Flores

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia na Unicamp, afirma que há aparelhamento no TCU. "O fato deles já serem indicados politicamente já lhes retira a capacidade de serem magistrados. O magistrado é aquele que não deve dependência à ninguém, que deve ser independente. Os tribunais de contas não são tribunais. São, na verdade, cargos, penduricalhos, a partidos políticos que estão nos governos"

QUARTA, 16/08/2017, 06:00

Viagens de ministros aumentam, mas a produtividade do TCU despenca

Idas ao exterior avançaram quase 40% em 2017, enquanto, só no primeiro trimestre do ano, tribunal realizou 104 ações de fiscalização, contra 141 no mesmo período de 2016. O número representa uma queda de produtividade de 26%. Por outro lado, o TCU colocou em prática plano de contenção de despesas que afetou até o cafezinho.


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Plenário do TCU (Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil)
Plenário do TCU
Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil
Por Guilherme Balza e Juliana Causin

Logo após o impeachment de Dilma Rousseff, com o discurso de ajuste fiscal, o TCU (Tribunal de Contas da União) demitiu dezenas de funcionários terceirizados e colocou em prática medidas de contenção: trocou o café da máquina pelo do coador, reduziu as luzes dos corredores em 30% e cortou as garrafinhas de água mineral para os servidores.
Todas essas ações contrastam, no entanto, com outro dado: o aumento de viagens dos ministros para o exterior neste ano. Levantamento exclusivo da CBN mostra que, entre janeiro e julho de 2017, os nove ministros do TCU passaram, ao todo, 158 dias no exterior, uma média de 22 dias por mês. 
Em 2016, considerando o ano todo, os ministros ficaram 204 dias fora do país, média de 17 dias por mês. Em 2015, foram 191 dias, menos de 16 dias por mês. Em dois anos, as viagens aumentaram quase 40%. 
Algumas autoridades chegam a ficar quase um terço do tempo viajando. Juntos, os ministros visitaram 40 países nos últimos dois anos e meio
Só neste ano o TCU gastou R$ 433 mil com passagens e diárias dos ministros. O que mais gastou foi Augusto Nardes (R$ 94 mil), seguido por Aroldo Cedraz (R$ 73 mil), Bruno Dantas (R$ 50 mil), e Benjamin Zyler (R$ 38 mil).
O advogado Luciano Santos, diretor do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, critica o fato de os ministros serem indicados pelo presidente e pelo Congresso.
"Normalmente são ex-parlamentares que acabam sendo premiados por cargos vitalícios. Os tribunais têm um corpo técnico muito qualificado. Eles poderiam ser os conselheiros nomeados para terem essa responsabilidade, mas o que acaba acontecendo é um prêmio em que quem nomeia o conselheiro é aquele que será fiscalizado também, no caso do TCU é o presidente da República. Temos aí um grande desvio, um grande problema."
O aumento do tempo das autoridades fora do país coincide com uma mudança na estrutura do TCU. Todas as viagens sempre foram fiscalizadas pela Secretaria Geral de Administração do órgão. Mas em dezembro do ano passado, as coisas mudaram: os ministros decidiram, numa sessão reservada, trazer essas decisões para um setor que é mais próximo deles e deixar a secretaria geral cuidando só das viagens dos servidores. 
Apesar do aumento no número de viagens, o TCU informa que houve uma redução de 39% nos gastos na comparação com 2015.
Se as viagens para o exterior aumentaram, a produtividade do TCU diminuiu. No primeiro trimestre deste ano, foram 104 ações de fiscalização, contra 141 no mesmo período de 2016, uma queda de 26%. A quantidade de processos apreciados caiu de 1.400 para 1.197, redução de 15%.
Considerando o ano inteiro, em 2016 o TCU teve seu pior desempenho desde 2010 no volume de processos autuados. Foram pouco mais de 4.500 processos, contra uma média anual de 5.500, redução de 20%.
Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia na Unicamp, afirma que há aparelhamento no TCU.
"O fato deles já serem indicados politicamente já lhes retira a capacidade de serem magistrados. O magistrado é aquele que não deve dependência à ninguém, que deve ser independente. Os tribunais de contas não são tribunais. São, na verdade, cargos, penduricalhos, a partidos políticos que estão nos governos"
Dos nove ministros do TCU, cinco são investigados ou citados na Lava Jato. São eles Aroldo Cedraz, Vital do Rego, José Múcio Monteiro, Raimundo Carreiro e Augusto Nardes, este último também investigado pelo STF no âmbito da Operação Zelotes.
Outro lado
Procurado pela reportagem, o TCU informou que a queda de produtividade no primeiro trimestre é normal porque em anos ímpares há a troca na presidência e isso reflete no número de ações de fiscalização. Neste período, segundo o TCU, há um esforço maior no planejamento das ações.
Sobre o aumento das viagens, o órgão sustenta que os deslocamentos sempre levam em consideração o interesse público e as atribuições do cargo de cada autoridade.

Com crise em 2015, 4,1 milhões entraram na faixa da pobreza no Brasil, aponta estudo

Com crise em 2015, 4,1 milhões entraram na faixa da pobreza no Brasil, aponta estudo

Carlos Madeiro
Colaboração para o UOL, em Maceió
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O percentual de pessoas pobres cresceu 22% no Brasil em 2015, de acordo com estudo publicado na segunda-feira (14) por Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), PNUD (Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento) e Fundação João Pinheiro. Em 2014, o percentual de pobres era de 8,1% (menor percentual histórico), saltando para 9,96% no ano seguinte.
"Os dados trazidos pelas PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) mostram que houve redução na renda per capita da população brasileira e ingresso de 4,1 milhões de pessoas na pobreza, sendo que, deste total, 1,4 milhão de pessoas ingressaram na extrema pobreza", aponta o levantamento Radar IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) 2015.
Segundo a metodologia, são consideradas pessoas pobres aquelas que têm renda per capita domiciliar inferior a 1/4 de um salário mínimo. Ressalta-se que a referência usada pela pesquisa é o salário mínimo vigente em 2010 (ano do último Censo), de R$ 510.
Ainda segundo o levantamento, a renda per capita caiu --de forma inédita na década-- entre 2014 e 2015, de R$ 803,36 para R$ 746,84, respectivamente.
Já o percentual de extremamente pobres (com renda per capita domiciliar de até 70 reais) subiu de 3,01% para 3,63%. O aumento, porém, não foi o primeiro da década --já havia ocorrido em 2013.
Em 2015 o país teve grande retração econômica, com queda de 3,8% no PIB (Produto Interno Bruto) --a maior em 25 anos.
O Radar IDHM é um levantamento que atualiza o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, produzido a cada dez anos, com base nas publicações dos censos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). A cada ano, porém, o radar faz uma atualização de dados com base na PNAD (Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílio), também do IBGE.

