Flores

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Considerações sobre o princípio ético da responsabilidade. Roberto Romano, Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Considerações sobre o princípio ético da responsabilidade 

https://www.fcm.unicamp.br/fcm/relacoes-publicas/saladeimprensa/11o-cpem-roberto-romano-faz-conferencia-de-encerramento-sobre-etica-e-responsabilidade
 
Prof.Dr. Roberto Romano
 
 Ao ser convidado gentilmente para falar nesta competentee graveFaculdade de Medicina, separei vários temas trazidos pela ética, bioética, educação e política. Precisei, no entanto,efetivar uma escolha, a qual recaiu sobre anoção deresponsabilidade. Tenho publicações próprias sobre o problema. Mas, sem me preocupar em ser original nosconsiderandos, decidi seguirextensamente dois trabalhos de colegas europeus sobre o tema. Os ouvintes ou leitoresportanto, a partir dos links que indico abaixo notas 7 e 10podem recuperar a totalidade daquelas análises, mais ricas do que sugere omeu aproveitamento. A inspeção daqueles textos mostrará que deles fiz amplo uso, quase uma paráfrase, porque estou mais inclinado a com eles concordar doque discordar, dados os pontos que atraem minha atenção no delicado momento universitário brasileiro
 
“ O homem só pode se tornar homem pela educação. Ele só é o que dele fez a educação. É preciso bem notar que o homem só é educado por homens e por homens que foram igualmente educados. Eis porque a falta de disciplina e de instrução (...) em alguns homens faz deles péssimos educadores deseus alunos”. (Imanuel Kant, Tratado de Pedagogia). Ao discutir os “ profetas da cátedra” e o suposto direito que possuiria o professor de apresentar opiniões pessoais na sala de aula,Max Weber afirma que “a lição (Vorlesung) deve ser diferente da conferência (Vortrag)”. A primeira exige o rigor 2calmo, o apego aos fatos, a sobriedade. Tais itens se perdem se nela são aceitos discursosao estilo da opinião públicacomo na imprensa. O controle externo é apropriado nas qualificações docentes especializadas. Mas “não existe qualificação especializada para a profecia pessoal” que livre os mestres do controle. Como todo mundo, eles têm outros meios para propagar seus ideais continua Weber, mas sem exigir o bastão do governante ou reformador no seu bornal. “Na imprensa reuniões públicas, associações, ensaios, em toda avenida aberta para qualquer cidadão elepode e deve agir comoexigem o seu Deus ou demônio”.  
 
O professor deve incentivar no aluno a força de cumprir tarefas de modo correto, identificar fatos, mesmo os pessoalmente desconfortáveis, distingui-los das próprias avaliações, subordinar a sua pessoa à faina e refrear o impulso de exibir desnecessariamente o gosto próprio ou demais sentimentos. Não é verdade diz Weberque uma pessoa seja ferida quando não pode mostrar a si mesma em toda ocasião. Idiossincrasias como ódio e amor precisam ser controladas no ensino da ciência. É gosto pobre misturar questões pessoais com análises especializadas. Se o culto da personalidade domina a cátedra, o ofício público se torna superficial, as consequências são nocivas. (1) 
O pior, no pretenso direito de professar valorações em sala de aula, é que assim ficam desacreditadas as instâncias políticas e culturais, as discussões públicas. Embora crítico de I.Kant, Weber partilha a tese kantiana sobre o uso público e privado da razão. “Por uso público da própria razão entendo o que qualquer um, enquanto letrado(Gelehrter), dela faz perante a assembléia do mundo também letrado. Chamo uso privado àquele que alguém pode fazer da sua razão num certo cargo público ou função a ele confiada”.(2) O professor, no uso público da razão, pode e deve se pronunciar sobre temas que movem o coletivo, governo, religião, etc. No uso privado, não lhe cabe emitir juízos de valor.Um médico do SUS, um engenheiro de trânsito, um general, e todos os que movem serviços, podem e devem analisar em público o funcionamento daquelas instituições. Mas no momento em que operam como funcionários eles não podem definir normas ad hoc, oriundas apenas de seu querer, ou de seus colegas. Pelo uso público eles têm o direito de sugerir outro funcionamento, outras regras, até mesmo a ampliação institucional ou restrição. No uso privado, enquanto a própria instituição não for alterada pelo Estado com base na sociedade,cometem uma falta se negligenciam regras ou criam outras, por eles inventadas. Se desejam mudar a vida social, exerçam o juízo público, assumam os riscos das controvérsias, dos interesses contrariados, das angústias inevitáveis. Mas quando se trata de aplicar o saber no cargo, que tal coisa seja feita da maneira a mais conforme às regras de direito constitucional
 
O professor tem o dever de Estado de levar os estudantes aos seus próprios juízos, ensinando sobretudo os métodos de pesquisa e análise, de modo que os alunos dele não dependam para pensar. De certo modo, o mesmo diz Hegel sobre o ensino do saber: “Quando escrevo na lousa teoremas matemáticos, não estou jogando pedras na cabeça dos alunos. Penso com os teoremas e convido os estudantes a com eles pensar”. O que mais se deve temer em sala de aulas é a invocação de valores que se digladiam na vida social. Numa sociedade moderna, ao contrário do monoteísmo, ocorre o politeísmo axiológico. O professor que assume as vestes do profeta não cumpre sua missão e,por outro lado, usurpa um mister que não lhe cabe. A sala de aula e o laboratório, não se equiparam ao palanque nem ao púlpito. Em tal ponto entra o princípio da responsabilidade na docência e pesquisa. 
 
 No pretérito as pessoas perguntavam se a culpa pelas desgraças seria dos deuses. Hoje, elas interrogam a ciência, a técnica, os alvos humanos. A busca de culpados mostra que tais problemas são discutidos sob o signo das paixões e do medo. Para desculpar oser divino foi criada uma doutrina teológica, a Teodicéia. Nela são discutidas questões clássicas: se Deus é bom, como pode existir o mal no mundo é uma delas.Leibniz escreveu uma Teodicéia e nela adianta que o mal é ilusão de ótica humana. Como não podemos abarcar o infinito, o vemos pelo prisma da finitude. Aí,a nossa carência ótica nos dá a falsa impressão do 4 malefício. Se bem praticarmos o cálculo, chegaremos ao resultado da nulidade do mal. Os homens teriam desculpa
 
 Hans Jonas reflete sobre a tragédia de Hiroshima e Nagasaki. Longe de terem sido fatalidade guerreira, tais eventos revelam horror no uso irresponsável das técnicas. Após a energia nuclear o mundo passou a ser radicalmente alterado pelos homens. O que antes era um nexo externo entre a nossa espécie e a natureza agora tem acréscimo da técnica e resulta em desastres. Daí a proposta do princípio responsabilidade” em nova ética. O título do livro publicado por Jonas,O Princípio de Responsabilidade, à procura de uma ética para a civilização tecnológica(3), merece análise. Quando falamos em “responder”, de imediato vêm à tona formas jurídicas. Responder no direito latino significa “garantir em troca, assegurar”. Trata-se da responsabilidade diante de alguém que possui direitos. O vocábulo se aproxima da fórmula democrática sobre a accountability. Com os Levellers do século 17,autoridades do Estado e profissionais têm o dever de prestar contas à cidadania. Os modernos Estados democráticos foram instaurados naquela base. Após Napoleão, a ordem ética arrefeceu, fortalecendo a irresponsável razão de Estado em vigorantes das revoluções inglesas do século 17 e das suas congêneres norte americana e francesa, no 18. A ética da responsabilidade é essencial na ordem efetivamente democrática de nossos dias.  
 
