Flores

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Aula Magna Universidade de Roraima, 18/02/2021. Como no vídeo deixei de lado a escrita, agora segue para quem se interessar o texto da alocução. Roberto Romano

 

Scientia vinces

Aula inaugural de 2021/ Universidade Federal de Roraima.

Prof. Dr. Roberto Romano da Silva/Unicamp.

 

 

Agradeço a honra de falar aos funcionários, estudantes, colegas da Universidade Federal de Roraima. Recordarei, em momento de perigo para as ciências e a vida humana, aspectos de nosso passado desde que existem pessoas e instituições ligadas ao pensamento, cuja etimologia liga-se à balança : pensar vem do ato de pesar. Quem não pesa vocábulos, conceitos, métodos, tomba na charlatanice e na violência. O pensamento universitário é crítico ou reunião de certezas a soldo de poderes obscurantistas na tarefa de semear a morte.

 

A universidade começa nas Academias gregas, sobretudo as de Pitágoras, Platão, Aristóteles, Estoicos, Epicuristas. Ali o pensamento adquire os traços éticos que reconhecemos no labor científico, técnico, humanístico. As pesquisas da Grécia clássica abarcam o universo espiritual e físico, sempre armadas pela matemática. É célebre o dito na Academia platônica: οὐδείς ἀγεωμέτρητος εἰσίτω (quem não conhece geometria, não entre). A busca amiga do saber  Φιλοσοφία  abarca a existência sem limites ou regras que limitem a pesquisa. Ela se opõe ao ódio pelo pensamento, μισολογία, termo inventado por Platão para designar a mente obscurantista e violenta..

 

Na guerra entre a busca do saber e a misologia, ocorre a luta da curiosidade malsã versus a procura do que é. Plutarco indica os dois caminhos: o da ciência e o da nefasta curiosidade. Os olhos reúnem duas formas de atenção: a pesquisa (zetesis) e a curiosidade, “polupragmosine”. O zetetés,  investigador, usa os olhos para captar o que é e atinge um conhecimento dificilmente comunicável. O curioso caça informações sobre tudo e todos, coisas e atos sem relevância para o Bem. A cura do curioso seria a pesquisa, tratamento que consiste em “transferir a curiosidade, transformando-a em gosto por assuntos honestos e agradáveis: seja curioso do que se passa no céu e na terra, nos ares e no mar, os segredos da natureza, pois esta não se enraivece quando eles são roubados…” (De Curiositate, 5) Nas Academias gregas é praticada a pesquisa (Zetesis). O fato recebe atestação do apóstolo Paulo. Em contraste com o judeus que exigem sinais, os helenos pesquisam : ἐπειδὴ καὶ ἰουδαῖοι σημεῖα αἰτοῦσιν καὶ ἕλληνες σοφίαν ζητοῦσιν : Quoniam et Judæi signa petunt, et Græci sapientiam quærunt Pois, enquanto judeus pedem sinal, os gregos buscam sabedoria.    (II Corintios, 1, 22). O Renascimento retoma as Academias. Elas dão alento para as universidades já presas nas malhas do controle régio ou papal.

 

 

Vejamos as universidades. Valho-me de Jacques Le Goff. O que é o intelectual ? Pessoa “que faz do pensar seu ofício e, dele, o mister do ensino”.  Eles surgem no século 12 e se espalham pela Europa. Bolonha reúne intelectuais, mas é sustentada pela corporação dos advogados, daí a sua autonomia diante dos poderes feudais, da Igreja, dos reis. Ela mantém as marcas das corporações de ofício, fechadas aos não membros. As outras universidades no século 12 são corporações abertas.  Começam a  se despovoar os feudos, clericais ou laicos, com a fuga dos camponeses. Os membros da jovem universidade são na maioria imigrantes que fogem dos feudos rumo às cidades. O comércio retoma estradas do Império Romano com a troca de mercadorias e ideias. As rotas são retomadas para algo que não pode ser recusado pelos senhores feudais: a peregrinação. Surgem templos dedicados à Virgem Maria, as catedrais góticas. Os arquitetos que as erguem seguem modelos matemáticos gregos como em Chartres, onde se usa o plano  geométrico de Platão no diálogo Timeu. A vastidão dos novos edifícios religiosos, sua transparência com vitrais reluzentes, tudo depende de cálculo e perícia. Para atender tal necessidade surgem as reuniões universitárias. Estas últimas, segundo Le Goff se afirmam como “oficinas de onde são exportadas as ideias como se fossem mercadorias”.  Elas se organizam como  corporações que acolhem os fugitivos do feudo. Aos milhares e milhares os jovens falam as mais diversas línguas. O latim os une. Professores e estudantes debatem com liberdade. Todos apresentam questões, saber e perícia na análise lógica são mais relevantes do que os títulos de mestre ou doutor.

 

O ensino da Teologia é seguido pela Medicina e Direito. A Igreja e o novo aparelho estatal precisam de intelectuais para aplicar saberes administrativos (os primeiro germes da burocracia); regular as relações econômicas com o direito; curar as mazelas da população na luta contra epidemias geradas no inédito aglomerado urbano. Documentos mostram ofertas de reis e papas aos pesquisadores competentes, acenam com melhores salários, condições de vida adequadas, autonomia no estudo e no debate.

