Flores

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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

De meu livro sobre Diderot,Silêncio e Ruido, publico aqui o capítulo 6, sobre pessoas gárrulas (por exemplo Bolsonaro) e aduladoras (por exemplo os militares que vendem sua dignidade por um cargo no governo). Mas garrulice e adulação podem ser encontradas em todos os setores: universidades, igrejas, clubes de futebol, rádios, televisões, jornais, roda de boteco. Enfim, é um mal humano que no Brasil chegou ao nível da pandemia. Como é um capítulo inteiro, o texto é longo. Aviso aos que odeiam ler e pensar, detestam textões. Mas como ainda existem os que gostam de ler e refletir....abraços! Roberto Romano

 
Capítulo VI: Plutarco: Garrulice e Adulação.



Rousseau, outro expulso do convívio humano por vontade própria ou não, estudou o abismo entre lisonja e amizade. Nele, é possível constatar após os trabalhos de J.-S. Spink, a presença de Plutarco mostra-se diretamente. Como se lê no IVº. Passeio: “No pequeno número de livros que eu lí às vezes ainda, Plutarco é o que mais me atrai e me traz proveitos. Foi a primeira leitura de minha infância, será a última de minha velhice”. Segundo Marcel Raymond, as Moralia de Plutarco e os Ensaios de Montaigne são “duas formas clássicas da reflexão e da meditação literária e filosófica” anteriores a Rousseau.1 O leitor de Plutarco considera grave defeito, na fala e na escrita, utilizar “um estilo demasiado florido e demasiado suave se, além disto, ele nada significa e não pode produzir nenhum efeito além do som das palavras”.2 Existe literatura sobre Rousseau e Plutarco, há quase um consenso sobre a importância plutarquiana em seu modo de encarar a existência. 3 A bibliografia sobre Diderot e Plutarco é quase nula.4

É possível analisar uma obra inteira que tematiza o sentido e a linguagem, como é o caso do Sobrinho, sem passar pelo texto de Plutarco, lido e retomado, desde a Renascença na república letrada, enquanto fonte comum de crítica ao excesso de palavras ? Na França, sobretudo, o De Garrulitate alimentou os mais amplos círculos intelectuais, políticos, religiosos. Plutarco não apresenta doutrinas éticas sem carne. Ele as expõe em figuras e anedotas, dando vida ao problema que enfrenta. Antes de ser traduzido por Amyot, escritor cujo nome se irradia em toda a cultura européia , o discurso que discutimos surgiu em pelo menos seis versões latinas diversas. A história desta tradução, com seus pressupostos, foi realizada por Robert Aulotte.5 Este estudioso coligiu dados e analisou frase a frase as obras originais e a sua forma francesa. Discutindo as “traições” , as lacunas, e outros problemas textuais, Aulotte teceu considerandos sobre a recepção filosófica e cultural das Moralia. Isto interessa muito para o que será desenvolvido a seguir.



A voga das Moralia atingiu e marcou, só na França (deixando-se de lado Erasmo e os grandes humanistas europeus) Ambroise Paré, La Primaudaye, Jean Bodin e...Montaigne. 6 Discípulo de Platão, Plutarco surge na época moderna ao lado do mestre, mas em companhia de Montaigne, “sem que seja sempre possível determinar o que pertence a Amyot e o que constitui a contribuição dos Ensaios”.7 Crítico de estoicos e epicuristas, Plutarco não raro “empresta”, destes últimos, pedras para sua construção teórica. Este procedimento eclético facilitou a sua aceitação pelos céticos. Isto ocorreu com Montaigne, que apreciou o modo “dubidativo e ambiguo” do pensador. 8 A moral estoica, também divulgada na época, não seduz, por seu rigor excessivo, as almas dos humanistas. No século l7 diminui o público das Moralia, com os católicos e os protestantes sequiosos de certezas éticas, sem nenhuma suspensão do juízo, ou melhor, só com a suspensão do raciocínio livre, em favor dos frios dogmas. Plutarco ensinou aos homens do século l6 a polidez civil, fazendo-os pensar com seus próprios recursos, distinguindo a verdadeira amizade da falsa,também treinou-os para que dominassem a lingua em público e na vida íntima. A presença plutarquiana mostra-se na literatura narrativa e dramática. Sob Corneille e Racine encontram-se rostos de heróis trágicos e retos idealizados por Plutarco, nas Vidas e nas Moralia.9 A lingua foi enriquecida com o árduo esforço de Amyot para exprimir em francês o lexico e a sintaxe refinadíssimos, cultivados nos campos de Platão, de Aristóteles, dos estoicos, epicuristas, etc.

Durante o século l7, apesar de sua influência ter sido menos abrangente, Plutarco continuou ensinando o sincretismo das sabedorias antigas. Além disto, ajudou a manter e expandir “o gosto da análise, o culto da razão, da civilidade e da nobreza moral”. Ele também forneceu ao “homem de bem” o material linguístico preciso e rigoroso, mas elegante, “para exprimir os milhares de matizes de sua psicologia”.10

No século l8, Montesquieu forneceu sua definição de “lei”, cuja importância é lugar comum do pensamento moderno, a partir de Plutarco.11 A música enquanto arte formadora, tal como vista por Plutarco, é discutida por Montesquieu, pois ela é “um meio entre os exercícios do corpo que tornam os homens duros, e as ciências da especulação que os tornam selvagens”. Nos mesmos livros e capítulos do sua obra prima, Montesquieu parece penetrar no âmago da luta ao redor do teatro, que se tornará guerra declarada entre Rousseau e os enciclopedistas após a Carta sobre os Espetáculos : “Enfim, os exercícios dos gregos só excitavam neles um gênero de paixões, a rudez, a cólera, a crueldade.12 A música excita todas estas paixões, e pode fazer a alma experimentar a doçura, a piedade, a ternura, o doce prazer. Nossos moralistas, que, entre nós, proscrevem tão fortemente os teatros, fazem-nos sentir bastante o poder que a música tem sobre as almas”. 13


Voltaire, no Dicionário Filosófico, falando sobre o “amor socrático”, diz que “se abusa”de Plutarco, “que, nos seus falatórios, no Diálogo sobre o Amor, faz um interlocutor afirmar que as mulheres não são dignas do amor verdadeiro”.14 Na Enciclopédia encontra-se um juízo peremptório sobre o pensamento de Plutarco: “os assuntos das Moralia...são, em geral, tratados superficialmente”.15 Seja qual for a opinião sobre Plutarco, o fato é que ele foi lido e ajudou a formar as percepções éticas, políticas, estéticas e filosóficas da França cultivada, até a época em que Diderot liderou as Luzes enquanto seu irmão adversário, Rousseau, se consolava da solidão lendo o tratado “Como utilizar nossos inimigos”.16

O texto sobre a garrulice começa num círculo onde impera a impossível comunicação de sentidos e significados. A fala movimenta a lingua e o ouvido. No relacionamento “normal”, o elocutor enuncia algo e o intérprete, ouvindo, conduz os sons para um sentido lógico. Pode haver erro nesta operação, tanto em quem fala quanto no ouvinte. Mas os meios são abertos ao corretivo. A filosofia busca dar forma inteligível à linguagem, depurando seus equívocos em favor do acesso comum à ciência, à beleza, ao bem. Isto ajuda a prática costumeira de produzir e interpretar leis comuns de convívio, o que fornece solidez à cidade. Nesta faina curativa, a filosofia usou frequentemente o remédio homeopático: o semelhante cura o semelhante. Ou seja, no mal, o remédio. 17

Na parolagem sem freios a cura é árdua. O remédio a ser usado, neste caso, é o próprio veneno: trata-se do logos, ele mesmo doente. Se as demais insanidades podem ser curadas pela palavra ou podem ser entendidas 18 , neste caso a situação é “embaraçosa”, como traduz Amyot, ao ler o paradoxo inicial do texto plutarquiano. O logos adoecido, fluxo instável 19 , não tem solidez alguma. No acometido de logorréia ele é menos remédio e mais veneno. Naquelas pessoas só a boca opera, enquanto o ouvido permanece trancado. Vimos acima, citando o texto de Luciano sobre o mímico (De Saltatione), que Demetrius se encantou com o artista, após ter este feito calar instrumentos e, sem palavras, encenou poemas e tragédias.”Eu ouvi a história que você fez, eu não a enxerguei apenas. Opino que você fala com a mãos!”. Não se trata apenas de “falar”, no caso. O bailarino e pantomímico, segundo o filósofo, era gárrulo com as mãos. O texto remete ao loquaz. Esta é uma característica essencial de Jean François, no Sobrinho.O autor da Carta sobre os Surdos e os Mudos, e da Carta sobre os Cegos preocupou-se, como venho indicando até agora, com o dificílimo problema da tradução entre os cinco sentidos. É este o paradoxo inicial que encontramos no De Garrulitate. No adoecido de parolice, não há passagem possível da lingua para o ouvido. Para ele, o silêncio é insuportável.