Voltemos a H. Jonas. Antes das recentes inovações tecnológicas, o sujeito humano não podia alterar o mundo, apenas partes dele.Autores comoKarl Marx, negaram interpretar o universo, exigiram a sua alteração. A profecia de Marx, imoderado admirador da técnica, foi realizada na era atômica. Com ela surge enorme aporia jamais antes proposta às mentes humanas. Não se trata apenas do sentido de nossa existência, mas da própria existência. É possível, com o simples manejo de botão, arrancar a vida do planeta,aniquilar a Terra, torná-la totalmente outra. 
 
o só no campo bélico se instala a busca de impor outras formas ao mundo, chegando à sua destruição. Emsetores da pesquisa e da práticaexiste o desejo de alterar a estrutura do próprio ente humano. No controle dos comportamentos, na medicação, exercício da engenharia e medicinas urgem fatos que atraem os atentos. Cito, escolhendo entre muitos, Jonathan Moreno. Especialista em bioética, consultor do Congresso e do governo nos EUA, vem dele o alerta para as vias da pesquisa, quando setenta modificar corpos e almas visando a"melhoria" do padrão humano. (5) Realizamos
tais projetos, mas nada garante que eles estão à nossa altura, ou que temos o direito de os efetivar.Não podemos manter atitude despreocupada diante de façanhas técnicas. Temos o dever de preservar a vida humana e a do planeta contra experimentos e aparelhos que não garantem o nosso patrimônio biológico ou espiritual. Jonas não segue Rousseau e menos ainda os ecologistas místicos. Nele não ocorrem frases ridículas sobre a "mãe natureza" ou sentenças tolas como "os terremotos e tsunamis têm origem no abuso humano". Seu diagnóstico é matizado e admite que a técnica possui valor inquestionável. O perigo reside na imprudência. Responsáveis diante de quem? Tal é a pergunta de Jonas. Não perante a natureza, pois ela não é portadora de direitos. Somos eticamente responsáveis pela nossa vida no uso dos recursos naturais. Não sendo possível interromper o movimento científico e técnico, importa lutar contra a tecnocracia. É preciso que administradores e políticos respondam diante dos governados e de toda a humanidade. Urge que eles sigam o mandamento o qual manda agir "de tal modo que os efeitos de tua ação sejam  compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra, durante o maior tempo possível". 
 
Jonas não tem fé em governos que se regem pelos alvos do poder, mas interpela a responsabilidade de todas as pessoas. O imperativo categórico é universal."A tecnologia, ao contrário da ciência, justifica a si mesma apenas pelos seus efeitos, não por si mesma e, assim, dados certos efeitos, avanços posteriores podem se tornar indesejáveis". (Jonas). Diante de situações dolorosas, a responsabilidade define tarefas para os que, sem misticismo ecológico, desejam ser sucedidos por seres humanos na partícula do universo cujo nome éTerra, "no maior tempo possível". Sem responsabilidade, morre a esperança. A noção de responsabilidade, antes do século XX, significava atribuir um ato a um agente, algo a alguém para uma sanção, negativa ou positiva. Apalavra adquiriu o sentido de um encargo: indivíduos ou grupos se encarregam de outros devido à fraqueza ou dependência, próximos ou não. Temosa ideia de precaução, atenuando-se a de reparação jurídica ou religiosa. Temos o princípio da responsabilidade pelos outros. Qual é a nossa responsabilidade na vida coletiva, eis a pergunta. Segundo Jonas, ela se extende para a humanidade inteira, no presente e no futuro.Quando falamos da responsabilidade como encargo, recuperamos a noção antigado vocábulo, grega e romana. Trata-se da solicitude para com os demais humanos,recuperar uma ordem anterior ou reparar um dano semque o tenhamos produzido. 
 
 O sentido mais amplo da noção encontra reúnedois elementos importantes: o Estado e a cultura.Aresponsabilidade tem dupla face: aimpessoal (partilha funcional das tarefas) e a subjetiva(seres humanos vulneráveis que devo ajudar). Na primeira, assumimos ounão as tarefas a nós atribuídas e por nós aceitas. Podemos cumpri-las com competência ou imperícia, mas éanossa função pública. Se as executamos com competência, mantemos a vida pública. Se as cumprimos de modo imperfeito, prejudicamos o Estado e a sociedade. Além da competência precisamos garantir o trato responsável diante das pessoas concretas que temos diante de nós.  
 
Volto a Max Weber. Na sociedade burocrática, organizada de modo racional, os profissionais podem reduzir sua operação, como indivíduoou grupo, ao funcionamento mecânico, automático. Quem assim opera segue normas e regras, by the book, sem olhar para casos singulares com maior cautela. Na sociedade e ou Estado burocratasjuizes, diz Weber, operam como a máquina que distribui refrigerantes : postaa moeda, vem a garrafinha. Ditaa lei, segue a sentença, sine ira et studio. O juiz máquina impõe sua figuramaquinal ao cidadãosem outras consideraçõessobre a validade ou sentido legítimo da lei. O mesmo paraprofissões rotinizadas: perde-se nelas a responsabilidade pelo outro. Aplicadas as regras, tudo o mais tem valor menor. Ojuiz máquina perdeo sentido da justiça. O pensamento jurídico anterior ao nossocorrigia o defeito da lei mecânica com a prática da epikéia. Esta últimajulga caso a caso e procura verificar os motivos de uma ação errada oucriminosa. Sem abandonar a lei, ela corrigeexcessos ou defeitos do ordenamento normativo. Por exemplo: num convento todos os frades devem acordar as 4 da madrugada para as rezas. Mas se algunsficam até aquela hora no estudo ou trabalho, estão dispensados do exercício coletivo. Seria legal os punir, mas injusto. É com base na epikéiaque se considera, nas decisõesjudiciais, os atenuantes de um ato. Écom base nelaque se concedeprêmios aos que fazem mais e melhor do que manda a lei. Prudência e precaução determinam a justiça e a responsabilidadedosagentes. Daí,seguimos para um antigo preceitoético, a liberdade em limites objetivos e subjetivos. 
 