 

Com  o fortalecimentos das máquinas estatais e eclesiástica, suas burocracias estabelecidas, fraqueja a liberdade universitária,  brotam regras rígidas de estudo e ação. A liberdade cede passo às ordens emanadas das instituições externas que financiam a ordem universitária. Os campi se transformam em conjuntos submetidos a hierarquias rígidas. O saber universitário torna-se o serviçal dos poderes. Quem paga a conta manda na forma e conteúdo dos estudos. O reitor Gerson diz com brutalidade: pouco importa o debate sobre a justiça “desde que os donos das galinhas durmam em paz”. O mundo universitário é polícia da propriedade privada e do mando estatal ou religioso. Censor das ideias e práticas científicas ou humanísticas e unido ao Rei e à Inquisição ele aparece, no enunciado de Jacques Le Goff, como a “corporação dos queimadores de livros”. Relevantes intelectuais, do século 17 em diante, são tratados como seus inimigos. Pesquisas e pensamentos se desenvolvem fora e contra a universidade. Assim é com Descartes, Pascal, Leibniz, Spinoza e outros.  O campus se define como fábrica de técnicos de governo – expressão  de Imanuel Kant– polícia das ideias e da ciência, saber encastelado.

 

No século 18 Denis Diderot, campeão da campanha em prol do saber popular contra as tiranias estatais e religiosas, indica ser a universidade de seu tempo um fantasma gótico. Estranha à vida moderna em termos arquiteturais –até hoje resiste a arquitetura gótica em universidades europeias e norte-americanas–  ela o é também na ordem dos saberes. Em projeto para uma nova universidade, a ele solicitado por Catarina 2 da Rússia, Diderot retoma o programa de Francis Bacon para o ensino a ser construído. Bacon –como Descartes– é contra a aristocracia “natural” do saber. Ele confia no método científico que democratizaria a cultura. Para traçar um círculo perfeito é preciso enorme perícia. Poucos conseguem tal façanha. Com o compasso todos  o podem traçar . O método iguala forças intelectuais. Bacon usou a profecia bíblica –no livro de Daniel, 12:4– para justificar a expansão máxima da ciência pela humanidade. “E tu Daniel, encerra estas palavras e sela este livro até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e o conhecimento se multiplicará”.

 

Dois elementos encontram-se na leitura de Daniel feita por Bacon. Primeiro, a marca expansiva do saber. É impossível fechá-lo em muros inexpugnáveis dentro dos quais apenas alguns usufruem a ciência e a técnica. Um saber verdade, por excelência, pode e deve ser comunicado ao maior número de seres humanos. Segundo: a imagem espacial importa muito na expansão da ciência, no ensino. Para adquirir conhecimentos os estudantes medievais que inauguram as universidades viajam, seguem para localidades ignoradas nas quais são recebidos como perigosos imigrantes. Enquanto a universidade medieval é viva e livre, ela é o lugar de passagem de indivíduos e grupos de todas as origens. A universidade reune imigrantes. A maioria deles é pobre, sem recursos próprios, depende de auxílio e bolsas concedidas pela Igreja ou pelos governos. Professores italianos ensinam na Alemanha, alemães na França, Inglaterra, Holanda. Ao longo dos séculos, até os nossos dias, nenhuma universidade é composta apenas de nativos, de cidadãos nascidos nas fronteiras dos países. A circulação de pesquisadores, estudantes e mesmo de funcionários integra o próprio sentido da universidade. Sem estrangeiros, sem imigrantes, nenhuma universidade é viável. As universidades chinesas, hoje na ponta das pesquisas científicas e técnicas, acolheu investigadores de todos os países, e ainda os acolhe.

 

Tal fato, o deslocamento constante de cientistas e professores, alunos, funcionários, é essencial à universidade. Um campus puramente nacional vai contra a universidade que, pelo próprio nome, abarca todos os países, culturas, línguas, costumes. Daí o crime duplo dos fascismos europeus, todos nacionalistas, ao expurgarem estrangeiros de seus quadros. Eles praticam um atentado contra a humanidade e matam a fonte que nutre a ciência em seu próprio país. A produção científica alemã durante o nazismo foi muito enfraquecida, salvo em pequenos departamentos ligados à guerra. E mesmo em tais setores a Alemanha se enfraqueceu com a expulsão dos oponentes e estrangeiros. “Os nazistas aplicam verbas apenas nos setores que servem aos seus desígnios, reduzem o nível superior de ensino à propaganda ou censura. Cientistas deixam a Alemanha por não aceitar o regime. Sete ganhadores do prêmio Nobel saem dos campi a partir de 1933. Anna-Maria Sigmund resume a situação germânica : “O abandono pelo Estado nazista do potencial econômico e intelectual (...) assim como a atitude retrógrada do IIIº Reich diante da pesquisa e da ciência arrastou em prazo espantosamente curto consequência tremendas. Enquanto os nazistas no poder obstaculizavam os trabalhos de cientistas sérios (...) nutrindo entusiasmo por teorias obscuras (...) os físicos que eles expulsaram preparavam a guerra atômica” (Roberto Romano, “Brasil, o Assassinato do Espírito”, palestra inaugural no Encontro de Reitores (Andifes) em 2020, reproduzido no Jornal da Unicamp).