Enfrentamos uma “doença da alma” : os falastrões apresentam “uma surdez voluntária” . Eles se queixariam de terem recebido da natureza apenas uma lingua e dois ouvidos. Impossível dialogar com o gárrulo, pois ele não ouve. O boquirroto é como um vaso furado onde as palavras sensatas entram e saem imediatamente. A imagem foi produzida por Amyot a partir de Eurípides, citado por Plutarco, combinando poesia e uma frase que vem adiante (DG, 502 E) : “as palavras ouvidas, que os demais retêm, escorrem nos gárrulos, os quais, a seguir, como vasos, vazios de espírito, cheios de barulho, vão daqui para alí”. 20 Os outros cuja alma adoeceu —o avaro, o ambicioso, o lascivo— conseguem atingir o alvo de seus desejos, mas o falador sempre se decepciona : ele jamais encontra um ouvinte. Entre os exemplos dados por Plutarco desta impossivel comunicação, um é importante para nós: “quando o boquiroto entra num banquete...todos se calam, temendo fornecer-lhe ocasião para falar”. Vimos que Jean-François tem um pacto “tácito” com os convivas de seus mestres. Quando ele come, todos falam. Quando ele fala, imediatamente vem a censura: “ó Rameau!”.

A palavra do gárrulo é infértil. “Pois, como se diz que a semente dos que se unem muito frequentemente com as mulheres não tem força de engendrar, também a conversa destes falastrões é estéril”. Jean-François é um gênio sem obras que frequenta os trabalhos alheios, mas não tem forças ou energia para gerar os seus próprios. Assim, ele mimetiza o labor dos outros, acumulando um saber ou pretenso saber do que já foi feito —sobretudo por seu tio— sem produzir música ou teatro. Saltando de uma produção para outra, o sobrinho só capta e expressa fragmentos, nunca um ser inteiro: “Ele —Não é nada, são momentos que passam. (Depois, voltou a cantar a abertura das Indias Galantes e a canção Profundos abismos, e acrescentou :) Alguma coisa há que me fala e diz : Rameau, gostarias bem de ter feito esses dois trechos; se tivesses feito esses dois trechos, terias feito outros dois; depois que tivesses feito um certo número, serias tocado, cantado potr toda parte; quando andasses, irias de cabeça erguida, a consciencia testemunharia perante ti mesmo o teu mérito próprio, os outros te apontariam com o dedo. Dir-se-ia : foi ele que fêz as belas gavotas....”.21 Como não fez nem fará “belas gavotas”, e muito menos “As Indias Galantes”, Jean-François não tem, de fato, quem o escute, porque ele nada tem a dizer .

Homero, no De Garrulitate, é apontado como “o único no mundo que jamais cansou ou aborreceu os homens, mostrando-se sempre outro ao leitor, sempre florescendo em novo encanto; ele também mostrou o quanto temia e se afastava deste desgosto e deste incômodo que acompanha de muito perto toda longa corrente de palavras”. No Sobrinho, a figura de Jean-François repete o já conhecido. Suas teorias sobre as paixões e a música são tudo, menos novidade. De modo geral, ele repete o que já foi feito e dito. Há uma inversão irônica e satírica de Homero: este último, via Ulisses, “detesta repetir lugares comuns”.22 Em Homero, os versos e a história, embora sempre os mesmos, sempre são outros. Montaigne indica os textos homéricos como “o jardim de toda espécie”. O poeta é o primeiro e último de sua raça: “não tendo ninguém que o pudesse imitar antes dele, não teve ninguém que o pudesse imitar”. Montaigne se espanta que Homero, “que produziu e colocou no mundo vários seres divinos por sua autoridade, não tenha obtido para si mesmo a condição de um deus”.23 Quanto a Jean-François, “Nada se desassemelha tanto a si mesmo quanto ele próprio”. Estéril força mimética, o sobrinho confessa logo no início do diálogo, um “ódio terrível contra o gênio”.

Enquanto “Ele” é um rio de palavras sem dique, o “Eu” filosófico parece seguir os conselhos plutarquianos, quando frequenta os cafés do Palais Royal, lugar das conversas e das conquistas, das inconfidências políticas e dos falatórios sobre a vida alheia: “Certo dia, após o jantar, lá estava eu, olhando muito, falando pouco, e escutando o menos possível”.Os preceitos morais seriam seguidos à risca pelo “Eu”, caso ele se negasse a entrar no torvelinho discursivo de Jean-François. Buscando sentido e significados das palavras, o “Eu” é arrastado para o campo das tautologia, que o gárrulo sobrinho expõe diante dele, como a desdobrar palimpsestos poéticos, musicais, éticos, picturais, através da mímica e da fala fragmentária. ”O século 18 não poderia se reconhecer no sobrinho de Rameau, mas estava presente inteiro no Eu que lhe serve de interlocutor...é a primeira vez que se conversa com ele, e que, novamente, ele é questionado”. Os tipos de indivíduos com o jeito de Rameau atingem a desrazão do século l8. “Seu falatório, sua inquietude, este vago delírio, esta angústia fundamental, eles viveram isto o bastante, em existências reais de que podemos ainda encontrar o traço”.24

As tautologias, fantasmas que perseguem os sistemas filosóficos, em especial os dogmáticos, à força de repetirem certezas, chegam à falta de sentido. Vejamos Plutarco: “O silêncio é uma sabedoria profunda e cheia de grandes segredos. A embriaguez, pelo contrário, é cheia de tumulto, vazia de sentido e razão”. 25 À regra da consequência lógica, subjacente no princípio de identidade, o gárrulo retruca, como pessoa a-racional, irrefletida, com uma polifonia. 26 Isto conduz ao não sentido que ameaça o logos íntegro, verdadeiro e bom, perseguido pelo filósofo. 27 Ameaçando o princípio de identidade, Jean-François coincide consigo mesmo, e pode entregar-se ao luxo de não ser, ao mesmo tempo, consequente. Discutindo sobre o gênio, “Eu” diz que ainda não está decidido que Rameau, o tio, o seja. Mas e Racine, e Voltaire ? “Ele —Não me apresse ; pois eu sou consequente”. Mais adiante, quando a discussão é sobre ele mesmo, Jean-François, servo de quem recebia seus elogios, afirma desenvolver “uma liberdade que eu tomava sem consequência, pois eu, eu sou inconsequente”. 28

Barulho e falta de sentido definem aspectos essenciais da sátira e permeiam o texto diderotiano que discutimos.O gárrulo não é encontrado sozinho. Ele partilha uma doença da alma com a coletividade que sofre da mesma loquacidade. Um segredo, diz Plutarco, não dever ser posto à discreção de outrem. Se o ouvinte é falador como o que lhe confiou um arcano, sua perda é legítima. Se ele for melhor, e guardar o que lhe foi dito, é contra toda lógica 29 que o inconfidente se salva. Um homem que relata a outro algo que deveria ser silenciado, começa a ciranda interminável da incontinência verbal. A unidade não deixa o número um e não ultrapassa seu limite. O número dois é princípio indefinido da diferenciação, pois ele saiu de si mesmo ”duplicando a unidade e se transformando em pluralidade, também uma palavra, quando permanece encerrada no que a sabe primeiro, é verdadeiramente secreta, mas desde que ela sai e chega a um outro, começa a ter o nome de ruído comum (...). E assim, como não é fácil prender um pássaro, quando se deixou que ele escapasse das mãos, também não se pode recuperar uma palavra, desde que ela foi lançada longe da boca, pois ela voa batendo asas e se espalha de uns aos outros”. 30

Doenças da alma, como as do corpo, são transmitidas . As enfermidades somáticas possuem um meio comum que permite sua propagação. Surge o problema do contágio anímico. Plutarco, como indica Jackie Pigeaud, evoca o exemplo do amor. A alma sofre com o corpo, porque há uma diadosis entre ambos. E a alma age sobre o corpo : pensamentos eróticos excitam os órgãos sexuais, o ciúme contamina o corpo. O difícil, no contágio, é compreender a distância da propagação sem contacto imediato. “É necessário um elemento homogêneo no qual se produza uma diadosis, isto é, uma circulação. Isto se concebe perfeitamente num mundo regulado pelo princípio da simpatia, por exemplo no caso da alma e do corpo, onde um e outro podem se contaminar por contacto e circulação”.31

Se uma urbe adoece de garrulice, nenhum segredo é guardado. Plutarco lembra o caso de Roma : a lingua solta de um só homem a impediu de recuperar vida livre, perdendo-se o bom momento de sumir com Nero. É narrado o caso do senador que transmitiu um suposto segredo à sua mulher. Num instante, a cidade toda foi atingida pelo “contágio” da mensagem. Do mesmo modo, em sentido oposto, o autor relata a salvação de uma polis inteira pelo contrôle da lingua de cidadãos, mesmo sob tortura.

Hegel entende a difusão das Luzes, justamente através da figura de Jean-François, como um processo expansivo de parolagem: “o juízo sendo o palavrório de um instante que logo se esquece”. O intelecto das Luzes se caracteriza pelo abuso do “arrazoado” e da “conversa frívola”. Com esta fala onde se unem a tolice do conteúdo e a tolice de quem o enuncia, chega o democratismo do saber: “a coleção mostra que o maior número tem mais espírito”. Deste modo, “as luzes singulares e resolvem na intelecção universal”. E como ocorre esta expansão da parolagem e do “Räsonnieren”? Quando se trata de combater a crendice, o ataque das Luzes expande-se, pela intelecção pura, ao maior número e faz “pensar numa expansão calma ou na difusão de um vapor na atmosfera, sem resistência. Ela é uma infecção (Ansteckung) penetrante que não se faz notar...Só quando a infecção se expandiu é que ela se torna para a consciência, que a ela se abandona sem suspeita”. Deste modo, a doença chega até o núcleo das velhas noções e ‘numa bela manhã uma cotovelada no fulano e patatras, o ídolo jaz sobre a terra’ . Uma bela manhã, cujo meio dia não é vermelho de sangue, se a infecção penetrou todos os órgãos da vida espiritual, a seguir a memória conserva ainda, como uma história passada não sabemos como, a forma cadavérica da encarnação precedente do espírito”.32 Da parolagem à queda das antigas crenças, o processo é o de um contágio que dissolve a cultura antiga até os ossos. Este movimento dionisíaco e báquico já foi analisado por mim, em artigo sobre a concepção hegeliana da guerra. 33 A leitura Hegel sobre o Sobrinho une a garrulice e a sua forma de expansão enquanto contágio. Se existe apenas coincidência entre esta leitura e a presença de Plutarco, escritor estratégico na base da cultura do Ocidente, no século l8 e l9, ela é espantosa.