Mudança de curva

Os dados revelam uma mudança de curva inédita desde o ano 2010. Segundo a pesquisa, foi a primeira vez na década que houve um aumento do número de pobres no Brasil. Entre 2000 e 2010, o percentual de pobres havia caído de 27,9% para 15,2%. Entre 2011 e 2014, houve queda também, ano a ano (ver tabela abaixo).
Percentual de pobres:
  • 2000: 27,9%
  • 2010: 15,2%
  • 2011: 12,41%
  • 2012: 10,4%
  • 2013: 9,9%
  • 2014: 8,1%
  • 2015: 9,96%
Fonte: Radar e Atlas do Desenvolvimento Humano
Segundo a pesquisa, a renda média de quem é pobre no país caiu, entre 2014 e o ano seguinte, de R$ 154 para R$ 150.
O número de pessoas vulneráveis à pobreza --com renda per capita de meio salário mínimo-- também apresentou alta em 2015, de 10%. Segundo o Radar, esse índice saltou de 22,1% para 24,3%.
O dado também representa uma alta extraordinária na década. Entre 2000 e 2010, esse índice de vulneráveis havia caído de 48,4% da população para 32,6%. Essa queda continuou entre 2011 e 2014, quando atingiu o menor percentual da série: 22,1% da população.

Resultado "esperado" 

Segundo o pesquisador do Ipea Marco Aurélio Costa, não há surpresa nos dados. "Era esperado pela economia. O que acontece afeta mais na população de renda mais baixa", explica. "Se você fizer uma relação com o que vinha acontecendo com dados de emprego e desemprego vai entender que era esperado", diz.
O IDHM faz a análise da condição social em três sub-índices: longevidade, educação e renda. Nos dois primeiros, ao contrário do item rendimento, o país seguiu melhorando seus índices em 2015.
Segundo o pesquisador, os dados ruins da renda nacional fizeram com que o país estagnasse um avanço social de anos.
"O ano de 2015 foi o primeiro ano em que o IDHM se manteve estagnado na década. A longevidade continuou avançando no mesmo ritmo que nos anos anteriores. No caso da educação houve uma desaceleração, mas houve avanços, mesmo que menores do que nos dois anos anteriores. A renda abaixo é que segurou o IDHM", afirma.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

The New York Times

The Opinion Pages | Op-Ed Contributor

What Jewish Children Learned From Charlottesville

Photo
White supremacists leading a torch march at the University of Virginia in Charlottesville, Va., on Friday night. Credit Edu Bayer for The New York Times
This dirty Jew remembers every penny thrown at him.
The ones thrown from above, as we waited to be picked up from the public pool in my hometown on Long Island, our yarmulkes pinned to wet hair. By then, I was big enough to feel shame for the younger kids, who knew no better than to scurry around, as our local anti-Semites laughed.
I remember walking home from synagogue at my father’s side, in our suits and ties, and seeing a neighbor boy crawling on his hands and knees, surrounded by bullies, this time picking up pennies by force. I remember my father rushing in and righting the boy, and sending those kids scattering.
I remember when, at that same corner, on a different day, those budding neo-Nazis surrounded my sister, and I raced home for help. I remember my parents running back, and my father and mother (all five feet of her) confronting the parents of one of the boys, who then gave him a winking, Trumpian chiding for behavior they didn’t care to condemn. Even if it’s “kids with horns,” they told their son, he should leave other children alone.
I’ll never forget the shame of it. Nor any of the other affronts, from the swastika shaving-creamed on our front door on Halloween to the kid on his bike yelling, “Hitler should have finished you all.” I remember every fistfight, every broken window, every catcall and curse. I remember them because each made me — a fifth-generation American — feel unsafe and unwelcome in my own home, just as was intended.
I could, likewise, catalog every tough-Jew story of victory in the face of hatred. My favorite still: that of my bull-necked great-grandfather who worked for the railroads, who in response to the guy on the next barstool saying that there were “too many Jews” in the place, knocked the bum out with a single punch, without getting up from his perch.
Continue reading the main story
But my great-grandfather is history. My childhood is history.
I live in Brooklyn now, where my father grew up. It was here, after watching people cheer Barack Obama’s victory in the streets, after gay marriage became legal nationwide and after other evolutionary steps, that I was finally able to embrace the past as the past and look at our collective present in a new light.
Secular now, I watch the younger religious Jews in awe. They don’t slip their yarmulkes into their pockets out of fear. It hit me at, of all places, a Nets game. I was amazed by all the yarmulkes in the crowd, and the boys beneath them eating hot dogs from — who would have believed it — kosher concession stands.
In a New York sports tradition, one of them was mouthing off at anyone and everyone who was rooting for the visiting team. I watched him razzing people, opening his mouth without thinking he’d be beaten to a pulp for drawing attention to himself. But no one said a single non-basketball-related, Jew-hating word.
I can’t tell you how much pride I took in that moment, the same syrupy pride I take when sitting on a subway car where no two faces, no two histories, seem alike, and feeling nothing but minding-our-own-business good will I felt the same watching all our children in the park, knowing that they must recognize difference but see nothing in it to fear. How great it must be, I thought, to grow up in that America, a place still flawed but striving to do better.
I understood that, in my 40s, I was already part of history. That certain things I knew didn’t need to be known anymore.
And yet, in seven months of this presidency, in one single day in Charlottesville, Va., all of that is lost. A generation, and so much more, stolen away. There is the trauma of those assaulted by Nazis on American soil and the tragedy that is Heather Heyer’s murder that belongs to her and her family alone. And then there is what all the rest of us share — the pain and violence and the lessons we draw from them. Because the children who witness a day like that, and a president like this, will not forget the fear and disrespect tailored to the black child, the Muslim child, the Jewish child.
They will not forget the assault rifles that this government puts in these violent men’s hands, nor the chants that black lives don’t matter and that the Jews will not replace them — just as I will never not hear what that kid on the bike screamed or stop seeing my father helping a boy, crawling for pennies, off his knees.
While harking back to my pious, head-covered days, I am reminded of a notion that our rabbis taught us: The theft of time is a crime like any other. Back then it was about interrupting class — one minute wasted was a minute of learning lost. But multiply that minute by everyone in the room, and it became 15, 20 minutes, half an hour’s worth of knowledge that none of us could ever get back.
Saturday in Charlottesville was just one day, but think of that one day multiplied by all of us, across this great country. Think of the size of that setback, the assault on empathy, the divisiveness and tiki-torched terror multiplied by every single citizen of this nation. It may as well be millions of years of dignity, of civility, of progress lost.
Just from that one day.
Nathan Englander (@NathanEnglander) is the author of the forthcoming novel “Dinner at the Center of the Earth.”