 

A reforma universitária proposta por Bacon foi recusada e combatida por Oxford e Cambridge, as quais  resistem até a barbárie neoliberal da Baronesa Margareth Thatcher. Entre as medidas da primeira ministra, vem os obstáculos à contratação de quadros estrangeiros, salvo os que colaborassem para a economia de mercado. Mas então não se trata de uma reforma democratizante do saber, mas da sua redução a mercadoria quantificável, submetida às avaliações de “produtividade” para lucro privado.

 

Ao lado da ampla democratização do conhecimento trazida pelo método Diderot, no Plano de Uma Universidade para a Rússia exige a democracia no ingresso aos campi. Uma universidade, diz ele, deve ser dirigida aos setores pobres. Os ricos têm condições de comprar conhecimentos. Usando o cálculo ele diz ser mais provável encontrar gênios em muitos casebres do que em poucos palácios. É recomendável a retomada daquele projeto agora, quando o Estado e as igrejas buscam privatizar as universidades em favor das classes abastadas e jogam as desprovidas de recurso nas margens da vida.

 

Contra a tendência democrática das Luzes, os poderes nacionais instalam universidades para dominar povos pelo controle do direito, da medicina, da teologia.  Imanuel Kant em O Conflito das Faculdades denuncia a subserviência das chamadas escolas superiores (Direito, Teologia, Medicina)  frente aos governos. Durante a Revolução francesa as universidades pouco fazem para o movimento democrático. Como resposta a Revolução suprime 22 universidades (1793). Com a Reação ressurgem as universidades dominadas pelo Estado. Elas optam pelo ensino técnico e profissionalizante. Hegel diz que na invasão napoleônica da Itália as universidades são tratadas como bordéis.

 

No século 20 o pior exemplo universitário vem da Alemanha. Não que os campi norte-americanos, franceses, italianos sejam modelo de correção científica ou ética. A Eugenia brota dos Estados Unidos,  exportada para a Europa, acolhida pelo nazismo. O elo entre as escolas superiores alemãs e o regime nazista vai além do que se pode imaginar. Desculpas surgem para o comportamento de professores e estudantes. Entre elas, a penúria financeira trazida pela Primeira Guerra e a crise de 1929. Os cofres  vazios, não há como nomear novos professores e conseguir meios para a pesquisa. A maior parte da universidade tomba no ódio racista, xenófobo, avesso à ciência. Cientistas judeus e estrangeiros são banidos, presos, mortos. Poucos professores protestam. A vergonha máxima dá-se na eleição de Martin Heidegger para a reitoria, quando ele entra para o Partido nazista e  jura fidelidade ao Líder. Admoestado por seu colega Jaspers que lhe pergunta “como pode um homem tão sem cultura como Hitler governar a Alemanha?” ele replica : “Olhai apenas as suas mãos maravilhosas!”.  Jarpers medita: nas adesões docentes e discentes ao nazismo “estava em jogo a liberdade de ensino, destruída nas raízes quando se permite que os docentes sejam investigados devido às suas opiniões”.

 

Na história colonial brasileira,  com a violência do Estado português e sua rapina de nossas riquezas, a censura proíbe  a edição de livros e produções industriais. Os levantes ocorridos contra El Rey reivindicam o direito de impressão, leitura, indústria. Os revoltosos têm ligações com o pensamento inglês, francês, norte americano. Suas bibliotecas estão lotadas por volumes das Luzes. Basta consultar o livro de Eduardo Frieiro, O Diabo na Livraria do Cônego. Um historiador da Inconfidência Mineira indica : entre os planos da possível república está a instalação de uma fábrica e uma universidade.

 

Tais planos são decepados como o corpo do Tiradentes. Apenas nos anos 40 do século 20, após a criação do Ministério da Educação e Saúde,  chegamos a um arremedo de sistema universitário. Passos importantes são dados para a política científica em 1951, com o CNPq e a Capes. Sem eles as universidades ainda estariam no berço. Em São Paulo a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa) ajuda a USP, Unicamp e Unesp a resistir aos ataques de governos do regime ditatorial como Paulo Salim Maluf.

 

Com o golpe de 1964 foi bruta a guerra contra as universidades públicas. Professores, alunos, funcionários cassados, presos, mortos. O cotidiano dos campi é de medo e terror. Reitorias colaboram com órgãos repressivos como o SNI. No acordo MEC/USAID o aparelho universitário brasileiro é posto em papel secundário. O governo civil/militar violenta as universidades, mas possui interesses em alguns campos de pesquisa. É o caso da física experimental, quando surgem os planos de energia nuclear com a Alemanha. Mas a escolha dos reitores segue a prática oligárquica: membros das elites regionais, fortes pelos tratos com poderosos em Brasília, recebem verbas, docentes, bolsas de pesquisa e de ensino. Os demais permanecem com o pires sem moedas.