Diderot tem plena consciência das aporias encontradas na difusão das Luzes.Sem mudar a lingua do vulgo, impossível estabelecer um reino de liberdade no mundo moderno. Neste sentido, há nele dois movimentos: em primeiro lugar, o partilhado com outros intelectos que viam no ensino um caminho para redefinir a lingua do povo. Mas também há certa desconfiança neste método. Vejamos a saída inicial: “Pense bem, meu amigo : alguns sábios, alguns bons espíritos se instruem através de escritos e nas bibliotecas, retificando pela reflexão, a leitura e a conversa, o vício de suas idéias; o erro, entretanto, permanece e circula nas ruas, nos templos, nas casas, com as inperfeições do idioma. O espírito renovou-se e é sempre a mesma lingua que se fala.É portanto o idioma que precisamos reinstaurar, trabalhar, ampliar, a menos que queiramos, como na China, fazer o sapatinho da criança servir no pé dos homem”. Diderot mostra a importância da garrulice coletiva: “É do idioma de um povo que precisamos nos ocupar, quando queremos dele fazer um povo justo, razoável e sensato. Isto é tão importante que, se o senhor bem refletir um momento sobre a rapidez incompreensível da conversa, o senhor conceberá que os homens não profeririam vinte frases num dia, se eles não se impusessem a necessidade de ver distintamente em cada palavra por eles dita qual é ou a idéia ou a coleção de idéias que a ela se apegam”.

Mas a segunda via seguida por Diderot é mais desconfiada. Ele suspeita ser quase impossível “reformar a lingua”, dela retirando os velhos equívocos e superstições. O leitor de Francis Bacon procura exorcisar os ídolos do mercado, mas não esquece os da caverna e, sobretudo, os do teatro: as disputas sempre existirão entre os homens. “As palavras, desde que bem definidas, uma questão logo a seguir se propõe”. Este é um erro, enuncia Diderot. E não se pense, acrescenta, tratar-se apenas de acrescentar experiências à querela. Assim, ela apenas muda de objeto, “a dificuldade aumenta a tal ponto que alguns homens ajuizados disseram que os fatos nada provam , tamanha era a pena para constatar os fatos e aplicá-los à questão”. E se fosse escrito um dicionário onde se fixasse a “verdadeira” significação das palavras? Resposta diderotiana: “Este dicionário bem feito acabaria com muitas disputas, mas não com todas. Os geômetras as mantêm entre si, elas subsistem desde longa data, se não sei quando terminarão”.34 Expulsar o falatório baseado no equívoco, melhorando a comunicação do vulgo? Mas como, se os próprios sábios estão imersos nas controvérsias e nem os geômetras escapam da famosa diaphonia indicada pelo pensamento cético?

Não se “resolve” definitivamente, em Diderot, o dilema da lingua solta e da falta de sentido na comunicação. Ele desconfia de uma “gramática” que expressaria a racionalidade universal com a ética correspondente. Contra Du Marsais, ou, em outros registros, Condillac, Diderot eleva-se em favor daquilo que é “aberrante” e não segue a lógica dos racionalismos analíticos. Se é verdade que o vulgo repete lugares comuns, também é certo que os gramáticos, desejando estabelecer significações idênticas e universais, terminam em pura discussão sobress tautologias, apesar de seu pretenso laconismo. A luta entre garrulice e silêncio, que definiu a razão do século 17 tornou-se, no 18, apoteose da mathesis universalis (anacrônica,poderíamos dizer), como em Du Marsais e seu continuador Beauzée. 34 Na teoria da música, este pensamento foi representado por Rameau.

A outra via dessa luta tomou a forma da sátira. É característico que Voltaire, seguidor do “bom gôsto”, tenha escrito uma obra que, ao lado do Sobrinho, foi a maior sátira à garrulice da razão matematizante do seu tempo, o Cândido.É verdade que o alvo era Leibniz. Num polemista nato, como Voltaire, pouquíssimo tolerante, Newton deveria ser vingado. Em todo caso, resta que a própria tese da razão produziu uma sátira da razão. Ainda não surgira a estranha idéia de transformar a sátira em crítica da razão pura.

Mas não apenas da parolagem vive o intelecto moderno e antigo. A lisonja marcou a comunicação social, sobretudo nas trocas de engenho a engenho, de um trabalho do espírito a outro, e na consolidação do poder. As reflexões hegelianas sobre a linguagem, na Fenomenologia, que desembocam na garrulice das Luzes e na sua propagação por diadosis, é antecedida pela análise da lisonja. Através desta última, chega-se a Jean-François, cético dissolutor da cultura, ao mostrar a sua “tolice” . O discurso, no Sobrinho é a “perversão de todos os conceitos e de todas as realidades; ele é o engôdo universal de si mesmo e dos outros, e a impudência de enunciar este engôdo é justamente a sua mais alta verdade.Este discurso é a loucura do músico que juntava e embaralhava trinta árias italianas, francesas, trágicas, cômicas, de todos os tipos de caracteres; ora numa voz baixa ele descia aos infernos, logo engasgando e imitando um falsete, ele rasgava os ares, sucessivamente furioso, amenizado, imperioso, irônico”. 35

Loucura ou dissimulação meticulosa? O barulho das palavras iluministas contra a superstição, a passagem ao universal, quando suas teses tornam-se crenças da “Humanidade”, a atitude cética diante do Absoluto, tudo isto só pode ser um momento de loucura 36 para Hegel, enquanto o Espírito não encontra a si mesmo, reconciliando-se. E quem não aceita o ceticismo apenas enquanto passagem para uma razão mais elevada? Como pode ler o Sobrinho quem desconfia dos absolutos e da dialética? Para um leitor semelhante resta a sátira, a qual, segundo Hegel, conforme veremos adiante, não tem lugar no mundo moderno. Depois de analisar o tratado plutarquiano sobre a garrulice na cultura que antecedeu, persistiu durante o tempo de Diderot, e o sucedeu, como é o caso de Hegel, vejamos um outro texto, agora diretamente sobre a lisonja, que pode ajudar a entender traços importantes do Sobrinho. Refiro-me ao escrito plutarquiano que ensina como discernir o amigo do adulador .

Na página inicial, em sua tradução daquele tratado, publicada em l537, Antoine du Saix a “explica” : “La touche naifve pour esprouver l’amy et le flateur”. A palavra chave na frase é “naifve”, ingênuo. Ela vem do latim “nativus” e indica o que não é artificial. 37 O dicionário Robert traz o significado corrente no século 16: “Qui représente bien la chose telle qu’elle est”. No escrito de Plutarco descreve-se o modo pelo qual o adulador se disfarça sob a aparência do amigo. Este último é “ingênuo”, o primeiro é só artifício de alto a baixo. Interessa notar um escrito de Diderot, justamente sobre o artifício e a pintura, onde se opõem o que é “naif” e o que se reduz à “lisonja”. Ingênuo, para Diderot, além da simplicidade, acumula os significados de inocência, verdade, originalidade “de uma infância feliz que não foi reprimida”. O termo e a coisa são essenciais às belas artes. “O ingênuo se discernirá em todos os pontos de uma tela de Rafael...o ingênuo se encontra em tudo o que será muito belo; numa atitude, num movimento, num drapeado, numa expressão”. Tudo o que é verdadeiro não é “naif”, mas tudo o que é “naif” é verdadeiro, “mas de uma verdade picante, original e rara”. Quase todas as figuras de Poussin e de Rafael são “ingênuas”: elas possuem “certa originalidade da natureza” uma graça com a qual nasceram, que não lhes foi dada pela instituição.

Oposta ao “ingênuo”, temos a “maneira”. Esta representa, nas artes, o que a hipocrisia significa nos costumes. Boucher é hipócrita: “não há uma só de suas figuras à qual não se possa dizer : ‘Tu queres ser verdadeiro, mas tu não o és’”. É possível ser “ingênuo” como herói, celerado, devoto, belo, orador, filósofo. “A ingenuidade é uma grande semelhança da imitação com a coisa, acompanhada de uma grande facilidade no fazer : é como a água tomada no riacho que se joga sobre a tela”. Neste sentido, digamos, Jean-François é “ingênuo”...

O personagem “Eu” insiste na característica que o desagrada no sobrinho: “De resto, é dotado de forte organização, de singular calor de imaginação e de incomum vigor pulmonar. Se algum dia o encontrardes, e sua originalidade não vos arrestar, ou tampareis com os dedos os ouvidos ou fugireis”.Jean-François é “ingênuamente” ...palavroso. Assim, “Não estimo esses tipos originais”. Ele mesmo, Rameau sobrinho, afirma ser uma feliz reunião do que é “natural” e do que é instituição: “...dado que posso ser feliz através dos vícios que são naturais em mim, ou que adquiri sem trabalho e conservo sem esforço, que se adaptam com os costumes de minha nação...”. Ou : “Eu sou eu e permaneço o que sou; mas ajo e falo como convêm”. Há uma lei “histórica” enunciada por Jean-François: “Quanto mais antiga fôr a instituição das coisas, mais idiotismos existem”. Rameau é capaz de mimetizar todos os idiotismos sem prender-se a nenhum. Isto o transforma em ameaça a cada um dos “honestos” presos à convenção e às tradições. Ele é original na sua falta absoluta de originalidade.