CBN/Correio do Povo Alagoas

 http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/politica/2017/08/15/MINISTROS-DO-TCU-PASSAM-ATE-UM-TERCO-DO-ANO-VIAJANDO-COM-DINHEIRO-PUBLICO.htm

 

notícias


15.08.2017 - 08:12   por Guilherme Balza e Juliana Causin

Ministros do TCU passam até um terço do ano viajando com dinheiro público


O Tribunal de Contas da União, órgão que existe para fiscalizar os gastos do governo, tem funcionado também como uma espécie de agência de viagens para autoridades. Segundo um levantamento da CBN, gasto de um dos ministros com diárias e passagens somente




Presidente do TCU
Doze dias em Paris e Lisboa com com tudo pago. Dez dias na Austrália, sem custo nenhum. Dois meses inteiros nos Estados Unidos pra fazer um curso pago com dinheiro público. Esses são só alguns exemplos de viagens recentes dos ministros do Tribunal de Contas da União (TCU).

Em 2017, o campeão de viagens é o ministro Aroldo Cedraz. Em seis meses, foram 61 dias viajando, 56 deles no exterior. Onze dias nas Bahamas, 17 em Lisboa, 13 em Viena, 12 em Amsterdã e quatro em Bogotá. Foram mais de R$ 72 mil em diárias e passagens bancadas com dinheiro público.

A justificativa é sempre a participação em seminários internacionais. O problema é que esses eventos costumam durar dois ou três dias. Cedraz ficou 12 dias na Holanda para um evento da ONU que durou apenas um dia. Em dois anos e meio, ele ficou 171 dias no exterior, passando por 17 países.

Para Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia na Unicamp, o abuso torna-se ainda mais grave porque o TCU é um órgão fiscalizador:

"É muito típico de um Estado que não é republicano, não é democrático, e no qual não impera a responsabilização dos operadores. São privilégios para magistrados, deputados, senadores, governadores etc. E, nesse caso, particularmente, é escandaloso porque se trata de pessoas que controlam o gasto do dinheiro público em nome do parlamento. Essa prática de fazer turismo com dinheiro do povo tem que acabar rapidamente."

Considerando deslocamentos nacionais e internacionais, o ministro Augusto Nardes, relator das pedaladas de Dilma Rousseff, foi o que mais viajou desde 2015. Ele esteve 264 dias fora de Brasília, o que dá quase nove meses. Muito mais que os colegas, já que, em média, cada ministro passa 41 dias do ano viajando. Nardes visitou 11 países nos últimos 30 meses.

De acordo com o TCU, só neste ano Nardes passou 50 dias em trânsito, 29 deles no exterior, em países como Peru, Equador, Argentina e México. Os registros do tribunal indicam que o ministro também ficou 14 dias nos Estados Unidos para um congresso na Universidade da Pensilvânia que durou apenas dois dias.

À reportagem da CBN, Nardes disse que houve um erro de digitação ao incluir as informações dessa viagem. Ele enviou comprovantes de passagens que mostram que a duração foi de cinco dias.

Mas o ministro também passou nove dias na Armênia para um congresso que durou só três dias:

"Eu estou com 65 anos, estou viajando em classe econômica, para fazer uma viagem e preparar uma palestra em lingua estrangeira [não é fácil]. Com 32 anos eu aguentava ficar duas noites sem dormir. Hoje eu não consigo. É uma viagem extremamente cansativa e dura na Armênia."

Sobre ser o campeão em viagens, Nardes diz que é reflexo do trabalho dele e da militância em torno do tema da governança pública:

"Sou o mais requisitado para fazer palestras. Estou me sacrificando porque acredito que é possível refundar o Brasil com nova estrutura na melhoria da governança. Sacrifício pessoal. Aliás, já foi apelidado de 'Dom Quixote da governança'. Os outros ministros me apelidaram."

O ministro Bruno Dantas faz viagens longas. Em julho deste ano, ficou 15 dias em Roma. No ano passado, passou dois meses inteiros nos Estados Unidos para fazer um curso que custou R$ 130 mil - pagos, claro, com dinheiro público. Em 2015, ele já tinha passado um mês completo em solo americano, a um custo de R$ 80 mil .

O ministro Vital do Rego está há menos de três anos no TCU e já visitou Rússia, Austrália, Egito, Polônia e Suíça.

Outro lado

Procurado pela reportagem, o TCU informou que os ministros são designados para as viagens pela presidência do tribunal com o objetivo de cumprir missão oficial ou para fins de treinamento.

De acordo com o órgão, as viagens são realizadas sempre levando em consideração o interesse público e as atribuições do cargo. O TCU informa ainda que, neste ano, houve uma redução de 39% dos gastos com viagens internacionais em comparação com 2015.

Em nota, Aroldo Cedraz disse que as viagens internacionais foram originadas por convites ou por designação da presidência do TCU, seguindo os trâmites regulares do órgão.

Bruno Dantas afirmou que, por possuir currículo acadêmico extenso, costuma ser convidado para congressos, simpósios e programas de capacitação.

Vital do Rêgo disse que as quatro viagens destinaram-se a promover o intercâmbio de informações com outros organismos internacionais referentes a temas de interesse do TCU.

Há, por outro lado, ministros mais discretos: Ana Arraes e José Múcio Filho ficaram menos de 40 dias em viagem nos últimos dois anos e meio. O atual presidente do TCU, Raimundo Carreiro, é o menos viajante: passou 31 dias fora de Brasília e não foi nenhuma vez ao exterior. Detalhe: ele tem medo de viajar de avião e prefere deslocamentos por terra.


Fonte: G1 - CBN

Tags: ministros do tcu passam até um terço do ano viajando com dinheiro público



The Washington Post.