 

A Carta de 1988 proclama o princípio, ainda não regulamentado, da autonomia universitária. Se estabelece mesmo assim, de susto em susto um sistema universitário e de pós graduação. Matéria veiculada no Jornal da Fapesp, anos atrás, demonstra que o referido sistema pode emular o italiano, o francês, o inglês e outros. Após a perseguição da ditadura e com auxílio do CNPq, Capes, Fapesp e similares em outros Estados, laboratórios, bibliotecas, salas de aula brasileiras produzem pesquisas das humanidades às ciências e técnicas avançadas. Mesmo assim, mazelas da administração pública e da política trazem obstáculos, diminuem recursos financeiros e humanos. O Brain Drain suga nossos pesquisadores que se dirigem aos países que incentivam a ciência. É melancólico verificar que, na atual pandemia, nomes brasileiros lideram pesquisas internacionais. Não tiveram aqui os apoios requeridos para continuar seu labor. Nos governos Collor e FHC chega a tentativa de privatizar as universidades, seguindo a lógica do neoliberalismo. Nos governos Luís Inácio da Silva e Dilma Roussef diminui a perseguição. Mas nos derradeiros momentos de Roussef verbas de pesquisa sofrem cortes consideráveis.

 

Chegamos ao descalabro de hoje, na política federal diante das universidades públicas. Não comento os atentados cometidos pelo presidente da república por intermédio de pretensos ministros da educação. A calúnia, a mentira, a propaganda para desmoralizar a ciência e as humanidades retomam momentos dramáticos vividos pela universidade alemã sob o nazismo e pelos campi norte americanos sob o macartismo. Os cortes dos recursos são inéditos, a grosseria contra o saber idem. A Universidade Federal de Santa Catarina é invadida por supostos defensores da moral pública que, ao arrepio da autonomia universitária e das leis comuns do país prendem sem provas o Magnífico Reitor Luiz Carlos Cancelier de Olivo , humilhando-o até o suicídio. A Universidade Federal de Minas Gerais, uma das mais nobres e dignas de respeito científico e também ético, foi violentada pela polícia com humilhações, ataques sórdidos ao corpo docente e autoridades universitárias. Ensaios de totalitarismo são renovados pelo governo e instituições como o Ministério Público, além da Polícia Judiciária, que deveriam zelar pelos direitos cidadãos e institucionais.

 

Em plena pandemia o governo federal labuta contra as vidas humanas, menospreza o perigo coletivo, pratica charlatanismo científico, persegue pesquisadores competentes. Os campi continuam a gerar saberes úteis aos brasileiros e à Humanidade. Neles reside a esperança de sobrevivência. É contra eles que mira o ódio contra a ciência. Sem as universidades e o conhecimento nelas gerados com certeza a mortandade seria pior. Institutos como o Butantã são caluniados pelo poder máximo da república, Este último boicota sua produção de vacinas em nome de uma pequenez ideológica absurda. E também de um racismo explícito contra chineses, que nos fornecem meios para lutar pela vida.  Os ataques aos campi retomam, com os herdeiros da ditadura de 1964,  perseguições que desgraçaram o mundo no século 20. Resistiremos até quando? Haverá ciência no futuro Brasil? Alceu Amoroso Lima, nos alvores do regime imposto em 1964 falou em “terrorismo cultural”. O mesmo terrorismo ataca hoje, não apenas pelas vias oficiais como o próprio Ministério da Educação, mas pela internet. É como se tivéssemos as técnicas de Goebbels potenciadas milhões de vezes. Ministérios são controlados por criacionistas contrários à ciência, donos de uma pauta fanática e sem rubor de apoiar governantes que elogiam a ditadura, a tortura, a morte dos adversários.  Na tentativa de invasão, pelo Exército, das dependências universitárias no Rio de Janeiro, o  reitor Calmon diz a um jovem oficial: “meu filho, aqui só se entra com vestibular”. Infelizmente muitos reitores de hoje não seguem o exemplo. E o método atual de nomear reitores, pela presidência da república, tende a acrescer o número dos que discordam do respeitável Pedro Calmon.

 

Com a Internet –à semelhança do que ocorre no uso da imprensa por Gutenberg– as informações se multiplicam sem análise crítica, sem pesquisa, sem prudência. Está formado o campo de onde brotam, em meios avançados da comunicação os mais baixos sentidos da curiosidade, da kakourgia, da misologia. Tal onda penetra fímbrias importantes da universidade. Existem doutores que aderem aos fascismos, aos procedimentos do charlatanismo científico. As supostas redes sociais aprofundam os defeitos  acadêmicos como a inveja, a concorrência sem regras contra os pares, os murmúrios dos corredores. Mas a malha constituída pelas universidades, apesar de tudo, irradia saber e esperança. Em todo o planeta, se há universidade existe pesquisa e saber, esperança. Colegas, estudantes e funcionários da Universidade Federal de Roraima: coragem!  Cabe-nos valorizar a busca do conhecimento como  nas Academias gregas e da Renascença, nas escolas cujo labor serve à Humanidade, não às seitas e governos tirânicos. Scientia vinces : com a ciência vencerás. Este é o dístico no brasão de uma universidade que mais sofreu com a ditadura de 1964, a USP.  Ele continuará válido após o fim de governos inimigos do saber.  Bom ano de estudos, boas práticas e misericórdia. É disso que precisamos. Obrigado. 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Mentira e Razão de Estado. Aula pronunciada na Escola Superior do Ministério Público de São Paulo. O evento ocorreu em 2008. Mas a cada átimo o assunto é mais atual. Roberto Romano


 Mentira e Razão de Estado. 