Ao “ingênuo” Diderot opõe o gesto afetado. “Eu gostaria muito que me explicassem por que o reverso das mais belas medalhas antigas são quase todos negligenciados. Seria lisonja ? Desejou-se, com isto, que nada lutasse contra a imagem do príncipe ? Existe também adulação na pintura; ela seduz à primeira vista; mas logo dela nos desgostamos. Falei em lisonja relativamente ao fazer. Há uma outra, relativa à moral; a alegoria é seu recurso.Fazemos uma alegoria em louvor daquele de quem nada de preciso se pode dizer. É uma espécie de mentira, cuja obscuridade salva do desprezo. É bem singular que todos os nossos pequenos ‘literatos’ repitam todos os dias o único hemistíquio de Horácio que eles sabem : ‘Ut pictura, poesis erit’ ”. 38

Como discernir lisonja e verdade? Esta última não se deixa enxergar. Como disse Platão, se ela aparecesse diante de nós, nos apaixonaríamos. Como este enlevo é impossível, precisamos aprender a discernir o que se oculta. Este é o intento pedagógico de Plutarco.A tese inicial é platônica: cada um amando a si mesmo, o primeiro adulador é o filauta. Após alguns considerandos sobre a amizade que seria como a moeda que é preciso “ensaiar” antes de receber, Plutarco adianta que o verdadeiro adulador não são os pequenos fila-bóia gárrulos, os chamados “papagaios de mesa”. Porque “os pios destes balbuciadores, de servil coragem, são descobertos e expostos por um pedaço de pão ou uma taça de vinho”. Este personagem, o “conviva”, é um “satírico”, um “cômico farsante”. Não, o lisonjeiro perigoso é “um personagem trágico, isto é, desempenhando seu papel gravemente, de modo oculto”.

Neste sentido, Jean-François não seria o adulador de Plutarco. Seu caráter é satírico e bufão. Mas há um outro traço do lisonjeiro que lhe cabe às maravilhas: “um adulador... não possui firmeza alguma em seus costumes, nenhum modo distinto e certo de viver, nem vocação especial, acomodando-se hoje a este, e súbito a um outro, apoiando e se apegando a todos, jamais sendo simples e uno; mas sempre mutável e variável em toda espécie, figura ou rosto que se quiser, ora vestido de um jeito, ora de outro, mudando e variando de cor como a agua corrente que segue o caminho por onde ela passa”. Impossível ler este trecho sem lembrar imediatamente do camaleônico sobrinho.

Os lisonjeadores nutrem os vícios do lisonjeado “quando vituperam,perseguem, e criticam seus contrários”. Comendo na mesa do rico, o adulador devolve-lhe um alimento letífero: o auto-engôdo. Na edição de Aulotte que estou seguindo, há uma nota preciosa: nesta passagem, Racine, em seu exemplar anotado de Plutarco, na tradução de Du Saix, remete para um escrito de Luciano 39 , Nigrinus.O trecho inteiro de Luciano discute a adulação. “Sustento” diz Nigrinus, um platônico bem irônico, “que os aduladores são piores do que os adulados, e que só eles devem receber invectivas pela arrogância dos outros”.

Plutarco compara o amigo e o adulador a quase todos os objetos e artes. Entram no seu rol a música, os perfumes e venenos, a pintura. Nem sempre o lisonjeiro louva com palavras. Ele pode ser eloquente pela mímica: “como alguns quiseram dar uma definição da poesia, afirmando que esta é uma pintura silente, assim também a lisonja pode louvar sem dizer uma só palavra”. Se o adulador está falando ao público, e nota que um poderoso ou rico deseja discursar, ele se cala. Aduladores há que sentam-se nos primeiros lugares nos teatros e em outros espetáculos apenas para cedê-los aos poderosos. O amigo usa a palavra franca, o adulador finge ser sincero. 40

Diderot retira a lição eloquente: “Plutarco diz que existiu, outrora, um home perfeitamente belo que, no tempo em que as artes floresciam, ele tornava inúteis todos os recursos da pintura e da escultura. Mas tal homem era um príncipe. e se chamava Demetrius Polierceta. Não havia uma só pedaço deste homem que a arte não pudesse embelezar; a lisonja não duvidava, mas ela tomava cautela e não o dizia”. 41

Vale lembrar que o tratado de Plutarco foi traduzido para o francês, num só volume, com o Lysis de Platão e o Toraxis de Luciano.42 Quanto a Platão, já discutimos bastante acima, sobretudo após os comentários de O’Gorman. Diderot o conhecia “par coeur”. No que se refere ao diálogo Toraxis, vimos o papel estratégico que ele desempenha na teoria estética de Diderot, sobretudo nas relações entre pintura e linguagem. Este diálogo entre um scita e um grego (também já discuti este ponto acima) sobre a amizade, também trata da lisonja e da fala desenfreada. “Parece-me”, diz Toraxis, que “os gregos, de fato, falaram melhor sobre tudo o que deve ser dito sobre a amizade... mas nos tempos difíceis vocês desempenharam o papel de traidores de suas palavras sobre ela....”. “Seus dramaturgos”, termina Toraxis, colocaram-na nos palcos e a exibiram para vocês. Vocês a aplaudiram, sim, e mesmo com lágrimas nos olhos”. Mas quando se tratava de vocês mesmos, nos apertos dos seus amigos, fulmina o scita, “vocês parecem ter tomado a máscara vazia e silenciosa, a qual, com a boca aberta, amplamente, não emite o menor som”.43 Garrulice, silêncio, máscara, lisonja, amizade. Todos estes prismas aparecem ao longo do Sobrinho, e podem ser notados em passagens rápidas, mas eloquentes, de outros textos diderotianos.

Por exemplo, na Réfutation de l’Ouvrage d’Helvetius Intitulé l’Homme: “Encontro aqui (página 377 do livro de Helvetius) uma passagem citada de Luciano, da qual nnão existe nenhuma palavra naquele autor; mas de Luciano ou de um outro, ou mesmo de mim, eu não a estimo menos. Jupiter põe-se à mesa: ele graceja com sua mulher; endereça palavras equívocas a Venus, olha ternamente Hebe; dá uma palmada na bunda de Ganimedes; exige que sua taça seja repleta. Enquanto bebe, ouve gritos que se elevam dos diferentes lugares da terra : os gritos aumentam, ele se incomoda. Levanta-se impaciente; abre a tampa da cúpula celeste e diz: ‘a peste na Asia, a guerra na Europa, a fome na Africa, o gêlo aqui, uma tempestade alí, um vulcão’...depois ele fecha a tampa, acomoda-se de novo na mesa, se embriaga, deita-se, dorme, e chama isto ‘governar o mundo’. Um representante de Jupiter na terra levanta, prepara seu próprio chocolate e seu café, assina ordens sem ler, ordena uma caça, retorna da floresta, se despe, coloca-se à mesa, se embriaga como Jupiter...dorme no mesmo travesseiro de sua amante, e chama isto governar seu império”.44

A paródia explícita de Luciano, por Diderot, resume os problemas da sátira à religião e à metafísica dos séculos l7 e l8. As calamidades naturais, a desgraça de um príncipe estulto, projetam-se sobre o Ser divino, um deus preguiçoso que 45 nada mais faz, salvo entregar-se ao gozo de si mesmo. Como egoísta perfeito, este Júpiter serve de modelo ao idealismo recusado por Diderot. Neste ponto, tanto Luciano quanto Diderot afastam-se de Plutarco, cuja solução para a teodicéia impede o ateísmo. Como escreve Y.Verniere: “Conservador, Plutarco o é bem mais do que Luciano. Nada é comum entre Plutarco e o tom de zombaria impudente da História Verdadeira, apesar das semelhanças exteriores devido à similitude das fontes”. Em Plutarco há um “otimismo básico, uma confiança total na Providência e a precocupação de deixar ao home individual, tomado apenas no fim de sua vida terrestre, a responsabilidade completa de seu destino. Aos seus olhos, o valor edificante dos mitos tem este preço”. 46 Como disse o próprio Diderot: “mas o sujo, mas o ímpio Luciano”...que, no caso desta paródia explícita e satírica é o próprio Diderot.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Existem pessoas que, ao falar deste seu amigo, colocam aspas em "filósofo", "intelectual", "professor de ética". Não desejo retirar das suas testas as aspas, pois para tais indivíduos elas são motivo de orgulho. Quem deseja uma pequena síntese do que produzi ao longo dos anos, segue abaixo uma lista de livros e artigos meus, comentados por mim. Quando eu não mais estiver por aqui, talvez o texto sirva de guia para jovens ou idosos curiosos de saber algo sobre uma pessoa comum, mas que pensou bastante. Roberto Romano

 

 Livros

 Brasil, Igreja contra Estado (São Paulo, Ed. Kayrós, 1979). Este livro é resultado de minha tese de doutoramento em Paris, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em 1978. O texto analisa as políticas da Igreja e do Estado no Brasil, definindo as estratégias de poder das duas instituições. Nele, indico que existe uma estratégia da Igreja contra todo Estado que não a reconheça como "soberana espiritual"dos povos. Em capítulos históricos, filosóficos e teológicos, disseco a essência do poder estatal e eclesiástico. Dois capítulos são importantes : um sobre a reforma agrária e outro sobre comunidades eclesiais de base. Neles, discuto os programas sociais e econômicos da Igreja e do poder estatal no Brasil, sobretudo no tempo da ditadura instaurada em 1964.
 