A liberdade profissional em todo campo relevante, não consiste apenas na escolhade opções possíveis. Ela tem origem na ação válida científicamente, com a mediaçãode pessoas livres que devem consentir num trato. Os primeiros códigos de ética médica, por exemplo,surgem com mudanças importantes na pesquisa e no ensino, na modernidade. (8)Tais códigos são escritos por John Gregory (1725-1773) e Thomas Percival (1804). De semelhantes escritos surgem os códigos das associações médicas americana e canadense, criados em 1847 e 1867. Partindo do princípio de que a medicina seriavocação altruísta, eles insistiam sobre a partilha da responsabilidade entre médicos, pacientes, sociedade, criando uma identidade de coesão coletiva. Na época e mesmo hoje,críticos enxergam naqueles documentos algo que visa proteger os médicos da concorrênciae do controle externo efetivados por leigos ou Estado. Outros os defendem, pois eles insistiriam sobre a boa moral, o saber científico, as competências técnicas e a compaixão, ordenada pelo juramento hipocrático. Os dilemas do ensinoempenham numerosos atores e campos: antropológicos, doutrinários, financeiros, políticos, econômicos, sociais, éticos. Cada terreno é um leque de posições conflitantes. Na educação técnológica atual, a escolha de uma via é mais cheia de riscos do que nos tempos passados. Decidir reanimar uma pessoa queimada em demasia pode lhe trazer sequelas ou grave desfiguração. Entramos no território da antropologia, da ordem social, dos preconceitos, das doutrinas religiosas, sem falar nos custos. Reanimar um bebê de 24 semanas pode acarretar sequelas neurológicas. Conceber uma criança para salvar o irmão atingido pelo câncer, pode trazer resultados psicológicos, por ela não ter
 seu nascimento desejado por si mesmo. A medicina determinaos cuidados mais própriospara certo doente, em certo contexto, em tal momento, numa decisão partilhada com o doente ou seus próximos. O problema é o de permanecer humano, num procedimento científico. 
 
Volto à sala de aula. O estudante tem o direito de ser assistido e mesmo socorrido pelos mestres. Estes últimos devem saber que excesso de confiança no próprio conhecimentopode se transformar em arrogância o trato educacional.Aí não há resposta na relacionamento, pois ocorre apenasuma fala, a do professor.A respostacom humanidade parte daspessoas mestre e alunocomo portadorasde multiplas potencialidades, e consideraos limites do serhumano, incluindosuaconivência com o piore o melhor. Aí se encontra o terrenomais árduo do ensinoresponsável, o lugar ondedecisões não podem ser tomadasby the book, masexigem do profissional o maior treino para a prudência. O professor que age de modo mecânico ou pretende transformar os alunos em suas réplicas, foge da responsabilidade. O comportamentoresponsáveladquire dimensões mais amplas do que no trato interpessoal. Hoje a técnicamodela corpos, tanto de indivíduos quanto de sociedades, transforma elos sociais,traçosde poder, instituições, autoridade. Nascimentoe morte, casamentos, esportes,assessoria policial, escolas, atividades profissionais, tratos entre indivíduos egrupos passam por crivospsicológicos oubiológicos. Mesmo empréstimos bancários exigemgarantia de vida o bastante para pagá-los, garantia dada por exames clínicos. Agestão coletiva da saúde governa a vida pública e se impõe como bem aoser discutido. Há um ideal de peso, de colesterol, tensão, equilibrio alimentar que assume o papel de norma social. A noção de bem estar se torna imperativo moral. Não seguir recomendações médicas assume as marcas do antigo pecado. Quem fuma, come, bebesem obedecer as normas, se torna “ responsável” por sua doença. 
 
Como diz uma especialista, Dominique Folscheid, “em vez da pessoa ser o fim da saúde a saúde passa a se tornar o fim da pessoa, no limite, a saúde é absolutizada de tal modo que não se faz mais a diferença entre o ‘salvamento’ médico e a salvação” religiosa. Tal culpabilização generaliza de modo imprudente o princípio da responsabilidade. No fim, todos são culpados e ninguém o é. (10)A tentação de transformar o aluno, nele inculcando os ideais do professor, resulta em desastres. Dei tais exemplos para sugerir que o aprendizado e o ensino se tornam ainda mais árduosem nossos tempos. Conhecemos tragédias recentes na história da investigação e trabalho médico, os dramas trazidos pela formação profissional competente, mas com pequeno peso da ética da responsabilidade. No plano macro, temos o triste exemplo e dos campos de concentração onde milhões foram abatidos. Daí, para os experimentos narrados por Jonathan Moreno em Risco Indevido, o passo é mais rápido. Mas a crítica de Weber aos professores que julgavam seu direito transformar a consciência dos estudantes mostrou toda acuidade nos anos duros vividos narepública de Weimar. A tarefa de fazer dos alunos seguidores de crenças professorais resultou no morticínio massiço e no espetáculo tremendo de alunos e docentes queimando livros em praça pública, nos auto da fé nazistas. “Usarei meu poder para socorro do adoecido, segundo o melhor da minha habilidade e juízo; evitarei, com ele, ferir ou enganar todo e qualquer homem”, diz o juramento de Hipócrates. Tal fórmula inclui o professor em sala de aula ou laboratório.  
 
A falta de responsabilidade ética acelera a imprudência. Assim,resta a receita de Platão nas Leis, quando se trata de formar jovens 1dedicadosa cuidar das mentes e corpos : é preciso mostrar a diferença entre a caça aos bichos e a caça aos homens. A primeira é permitidapara alimento. A segunda é proibida, inclusive e sobretudo a caça ao dinheiro e à ascensão social, ou escaladapolítica. Cabe aos magistrados e aos professores mostrar, com exemplos inequívocos, tal diferença. Aí começa a dificuldade do ensino, inclusive nas melhores instituições. Termino com o desafio de Max Weber,a diferença entrelição (Vorlesung) econferência (Vortrag). Até onde, no desejo detransformarestudantes e nelesestabelecer umanovaconsciência ética os docentes podem ir, ao apresentar seu ideáriosobre o mundo, a sociedade, a ciência. Não se deve impor opiniões pessoaisna lição (Vorlesung)porque éprecisoapresentar aos alunos o procedimento científicode acordo com o estágio em que se encontra o saber.Expostos os fundamentos, incentivar as interrogações, incertezas e certezas dos alunospara que eles encontrem,no horizonte esboçado pelo docente, o seu próprio itinerário. Omais relevante alvo do ensino, inclusive médico, é prepararestudantes para o juízo prudente e próprio, o maior esteioda ética. Já naconferência acadêmica, onde os pares que trabalham em diversos camposacadêmicosse reúnem em igualdade efetiva ou virtual, é dever apresentar novas teses, meios de intervenção, idéias, polêmicas.Sim, no exercício nas salas de aula e laboratórios, os estudantes também exercem o sentido da pesquisa e podem explorar novos aspectos de problemas. Os profissionais do ensinotêm a responsabilidade grave de ponderar com eles, lhes apresentardificuldades técnicas ou éticas semimpor ideários políticos, religiosos, ideológicos. São tarefas diante do Estado e da sociedade nas quais reside o múnus de ensinar sem moldar ou destruir consciências, o que faz dos estudantesautômatos que aprendem a seguir receitas by the book.Tal alvo não pertence à periferia do ensino, mas ao seu núcleo mais espinhoso.
 
 
 
Notas

(1) 1Max Weber: Wissenschaft als Beruf, 1917-1919, Politiks als Beruf 1919.(Tubingen, J.C. B. Mohr, 1994) p. 109 e ss 

(2)I. Kant: « Resposta à pergunta: O que é o esclarecimento? ».Textos seletosEdição Bilíngue.Trad. Raimundo Vier; Floriano de Sousa Fernandes. (Petrópolis: Vozes, 1985). 

(3)Existem várias traduções, a mais acessível é a norte-americana : The imperative of responsability, In search of an ethics for the Technological Age(Univ. of Chicago Press, 1985). 

(4) “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras, mas trata-se de transformá-lo”.“Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert, es kommt aber darauf an, sie zu verändern”. 