Trump’s America is not mine


A memorial at the site of the deadly car attack in Charlottesville. (Evelyn Hockstein/For The Washington Post)
Opinion writer
Last month, Simon Kuper wrote in his Financial Times column that he was applying for French citizenship. His wife and children, Americans all, had already done so. They live in Paris, so they are not leaving one country for another, but the column made me wonder if I could ever do anything similar. The quick answer is no, but President Trump has put my relationship with my own country on the rocks. Some days I think I don’t know it anymore.
Trump’s reaction Saturday to the Charlottesville hate-fest is an example of what I find so troubling. I never thought a president of the United States would hedge his bets when it came to denouncing racists and anti-Semites. There is abundant boilerplate for these incidents, whole attics of cliches, but Trump could utter not a one. Instead, he pushed out some mush about an “egregious display of hatred, bigotry and violence on many sides.”
On Monday, the president toughened up. “Racism is evil,” Trump said, no doubt at the urging of his aides. He denounced “the KKK, neo-Nazis, white supremacists and other hate groups that are repugnant to everything we hold dear as Americans.” Nice try, but three days late and many dollars short. The stain of the original statement cannot be removed. It is the authentic Trump — the genuine embodiment of a president who has both identified a rage in part of the American electorate and validated it.
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America has had these moments before. The reign of Sen. Joseph McCarthy comes to mind. He was a lying opportunist who exploited a Red Scare to ruin lives and careers. But for all his villainy, he was just a senator and, in due course, the Senate took care of its own. It censured McCarthy.
Trump, however, is vastly more powerful. His tweets dominate the news cycle. His claim that 3 million to 5 million illegal immigrants voted for Hillary Clinton and deprived him of a popular-vote victory has seeped into the Republican electorate. The Post last week reported that about half of Republicans would support postponing the 2020 presidential election until the problem is fixed.
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Trump: Racism ‘has no place in America’
Two days after a woman was killed in Charlottesville amid clashes between white nationalists and counterprotesters, President Trump on Aug. 14 condemned racist groups such as the KKK, saying racism “has no place in America.” (Photo: Ricky Carioti/The Washington Post)
That the problem cannot be fixed because it does not exist is almost beside the point. More important is the blatant disregard for both the Constitution and tradition. We hold presidential elections every four years. Always have. The president’s term is set by the Constitution. Look it up.
Simultaneous with the delegitimization of the electoral process has been a subversion of truth. It has been reduced to just another thing — something like an alternative to the “alternative facts” of Kellyanne Conway’s invention. Trump’s incessant attacks on the press have taken a toll. The so-called mainstream media has for years been a GOP whipping boy, but now it is not merely in opposition, it is also corrupt. “They’re lying, they’re cheating, they’re stealing,” Trump said during a rally in October in Grand Junction, Colo. “They’re doing everything, these people right back here.” He was pointing to the press section.
Grand Junction, in fact, is where Peter Hessler of the New Yorker found that Trump’s message of anger and intolerance has not only taken hold, but also metastasized. The local GOP, always conservative, was nonetheless taken over by even more conservative Trump supporters. The local newspaper, the reliably middle-of-the-road Daily Sentinel, has lost subscribers and is under siege for its moderation. Grand Junction has its problems, and it is not all of America. But it ain’t anywhere else, either.
Beliefs that used to be found only on the fringe of the far right have entered the Republican mainstream. The furious and unbalanced hatred of Clinton, the conviction that the election was almost stolen — all this and more have been given such legitimacy by Trump that neo-Nazis can march in Thomas Jefferson’s home town, confident that they have Trump’s support. They were wrong. They only had his indifference.
The ultimate question is whether the name Donald Trump will be attached to an era — whether he will so change America that it will never be the same afterward. The answer, I think, lies with members of the president’s own party, Republicans who so far have been loath to confront the president.
Maybe Charlottesville will be a turning point. Maybe the death of counterprotester Heather Heyer will produce the realization that she may not be the last to be killed by hate. Others may follow because the president of the United States winks at hatred and responds to a hate march with a pudding of a statement. It was not what he initially said, though, that was telling. It was his total lack of outrage. Maybe that’s his America. It’s not mine.
Read more from Richard Cohen’s archive.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Favor e Corrupção, Roberto Romano Revista interesse Nacional

Revista Interesse Nacional, janeiro de 2013.



Erich Auerbach, pensador e hermeneuta do século XX, expõe sua visão da propaganda (demagógica e totalitária) na figura do palco e do holofote. Ao criticar o estilo das Luzes militantes (frases rápidas que induzem o leitor a conclusões injustas sobre indivíduos, grupos e instituições), ele recorda que o mundo humano é um imenso palco, onde inúmeras cenas surgem ao mesmo tempo. O propagandista social, político e econômico ilumina uma ou outra cena e deixa as demais na obscuridade. Quem está na plateia tem a sensação de atingir a verdade, pois a parte iluminada é verdadeira. Como, no entanto, os demais aspectos ficam no escuro, ele não testemunha toda a verdade. “E da verdade, faz parte toda a verdade”. Auerbach lembra que a busca do verdadeiro exigiria tempo suficiente para iluminar o maior número possível de cenas. “O público sempre volta a cair nestes truques, sobretudo em tempos de inquietação, e todos conhecemos bastantes exemplos disto, do nosso passado mais imediato. “Contudo, o truque é, na maior parte dos casos, fácil de ser descoberto; mas falta ao povo ou ao público, em tempos de tensão, a vontade séria de fazê-lo. Quando uma forma de vida ou um grupo humano cumpriram o seu tempo ou perderam prestígio e tolerância, toda injustiça que a propaganda comete contra eles é recebida, apesar de se ter uma semiconsciência do seu caráter de injustiça, com alegria sádica”. A imprensa, os movimentos, os políticos e as instituições estão imersos no tempo rápido, dominado com técnica refinada pela propaganda.

No caso da Ação Penal 470, é possível notar o quão é útil a figura imaginada por Auerbach. Primeiramente, pela seleção das cenas e dos atores. Como em outros escândalos que atraíram o olhar público (desde o “mar de lama” atribuído ao governo Getúlio Vargas pela UDN ao impedimento de Collor, passando pelos “Anões do Orçamento” e similares) faz-se um recorte de atos e personagens, atribuindo-lhes todos os malefícios da República. Quem denuncia os desmandos é tido como herói sem mácula. Não se diz naqueles instantes que o ato de desmascarar, não raro, é uma forma das mais odiosas de poder autoritário e serve para esconder os intentos e atos dos acusadores. “Nada impede que o ator use uma máscara por baixo de outra” diz Elias Canetti no monumento ético e político chamado Massa e Poder. A máscara duplicada no rosto de quem aponta o dedo para os demais é “arma ou instrumento que deve ser manipulado”.


Para compreender o processo julgado pelo STF é preciso examinar outras cenas transcorridas em tempos recuados da história ética e política. Felizmente, existem revistas como Interesse Nacional que não se pautam pelo tempo rápido e abrem espaço para considerações que exigem uma cronologia alheia à propaganda. As ações tortuosas do passado continuam a existir no presente e se instalam na maioria dos partidos políticos brasileiros. Não posso ser exaustivo. Escolho o que julgo mais grave em nossa ordem social e política. Outros analistas examinarão com argúcia e rigor vários ângulos do tema.