Como fui preso político durante bom tempo, no CENIMAR, DOPS, Presídio Tiradentes, conheço bem a política repressiva (censuras, torturas, exílios) aplicada contra os que se levantaram contra o regime de exceção. Boa parte dos temas éticos de Brasil Igreja contra Estado vem de reflexões sobre o arbítrio das instituições, civis ou religiosas.
 
O livro foi mal recebido pela esquerda e pela direita no Brasil da época em que foi lançado. A esquerda considerava a Igreja como "a grande aliada"na luta contra o regime ditatorial. Como eu provo que a maior parte da Hierarquia abençoou o golpe de Estado de 1964, e depois o Ato Institucional número 5, minha argumentação prejudicava a militância de esquerda desejosa de instrumentalizar as comunidades eclesiais de base. E também desagradou à direita, porque denuncio no livro os procedimentos violentos do capitalismo, sobretudo na zona rural, onde se escravizam ( e escravizam) pobres desprotegidos. Se os interessados procurarem  verão que o livro "não existe"na literatura de esquerda ou direita no Brasil. Ele é uma constante na bibliografia estrangeira.
 
Este é um dos problemas sérios da vida cultural e da ética brasileira: só tem direito a dizer e ser ouvido, quem está com a maioria. No Brasil é muito difícil a existência de debates e do simples diálogo. O maniqueísmo impera em todos os cantos e seitas. Poucos conseguem manter a liberdade de pensamento, a autonomia diante de sua própria consciência.
 
2) Conservadorismo romântico, origem do totalitarismo (SP, Brasiliense, 1981, reedição Unesp, 1997). Neste livro trato da teoria das cores de Goethe e de seu nexo com o pensamento conservador do século 19. Mostro como, mesmo um pensador como Karl Marx, depende do ideário romântico. Em capítulo estratégico estudo o fetiche da mercadoria em Marx, no Capital. Alí, mostro o quanto Marx era um autor refinado e atilado, que ainda hoje pode nos ensinar muita coisa sobre o mundo.
 
3) Luz in Tenebris, reflexões sobre Filosofia e cultura (SP, Cortez/Unicamp, 1987). Trato de vários assuntos, inclusive sobre o papel da mulher na filosofia ocidental. Ali, mostro o quanto os filósofos, a partir de Aristóteles, têm uma visão preconceituosa e machista das pessoas femininas. O título deste artigo é "A mulher e a desrazão ocidental". Se digitarem este título no Google, certamente encontrarão o texto inteiro do artigo.
 
4) Corpo e Cristal, Marx Romântico (RJ, Guanabara Ed. 1985) : coletânea de artigos onde denuncio o pensamento positivista, liberal e autoritário no Brasil
 
5) O Caldeirão de Medéia (SP, Ed. Perspectiva, 1999): coletânea de textos que inicia uma série de análises minhas sobre o tema da Razão de Estado. Se vocês digitarem "razão de Estado, Roberto Romano", encontrarão vários escritos meus sobre o assunto.
 
6) O desafio do Islã e outros desafios (Ed. Perspectiva), Razão de estado e outros estados da razão (Ed. Perspectiva), seguem a mesma linha de análise da razão de estado. Um tucano responsável (?) por uma revista acadêmica (?) encaminhou o livro para resenha de Kamel, o imperador da Globo. Os pontapés recebidos por mim e dados pelo seguidor de Roberto Marinho só me honraram. Ganhei o dia quando li as frases da pior má fé, bem no estilo Globo de pensamento (?).
 
7) Silêncio e ruído, a sátira e Denis Diderot (Campinas, Ed. Unicamp) trata do pensador das Luzes, Denis Diderot, e de seu pensamento político e estético.
 
8) Os nomes do ódio (ed. Perspectiva), trata do preconceito, do antissemitismo, etc.

9) Razão e desrazão de Estado (Ed. Perspectiva). O assunto é sempre atual, sobretudo quando os Estados entram numa crise inédita desde que o conhecemos no início da vida moderna.
 

 Existem outros livros mais, pessoais e em colaboração.
 
Bases do pensamento: são três os filósofos que me orientam os passos: Spinoza, Diderot, Platão.
 
Sobre Spinoza publiquei alguns artigos, por exemplo no site Foglio Spinoziano (Itália), os textos estão publicados no site, mas em português.É só colocar no Google, Roberto Romano Spinoza.  Sobre Diderot, publiquei vários artigos, por exemplo na Revista USP : "Diderot Penélope da Revolução" (também encontrável no Google). Sobre Platão, muitos textos meus trazem longas análises do maior filósofo ocidental.
 
Minhas reflexões se baseiam quase sempre em problemas de ética, estética, política.
 
Opinião sobre a importância da filosofia na educação:
 

Importa estudar a filosofia, em qualquer nível escolar. Mas não recomendo  a leitura de manuais de filosofia. É possível aprender filosofia com os próprios filósofos, nos seus textos, sem passar pela mediação de "explicadores". Ler Platão é uma festa para a alma. Nele, a filosofia se une à poesia, ao teatro, à política, etc. Certos diálogos de Platão, como dizia Diderot (um seu entusiasta) são verdadeiros quadros falados ou peças teatrais. Hegel partilha tal juízo. Eles são bonitos e interessantes. Já os manuais matam o pensamento e a escrita do filósofo, usurpam o pensamento do autor, impõem de modo autoritário ao leitor uma opinião pessoa do comentador.
 
Se não for possível (o que é...impossível!) ler os próprios filósofos, se comece a pensar a filosofia a partir da literatura, das ciências, das técnicas, da políticas, do teatro, cinema, etc. É possível fazer filosofia sem os manuais, que dão muito dinheiro às editoras, mas oferecem aos estudantes e outros leitores apenas o cadáver da filosofia.

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Roberto Romano terça-feira, dezembro 04, 2007 DISCURSO DE AGRADECIMENTO À B ´NAI B´RITH PELA OUTORGA DA MEDALHA 2007 DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS.

 

Roberto Romano terça-feira, dezembro 04, 2007

DISCURSO DE AGRADECIMENTO À B ´NAI B´RITH PELA OUTORGA DA MEDALHA 2007 DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS.




Agradeço à B´nai B´rith do Brasil a honra desta noite. E seguem meus agradecimentos aos integrantes da B´nai B´rith internacional, cuja voz é respeitada sempre que se pronuncia na defesa dos direitos humanos. Agradecimento especial ao Dr. Alberto Liberman, que me acolhe sempre com a gentileza nobre das grandes personalidades. Espero merecer a deferência e prosseguir a luta pelos direitos humanos em nosso país.

Agradeço à minha mulher querida, Maria Sylvia. Sem o nosso amor, eu não teria alma nem forças para combater, na vida pública, em defesa dos princípios inalienáveis que norteiam o saber e a ética. Com ela aprendo a inteligência do mundo e a força do coração. Agradeço ao Dr. Jacó Guinsburg e à Dra. Gita, cuja sabedoria e bondade me ajudam a conhecer um pouquinho mais da vida judaica e da ordem intelectual envolvente. Agradeço à Dra. Kenarik e ao Dr. Marcio Sotello Felippe, mais do que amigos, irmãos na busca de um mundo justo, num país injusto e triste. Agradeço aos amigos Dra. Maria e Major Adilson, pessoas retas que lutam pela justiça e paz e pela ciência no Brasil. Agradeço ao meu primo João, cujo nome é igual ao de meu pai, e na sua pessoa agradeço à minha familia.

“Pereça o dia em que nasci e a noite que disse : foi concebido um homem! (...) Aquela noite! dela se apoderem densas trevas; (...) seja estéril aquela noite (...) que não veja as pálpebras dos olhos da alva, pois não fechou as portas do ventre de minha mãe, nem escondeu dos meus olhos o sofrimento” (, 3). Do justo fiel aos nossos dias, a humanidade repete a maldição da noite, território em que o mal impera como se não existisse bem algum. Os nomes do abismo são infinitos: Satan, Lúcifer, o Maligno. Na modernidade, ele deixa de ser indicado por sujeitos e se abriga na taxinomia, se impessoaliza em fichas terminadas em “ismo”, fascismo, nazismo, racismo. Mas a sua virulência, com semelhantes classificações, não se amaina. Ela, pelo contrário, se potencia ao máximo.

A noite persegue a experiência do Ocidente, decreta a sorte das revoluções e das reformas religiosas que trazem a liberdade e, num pêndulo cujo sinal é satânico, ameaça tragar corpos e almas. O deleite trazido pelo Mal, fonte primeira do sublime, atrai as feras humanas com suave canção, antes de se transformar em fúria assassina e genocida. Dança de bacantes presas pelo horror e prazer, o jogo entre o santo e o blasfemo definiu toda uma cultura elevada e, ao mesmo tempo, rastejante. Jamais o malefício aparece em toda sua monstruosidade. Pelo contrário ele, como Lúcifer “Do brilho original inda conserva boa porção (...) de sua glória o resplendor mais vivo (Tal é o sol nascente quando surge por cima do horizonte nebuloso,de sua coma fúlgido privado , ou quando posto por detrás da lua, envolto no pavor de escuro eclipse, desastroso crepúsculo derrama pela metade do orbe” (Paraiso Perdido, Canto I).