(5) Cf. Jonathan M. Moreno : Mind Wars, brain researche and National Defensee também Undue Risk, secret experiments on humans. Sobre os mesmos temas, cfHans Jonas : "Philosophical Reflections on Experimenting with Human Subjects" in Daedalus, vol. 98, 2 1969, pp. 219-247).

( 6) Sobre o assunto, cf. Jerôme Goffete: “Modifier les humains, anthropotechnie versus médecine” in Jean-Noel Missa e L. Perbal (coord.) “Enhancement” éthique et philosophie de la médecine d ́amériolation(Paris, Vrin, 2009). 

(7) Éric Gagnon e Francine Saillant, “Sources et figures de la responsabilité aujourd ́hui” revista Éthique publiquevol. 6, numero 1, 2004.https://journals.openedition.org/ethiquepublique/2064(.2
(8)8Heather MacDougall, PhD, and G. Ross Langley, MD: L’Éthique Médicale d ́hier, d ́aujourd ́hui et de demain, localizável no endereço eletrônico seguinte : pdfall.com/.../Telecharger_PDF_7.php?...l'éthique_médicale 

(8)8Heather MacDougall, PhD, and G. Ross Langley, MD: L’Éthique Médicale d ́hier, d ́aujourd ́hui et de demain, localizável no endereço eletrônico seguinte : pdfall.com/.../Telecharger_PDF_7.php?...l'éthique_médicale9 

domingo, 26 de janeiro de 2020

Artigo publicado na Revista Cult, num passado distante.... Hulks, nórdicos, Wasps. A ética do racismo. Roberto Romano

  • quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

  • Artigo publicado na Revista Cult, num passado distante....


  • Hulks, nórdicos,  Wasps. A ética do racismo.
  • Roberto Romano



  • No lancinante Grande Gatsby unem-se a crueza dos personagens e a delicada prosa do narrador, poeta dos sonhos e temores norte-americanos. No romance surge o dono do mundo na figura de Tom Buchanan. Macho dominante, aquele exemplar da gente Wasp (Branco, Americano, Sulista, Protestante) controla os demais personagens. O termo com o qual é acolhido por Daisy, sua mulher, evoca o gigante Hulk. Indivíduo enorme e truculento, eles esmaga os fracos. O termo enunciativo “hulking physical specimen” pode ser traduzido como “brutamontes”, como o fez Brenno Silveira. (1) No corpo de Buchanan explode a atitude automatizada pelos monopolistas da civilização ocidental e cristã. Esta, como o sujeito que se metamorfoseia em fera, ignora limites ao próprio crescimento e, quando se julga ameaçada, intumesce os músculos, desfere golpes letíferos à esquerda e à direita. Tom é o anacoluto das brancas éticas imperiais.

  • A conversa dos Buchanan, depois do incidente em que Tom machuca os dedos de sua mulher, demonstra leveza e nervosismo. O narrador expõe dúvidas sobre si mesmo num mundo onde tudo é oxímoro e no qual a vida apresenta-se como suave ferocidade: “Vocês fazem com que eu me sinta incivilizado (uncivilized)—confessei, após a segunda taça de um clarete notável.— Será que não podiam falar de colheitas ou coisa que o valha?”.

  • Fitzgerald condensa a idéia moderna de cultura e civilização : usa imagens engastadas nas representações conservadoras e sugere a via semântica que segue da “colheita” às sementes, lugar comum  elaborado pelos românticos. A cultura material e a do espírito têm suas raízes na terra-mãe. Com esse ideário conservador, muito se lutou contra o pensamento democrático.

  • Civilização, no romantismo, é colheita da cultura. A sequência sugerida pelo narrador de O Grande Gatsby ironiza o legado tradicionalista do século 19.  Sem nenhuma pausa  —o que retira o fôlego do leitor—  Fitzgerald evidencia a doutrina mais virulenta da modernidade.  Seria preciso, segundo os autores do romantismo aristocrático, selecionar os embriões do corpo e da alma. “A civilização está caindo aos pedaços —irrompeu, violentamente, Tom.— tive de tornar-me pessimista a respeito de tudo. Você já leu The Rise of the Colored Empire, de autoria dêsse tal Goddard? —Não— respondi, um tanto surprêso pelo tom com que foram ditas tais palavras. —Bem, é um livro excelente, que todos deviam ler. A idéia é a de que, se não tivermos cuidado, a raça branca será….será completamente subjugada. É coisa científica; coisa provada”.

  • Páginas adiante, Fitzgerald completa o quadro racista iniciado na fala de Tom Buchanan. Este controla a sua amante, Myrtle, mas não determina os seus gostos de mulher ligada ao  “lixo branco”, o mecânico Wilson. A cena liga-se à anterior, quando ocorre a diatribe de Tom contra o despedaçamento da raça branca. Myrtle deseja comprar um mascote. “O táxi deu marcha à ré e parou junto de um velho grisalho que se parecia absurdamente a John D. Rockefeller. Num cêsto dependurado em seu pescoço havia uma dúzia de cachorrinhos de raça indeterminada. —De que raça são? — indagou, ansiosa, a Sra. Wilson, logo que o homem se aproximou do táxi. —De todas as raças. Que raça a senhora deseja? —Gostaria de um dêsses cães policiais…mas não creio que o senhor o tenha. O homem olhou, com ar de dúvida, para a cesta, enfiou nela a mão e tirou um dos cachorrinhos, a espernear, segurando-o por trás do pescoço. —Este não é um cão policial— disse Tom. —Não, não é exatamente um cão policial— concordou o homem, revelando desapontamento na voz.— Parece-se mais com um Airdale. (…) —É ele ou ela?— indagou, delicadamente, a Sra. Wilson. —Esse cachorro? É macho. —É cadela— afirmou, peremptório, Tom. —Aqui está o seu dinheiro. Vá comprar, com ele, mais dez cachorros”.

  • O macho Buchanan identifica o sexo e a raça de todos os dominados. Ele possui um saber “científico” sobre a arte de separar o igual do desigual no mundo humano e feroz. Antes, a colheita do vinho introduziu no romance a semeadura dos brancos, ameaçada pelas sementes coloridas das raças inferiores. Agora, vem a percepção das diferentes raças animais. O conhecimento de Tom é reconhecimento: ele sabe discriminar os seus iguais, descarta os diferentes femininos, os de outro matiz de pele e de alma e os de cultura inferior.

