (1987),
"(...) a produção intelectual é organizada como a produção de bens ou de outros serviços. As bases materiais das redes são providas por organizações formais (usualmente não governamentais) como agências mobilizadoras e coordenadoras com diretores de pesquisa e de fundos (de fontes às vezes mais, às vezes menos visíveis) para estudos dirigidos, conferências financiadas e simpósios ou discussões informais (...) A base material das redes responde pela seleção dos participantes, o que garante certa homogeneidade ao redor do centro da ortodoxia a ser implantada".
Ou seja, apesar da ortodoxia, tais redes não deixam de lado, absolutamente, idéias "aceitáveis" para o núcleo. A política dessas redes, continua Cox, e isto é importante para nós, que temos um governo de universitários, é "conseguir intelectuais que tenham influência política, ouvidos pelos que tomam as decisões nas cúpulas, ou mesmo se tornando, eles próprios, os que decidem, formando equipes decisórias em termos políticos". Essa missão foi definida, ampliada e garantida pelo governo dos Estados Unidos, com o rótulo de "luta pela democracia" no mundo. Democracia, é claro, segundo os parâmetros norte-americanos. Termino minha fala mencionando o programa do ex-secretário de Estado americano, George Schultz (1983), cujo objetivo é o de captar e treinar as elites universitárias do mundo inteiro, para que aplique a "democracia", estilo USA, nas terras dominadas.
O primeiro item, diz Schultz, é o "treino das lideranças", o que envolve um amplo leque de atividades para selecionar e treinar uma base extensa de líderes intelectuais, em terras estratégicas, através de seminários e outros meios, em programas das universidades estadunidenses.
O segundo item refere-se à "educação", ou seja, "inculcar os princípios e práticas da democracia e o caráter e valores dos Estados Unidos nos sistemas educacionais de outros países". Isso implica, adianta o político norte-americano, penetrar nos sistemas educacionais e na mídia dos países alvo.
O terceiro item é o de "fortalecer a democracia", ou seja, organizar, fundar, aconselhar partidos, uniões, mídia, negócios e grupos civis nos países alvo. "Aqui, novamente", diz o secretário, "devemos reunir organismos não governamentais norte-americanos para a maior parte do trabalho".
O quarto item é o de "dirigir ideias e informações", organizando fóruns e publicações, todos dirigidos para as elites, de um lado, e, através de campanhas na mídia, atingir consenso e influência nas massas, com a noção dos padrões americanos de vida.
Finalmente, o quinto item diz respeito ao desenvolvimento de laços pessoais e institucionais entre equipes americanas e dos países alvo. Esses itens entram numa agenda completa de captação e cooptação de universitários dos países alvo, para as "reformas" requeridas pela política econômica e social americana.
Nesse aspecto William I. Robinson (1996) tem um trabalho estratégico, que deve ser lido, analisando o que se passa, hoje, nas relações entre Estados Unidos e Chile, Filipinas, Nicarágua, Haiti. O modus operandi, entretanto, é similar ao aplicado ao Brasil, cabendo nos itens estabelecidos por Schultz. Boa parte do que indiquei acima, vem dessa análise.
Como os senhores constatam não me detive, nesse quadro, nas "reformas" definidas para a Universidade brasileira. Em primeiro lugar, indiquei a ideologia que sustenta o neoliberalismo, a qual lança raízes no próprio liberalismo, ou seja, na ideia de que o centro antropológico fundamental é a propriedade e que este é o valor a ser protegido, acima de tudo. A propriedade e o mercado onde ela se movimenta. Em segundo lugar, sugeri que, longe de ser uma abolição do Estado, a prática e o ideário neoliberal consistem no uso do mesmo, com os seus três monopólios, para servir ao capital transnacional, cuja sede reside nos países hegemônicos, em especial nos EUA.
No caso brasileiro, essa tarefa é facilitada, considerando-se a enorme concentração de poderio no governo federal, o que torna toda a máquina do Estado dócil para as diretivas transnacionais. Ao mesmo tempo, considerando-se as grandes massas urbanas brasileiras e sua pressão constante por serviços sociais, essa tarefa torna-se mais complicada. Daí, advêm a imensa propaganda, nos meios persuasivos na mídia, e a cooptação exacerbada das supostas elites acadêmicas, com programas como o Pronex, enquanto recursos são extraídos aos milhões da pesquisa e da formação acadêmica, nos campi e nos laboratórios de pesquisa. Uma excelente análise desse ponto encontra-se na coletânea A quem pertence o amanhã?, especialmente nos artigos de Malaguti (1997) e Carcanholo (1997).
Cabe insistir, entretanto, que não é fácil para o governo subordinado agradar ao mesmo tempo aos donos do capital e atender aos requisitos mínimos das massas, como a saúde, etc. Daí, a permanente exposição, diante da mídia, de "salvadores da saúde", da "universidade", etc., mesmo que se trate de pessoas que, em curto prazo, desmintam seu papel soteriológico, transformando-se em coveiros daqueles setores, em proveito do livro caixa.
Em último lugar, sugeri que, não raro, lemos análises sobre o neoliberalismo como se ele fosse autônomo do fato bruto, antigamente chamado "imperialismo" na teoria política, o que torna as mesmas análises algo subjetivas (a "culpa" seria deste ou daquele governante, tomado isoladamente) e desligadas da política internacional.
Termino dizendo que os EUA receitam o Estado mínimo, para nós, com função definida de proteger os capitais dos países hegemônicos, garantindo para si o uso dos três monopólios, não só em plano interno aos EUA, mas, sobretudo em plano externo. O monopólio da força eles o exercem de modo imperial, inclusive com a adesão de países, como o Brasil, que até hoje mantinham certa autonomia nesse plano. O atual presidente da República brasileira, pressuroso, mostrou-se disposto a mandar soldados brasileiros ao Iraque, com a desculpa de "obter pontos" junto ao Grande Irmão do Norte, na disputa por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
O monopólio da norma jurídica eles o exercem inclusive com explícitos atentados ao direito internacional, como a "lei" que garante aos EUA invadir, com suas polícias e até exércitos, países onde criminosos ou supostos criminosos estejam, mesmo que estes indivíduos não sejam cidadãos norte-americanos. Além disso, eles exercem esse monopólio do jurídico, em defesa da sua propriedade, através de pressões diretas ou indiretas sobre os países dominados, como no caso da lei de patentes.
O monopólio do excedente econômico eles o exercem através de um protecionismo ímpar e sanções a produtos vindos dos países subordinados e através de instituições de controle como a ALCA, cujos fins colidem, em substância, com as tímidas tentativas dos governos sul-americanos de se protegerem minimamente nesse trato assimétrico, através de instrumentos como o Mercosul. Antes de discutir, portanto, as medidas tópicas que estão sendo tomadas contra as universidades públicas, os institutos de pesquisa, etc. pelo governo subordinado do Brasil, pareceu-me importante lembrar esses pontos lógicos, históricos, econômicos, para que não tombemos na luta contra os efeitos, sem considerar as causas. Estas são múltiplas e complexas. Enfatizei apenas algumas, para permitir nossa discussão. Se me excedi no tempo, abusando da vossa paciência, peço-vos desculpas e coloco-me ao dispor para as críticas e perguntas julgadas necessárias.
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