Se de Milton, o cego bardo que animou a Revolução inglêsa seguimos para o século das Luzes, notamos que os mais ardentes seguidores da ciência, das artes, das técnicas, não deixam de perceber as armadilhas do Mal e o desfalecimento do verdadeiro, do bom, do belo. Mas calculam e apostam no bem e dão como prova o cálculo das probabilidades. Este é o sentimento de Diderot na Enciclopédia : “a conservação e o crescimento do gênero humano é prova segura de que existe mais bem do que mal no mundo; pois uma ou duas ações podem ter influência funesta em muitas pessoas.Ademais, todos os atos viciosos tendem a destruir o gênero humano, pelo menos a operar em sua desvantagem e diminuição; é preciso o concurso de um grande número de boas ações para conservar cada indivíduo. Se o número de ações más ultrapassasse o das boas, o gênero humano deveria acabar. (...) O gênero humano não subsistiria se o vício dominasse, pois é preciso o concurso de muitas ações boas para reparar os danos causados por uma só ação má; um crime basta para arrancar a vida de um ou muitos homens, mas quantas ações boas devem concorrer para conservar cada indivíduo ?”. E Diderot cita o matemático Leibniz (a quem citarei mais adiante, mas louvado por um inimigo das Luzes, o jurista Carl Schmitt) em reforço deste cálculo. Este é o “otimismo” das Luzes que não deixa de lado o mal, mas imagina provar que as duas possibilidades, o abismo ou a conservação humana, existem e são responsabilidade dos indivíduos, dos grupos, dos povos. Quem escreveu O Sobrinho de Rameau, sabe até onde pode ir a baixeza ou a elevação da Humanidade.

Com o fim da Revolução francêsa e o advento da ditadura napoleônica, seguida pelas piores negações dos direitos humanos em nome de Deus, da sociedade ou do Estado, veio o culto da noite. Esta, inimiga a ser vencida pela justiça de Jó e pela mudança radical dos costumes políticos, com o banimento dos privilégios sacerdotais e aristocráticos, algo gerado por Francis Bacon e aceito pelos enciclopedistas do século 18, torna-se com o romantismo conservador o alvo a ser alcançado, o ambiente “natural” dos seres humanos. A própria escolástica indicava, com Tomás de Aquino, que nada temos em comum com o morcêgos, porque ansiamos pela luz do intelecto e da ciência. O romantismo entôa o cântigo da ignorância e do aristocratismo dolorido, louva a noite como emblema de um mundo reencantado, no qual as ciências seriam poéticas e proféticas. Assim, Novalis canta a noite e a morte num mesmo fôlego : “É na morte que o amor transforma-se em mais doce; para o amante, a morte é uma noite nupcial, segredo de suaves mistérios”. Um comentador, Avni, acrescenta: “o sonho de Novalis sobre um além transforma-se (...) no culto à morte, com elementos dionisíacos” (The Bible and Romanticism).

O canto de Novalis diz que os homens das Luzes, soberbos e sacrílegos, teriam aprofundado a queda iniciada por Lúcifer. No Vº Hino à Noite, o poeta proclama, para além da modernidade, “a aurora do nascente esplendor do novo mundo”. Entra em cena o futuro, palavra hipnótica do romantismo em todos os seus matizes. Mas a colheita romântica tem seu fruto venenoso em Richard Wagner. “Para quem contempla amorosamente a noite da morte; para quem ela confiou seu profundo segredo; para aquele homem, as mentiras diurnas, glórias e honra, poder e fortuna, com todo seu brilho soberbo, se dissipam com vã poeira de sóis (...) Nas quimeras derrisórias do dia, só uma aspiração lhe resta: o desejo da Santa Noite, onde, desde toda eternidade, a única verídica, o êxtase amoroso o faz estremecer!”. O sonho de Wagner se apresenta no delírio nazista, no culto da Morte genérica exercitada pelas SS, cujo uniforme negro ostenta a caveira amaldiçoada.

Com o elogio dos sentimentos contra a ciência e a razão, mais a recusa da moderna democracia, brota no terreno noturno a flor pestilenta do mal, a negação dos direitos humanos em prol do futuro, do povo, mesmo do ser divino. Este impulso rumo ao obscurantismo encontra sua potência nos românticos Novalis, De Bonald, Donoso Cortés. Por exemplo, para De Bonald, “a Revolução francêsa começou com a Declaração dos Direitos do Homem; só terminará com a Declaração dos Direitos de Deus” (Teoria do Poder político e religioso). E se proclama, a partir daí, no pensamento contrário à ciência e à democracia, que “a sociedade é a verdadeira e mesmo a única natureza do homem (...) os indivíduos só vêem os indivíduos como eles...o Estado só vê e só pode ver o homem em família, como ele só vê a familia no Estado”. Deste modo, o programa totalitário estava pronto, pois o essencial é, ainda cito De Maistre, para a harmonia impere, “conservar as familias e consumir os indivíduos”. A doutrina sobre o indivíduo, em De Bonald, é importante para se compreender a justificação moderna das ditaduras, inclusive a de Getúlio Vargas: o indivíduo, proclama De Maistre, “só tem deveres e não direitos. Ele tem deveres para com a natureza humana, para com a sociedade e para com Deus que tudo envolve ...o direito do povo a governar a si próprio é um desafio contra toda verdade. A verdade é que o povo tem o direito de ser governado!”. Tais palavras ecoam na fala do ditador brasileiro, o mesmo sob cujo governo medrou o anti-semitismo, a tortura, a violência jurídica imposta pela escrita de um discípulo brasileiro de Carl Schmitt, Francisco Campos. Em discurso feito no dia 1 de maio de 1938, assim falou Getúlio : “O Estado não conhece direitos de indivíduos contra a coletividade. Os indivíduos não têm direitos, têm deveres! Os direitos pertencem à coletividade!”.

No mundo moderno, o elogio das trevas e a recusa da ciência e da razão, preparam o terreno imundo que gera várias noites: a Noite dos Cristais, a Noite das Longas Facas, a tremenda noite dos campos de concentração. O pressuposto, nos campos, é o mesmo anunciado por De Maistre contra a Revolução francêsa. Trata-se de impôr aos indivíduos e aos povos (“crianças”, na definição de Novalis) a marca do Estado eugenista de corpos e almas. Numa frase metade otimista, metade trágicamente realista, Bruno Bettelheim assim justificava a sua pesquisa sobre o comportamento dos indivíduos presos nos campos de concentração : “Hoje os campos alemães de concentração pertencem ao passado. [Esta é a metade otimista, RR] Mas não podemos igualmente estar certos de que a idéia de mudar a personalidade para atender as necessidades do Estado é igualmente uma coisa do passado. Eis porque a minha discussão está centrada nos campos de concentração como instrumentos para mudar a personalidade e produzir sujeitos mais úteis ao Estado total”. (“Behavior in Extreme Situations: coercion” in The Informed Heart).

Que Bettelheim estava certo, sobretudo na parte realista de suas frases, é testemunha todo o trabalho de bioética que em nossos dias se preocupa em mostrar a tecnologia de amoldamento das vontades individuais ao reclamos do Estado. Cito apenas o livro de Jonathan D. Moreno (Minds Wars, Brain Research and National Defense) no qual são descritos sine ira et studio as técnicas de manipulação e de intervenção técnica para impôr comportamentos, com a neurociência.

Mas a noite da não ciência, o mundo sentimental e romântico, no meu pequeno entender, acendeu a retórica totalitária e genocida. Se o nazismo, o estalinismo, o fascismo usaram saberes científicos e bélicos para esmagar milhões de seres, cabe encontrar as raízes do mal no ser humano que produz ciência mas a dirige para a sua sede arrogante de poder. Permitam que eu discorde, portanto, das doutrinas expandidas pelo núcleo inicial da chamada Escola de Frankfurt. Não aceito que o Holocausto seja o fruto das Luzes modernas. Menos ainda que o genocídio só se tornou possível com a Ilustração e a modernidade, como afirmam Theodor Adorno, Max Horkheimer na Dialética das Luzes, e mais recentemente Zygmund Baunan, em Modernidade e Holocausto. Para semelhantes autores, a modernidade não enxerga na sociedade uma ordem ou crescimento orgânico, como entre os românticos, mas a construção técnica de um ente maquinal, obra de engenharia, que deve atender a fins racionais alheios à sua vontade e desejos. Nesta base estaria a força para se efetuar o extermínio dos não saudáveis. Tal projeto de engenharia social , diz um escritor de hoje, “depende de dois pilares das Luzes: burocracia e ciência. A Ilustração não pode ser mais vista como um movimento de idéias, como em Ernst Cassirer, mas como algo conduzido por um vasto número de burocratas que empurrou as políticas de Estado no século 18 para os princípios mercantilistas (...) a importância destas mentes treinadas na universidade e reformistas na administração foram ressaltadas por Franco Venturi. Foi possível que burocratas bem intencionados adiantassem os mais desumanos propósitos, pois a burocracia depende da ação indireta. Burocratas são separados por muitas repartições dos humanos cujas vidas administram. (...) A racionalidade burocrática tende a se tornar independente das normas éticas. O aparelho burocrático torna-se rápidamente auto impulsionado, fazendo perder a vista sobre os seus propósitos no mesmo ato em que elabora com entusiasmo os seus meios” (Ritchie Robertson: The ´Jewish Question´ in German Literature, 1749-1939: Emancipation and its Discontents).