  • O “cientista”  (Goddard) referido por Buchanan é  Lothrop Stoddard. O livro em pauta chama-se  The Rising Tide of Color Against White World Supremacy, publicado em  1922. Tom, com base no ensino de Goddard/Stoddard, indica de imediato os inferiores. Vejamos como o próprio Stoddard enuncia tal discriminação: “Cada tipo de raça possui um conjunto especial de características: não apenas físicas e visíveis a olho nu, mas características morais, intelectuais e espirituais. Todas essas características são transmitidas, substancialmente imutáveis, de geração para geração”.
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  • Stoddard une a imagem da cultura como fruto do labor agrícola à figura das raças caninas, todas evocadas em O Grande Gatsby: “Não podemos transformar uma cepa ruim numa boa…não mais do que se pode transformar um cavalo de carga num caçador, colocando-o em estábulos elegantes, ou fazer de um vira-lata um cachorro de qualidade, ensinando-lhe alguns truques”. (2). Dessa fantasmagoria “científica”, Stoddard ruma para o campo que  desgraçou o século 20 com os campos de concentração onde foram mortos milhões de judeus e outros seres humanos “inferiores”. Cito o autor “Exatamente como isolamos as invasões das bactérias e deixamos que elas morram por inanição, limitando a área e a quantidade de seu suprimento de sangue, do mesmo modo podemos obrigar uma raça inferior a permanecer em seu habitat nativo….(o que fará,) como acontece com todos os organismos, limitar…suas influências”. (3)


  • Fitzgerald não escreve um panfleto contra o racismo. Ele apalpa a alma de uma cultura assassina e irresponsável que se enfeita com belas palavras mas esconde sua fetidez sob vestes hipócritas da cultura : “Essa idéia é a de que somos nórdicos. Eu o sou, você o é….produzimos tôdas as coisas que fazem a civilização….oh, ciência, arte e tudo o mais. Percebem?”.  Buchanan recolhe o sumo das doutrinas racistas defendidas por Stoddard. Para este último, e para seus colegas de universidade e de imprensa, a raça nórdica seria superior. Povos do Mediterrâneo, dos Balcãs, da Polônia ou da Irlanda, e naturalmente os judeus, nunca chegam aos padrões civilizados. O Grande Gabsty mostra com sutileza a mentira  Wasp, a começar com a fábula da cultura e da civilização.

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  • Edwin Black cita o debate parlamentar ocorrido na Virgínia em 1924, tendo em vista deter a mistura das raças. A lei colocaria limites estritos no registro dos nascimentos, definindo a origem racial dos indivíduos. Stoddard afirmou durante o episódio: “Considero essa legislação….como sendo do maior valor e da maior necessidade para que a pureza da raça branca seja salvaguardada da possibilidade de contaminação pelo sangue não-branco…Isso é uma questão de vida e morte nacional e racial”. (4).

  • Esse ideário levou à esterilização de pessoas, ao controle das vidas conjugais, ao genocídio nazista. Adolf Hitler e seu bando admiraram o trabalho de Stoddard e vice-versa. Stoddard era uma referência da revista Eugenical News.  O número de setembro-outubro (1932) daquele periódico “publicou longo artigo elogiando Hitler e suas idéias eugenistas. O artigo também explicava como sua ideologia tinha sido orientada por autores americanos, como L. Stoddard e M. Grant. As eleições alemãs estavam a caminho e o texto profetizou os resultados: ´ Mais cedo ou mais tarde, o movimento hitlerista promete lhe conferir o poder total, (e) dará  ao movimento nórdico o reconhecimento geral e a promoção do estado alemão (…) quando eles (os nazistas) tomarem o governo na Alemanha, podemos esperar novas leis de higiene racial, uma cultura consciente e uma política externa de caráter nórdico, num curto período de tempo”. (5).

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  • Quando os EUA ainda guerreavam Hitler, Stoddard foi recebido pelo Füher e acólitos. O norte-americano sentou-se em certo Tribunal alemão para observar os julgamentos de judeus e não- judeus. Em seu livro Into the Darkness (1940) elogia os métodos nazistas na “seleção” das raças. O entusiasmo com a ditadura marrom era tamanho que num capítulo intitulado “Eu vi Hitler”, Stoddard exclama:  ”Naquele momento, fui convocado à Presença” É devido a essas trevas na sua cultura que Fitzgerald assim termina a Odisséia de Gatsby : “Ele viera de longe…e não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite…”

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  • Nas palavras sobre a civilização, emitidas por governantes como G. W. Bush e amigos, ressoa o passado eugenista que prosperou nos EUA. Importa, no entanto, recordar que no mesmo solo brotaram os Stoddard e pessoas como Fitzgerald e muitos outros, cuja ciência, técnica, poesia, não servem aos interesses dos Hulk nórdicos, ocasionalmente alojados na Casa Branca.


  • Notas


  • (1) F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatbsby, RJ, Civilização Brasileira, 1965.

  • (2) Stoddard, Lotrop: The Rising Tide of Color Against White World Supremacy, NY, Scribner´s Sons, 1926). Uso as citações de Stoddard extraídas de Edwin Black : A guerra contra os fracos. A eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior. São Paulo, A Girafa Ed., Trad. Tuca Magalhães. O livro de Stoddard pode agora ser lido na íntegra, em uma página da  Internet : http://www.africa2000.com/XNDX/STODDARD.html
  • (3) Cito sempre na tradução de Tuca Magalhães. Em meu escrito “A fantasmagoria orgânica”, analiso o imaginário genocida que definiu o “saber” universitário e político nos séculos 19 e 20, com exemplos brasileiros. Cf. Roberto Romano, Corpo e Cristal, Marx Romântico. RJ, Ed. Guanabara, 1985. Atualmente fora  de mercado.

  • (4) Black, op. cit. p. 283
  • (5) Black, p. 478

sábado, 18 de janeiro de 2020

Como o link da Gazeta do Povo, o ex jornal, não estava funcionando, busquei o texto tal como foi publicado na época (2010) e tal como o jornalista (um bom jornalista) me enviou. Pelos eventos assistidos por nós desde 2018, creio ser interessante que o conteúdo da entrevista seja conhecido. Roberto Romano

https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/ideal-fascista-esta-sendo-retomado-alerta-filosofo-138f6qzw3rfopmgl4bwlvbl8u/

Ideal fascista está sendo retomado, alerta filósofoRoberto Romano, professor de Ética e Ciência Política da Unicamp
Por Rogerio Waldrigues Galindo

    [20/11/2010] [21:22]


Confira alguns termos-chave no pensamento do filósofo Roberto Romano:

Nazismo

Surgiu na Alemanha depois da I Guerra Mundial, da qual o país saiu arrasado. Numa crise financeira sem precedentes, o líder do partido nazista, Adolf Hitler, foi visto por muitos alemães como uma solução radical para o caos. No poder, Hitler implantou uma ditadura, que pregava a superioridade racial dos arianos e a morte dos inimigos.

Fascismo

Regime totalitário surgido na Itália, entre a I e a II Guerra, que defende a subordinação do povo a um líder, a disciplina como comportamento e a ditadura. O termo fascismo serve hoje para designar hoje uma série de governos com o mesmo perfil.

Liberalismo

Sistema político baseado na defesa das garantias individuais e na existência de um Estado de Direito, em que a lei é igual para todos, com destaque para a ideia de Constituição, que limita o poder do soberano e do próprio povo.

Marxismo

Ideário baseado nos escritos de Karl Marx, filósofo e economista alemão que, no século 19, defendeu a criação de um Estado forte que fosse capaz de impedir a desigualdade entre os homens. Pressupunha a instalação de uma ditadura do proletariado, da proibição da propriedade privada e da distribuição de renda por meio da intervenção estatal. Resultou no comunismo.

Carl Schmitt

Jurista e filósofo alemão (1888-1985), autor de obras que deram base ao governo nazista na Alemanha. A teoria de Schmitt previa um governo forte, ditatorial, em que o líder fosse capaz de, a todo momento, optar por caminhos não previstos pela lei. Para ele, a política estava acima do Direito, e o chefe de Estado não poderia, para ser eficiente, ser limitado por uma Constituição.