Começo com o pretérito que nos gerou o absolutismo, forma estatal predominante quando o Brasil foi assumido como Colônia de Portugal. No fim, deduzirei os problemas que nos afastam da ordem democrática moderna, a partir da herança, ainda não ultrapassada entre nós, do Antigo Regime.


O Estado depende da sociedade que o envolve e a ética domina as formas sociais. Um lado relevante da ética – a ordem dos costumes – é a reiteração e o automatismo das posturas corporais e dos valores. Agir segundo um modelo aprendido é próprio da ética. A ordem social brasileira segue o favor, obstáculo que impede a autonomia dos eleitores e, de outro lado, distorce a vida parlamentar, a efetividade do executivo nos projetos públicos e, mesmo, a jurisdição. O favor impõe limites para os elos igualitários na vida pública. No mercado, nos partidos, nas igrejas ou seitas religiosas, o favor define espaços de troca que tornam os programas políticos irrelevantes. O favor não é monopólio do Brasil. Em quase todas as sociedades, antigas ou modernas, ele surge como poder. Mas, em países que chegaram à modernidade ele é regulado e seus efeitos anárquicos se atenuam em prol de procedimentos impessoais e abstratos. Em nossa terra, ele concentra o imaginário, os valores e as práticas de famílias, grupos, cidades e regiões, sendo uma forma de “mediação universal”.Aqui, político poderoso é o que mais garante favores aos amigos, aos aliados e, não raro, aos próprios inimigos. O favor alimenta alianças políticas, eleva e rebaixa ministros, ordena as pautas legislativas e atormenta os Executivos. Ele sustenta redes complexas de interesses, lobbies disfarçados, trocas entre poderes, corrupção de agentes públicos por empresas privadas. Somos uma antirrepública ou um império do favor. A Ação 470 e similares só podem ser inteligíveis em semelhante quadro.


O favor no Brasil traz os signos de uma história antiga e seus traços podem ser encontrados no Império Romano e na sociedade do Antigo Regime. A frase que nos separa das sociedades democráticas se origina no “enobrecimento” trazido pelo favor. Em terras de língua inglesa a pergunta, quando alguém desrespeita direitos, é clara: “Who the hell do you think you are?”. No Brasil, o “você sabe com quem está falando?” trai o regime do favor e da importância baseada nos “amigos poderosos” ou na família idem.

Favor no Antigo Regime
Iniciemos com o Antigo Regime que nos deu o corpo e a alma em 1500. O Brasil nasce sob o poder absoluto que dava passos decisivos no século XVI. A ordem dos favores impera na corte e nos elos entre nobres importantes e outros menos poderosos. Como enuncia Joël Cornette ao se referir à França, modelo copiado em parcela significativa de países europeus, o reino “é organizado como uma família mais ampla de início, na qual as ligações de sangue e proximidade são hegemônicas, onde o rei sempre é percebido sob os traços de pai benevolente, o pater familias, concedendo benesses aos seus e sabendo distinguir, entre os próximos, quem as merece (…) Segundo a propaganda oficial, as famílias terrestres do reino apenas transcrevem a família celeste, dos santos, dos anjos, do povo de Deus”.

O rei socorre os seus aliados “construindo uma rede familiar e doméstica que assegura a boa marcha do governo. Para tanto, é preciso achar subsídios. Os monarcas mais espertos elaboraram com seus conselheiros sistemas que ligam o “doméstico ao administrativo”, a fidelidade à venalidade, o “serviço de sua pessoa na administração da coisa pública”. A monarquia criou em permanência a estrutura clientelar com ramos horizontais no espaço geográfico, limitadas apenas pelas fronteiras, com implicações verticais na hierarquia social”.


A ascensão dos grupos e indivíduos ocorre numa imensa rede de favores. O rei deve cooptar os nobres, que precisam exibir poder ao rei. Os dois lados se valem de operadores que permitam a fluidez dos interesses, a sua realização sempre na dependência dos alvos concorrentes ou paralelos aos dos coletivos familiares ou de “amigos”. A política do “é dando que se recebe” não foi instaurada no Brasil. A sociedade e o Estado absolutistas constituem, diz um historiador, “redes de amizade, de primos, de camaradas de colégio e combate, companheirismo, afinidades diversas, encontros de vizinhos”. O favor, para o nobre, define “uma rede de interdependência na qual ele se inseria desde o nascimento, onde se casava e que lhe permitia sustentar, ou aumentar, a reputação de sua casa. É um capital que em parte ele herdara de seus parentes, que deveria fazer frutificar, antes de o transmitir, por sua vez, aos filhos.”


O reino é movido pelos alvos das famílias. As redes horizontais de parceria e cumplicidade buscam ascender na escala do Estado. O meio é encontrar conexões em estratos cada vez mais altos das redes de interesse e favor, até atingir os arredores do trono. Os elos de clientela e fidelidade se tornam a cada momento mais amplos e complexos. Entre os termos que assinalam os pactos tácitos está o que enuncia que alguém “pertence” a outro, é sua “criatura” ou seu “doméstico”. Tais cadeias de solidariedade unem três tipos de pessoas: o patrão, o cliente e os brokers (os intermediários), os corretores. A clientela é praticada desde os tempos de Roma, mas, na modernidade, atinge seu ápice.
No Antigo Regime, em troca da proteção e de benesses o patrão “ajuda seu cliente e, se preciso, o veste, o alimenta, hospeda, lhe procura emprego, empresta ou dá o dinheiro para comprar um cargo, o empurra na ascensão social e o defende contra seus adversários. Às vezes, organiza seu casamento, educa ou casa seus filhos. Tal patrão, se não for uma pessoa rica, pelo menos é alguém influente, capaz de intervir em favor de seu protegido ou o recomendando aos mais poderosos do que ele”. A ausência de reciprocidade traz ruptura, traição e acusações de ingratidão. O corretor, ou broker, é uma espécie de patrão pela metade que põe sua própria clientela para servir outro, mais poderoso. Ele facilita as negociações. “O patrão principal precisa desses ‘cafetões’ – entremetteurs –, numerosos e eficazes para ampliar sua influência, assegurar o apoio de meios ou redes que ele não pode abordar diretamente. O corretor lucra ao fazer frutificar seu próprio capital de relações, monetarizando em preço alto seu papel de mediação e buscando, por sua vez, assegurar para si mesmo o monopólio do mercadejo (courtage), o que o patrão nem sempre tem interesse em conceder”.