Roberto Romano/Unicamp

Quando recebi o honroso convite do Dr. Marcio Sotello Felippe para expôr algumas idéias a este grave e seleto auditório, pensei falar algumas coisas sobre a Razão de Estado. A justificativa era evidente, imaginava eu, bastando inspecionar a midia internacional e brasileira para ver o quanto os poderes se desenvolvem no segredo e aprofundam as diferenças entre a cidadania comum e que os agem em nome do público. Guerras, modificações econômicas e jurídicas são empreendidas sem que os contribuintes saibam as suas causas e alvos. Pior quando medidas restritivas às liberdades civis—como o conjunto de ordenamentos norte-americanos batizados como Ato Patriótico— são esposadas por juristas e tribunais superiores. A democracia e as exigências de transparente responsabilidade governamental perdem a cada átimo sua marca de origem. No mundo inteiro observa-se uma espécie de retorno ao absolutismo, que por sua vez imaginávamos afastado pelas revoluções inglêsa, norte-americana e francêsa. Sequer pode-se afirmar que hoje vigora um Termidor. Na verdade o retorno político que testemunhamos segue para o arbítrio e a imposição de leis e normas pelos que ocupam o lugar do arcaico rei sagrado. Nunca, na história política moderna e deste país, o Executivo foi tão impositivo e tirânico. 

Com a hegemonia inconteste do Príncipe (inclusive com o retorno da prática na qual os bens do Estado pertencem a governantes e áulicos) temos algo similar ao descrito por Peter Burke na consolidação moderna do Estado: todas as instituições públicas tornam-se instrumentos para ilustrar a imagem do governante. ( ) A Raison d´État é apenas um outro elemento da reivindicação enunciada pelo Rei Sol: L´État c´est moi. Como indica Peter Burke, as academias científicas, artísticas, os palácios públicos, as avenidas, as cidades, as fábricas, os quartéis passaram a existir apenas para exibir a “glória da França” na figura de Luís. As técnicas empregadas pelo Estado absolutista foram assumidas pelos governos após o refluxo da Revolução de 1789. A primeira delas é o culto da personalidade, abusado por Napoleão e conduzido ao delírio no século 20. 

Recomendável é a leitura dos últimos considerandos feitos por Burke sobre o século anterior. O autor critica quem separa de modo radical a ordem política, na época de Luis e em nossos dias. Ele mostra que muitos autores recentes erram ao comentar o Estado do século 17. Por exemplo Daniel Boorstin que, em 1960, cunhou o termo “pseudo-evento”, cujo significado vai de uma ação encenada tendo em vista midia aos rumores sobre atos noticiados antes mesmo que ocorram. Em português atual o termo é factóide. As jóias, os quadros, medalhas e gravuras absolutistas integravam encenações meticulosamente ensaiadas. Existem outros termos como “Estado Espetáculo”, produzido por Schwartzenberg em 1977 ( ) para descrever a política de Kennedy, De Gaulle, Pompidou e Carter e o empacotamento dos candidatos. Dizer que “antes” os pretendentes ao governo não eram vendidos à população é olvidar que Richelieu e Luís XIV tinham ghost-writers para redigir discursos, memórias, cartas. A “venda” do produto político não difere em demasia hoje do que se fez na era da Razão de Estado.

Finalmente: “os meios de persuasão assumidos por governantes no século 20 como Hitler, Mussolini e Stalin e, em menor grau, pelos presidentes franceses e norte-americanos, são análogos sob certos aspectos importantes aos meios empregados por Luíz XIV”. Existem diferenças, pois “os novos meios eletrônicos têm suas próprias exigências. A mudança de discursos políticos para debates e entrevistas, por exemplo, é um dos seus efeitos. Mesmo assim, o contraste entre o que poderíamos chamar de ´governantes eletrônicos” e seus predecessores foi exagerado”. Conhecemos o sentido atual da manipulação das massas. Depois de Elias Canetti, cujo exame das multidões captou as bases totalitárias do século 20, em Massa e Poder, analistas como Peter Sloterdijk mostram as potencialidades da nova midia e da Internet no movimento de massas virtuais, determinado pela propaganda. ( )

Semelhantes artifícios são reunidos na classificação ética tradicional que diz respeito à mentira. Engana-se quem une razão e verdade. Como enuncia I. Kant, antecedido por Rousseau e Platão, a força do pensamento racional, no mundo finito, é acelerada pela mentira e pela desmesura. As primeiras linhas da Critica da Razão Pura dizem que “a razão humana sofre um destino peculiar, pois em todas as espécies de seu conhecimento ela se incendeia por questões que, como é prescrito pela própria natureza da mesma razão, ela não pode ignorar mas que, se ultrapassar os limites de seu poder, ela também não pode responder”. Como o poder político, a razão deve encontrar limites, caso contrário ela delira sem suportes na corporeidade humana. Se o conhecimento é o seu alvo, ela deve começar dando à sensibilidade o seu quinhão, partilhando seus poderes. Quando se imagina absoluta, a razão, enuncia Kant, torna-se despótica e vazia. A verdade necessita tanto de ingredientes raros e caros quanto das humildes fontes estéticas. Justo por tal motivo Kant defende a crítica da razão. Como diz o intróito da sua obra estratégica: “Nossa era é propriamente a era da crítica, a quem tudo deve ser submetido. A religião, por sua santidade e a legislação, por sua majestade, querem ser isentadas pela crítica. Mas então elas despertam suspeitas e não podem exigir o respeito sincero que a razão concede apenas ao que passa pela prova livre e pública”. ( ) O trecho kantiano é um ataque direto ao dogmatismo trazido pela razão de Estado. Tanto a ordem religiosa quanto a civil buscam um estado de exceção para si mesmas, enquanto a crítica liga-se à continuidade no ordenamento público e republicano. Alí, a regra é efetivamente universal e não admite exceções, muito menos estados de exceção. E a Raison d´État opera segundo a lógica do que é excepcional. Não por acaso um dos autores primevos na constelação absolutista redigiu em 1652 (tempo áureo da raison d´État, especialmente sob Richelieu e Mazarino) o primeiro livro claro sobre os golpes de Estado. Refiro-me a Gabriel Naudé. ( )