Um velho espectro político volta a rondar o mundo ocidental, com riscos inclusive ao Brasil. E seu nome é fascismo. O alerta é do filósofo e professor de Ética e Ciência Política Roberto Romano, da Unicamp. Ele vê na atualidade o renascer de uma preocupante onda de interesse acadêmico por obras de intelectuais que ajudaram a construir a base teórica dos Estados totalitários surgidos na Alemanha e na Itália no período entre as duas Guerras Mundiais.

O ponto principal de preocupação de Romano é o interesse renovado pela obra do jurista e filósofo Carl Schmitt. Autor "maldito" durante muito tempo por defender a ditadura como melhor forma de governo, o teórico alemão começa a ser revisto em universidades. A intenção seria aproveitar algumas ideias dele, jogando "a parte podre fora". Para Roberto Romano, porém, isso é inviável.

Segundo ele, em boa parte dos casos, os defensores de Schmitt surgem de "órfãos de Marx e do stalinismo" – ainda interessados em derrotar o liberalismo.

Romano diz ainda que o temor com o renascimento dessas ideias é ainda maior diante do clima de irracionalismo criado por alguns fanáticos religiosos, da alta taxa de desemprego, do enfraquecimento dos Estados nacionais e da violência social do mundo atual. Ele afirma também que a visão do adversário político como inimigo a ser derrotado, perigosamente inserida na campanha presidencial brasileira deste ano, é uma amostra do risco do renascimento de radicalismos totalitários no país.

O senhor afirma que há um renascimento do interesse pelo pensamento nazista no mundo. De onde vem esse interesse?

Da perda dos paradigmas éticos e políticos que nortearam os séculos 19 e 20. Com o enfraquecimento do liberalismo no início do século 20, surgiram propostas de ordenamento da sociedade com maior ênfase nos coletivos, e não tanto nos indivíduos e grupos. A sociologia romântica acentuou os laços comunitários contra a vida urbana e industrial, com seu "Estado máquina" [nazifascista]. Essa sociologia é um dos muitos pontos que ajudaram a edificar, nos estratos mais reacionários, uma ideia de coesão e disciplina vertical. E, nesta ideia, a vontade seria a diretriz, não a racionalidade.

De modo geral, [György] Lukacs [pensador marxista húngaro] descreveu a mudança de modelos, do racional para o irracional. Ele mesmo, como discípulo de [Max] Weber [alemão, considerado o pai da sociologia], havia procurado uma saída para a ordem mecânica e burocrática do mundo moderno. Encontrou na revolução proletária internacional. Na outra ala dos seguidores de Weber, na sua direita, encontravam-se sociólogos e juristas reacionários como Carl Schmitt. Schmitt, que também criticava as formas mecânicas e liberais, serviu momentaneamente aos nazistas.

Nos anos 70 do século 20, pensadores que, na esteira da crítica à União Soviética deixaram de aceitar pressupostos do pensamento marxista, passaram a ver nos escritos de Carl Schmitt um instrumento para continuar a recusa do liberalismo. Órfãos de Marx e do stalinismo, eles acentuam a resistência às formas liberais do Estado, sem no entanto acreditar mais numa "revolução proletária internacional". Esses escritores ajudam a estabelecer o relativismo, a corrosão dos padrões éticos e se colocam como geradores do éter de ideias que paira sobre os movimentos nazifascistas. É preciso lembrar que esses movimentos jamais deixaram de existir na Alemanha, na Europa, no mundo. Os demais, não saídos do campo marxista, partilham os mais variados matizes do pensamento conservador ou francamente reacionário, não aceitam as luzes, a democracia, etc. Estes últimos são os que mais gasolina injetam nos movimentos irracionalistas e fascistas que hoje se apresentam na cena mundial.

Quais são os indícios desse novo interesse por esse pensamento?

Obras de autores como Schmitt são editadas na Europa, na Ásia, nos EUA, na América do Sul. Seminários, publicações jurídicas ou supostamente filosóficas se espalham, sempre com o mote de, inicialmente, livrar Schmitt e seus pares da "pecha" de nazistas. Teses universitárias surgem, e tomam como dados inquestionáveis os dogmas do decisionismo político e jurídico; as teses sobre a política como exercício da inimizade; os "desvios" da modernidade no pensamento liberal e socialista democrático, etc.

O que pregam esses intelectuais?

Pregam o afastamento imediato das mediações jurídicas e políticas liberais e o reforço do poder decisório dos líderes que movem o Executivo. Em suma, pregam a ditadura do Poder Executivo nas matérias estratégicas dos países, em detrimento do Legislativo e do Judiciário.

O senhor afirma que os intelectuais que tentam fazer um "renascimento" da obra de Carl Schmitt tentam separar o resto de sua obra, evitando a defesa da ditadura, por exemplo. Isso é possível?

Não. Mesmo autores irracionalistas escrevem textos que se caracterizam como um todo. Impossível arrancar do decisionismo schmittiano a sua atribuição ao chefe de Estado de poderes ditatoriais.

Qual o risco real de um grupo de intelectuais defenderem ideais como os que levaram à ditadura de Hitler na sociedade atual?

Embora a conjuntura seja outra, e não exista mais a bipolaridade geopolítica entre comunismo e nazifascismo, a crise que gerou naquela época os movimentos totalitários se apresenta agora, em outra face, mas tão corrosiva quanto nos anos 20 do século passado, no campo dos valores, das instituições, das ciências. Massas sem emprego, desindustrialização comandada e em proveito do capital financeiro, corrosão dos Estados, violência social, preconceitos, fanatismos, irracionalismo religioso sectário, todos elementos são férteis sementeiras de ódio. E permitem pensar e agir na política como se ela fosse uma guerra civil, não como uma instância de diálogo e cooperação entre cidadãos que discordam mas buscam o bem coletivo. No fascismo, o "bom coletivo" é o meu. Os demais devem ser derrotados e expulsos da cena pública e, mesmo, da vida.

Esse interesse existe também no Brasil? Onde?

Em nossas universidades existem muitos pesquisadores e professores que apresentam o pensamento de Schmitt como algo "neutro", que não traria nenhum perigo para a ordem democrática. Sou contra escritores como Yves-Charles Zarka, um mestre do pensamento filosófico e político atualmente, que recomenda retirar os textos de Schmitt das prateleiras, em livrarias e bibliotecas. Creio ser preciso ler aquele autor, e todos os autores relevantes na história de nosso tempo. Mas uma coisa é ler; outra é aceitar e espalhar as doutrinas genocidas.

Agora, pensemos um pouco sobre a última campanha eleitoral para a Presidência – com os insultos, os ataques de lado a lado, a redução dos concorrentes a inimigos – para perceber os possíveis frutos da corrosão nos movimentos políticos, se eles aceitarem a tese de que o outro deve ser aniquilado. É bom recordar que, em nosso caso, todos os partidos que lideraram as campanhas saíram da esquerda, sendo notával a ausência, nelas, de elementos conservadores. Neste vácuo, a pregação fascista (intolerante, racista a pretexto de ser regionalista) toma fôlego, à espera de seu momento certo.

A tensão étnica e religiosa que ressurge na Europa, especialmente com o crescimento do Islã, tem a ver com esse pensamento?