Rede de relações
Essas relações de favor e de influência permitem entender o funcionamento do poder num sistema estatal incompletamente institucionalizado. A incompletude administrativa reforça o favor na sociedade política. Trabalhos como o de François-Xavier Guerra mostram tal ponto na história recente. Outras pesquisas como a de Steffen Schmidt poderiam ser citadas.

No Brasil, Maria Sylvia Carvalho Franco tematizou, para compreender a lógica que norteia a sociedade e a política nacional, as relações de favor, de “amizade”. A autora conceitua a rede de relações tecida entre poderosos fazendeiros, sitiantes pobres e os dominados no baixo da escala social. O grande proprietário, diz ela, manteve relações aparentemente horizontais com o sitiante. Ela começa pelo depoimento de um membro de família rica em Resende, nascido em 1870. “Não havia desigualdade entre fazendeiros e sitiantes; havia mesmo amizade. Se um deles chegava à nossa porta, vinha para a mesa almoçar conosco”. Como prova da “igualdade” com o sitiante, era dito que eles e grandes proprietários eram compadres. A prática do compadrio suspende de maneira imaginária a diferença de nível e de riqueza. A autora cita Antonio Cândido: os vínculos “entre padrinho e afilhado eram tão ou mais fortes que os de consanguinidade: não apenas o padrinho era obrigado a tomar o lugar do pai, sempre que necessário, mas tinha que ajudar seu afilhado em várias ocasiões (…) o afilhado, por sua vez, ajudava o padrinho em tudo o que este necessitava, e frequentemente tomava o nome da família”. A criança pobre deve ser “encaminhada na vida”, com ajuda do mais forte. A autora cita Coldman: “Como naturalmente o padrinho deseja cumprir sua promessa com a menor despesa possível, o que de melhor pode fazer senão prover o jovem, tão logo tenha idade adequada, com um emprego público? E se o governo não tem o suficiente número de cargos à sua disposição, como poderia a influência do Duque, Marquês, Barão, Comendador, ser mantida mais facilmente que criando novos cargos e novos funcionários?”. No Brasil “quem tem padrinho, não morre pagão”, ou seja, sempre alcança os empregos públicos ou privados, quando funciona a rede de favores recíprocos. “Ampliando-se as trocas do compadrio para situações sociais, compreende-se como deriva dele toda uma intrincada rede de dívidas e obrigações, infindáveis porque sempre renovadas em cada uma de suas amortizações, num processo que se regenera em cada um dos momentos em que se consome.”

A igualdade fictícia trazida pelos ritos sagrados e pela “amizade” interessada mostra sua face de dominação em momentos de apuro financeiro. O patrono ajuda o sitiante, que devolve em apoio político. Diz um rico, em depoimento anotado pela autora: “se os sitiantes da redondeza estavam em dificuldades ou queriam comprar um pedaço de terra, emprestavam dinheiro de meu pai; em compensação, esta gente sempre o acompanhava, eram seus eleitores ou seus cabos, pois ele era o chefe conservador da zona (…) Não havia compra de voto. Não havia concorrência entre os chefes políticos: não adiantava, quem era conservador era conservador e quem era liberal era liberal”. Deduz a autora: “a dependência” em que os protegidos estavam “tornava inelutável a fidelidade correspondente. Sua adesão em troca dos benefícios recebidos é tão automática, que sequer são tomadas medidas que assegurem seu voto; tampouco se cogita providências para atrair eleitores cuja fidelidade está definida para com o lado contrário. Umas seriam desnecessárias, e outras inúteis”.

Lealdade e fidelidade
Presos à política local ou no máximo regional, os dominados não perceberam o alcance de eventos como a Independência do Brasil e similares. “Estado, na consciência desses homens se confundia com a pessoa do príncipe e governo se identificava com seus atos e decisões, ou com a de seus representantes”. Assim, a consciência política dos setores livres e pobres não vai além da pessoa que lidera o elo entre os dois extremos da cadeia de domínio. A visão institucional do Estado e de seus interesses nacionais ou internacionais falta a tais setores. Os nexos entre patrono e cliente são definidos: “a lealdade inclui o reconhecimento do benefício recebido, o sentimento de gratidão por ele e o imperativo de sua retribuição equivalente”. Mas, “o fabricar de lealdades e fidelidades através de um processo cumulativo de recíprocos encargos e favores promovia, sucessivamente, a eliminação completa da possibilidade de um existir autônomo”. O poder, então, é impossível de ser concebido “senão mediante o prisma formado pela encarnação do poder: este transfigura a realidade social, convertendo-a nas formas objetivadas da existência daquele que é ideado como superior, e plasma as categorias através das quais ela é conhecida, confinando-as a imagens que não podem transcender essa mesma situação vital particular, personificada e alheia”. Temos aí o peso do comportamento mecanizado do dependente e sua incapacidade para apreender a organização e a dinâmica da política em nível institucional. Atitude similar, de “amizade”, ocorre entre patronos e agregados. O morador ficava nas terras do patrono se fosse amigo. “Agregado ou camarada, a anulação de sua vontade se revela na simples incapacidade de tomar uma decisão autônoma”. Uma testemunha, no caso de rapto de jovem, diz que o réu “lhe fora pedir para ter guardada em sua casa a menor e ele respondera que não o podia fazer sem o consentimento de seu patrão, porque era agregado”. Sua recusa, adianta a autora, “tem a ver menos com o risco de transgredir a lei, que de incorrer na desaprovação do fazendeiro”.

O favor permeia, assim, os elos entre patronos e gente livre, mas pobre no Brasil. E se atentarmos para o fato de sermos uma sociedade injusta por excelência, a ficção da igualdade jurídica e política se esvai rapidamente. No mesmo passo, guardamos as práticas políticas do Antigo Regime, como, por exemplo, a diferenciação entre operadores do Estado e “pessoas comuns”, simples pagadores de impostos, sem maiores direitos e poderes. Os cargos dos “amigos” e apadrinhados continuam em uso, na troca de favores entre oligarcas que tentam se aproximar do poder, na corte. Os mesmos padrinhos tentam, por meio dos seus clientes, alicerçar alianças com seus pares oligárquicos, tudo segundo a receita absolutista.