Proponho às senhoras e senhores inspecionar a mentira como essência da razão de Estado. Na tarefa, uso os trabalhos de vários escritores, sobretudo o de Victoria Camps, “A mentira como pressuposto”, editado em coletânea dedicada ao problema da mendacidade. ( ) Uma constatação primeira é sobre a natureza da linguagem verdadeira. Se ela é uma convenção ou se brota diretamento da natureza, é algo que se discute na filosofia desde os seus primórdios. Com esta zona cinzenta que obnubila noção de gênese, a hipótese mais produtiva, em termos políticos e jurídicos enuncia que a verdade no mundo finito não pode ser absoluta. E nem a mentira. A lingua, como a cultura humana incluindo o poder, define-se como um jogo. De Pascal a Wittgenstein, esta via tem sido explorada com insistência. A mentira, segundo o último pensador citado, é um jogo de linguagem que deve ser aprendido, como qualquer outro jogo. 

Se existe uma atenuação do conceito de verdade e mentira no mundo moderno, ainda somos suficientes herdeiros de Rousseau e não perdemos a certeza na sinceridade. Este é o pressuposto da comunicação, sobretudo em coletivos que se desejam democráticos. Que a lingua seja o lugar dos equívocos, da insuficiente clareza, dos desvios semânticos, é algo debatido desde os pré-socráticos e o Crátilo platônico é eloquente testemunho. A simples inspeção em textos fundamentais do pensamento político moderno como o Leviatã, também mostram que antes de penetrar os segredos do poder é preciso bem vigiar o uso das palavras. Em nossos dias um analista que traz elementos para este labor é Austin, no importante How to do things with words. ( )

Segundo Austin, o que a lingua faz não é nem verdadeiro nem falso : está bem feito ou mal feito. Em lugar de erros ou falsidades, ele prefere dizer “atos infortunados”, como os abusos do pensamento, sentimentos, intenções, trazidos pela insinceridade do agente. Assim, dar conselhos com objetivos torpes, dizer culpado o inocente, prometer querendo não cumprir, não consiste em dizer coisas “falsas”, mas insinceras. Aí reside propriamente o ato de mentir. 

Qual é a mais espalhada definição da mentira em nossa cultura ? A de Santo Agostinho. Este último proclama que Deus é inocente de toda falsidade. Ao dizer que Deus não precisa de nossa mentira, ele segue Platão à risca. Todos recordam as passagens da República que censuram os deuses homéricos mendazes, e a sentença do filósofo que define os atores divinos como inocentes. Do celeste ao humano: como a nossa vontade decidiu-se pelo mal, ainda no Paraíso (incluindo a mendacidade), no mundo finito tudo é pervertido. O Estado só existe porque ocorreu aqule primeiro ato de vontade maléfica e mentirosa. Servos de nosso egoísto e orgulho, para nós a mentira só pode consistir em “dizer o contrário do que se pensa, com a intenção de enganar”. (De mendacio) Em outro texto, o Contra mendacium ( ) [Contra o ato de mentir], o padre da Igreja analisa a mentira feita para obter vantagens. Nada mais acertado, no caso, do que recordar as passagens de Edmund Burke sobre a atração racional pelo mal, o que produz no homem o sentimento do “delight”, tranqüilo horror que segundo Burke é a fonte do sublime. Satã, o mentiroso supremo, pelo prazer da luz racional nos joga no delírio, armadilha cujo nome latino é lacio: rede luminosa que o Príncipe das Trevas joga sobre os “animais racionais”, para que eles se afastem da luz. ( )

A mentira é portanto um ato de fala. Vejamos o que isto pode significar. Os atos de fala dependem, segundo Austin, do ajuste de quem enuncia a um “procedimento convencional aceito (…) que inclui a emissão de certas palavras, por parte de certas pessoas em certas circunstâncias”. Este aspecto é determinado como ilocução (o que fazemos ao dizer algo), mas não como perlocução (o que fazemos pelo fato de dizer algo). A perlocução é o efeito produzido por um ato linguistico, o objeto ou a simples sequela deste ato. A perlocução pode ser intencional ou inintencional. A perlocução não é convencional, ela se produz ou deixa de ocorrer independentemente da correta efetivação do ilocutivo. Vejamos exemplos disso: “mate-o” é locutivo. “Ordenou-me que o matasse”, ilocutivo. “Persuadiu-me a matá-lo”, perlocutivo. 