Sim. O Islã é visto como o inimigo, na ausência do comunismo. Mas o inimigo pode ser qualquer religião, ideologia, partido político. A redução da política à dimensão de uma guerra gera apenas a fratura no social e no Estado.

Como combater esse tipo de ideal que vem ressurgindo?

A única forma de combater eficazmente o fortalecimento fascista é viver a democracia, mesmo com todos os seus defeitos. Qualquer apelo ao voluntarismo, à radicalização das próprias teses em detrimento da voz alheia, da redução dos que pensam diferente ao estatuto de inimigo, resultam em favor dos que consideram impossível o convívio democrático respeitoso, nos parâmetros dos direitos humanos. A única fórmula para combater o fascismo, em pensamento e atos, é viver e valorizar a democracia."

sábado, 4 de janeiro de 2020

A Nova Democracia.


Trevosas togas

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Fiel a sua história, que tem como ato mais importante a entrega de uma mulher grávida à Alemanha nazista, o Supremo Tribunal Federal (STF) fez o Brasil dar mais um passo no caminho das trevas ao legitimar, no julgamento da ADI 4439 (Ação Direta de Inconstitucionalidade), o ensino confessional na escola pública, previsto na concordata de 2009 com o Vaticano.
Charge: Vini Oliveira
O fez com maior resistência (6 a 5) e menor margem de escolha (decidia a constitucionalidade, não a assinatura do tratado) que o governo de Luiz Inácio, que o firmou, e o Congresso, que o aprovou contra escassos votos de deputados evangélicos e do Psol – que, no Senado, mudou de posição e seguiu o relator, Fernando Collor. As responsabilidades de Lula e Dilma Rousseff abrangem, ainda, as indicações de Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, José Antonio Dias Toffoli e Cármen Lúcia para o STF. Junto a Gilmar Mendes, nomeado por F. H. Cardoso, e Alexandre de Moraes, por Michel Temer, eles compuseram a maioria que abençoou juridicamente a ingerência religiosa no espaço escolar. Com ateus como FHC, agnósticos como Dilma, maçons como Temer e praticantes de “magia negra” como Collor, é um milagre que a Igreja Católica Romana ainda não tenha conseguido abolir, no Brasil, o divórcio, os direitos dos filhos extraconjugais e a contracepção.

A Constituição declara laico o Estado, proibindo-lhe “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança” (art. 19, I). A assembleia que a elaborou cedeu a Roma ao dispor, no art. 210 § 1º da mesma Constituição, que “o ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”. Mas ao Judiciário, cabe se ater, em regra, ao que está escrito, não ao que os constituintes desejaram. Assim, o art. 210 § 1º deve ser aplicado à luz do 19, I, cabendo às escolas públicas ensinar sobre religiões sem pregá-las nem submeter professores ao crivo das igrejas. Assim votaram Luis Roberto Barroso, Luiz Fux, Rosa Weber, Marco Aurélio e Celso de Melo. O próprio Congresso, em 1997, deixara “vedadas quaisquer formas de proselitismo” em aula (art. 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Escalada obscurantista

O STF legitimou o ensino religioso “católico e de outras confissões” na escola pública (art. 11 § 1º da concordata) com as falácias e contorcionismos do seminário “O Estado laico e a liberdade religiosa”, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2011.

Idealizado pelo então presidente do STF e do CNJ, Cezar Peluso, e organizado pelo atual presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Martins Filho, o evento teve oito conferencistas. Destes, quatro são membros do Opus Dei (Gandra Filho, o padre Rafael Stanziona de Moraes, o procurador da República José Bonifácio Borges de Andrada e o jurista português Jorge Miranda) e um da Aliança Católica, sucursal italiana da TFP (Massimo Introvigne, que vê na secularização a fonte de todos os males da Europa, atribui a um complô contra Roma o volume e repercussão das denúncias de violência sexual de padres contra crianças e considera vítimas de conspirações difamatórias seitas como Moon, Cientologia e, claro, o Opus, em cujo favor escreveu dois livros de pretensa refutação aos romances de Dan Brown).

Essa bizarra instância intelectual e seus participantes são citados nos votos de Moraes, Fachin e Toffoli. Os dois últimos e a advogada geral da União, Grace Mendonça, recorreram à sofismática distinção enunciada por Gandra Filho (e, antes, Gandra pai) entre uma laicidade reduzida à proibição de oficializar ou banir religiões e o “laicismo”, que abrangeria qualquer coisa além disso e seria uma distorção autoritária. Essa laicidade desidratada não impediria sequer o favoritismo da religião majoritária (católica), defendido por Lewandowski e Mendes.

Colocar o outro como fonte de todos os erros parece ruim para os debates democráticos, diz Romano

http://culturafm.cmais.com.br/de-volta-pra-casa/colocar-o-outro-como-fonte-de-todos-os-erros-parece-ruim-para-os-debates-democraticos-diz-romano

Colocar o outro como fonte de todos os erros parece ruim para os debates democráticos, diz Romano

O professor de Ética e Filosofia Política da UNICAMP analisa no De Volta ‘Pra’ Casa o comentário do presidente do PT no Rio de Janeiro
Juliana Meneses Política
02/03/15 19:21 - Atualizado em 03/03/15 13:28
O cientista político Roberto Romano comenta a situação política brasileira. (Foto: Paulo Pinto/Estadão Conteúdo)
Manifestantes contra o governo Dilma e outros que realizavam um ato em defesa da Petrobrás entraram em confronto no Rio de Janeiro, o caso gerou o comentário do líder do PT no Rio de Janeiro fez um comentário negativo sobre o assunto em sua rede social. O cientista político e professor de Ética e Filosofia Política da UNICAMP, Roberto Romano, comenta no De Volta 'Pra' Casa questões da política nacional brasileira.

“Expectativa de comportamento é aquilo que permite a vida em sociedade, no estado e em suas instituições, você sabe que o outro não quer que você permaneça no poder, mas você sabe também que não pode romper com os princípios da civilidade. Você tem que respeitar no outro, a opinião e o povo que está atrás dele. Então o que ocorre hoje no Brasil, é a perda total dessa expectativa de comportamento”, ressalta Romano. Ouça a entrevista completa!

Querem um amontoado de ‘fake news’ mais terrível do que a propaganda elucidativa e informativa dos governos?

Querem um amontoado de ‘fake news’ mais terrível do que a propaganda elucidativa e informativa dos governos?

Jornal Pires Rural – Edição 207 | CAMPINAS, Dezembro de 2017 | Ano XII
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa e Unicamp realizaram o 4º Encontro Mídia e Pesquisa. Com o objetivo de discutir a importância da ética na divulgação científica para as organizações de pesquisa e o papel do jornalismo científico na era da “pós-verdade”, incentivando o debate crítico da ética na cultura científica vigente. O filósofo da Unicamp Roberto Romano trouxe o tema “Fake news ou sofística? Uma ‘descoberta’ de algo antigo”.

O conceito de má-fé, concebido por Jean Paul Sartre, permite buscar um caminho em direção a uma filosofia moral da existência. Tomando-se as premissas sobre o modo de ser do Para-si- para-outro, a liberdade é uma condenação existencial. Essa condição pode ser assumida na angústia ou encoberta na má-fé. Ao assumir a angústia, a consciência assume a sua liberdade em situação. Ao mascará-la, a consciência faz um esforço para ser o que se mostra na situação, coloca como fim a liberdade em situação frente ao outro. Justamente porque a má-fé tem consequências morais que a autenticidade deve ser preferida e buscada por meio da conversão moral.