Repelir a soberania popular
Vimos a essência da sociedade do antigo regime, absolutista, e da brasileira, nas quais o favor permeia todas as relações, o que impede a moderna forma de responsabilização privada e pública, favorecendo a corrupção entre nós. Passemos aos problemas políticos definidos historicamente em nosso Estado. A historiografia conservadora notou no Brasil um recurso eficaz para repelir o perigo da soberania popular e mesmo da representação política. A Revolução Francesa teria sido, na propaganda reacionária, um episódio sangrento de anarquia e ditadura, e o poder que a sucedeu após o Termidor, e que acabou nas mãos de Napoleão, seguiu de um ponto ao outro dos setores estatais. Se a Assembleia, no processo revolucionário, acabou instaurando uma ditadura “virtuosa”, o poder Executivo tornou-se um centro ditatorial com o regime instaurado pelo corso, ordenando tudo burocraticamente em escala hierárquica do alto à base do Estado. Entre os dois poderes, o Judiciário não consegue manter a sua independência. Urge resolver o problema da harmonia entre os três poderes antes enfeixados nas pessoas do rei ou do parlamento. Na gênese do Estado brasileiro imaginou-se resolver o conflito e, ao mesmo tempo, as ameaças trazidas pelo povo, como teria ocorrido nas revoluções inglesa, norte-americana, francesa: a instituição do poder moderador cumpre esse papel.
Escutemos o conservador Guizot: “Quais são as marcas do soberano de direito, as marcas de sua natureza própria? Para começar, ele é único; porque só existe uma verdade, uma justiça, só existe um soberano de direito. Ele é o mais permanente, sempre o mesmo: a verdade não muda. Posto numa situação superior, estranha a todas as vicissitudes, a todas as possibilidades desse mundo; ele está no mundo, de certo modo, apenas como espectador e como juiz: este é o seu papel. Pois bem, senhores, estas marcas racionais, naturais no soberano de direito, são reproduzidas pela realeza exteriormente na forma mais sensível, que dela parece a mais fiel imagem. Abri o livro em que o Sr. Benjamin Constant tão engenhosamente representou a realeza como um poder neutro, um poder moderador, elevado acima dos acidentes, das lutas sociais, e que só intervém nas grandes crises. Esta não seria, por assim dizer, a atitude do soberano de direito no governo das coisas humanas? É preciso que haja nesta ideia algo muito próprio a mover os espíritos, pois ela passou com uma rapidez singular dos livros para os fatos. Um soberano dela fez, na Constituição do Brasil, a base de seu trono; a realeza é representada como poder moderador elevado acima dos poderes ativos, com espectador e juiz”.

Pouco de federalismo, muito de Império
A formulação liberal do próprio Benjamin Constant procurava impor limites à soberania popular, mas trazia também a preocupação de estabelecer os limites dos poderes e garantir a sua harmoniosa relação. Neutro, o poder moderador seria o apanágio da realeza, os ministros seriam responsáveis pelo governo e os legisladores não seriam pagos. O julgamento pelo júri seria a norma e haveria liberdade de imprensa. Fica bem clara a intenção de Benjamin Constant ao sugerir o Poder Moderador como preventivo de tiranias. De um lado, ele pode limitar as formas soberanas ligadas ao povo, sobretudo o despotismo do Legislativo. De outro, atenua as pretensões do Executivo, garantindo o Judiciário.

Benjamin soube notar os excessos de poder de um setor do Estado e procurou definir o controle dos três poderes por intermédio do Poder Moderador, indicado como tarefa do rei. “Para que não se abuse do poder, é preciso que pela disposição das coisas o poder detenha o poder.” No Brasil, a concepção de Constant seguiu para um rumo inesperado. Vimos o elogio do Poder Moderador em nosso país por Guizot. Há um evidente desvio do conceito na pena de Guizot. Constant define aquele poder como neutro, o que significa que ele serve para coordenar os três poderes, sem neles interferir “do alto”. A operação de hierarquizar os poderes foi seguida no Brasil com a Constituição de 1824. A tendência centralizadora do poder real já fora iniciada em Portugal no século XVIII com as reformas pombalinas. “As concepções de poder político, sociedade e Estado são assim formuladas em torno da noção de império civil, com fins de legitimar a monarquia portuguesa e consubstanciar projetos de atuação política.”

A predominância do poder moderador sobre os demais se manteve durante o império, incluindo o tempo de regência, quando o país passou por rebeliões sufocadas manu militari de Norte a Sul. Somadas as suspensões dos direitos e a permanente supremacia do imperador, tem-se como resultado uma difícil e quase improvável democratização do Estado. O permanente estado de rebelião e as necessidades do poder central definem o império como excessivamente preso ao modelo de concentração de poderes, o que molesta ainda em nossos dias o país, com o tipo de federação na qual os Estados possuem realmente pouca autonomia, sobretudo em matéria fiscal. Com o fim do império, os positivistas tentaram acabar de vez com as forças liberais, com o conceito de ditadura, que acentua e mantém a preponderância do Executivo sobre o Legislativo, concentrando o poder diretor numa única pessoa. Falar em Legislativo, nesta doutrina, é impreciso e mesmo errôneo, visto que a Assembleia teria função fiscal: aprovar o orçamento do Estado. Em toda a república as prerrogativas do Poder Moderador foram incorporadas silenciosamente à Presidência do país. Com elas, temos a permanente pretensão dos ocupantes daquele cargo a assumir, como imperadores temporários, a preeminência e a intervenção nos demais poderes.

Dificilmente o nosso Estado e a sociedade entrariam na qualificação de formas democráticas. O nosso modo de unir os Estados tem pouco de “federalismo” e muito de império. Tomemos a indicação da jurista Anna Gamper, que analisa as formas federativas, para apontar as fraturas no projeto da União Europeia: “Por unanimidade, as definições de federalismo reconhecem o fundamento da palavra latina foedus que significa “pacto”. Todas as teorias concordam que federalismo é um princípio que se aplica ao sistema que consiste em pelo menos duas partes constituintes, não totalmente independentes que, juntas, formam o sistema como um todo. O federalismo, pois, combina o princípio da unidade e da diversidade (concordantia discors). As partes constituintes devem ter poderes próprios e devem ser admitidas a participar do nível federal”. Da lição trazida pela autora tomemos a parte em que ela afirma a exigência sine qua non que declara: “as unidades constituintes devem ter poderes próprios”. Desde a Independência, o poder central brasileiro monopoliza todas as prerrogativas do Estado e não as partilha de fato com os demais entes, supostamente unidos hoje por laços de federação. Se em nosso caso foedus significasse “pacto”, teríamos graus crescentes de autonomia, dos municípios ao poder central.