Sabemos perfeitamente até onde pode chegar a burocracia. Mas penso que lhe atribuir a causa magna do Holocausto é não apenas uma forma de dizer meia verdade, como garantir a indivíduos concretos desculpas para sua entusiástica adesão ao poder que planejava o morticínio desde longa data, antes mesmo de chegar à direção do Estado. Porque desculpa é o que enxergo da defesa escrita, entregue em 13 de maio de 1947 por Carl Schmitt a Robert K, Kempner, que a recebeu em nome do Tribunal de Nuremberg. A Corte pergunta ao jurista que fundamentou as decisões de Hitler apenas isto: “por que os Secretários de Estado seguiram Hitler?”. Resposta de Schmitt: “a burocracia ministerial alemã, proveniente dos mais altos gráus da carreira, titular substancial do sistema (...) expoente típica do estrato decisivo da burocracia alemã, que em 1933 se colocou, sem resistências dignas de nota, a serviço de Hitler. Para esta burocracia...a legalidade ainda não era o simples oposto da legitimidade, mas uma forma de manifestação desta última”. De fato, afirma ainda Schmitt mais adiante, “a conquista do poder por Hitler, aos olhos da burocracia alemã, não era ilegal. Não o era também para a maioria do povo alemão e nem para os governos estrangeiros que mantiveram relações diplomáticas sem julgar necessário um novo reconhecimento do direito internacional, como seria o caso se houvesse ilegalidade. Nem existia, contra Hitler, algum contra-governo, seja em território alemão, seja no exterior, da parte de exilados. A chamada lei dos plenos poderes de 24 de março de 1933 tolheu toda hesitação e agiu como uma legalização geral e global, tanto na ocasião, no confronto com os precedentes de fevereiro e março de 1933, quanto para todas as ações futuras” (“O problema da Legalidade” ).

Prestemos atenção à ultima frase: “quanto para todas as ações futuras”. Dizer que a culpa do Holocausto reside na burocracia e na sua racionalidade sine ira et studio é aceitar que ela, de fato, desvincula-se de seres humanos com poder de plena decisão, pensamento, vontade, desejos. Quando a lei dos plenos poderes foi arrancada, o Reichstag agoniza sob o tacão de Hitler, que ainda engatinha no poder. O Chanceler do Reich exige do Parlamento a aprovação da Lei. No debate ocorrido, Hitler toma a palavra e ameaça os deputados do Zentrum e os social-democratas. Após a réplica de Otto Wels (ainda é possível replicar naquele instante...) o Führer responde "com uma observação reveladora; solicitava (a lei de plenos poderes) do Reichstag alemão, unicamente "em respeito à legalidade" e por motivos psicológicos, "conceder-nos isto que teríamos podido obter de qualquer outro modo". Comenta Joachim Fest:"A resposta de Hitler assemelhava-se, pela rudeza cheia de um tom de bravata e o prazer embriagador de arrasar o adversário, à réplica que ele mesmo formulara em setembro de 1919, quando um orador acadêmico, empregando entonação professoral, desatara pela primeira vez as veias da eloquencia hitleriana, fazendo o bravo Anton Drexler ficar estupefato". (Adolf Hitler, J. Fest).

A defesa de Carl Schmitt ao Tribunal de Nuremberg é indecente e covarde, pois se esconde sob a desculpa proporcionada pela burocracia, para dissimular o fato mais virulento de sua própria carreira jurídica, o seu entranhado racismo e anti-semitismo. Em livro precioso editado há pouco tempo atrás, Yves Charles Zarka demonstra o quanto o jurista de Hitler exibiu, para quem desejasse saber, o seu desprezo e ódio racial. Assim, para citar apenas um exemplo estratégico, quando se fala da suposta culpa da razão científica e técnica pelo Holocausto, Schmitt escreveu na revista nazista Westdeutscher Beobachter (31 de maio de 1933) um artigo intitulado “Os intelectuais alemães”. Nele, afirma que definir o espirito ou a inteligência sem ligação com o povo é comprometer o sentido do próprio espírito. Na verdade “nenhum entendimento de um indivíduo único pode se subtrair ao todo, à totalidade de sua existência (Dasein) concreta, e está aí precisamente o seu vinculo com o povo”. Pensar de maneira diferente, arremata, “seria fazer como se a geometria clássica tivesse podido ser inventada tanto por um negro inteligente quanto pelo grego Euclides, e como se o gênio matemático do filósofo alemão Leibniz fosse pensável do mesmo modo, em época diversa entre os mexicanos ou siameses”. O racismo e o anti-semitismo movem o jurista. Ao falar de Einstein, diz que o físico odeia os alemães com veneno, precisamente “quando ele especulava como relativista sobre os átomos, parece que ele estava ligado, em cada uma de suas fibras, incluindo a de seu cérebro, ao povo ao qual ele pertence, e à situação política deste seu povo”. (Un detail nazi dans la pensée de Carl Schmitt).

Hoje a noite retorna ao mundo por muitas frestas. A pior é a sobrevivência do nazismo racista. Como diz Victor Klemperer, “um dia a palavra ENTNAZIFIZIERUNG terá sido atenuada, quando a situação que ela pretendia acabar não mais existir. Mas se isto vai ocorrer um dia, não o será ainda hoje, porque não é apenas os atos nazistas que devem sumir, mas também o enquadramento da mente nazista, o tipico modo de pensar nazista e seu seminário, a linguagem do nazismo” (Lingua Tertii Imperii: Language of the Third Reich). Herbert Marcuse mostra, em O homem unidimensional, o peso das siglas na tarefa de eludir e iludir as massas no processo de amestragem autoritária. Assim, diz ele, a palavra ONU é usada para esconder o fato de que não existem nações unidas no mundo. Penso que as atenuações postas nos termos cumprem o mesmo desiderato. Penso que não existe neo-nazismo. Existe, sim, nazismo em nossos tempos, um nazismo aggiornato, mas cujas premissas de ódio são mantidas e exercitadas a cada minuto.

A ciência e a técnica, hoje, são o apanágio das potências políticas mundiais. Mas vivemos o instante em que elas passam, por muitos dutos, aos que praticam o terror. Repetir, como uma espécie de mantra, que a ciência e a técnica, a razão e seus frutos são a fonte da desobediência aos direitos humanos, mais do que um equívoco, no meu entender, é agir de modo cúmplice com os que voltam o saber para o culto da morte. Defender a ciência, as artes, as técnicas, apesar dos usos genocidas que delas foi feito e ainda agora é feito, me parece uma tarefa civilizatória. Defender a educação científica e técnica da população, é medida importante contra o racismo e o anti-semitismo. Nas ciências e humanidades, fala a razão humana movida pela vontade. Afirmar da primeira o que tem fundamento na segunda, significa um contra-senso perigoso. O racismo e o anti-semitismo não têm origem na ciência. Seus fundamentos seguem mesmo contra a prática científica. Julgo ser de má fé o argumento que põe na ordem científica a consagração do mal no mundo. Sempre que recebem críticas, as matrizes religiosas da humanidade praticam um diairesis interessada ao distinguir entre a religião na sua fonte e os usos humanos. A primeira seria imaculada, os segundos, manchados de culpa. Recordo que as guerras religiosas, a noite de São Bartolomeu, a defenestração de Praga e outros eventos ligados à Guerra de Trinta anos tiveram como origem a intolerância generalizada no mundo cristão, tanto entre os reformados quanto entre os ortodoxos. Esta intolerância bebeu sangue o bastante para alimentar as tiranias modernas.

Noto com tristeza que o Papa atual retoma, quase literalmente, a crítica aos saberes científicos feita quando a Enciclopédia de Diderot foi condenada. Clemente 13, alarmado com o ateísmo moderno, escreveu o rascunho de uma Encíclica, a Quantopere dominus Jesus, apenas com oito exemplares. A publicação mais ampla foi adiada até que fosse ouvido o cardeal Passionei, amigo de Voltaire e de Montesquieu. Na Enciclica, cheia de vitupérios, o pontifice dizia que nada é mais próprio do que o desejo da verdade. Este desejo, acrescenta o Santo Padre, o Espirito Santo quer refrear, como o prova o Eclesiastes. Ele ordena que os padres se abstenham des pesquisas aprofundadas. Com a crítica do cardeal Passionei contra o intempestivo ataque à ciência, à técnica, à razão, Clemente 13 publicou apenas um Breve (3 de setembro de 1759) bem mais brando que a projetada Enciclica. Esta, após dois séculos, tem sua lógica retomada pela Spe Salvi (Salvos pela Esperança) publicada ontem por Bento 16. O ataque vai ao mesmo ponto: a ciência pode conduzir ao ateísmo e à perda dos valores divinos e humanos. Mesmo Francis Bacon, o alvo maior de Joseph De Maistre e da Contra-revolução conservadora, inimiga da forma democrática, recebe a sua parcela de vitupérios pontifícios.

Se olharmos o campo histórico, no fanatismo religioso se encontram as raízes mais venenosas do ódio racista e anti-semita e a recusa dos direitos humanos. Basta recordar o Edito de Expulsão de 1492, dos judeus para longe da Espanha; basta olhar a Sententia Estatuto de Toledo, de 1449; basta ler o texto de Lutero, “sobre os judeus e suas mentiras”; isto, para falar apenas em alguns marcos da cruzada contra os judeus e as minorias em países cristãos. Sempre é possível dizer, com Jules Isaac, tratarmos aqui com a “acusação capital unida ao tema do castigo último, a terrificante maldição que pesa sobre Israel, explicando (e de antemão justificando) seu destino miserável, suas mais cruéis provações, as piores violências cometidas contra ele, os rios de sangue que escaparam de suas feridas sempre reabertas, sempre vivas. De modo que, por um mecanismo engenhoso — alternativo — de sentenças doutorais e de furores populares, encontra-se jogado na conta de Deus o que, vista a esfera terrestre, seguramente pertence à incurável vilania humana, aquela perversidade, diversamente mas sabiamente explorada de século em século, de geração em geração, e que atinge seu ápice em Auschwitz, nas câmaras de gás e nos fornos crematórios da Alemanha nazista. Um desses alemães, desses assassinos servis, um dos matadores em chefe (batizado cristão) disse: ‘Eu não podia ter escrúpulos, pois eram todos judeus’. Voz de Hitler? Voz de Streicher? Não. “Vox saeculorum.” (Jesus e Israel).