Segundo o filósofo Romano, a má-fé se distingue fundamentalmente da mentira, o mentiroso que mente ao seu interlocutor, o indivíduo de má-fé mente para si. “Eis um paradoxo, aquele a quem se mente e aquele que mente são uma só e, mesma pessoa. O que significa que devo saber como enganador, a verdade, que é mascarada para mim enquanto sou enganado. Mas, sinteticamente devo saber essa verdade para escondê-la de mim. Me parece que esse é um dos pontos mais profundos e dos mais importantes em termos de ética individual e coletivo. Existe a má-fé individual e existe a má-fé coletivo. Eu diria que 90 por cento desse debate que fazemos do fake news / pós-verdade, se enraíza nesse ponto essencial da má-fé, que é presente praticamente em todos os seres humanos”, afirmou.

A dissimulação são atos e comportamentos que integram o campo da mentira. Na dissimulação honesta, pensa-se que a mentira e a duplicidade aumentam a renda social, a vida social e a mentira.
Há um desvio investido por Jean Jaques Rosseau, muito sério, sobretudo na internet, nas redes sociais, que é a sinceridade, que permite a verdade. “Rosseau inventou essa coisa chamada sinceridade. Quando digo tudo que sou e digo tudo o que penso dos outros, sou sincero. No livro de Rosseau, as “Confissões” (roubado de Santo Agostinho, o título), a sinceridade assim praticada é uma das piores desonestidades e agressões. Então, temos a desonestidade do sincero. Quando digo ao outro tudo o que dele penso eu mato a sua alma e não apenas o seu corpo. Quando você vai a uma reunião social seja o último a sair porque a cada vez que um sai, tudo sobre ele aparece, se estraçalha sua reputação, essas são as delícias da vida em sociedade. A violência saiu da garra e passou para a língua”, destacou Romano.

Esse lugar da não-verdade, da má -fé, foi bastante investigado e discutido e combatido por Platão. “Como sofista, essa fala persuasiva que não tem um lugar, que não é de algum lugar, é a aparência, você não trabalha com o ser, você trabalha com o que parece ser. E, aí você tem capacidade de persuadir e de decidir os destinos políticos e sociais. Essa capacidade de mentir, diz Platão, e aí começamos o problema do combate à mentira, diz ele, é preciso proibir esse tipo de prática. É preciso impedir essa prática. Pra quem vamos permitir a mentira? Apenas para o especialista em Estado. O especialista como o médico tem o direito de mentir para o bem do doente – a nobre mentira platônica. Os homens nasceram em tal e tal origem – temos que convencê-los de que eles têm uma origem comum. O dr. pergunta, ninguém vai acreditar nessa bobagem, né! Sófocles diz, na primeira vez, talvez não, na segunda também não mas, na terceira vez já começam a acreditar”, explicitou Romano.
Sempre que se espalha algo via internet, a mentira, apela-se para o democrático. Romano lembra que já na instalação da democracia grega, estava em debate e foi motivo de proibição a livre expressão. “Eu posso falar o que eu quero. Eu posso ser sincero, porque eu tenho o direito de ser livre e dane-se aquela pessoa que foi destruída pela minha fala. Em cima desse direito e dessa curiosidade sobre a vida alheia universal e essa destruição do outro, o gosto e o prazer pervertido de fazer o mal, que está presente em todos os seres humanos; só deles são livres os hipócritas. Em cima dessa situação você tem os diagnósticos sobre a opinião pública. O povo não tem maturidade para o verdadeiro. Para exercer a palavra com peso, portanto, só lhe cabe a persuasão – não tem nenhuma condição de se dirigir ao outro a não ser persuasivamente”, disse.

Romano continua definindo a capacidade do povo para a verdade destacando – o que muitas vezes o mesmo é definido como um elemento infantil, curioso, falador, perigoso; e essa definição nutriu o pensamento totalitário do século XX. “Hitler dizia que o ser feminino que são as massas só podem ter acesso a condução e persuasão. Em cima dessa tese tão espalhada, um dos juristas mais importantes do Reich (Terceiro) Carl Schimitt – aí vem a minha preocupação particular, porque hoje é louvado e encantado por setores da esquerda mundial e brasileira – isso é um paradoxo porque ele faz uma crítica do sistema parlamentar e por isso ele seria legal. Mas esse sr. sabia o que estava falando. Na era da comunicação de massa, na era da tecnologia da comunicação de massa ele já estava pensando em rádio e televisão. Cabe ao governo o controle absoluto dessa comunicação. Cabe ao governo, efetivamente, não permitir liberalismos. É necessário utilizar a comunicação como um instrumento de persuasão e de imposição de Estado. A partir daí, nós temos uma fábrica de fake news muito bem examinado por exemplo, Víctor Klemperer (na linguagem do terceiro Reich), o mesmo criou uma série de linguagens. inclusive do ponto de vista gráfico, algo que é muito comum na imprensa brasileira hoje, quando se trata de atacar o inimigo, o uso das aspas. O fulano é filósofo entrega aspas, democrata entre aspas. Esses usos dessas linguagens de imposição e de destruição do outro se torna monopólio de Estado”, pontuou.

Romano, vai além na sua explanação e nos traz à consciência a propaganda enganosa que o Estado produz com o dinheiro público. “Eu não exageraria ao lembrar aos senhores que o Brasil tem uma fábrica, que vem de longa data, de produção de fake news, de propaganda persuasiva e de imposição de força através da propaganda. E, foram retomados pelo governo de 1964 e que estão presentes até hoje. Me perdoem, mas querem um amontoado de fake news mais terrível do que a propaganda elucidativa e informativa dos governos? Basta ver a televisão e o jornal, a notícia de interesse público. Na verdade nós temos aí uma intervenção cotidiana com bilhões aplicados para a imposição de mentiras e essas mentiras dão muito dinheiro e dão muito poder”, afirmou Romano.

Para Romano o conceito de fake news, pós-verdade, vêm de três mil e quinhentos anos de história e de debate sobre logos e pseudos, ou seja, aquilo que você fala pra enganar e aquilo que você fala pra tentar dizer o verdadeiro. “Eu terminaria a minha fala com um autor que foi muito utilizado pelos nazistas mas, que em certos momentos toca no vivo da questão política, da questão ética e da questão epistemológica do problema da verdade. Por que eu digo isso? Porque mal surgiu esse conceito do pós-verdade, mal surgiu essa palavra do fake news e imediatamente aquele Estado brasileiro que desde o império tem técnicas de controle e de imposição está preparando uma comissão para impedir as fakes news nas redes sociais durante as eleições de 2018. Está tudo pronto para que a Abin e todas as marcas de repressão do Estado brasileira estão presentes, Forças Armadas, com certeza a Polícia Civil, a Polícia Técnica – todo um sistema que já existe que vai estar presente para produzir e reproduzir a fake news no Estado brasileiro. As eleições, será toda ela um conjunto de fake news. E vai ganhar independentemente quem tiver o apoio desse grande instrumento de mentira”, revelou.