“É dando que se recebe”
Mas, hoje, a partir de Brasília, regras uniformes determinam até os detalhes da ordem nacional, desconhecem deliberadamente as diferenças regionais, culturais, geográficas, etc. Do Oiapoque ao Chuí, há uma uniformização gigantesca que obriga cada uma das regiões a se pautar pelo tempo longo da enorme burocracia federal, perdendo ocasiões preciosas para o experimento e mudanças das políticas públicas em plano regional ou local. Enquanto em outras federações, como a norte-americana (e apesar do grande centralismo daquele país) vigoram leis diversas em termos penais, educacionais, tecnológicos, etc., no Brasil a mão de ferro do Estado central controla, dirige, pune e premia os estados, segundo sustentem os interesses dos ocupantes temporários da Presidência. Nesse controle, as oligarquias regionais surgem como operadores de face dupla: servem para trazer os planos do poder central aos Estados e para levar ao mesmo poder as aspirações de estados e municípios.

O lugar onde as negociações entre os dois níveis (central e estadual) ocorrem, normalmente, é o Congresso, em Brasília. Ali, Presidência e ministérios buscam apoio aos seus projetos, inclusive e, sobretudo, de leis. É impossível conseguir recursos orçamentários, por exemplo, sem as “negociações”, e nelas o modus operandi identifica-se ao conhecido “é dando que se recebe”. Assim, os planos federais de inclusão social e democratização societária patinam na enorme generalidade do “grande Brasil”, enquanto as unidades aguardam as “providências” de uma burocracia incapaz de entender os vários ritmos e formas de vida e pensamento regionais.

Nos impostos, a concentração irracional de poderes deixa estados e municípios sempre à mingua de recursos. Verbas provenientes de impostos ou a eles ligadas, como no caso das exportações, não são repassadas às unidades ou não são repassadas em tempo certo, permanecendo nas mãos dos ministérios econômicos. Governadores e prefeitos são reduzidos à quase mendicância junto ao poder central. Testemunhamos, todos os anos, a caminhada de prefeitos do país inteiro rumo ao Congresso para reclamar recursos, autonomia, modificações em leis eleitorais e de estruturas municipais. Os prefeitos são tratados como estranhos ao Parlamento Federal. Enquanto tal situação permanecer, a fábrica das manobras corruptas (nas duas pontas, nos municípios e na capital da República) estará em pleno funcionamento.

Semelhanças entre as práticas absolutistas e as que imperam em nossos dias, na política brasileira: a determinação mais evidente e danosa é a da troca de favores na sociedade e na administração pública. Nenhum dos escândalos que abalaram o Estado nacional deixa de ter operadores (os brokers) que ligam interessados e seus alvos. Assim, os que manipulam recursos públicos cumprem a função de intermediários, em primeiro lugar, dos favores sociais, políticos, econômicos, ideológicos e, mesmo, religiosos. Mas, tais operadores não funcionam no vazio. Eles executam um papel essencial e servem a todos os partidos, porque todos eles movem a máquina do poder federal que concentra as verbas emanadas de impostos. Sem os operadores, nenhum oligarca regional consegue chegar até a boca do cofre ou à caneta do poder Executivo. Os brokers, por sua vez, conseguem cargos para seus clientes, tanto na administração pública quanto nas chamadas empresas estatais (para não falar nas empresas privadas que, assim, trocam favores com os donos temporários do poder).

Apadrinhamento político

Os nossos brokers, herdeiros do Antigo Regime (dos quais Marcos Valério é apenas um entre muitos), trabalham num esquema de apadrinhamento político que se divide entre as velhas práticas, como as indicações para os cargos feitas por oligarcas e as “novas” indicações para os cargos segundo o critério da “militância”, sem passar pela competência técnica ou administrativa. Daí para os “serviços” junto aos cofres públicos e privados é apenas um passo. O chefe do Executivo e do Estado tem como função, à semelhança do rei no Antigo Regime, favorecer os que o favorecem com cargos, privilégios, recursos e isenções de impostos. Semelhante troca de favores só é viável porque existe na sociedade a cultura do favorecimento, conseguido com os que operam o Estado.

Os nossos políticos jogam perenemente com o medo dos eleitores diante do pior: o fim dos favores ou uma hecatombe econômica se “os outros” vencerem, ou com a ausência de verbas, obras, empregos. Basta ver a propaganda nas eleições: se os munícipes votarem contra os indicados por Brasília (ou pelo palácio do governador), programas importantes não virão. Caso votem no candidato do príncipe, benesses fluirão em abundância. Os políticos conhecem os eleitores, não os idealizados, mas os reais. Os princípios éticos não rendem favores nem votos, não rendem obras, nem poder. É em um terreno assim que devemos pensar a responsabilidade governamental.

A corrupção que gera escândalo possui dois registros temporais – um diacrônico e outro sincrônico. Num sistema necessariamente corrupto, dada a concentração de recursos nas mãos do poder Executivo maior, os policiais, o Ministério Público, a Justiça e a imprensa tomam conhecimento dos fatos uns após outros. Mas, no mesmo átimo em que surge um escândalo, a rede corrupta opera no Estado e na sociedade. A polícia, a Justiça, o Ministério Público quase sempre operam post festum. O sistema, sincronicamente, pratica as mesmas coisas supostamente punidas ao serem descobertas. A nossa prática é a de iluminar um quadro de cada vez, enquanto os demais ficam na sombra… até que sejam iluminados.

Os escândalos não constituem monopólio dos políticos. Eles não raro têm raízes no mercado, na sociedade civil e nas instituições sociais. Pensemos apenas nos esportes: boa parte deles é gerida segundo técnicas de causar inveja aos apadrinhados de Don Corleone. Os casos são múltiplos. Talvez seja mais grave que um operador do Estado se corrompa, do que um cartola. No entanto, as pessoas se habituam ao fenômeno nos dois setores. Lembremos a lição dos pensadores políticos segundo a qual um Estado (é mais verdadeiro para o democrático) pode ser assassinado por forças externas violentas, mas também morre por consunção interna.

Quais são as outras lições a serem extraídas da Ação Penal 470? A primeira é nos precavermos contra o maniqueísmo e a prática do desmascaramento alheio quando se guarda a máscara da pureza (falsa) para si. A segunda é lutar contra a cultura do favor na sociedade e no Estado. A lógica do compadrio precisa ser recusada pelos que se julgam democratas. A terceira é legalizar o lobby, porque em boa parte os nossos congressistas, sob a aparência de representação popular, são lobistas de fato, sem responsabilidade normativa. Eles também agem como os brokers que facilitam o acesso ao verbo e às verbas. A quarta é lutar por uma federalização real do Brasil. Sem ela, os escândalos, movidos pelos intermediários, cujo nome pode ser Valério ou qualquer outro, continuarão desanimando a cidadania na busca de um Estado democrático de direito.