“Persuadir”, “convencer”, “assustar”, “alarmar” são perlocutivos cuja efetivação não depende do fato de usar certas expressões ou situá-las em contexto adequado, mas sim da habilidade, destreza ou astúcia do falante, da fraqueza ou vulnerabilidade do ouvinte, circunstâncias nem sempre previsíveis nem controláveis pelos próprios sujeitos do ato de fala. ( ) Para expôr a não convencionalidade do perlocutivo, Austin afirma que um juiz pode decidir, pela oitiva de testemunhas, quais locutivos e quais ilocutivos foram empregados no ato delituoso, mas não pode saber quais foram os perlocutivos porque não tem provas para tal exame. O ilocutivo é um ato físico mínimo, que consiste em dizer algo. O perlocutivo resulta do ter dito algo, que não consiste em outro ato de dizer. Ele não é convencional e isto poder ser verificado pelo fato de que ele não pode ser explícito, caso contrário perde eficácia. Não se diz: “eu te persuado”, ou “eu te assusto” quando se deseja realmente persuadir ou assustar. O perlocutivo pode ser intencional ou inintencional, um fim proposto ou querido, ou ser uma simples sequela do ilocutivo. 


Se a mentira é “dizer o contrário do que se pensa com a intenção de enganar”, como considerá-la no contexto dos atos de fala? Falar a mentira, para Austin, é transgredir a condição dos atos de fala, a sinceridade. No ilocutivo, a mentira está em não cumprir de uma regra, que exige dos partícipes de uma troca de enunciados que eles possuam os pensamentos e sentimentos expressos, e que tenham a intenção de falar em consequência. Digamos em forma de jogo: os partícipes de um jogo de xadrez devem ter a a competência e o intento de jogar xadrez, não dominó ou um outro jogo. A sinceridade, assim entendida, é um pressuposto da conversa. A mentira, dizer o contrário do que se pensa, negaria o própria ato comunicativo. Ela não é um ilocutivo, mas um perlocutivo. Por exemplo: se falarmos “ao dizer X, eu o enganei” o intento e a consequência se ampara, justamente, na ausência de explicitação, na falsidade do ato, a inconexão encoberta entre o que digo e o que, de fato, pretendo conseguir sem que o outro o perceba, pois se trata de enganá-lo. 

Permitam-me afirmar que nesse passo temos a condição primeira da Razão de Estado. Todos os comentadores daquela política indicam que a inconexão encoberta entre falante e ouvinte, entre os que falam pelo poder e os que obedecem, é o seu núcleo. A questão do segredo aninha-se neste fio básico da mentira. A mentira vai além dessa prática de engôdo metódico, pois alguém pode enganar e ocultar de si mesmo este seu intento, salvando às meias a própria consciência. “O político mente para ganhar eleições; o desempregado mente para conseguir emprego, e até existe quem minta exclusivamente para chamar a atenção”. Nestes casos, o perlocutivo não é apenas enganar. Assim, podemos imaginar que a mentira como perlocutivo absoluto —mentir por mentir— jamais ocorre. Mentir é um recurso próximo do que chamamos manipulação. Ela é um ato unilateral: eu engano, minto, e ele não deve perceber. Aqui também nota-se o traço da Razão de Estado, segundo a maioria dos comentadores. Quando citei Kant e a questão da crítica pública, era em preparação a este passo. A mentira, na perspectiva de Kant, nega o pressuposto semântico e pragmático essencial que, se ausente, a comunicação torna-se impossível e, com isso, toda ciência, moral, política. A razão de Estado é uma política paradoxal, porque tende a reduzir todo enunciado político à manipulação dos dirigidos, neles criando a aceitação temporária do que se diz e se faz, e que tem a marca da mentira. A adesão aos atos do governante é fabricada com meticulosa astúcia. A cada vez o engano deve ser retomado, sem que se acumule realmente qualquer obediência cuja origem seja a vontade efetiva do coletivo. 

A razão de Estado arruina a base da política, a fé pública, porque ela é “um engano radical, uma ruptura de fé que arruina todo contrato discursivo; na mentira [e na Razão de Estado, RR] o ouvinte não é capaz de explicitar nenhuma estrutura; trata-se de um discurso ´fora da lei´”. ( ) A mentira é um abuso da linguagem. Quando descoberta, a mentira precisa de razões excusas para justificar tal abuso. A verdade não precisa se desculpar, salvo justamente diante da razão de Estado, como se apreende da história desta política que não ousa dizer seu nome. Os julgamentos das seções especiais de Justiça em Vichy, os julgamentos de Moscou e muitos outros julgamentos demonstram esse ponto. 