Condenar a ciência e a técnica, para os amigos dos direitos humanos, é agir contra o próprio movimento que se defende. Para os que se pretendem interpretes únicos da voz divina, é decretar o retorno ao controle teológico-político. A razão é centelha divina em nossas mentes e, como afirma Yossel Rakover em momento de suprema dor, comparável à sofrida por Jó, “Blasfemamos contra Deus aos nos denegrirmos”.

sábado, 24 de outubro de 2020

Graças à Maria Ângela Borsoi, recuperei o discurso que proferi em nome da Unicamp, quando Dom Paulo recebeu nela o Titulo de Doutor Honoris Causa.

 

DOUTORADO HONORIS CAUSA DA UNICAMP A DOM PAULO, OUTUBRO DE 2000

SAUDAÇÃO AO NOVO DOUTOR PELO PROFESSOR DR. ROBERTO ROMANO

 

 

Ecce exiit, qui seminat, seminare. Não seria preciso a lembrança de Vieira para dizer o quanto é vital a missão de quem semeia o verbo. Pedras, espinhos, pássaros, toda a natureza e todos os espíritos podem destruir o véu diáfano da palavra prenhe de sabedoria. A infertilidade, não raro, encontra-se fora do semeador, quase sempre localiza-se no ambiente, nos ouvidos que deveriam acolher a mensagem. Mas a palavra, sal da terra, também perde o sabor. Então, a culpa é de quem semeia. A sentença vem na frase cristã sobre os homens que nem a peixe nem a carne se parecem, mas ficam alheios às dores e alegrias dos homens. Quem não salga, é pisado, cedo ou tarde, pelos tempos ou espaços, físicos ou sociais. Conculcatum est! Para que serve um sal insípido? Para nada.

Na Universidade e na Igreja, Paulo, existem semeadores. Eles podem perder os homens, e se perder. Felizes os que não colocam sobre as costas dos mortais cargas que não poderiam nem sonhar em conduzir! Tanto na cultura cristã, quanto no pensamento grego, temos a clara idéia do mundo espiritual como semeadura, com fertilidade ou pobreza de frutos. Plutarco afirma, em algum lugar, que o ensino platônico é como água prenhe de vida caindo sobre as mentes dos ouvintes. As palavras filosóficas, se caem em terreno favorável, florescem e dão frutos. Caso oposto, os signos de sabedoria, em contato com a mente álgida do receptor, se transformam em chuva de gelo, dando morte momentânea ao verbo sapiente. Quando o terreno muda, adubado pela vida ou pela educação, as palavras congeladas podem se dissolver, e liberam o conhecimento nelas escondido. Platão compara os indivíduos a frutos agrícolas. Uns podem alimentar a vida coletiva, e sua existência melhora o padrão humano em geral. Outros, grãos duros, encruam, não mergulham no alimento comum servido à polis. Eles não entram no circuito pleno das duas palavras essenciais ao ideário platônico e à Grécia no seu todo: paideia kai trophes. Quantos grãos encruados existem, Paulo, na Igreja e na Universidade! Quanta semente infértil, quanto gelo!

Sabemos, desde o teu predecessor de mesmo nome, Paulo, o grande significado da metáfora corporal. Esta também nos envia aos vários saberes, gregos, judaicos, latinos. A realidade plena do Corpus mysticum nos ultrapassa. Mas sabemos que, no interior da comunidade, todos pertencemos ao mesmo sangue, à mesma carne, ao mesmo hálito divino. Sabemos, mas poucos têm a virtude suficiente para viver esta comunhão, num banquete partilhado pelos nossos irmãos, sobretudo aos que se recusa até as migalhas.

Paulo: és pastor e doutor. Sabes, por teoria e vida, o quanto o mestre da República, ele novamente, prezava o cão enquanto imagem da sabedoria. Rabelais conta, na boca de um personagem, que segundo Platão o cachorro, e não tanto o homem, é o animal filosófico por excelência, porque não se contenta com a superfície das coisas e busca a substância alimentícia escondida no interior do osso. E o cão, ainda no ensino platônico, deveria ser o ícone do governante justo: bom e manso para os de casa, feroz para com os inimigos. Em todo o teu período pastoral, à frente de uma das mais violentas dioceses do Brasil, tu defendeste os de casa, os pobres, os perseguidos. E foste um anteparo contra os lobos. Em tempos de FMI, é bom recordar teu exemplo, porque raramente encontramos estas marcas caninas em nossos magistrados civis. Basta recordar a atitude dos nossos ministros, por ocasião do recente plebiscito sobre a dívida externa brasileira, liderado pela CNBB e pela sociedade política nacional. O dirigente, pastor de homens, deve incentivar nos dirigidos o amor dos seus iguais, através da philia. Uma cidade inimiga de si mesma, diz o grego, de modo próximo aos Evangelhos, não subsiste. Nas Leis, encontramos a frase bela e terrível sobre a boa cidade, aquela onde é proibido a caça aos homens, e onde as dores e alegrias dos indivíduos são as dores e alegrias do todo, e viceversa. No grande corpo da polis é preciso que os membros se rejubilem e chorem, em ritmo igual. Se a maioria chora, e a minoria ri, algo errado, doente, encontra-se no corpo.

Mas para que todos percebam o alcance deste viver em comum, é preciso que lhes seja ensinada a sapiência. E aí, recomeça o cântico da educação dos homens através dos tempos. Para que o saber frutifique, alguém precisa sair, e semear... com todos os riscos que isto implique, como as tempestades, os envaidecimentos humanos, as calúnias, os choques, o medo, as esperanças contrariadas. Ninguém semeia tendo certeza da colheita. Cabe a Deus e à sua Providência definir este ponto. Ou cabe à natureza. Jean Pierre Vernant, um sábio estudioso do conhecimento grego, diz que é bom notar as diferenças da imaginação do mando, no Ocidente e no Oriente.

Enquanto nos apegamos à figura do pastor, dinâmica por excelência, a China idealiza o dirigente como jardineiro que assiste o crescimento das plantas, sem intervir indiscretamente, e sem retirar o movimento dos liderados. Raros homens que exercem o mando unem as virtudes do pastor e as do jardineiro. Teu governo, na diocese de São Paulo, jungiu os dois valores. Corajoso, como só podem ser os homens de fé e cheios de retidão, teu comando empurrou os tíbios para a defesa da vida humana, sobretudo na época mais negra de nossa história, tempo do poder castrense apoiado no terror e na tortura, na morte e no desaparecimento dos que não aceitavam o fim da sociedade civil. Mas além da tua liderança como pastor intrépido, ressaltou diante do mundo e do Brasil a tua paciência de jardineiro das almas.

Ensinast, semeando nos sermões, nas praças públicas, nos atos contra as atrocidades, nos cárceres, nas favelas, nas mansões dos ricos, nos palácios dos poderosos. Sempre igual e sempre diverso, conforme é imperativo do lavrador evangélico, grego com os gregos, romano com os romanos. Não foram esquecidos em tua vigília pastoral os irmãos reformados, os judeus, os seguidores do Alcorão e os sem crença. Todos são unânimes ao agradecer a presença do teu báculo amigo. Nenhum brasileiro esquecerá tuas palavras impregnadas de cólera divina, na cerimônia fúnebre onde choramos Vladimir Herzog, as frases que recuperaram a dignidade plena da Igreja e do povo brasileiro no crepúsculo de sinistra ditadura. Este lado é uma das faces mais sublimes de nosso hóspede. Ele merece nosso aplauso também por razões especulativas, acadêmicas.

Quando Paulo Evaristo Arns começou a semear, preparou boas sementes. O humilde franciscano rumou para a Sorbonne, onde aprendeu os mistérios dos livros e do Livro, alimentando-se dos frutos produzidos por Jerônimo e todos os que ajudaram a edificar um jardim espiritual de vastidões infinitas. Paulo mereceu o título de doutor com um trabalho acadêmico que ilumina aspectos importantes da nossa civilização. Após mergulhar nas fontes do Verbo ele retornou ao Brasil, onde exerceu a cura d´almas, sempre proclamando a palavra humana e divina com prudência e coragem. Praticou os mandamentos do Cristo ao visitar os doentes, atender os presos, lutar pela família e pela dignidade da pessoa humana.

Neste ato, Paulo, não cabem muitas palavras. O silêncio respeitoso diante de tua figura ímpar vale mais do que longos discursos. Bem vindo entre nós que tentamos cultivar o Logos, tu que és um dos mais belos exemplos da semeadura do Verbo encarnado. A UNICAMP te homenageia com a sua jóia mais rara, o seu título mais essencial, mais precioso. Ela tem certeza de que tu o mereces e que ela merece a tua presença. Esta alegria é a nossa festa de hoje. Nas antigas cerimônias de entronização papal, após o ofício divino, o carmelengo entregava ao novo pontífice uma bolsa com moedas de ouro, pro missa bene cantata. Não temos espécies materiais mas este título é áureo no espírito, e nós te entregamos a honra de Doutor Honoris causa  pela UNICAMP, pro vita bene cantata. Deus te proteja e nos salve.