Quais os tipos de mentira que mais operam na cultura ocidental, berço da razão de Estado? Na ficção, que sem dúvida não é verdadeira mas também não é mentirosa, pois não intenta enganar. A linguagem política comum, não presa à Razão de Estado, pois nela se encontram os eufemismos, as evasivas, os silêncios, as desinformações. Esta lingua promete sem prometer e deseja agradar e conseguir votos, persuadir mais do que convencer. Mas não pode ser dita mentirosa, mas demagógica. Nela, os interesses pragmáticos se sobrepõem a todos os demais interesses. A lingua da publicidade exagera para persuadir, é prescritiva de modo sutil. ( ) A lingua religiosa não é verdadeira, pois usa a analogia. Os atributos divinos são incognoscíveis. Só pode-se falar deles a partir das criaturas. A lingua cotidiana conta com fórmula mentirosas, que não podem ser tomadas ao pé da letra. Assim nas desculpas, saudações, expressões de contentamento ou tristeza. Victoria Camps cita a grande filósofa Mafalda, que se refere à expressão “não tenho tempo” como uma boa “mentira dos adultos que costuma funcionar”. Sempre é bom que se lembre o estratégico livrinho de Torquato Aceto, o Della dissimulazione onesta. “Existem classes e profissões que se pressupõe por princípio que forçam os seus representantes a mentir, como, por exemplo, os teólogos, os políticos, as prostitutas, os diplomatas, os poetas, os jornalistas, os advogados, os artistas, os fabricantes de alimentos, os operadores da bolsa, os juízes, os médicos, os falsificadores, os gigolôs, os generais, os cozinheiros, os traficantes de vinho”. ( )

Mas nessas mentiras profissionais, diga-se, temos mentiras partilhadas, pois nelas o engano participa e assume a mentira. Esta última, no entanto, sendo um jogo que deve ser aprendido, aquelas mentiras pervadem todos os discursos, deixando por isto de serem algo que vai contra o coletivo. Em alguns casos temos aí algo lícito, ou ilícito, segundo o caso. Passemos ao caso da mentira como ato de violência e poder.

As mentiras mencionadas há pouco, são geralmente socialmente aceitas, são funcionais, convencionais. A mentira real se identifica com a injustiça. Ela é uma espécie de violência e ela só é justificada pela aceitação do violentado. Nela, as duas partes —mentiroso e enganado— sabem que estão mentindo um ao outro, mas ao dirigido não resta nenhuma saída que não seja a adesão. Quando existe mentira real? Quando a competência linguistica é assimétrica: mente-se à criança, ao doente, ao fraco, ao vulnerável, ao que depende de tutores. A mentira é possibilitada pela dominação religiosa, política, ideológica, profissional. A Razão de Estado se instala no mundo humano com a dominação assimétrica absolutista. É o caso de James I, que afirma ser o rei “accountable” apenas perante Deus. Aos súditos, ele ensina e manda sem que eles possam exigir prestações de contas. A luta contra a Razão de Estado formou o núcleo das revoluções democráticas na Inglaterra do século 17, na América e na França no século 18. Na democracia, a competência linguistica é simétrica e compartilhada. É por semelhante motivo que todos os reacionários do século 19, a começar com os romênticos conservadores, viram na democracia aquele regime onde todos falam, e todos falam em demasia, sem poder decidir. 

Basta “alguma experiência da alma humana” diz Weinrich, para detectar os sinais da mentira. Aprender o jogo da mentira —e não por acaso o estadista da Razão de Estado é comparado ao jogador que frauda as regras— é aprender as possibilidades de manipulação e engôdo, que encobrem a fala, que por sua vez é o disfarce do pensamento. O que faz o regime da Razão de Estado contrário ao genero humano e à liberdade é o fato de que sua mentira é uma injustiça que não considera governantes e governados como iguais, uma redução, como diria Kant, do outro a puro meio da vontade governante. Não por acaso Montaigne define a mentira como “valentia diante de Deus e covardia diante dos homens”. É por tal motivo que o perlocutivo fornece uma chave para entender o ato da mentira política, dita Razão de Estado: a sua essência é a dominação do outro quando este não consegue recusar ou mesmo detectar o engano. O perlocutivo não é “mentir” ou “enganar” (porque disse X, menti ou enganei). A mentira permanece oculta, em especial na Razão de Estado, porque não deve ser percebida, caso contrário, ela perde seu efeito. Habermas imagina que numa sociedade ideal, ou seja, a democrática e ilustrada, impera o diálogo e a mentira é impossível. A simetria entre os cidadãos e os dirigentes mostra-se total. O único senão é que tal sociedade nunca existiu nem existirá, salvo talvez na Civitatis Dei. Mesmo assim é preciso atentar para a ruptura do diálogo celeste, trazida pelo primogênito da Luz. Sendo assim, temos a realidade absolutista da assimetria entre cidadãos e cidadãos, entre cidadania e príncipes. Existindo a assimetria, temos o poder dos competentes na fala e nos atos, os quais decidem sobre o que pode ser ouvido e compreendido pelos governados. 

Não admira que os Estados formalmente definidos como democracias sejam frágeis nos dias posteriores ao Termidor. Não admira também que a confiança dos cidadãos na democracia diminua a olhos vistos. A astuciosa Razão de Estado, da qual adoecem estadistas, intelectuais e sobretudo burocratas, não pode fugir da corrosão homeopática da fé pública, sem a qual nenhum poder se sustenta em prazo longo. Como diz Nietzsche, citado bem a propósito por Victoria Camps, “os homens não fogem tanto de ser enganados, como de serem prejudicados pela mentira”. Não é por teres mentido para mim, arremata Nietzsche, “mas porque eu não mais acredite em ti, é isto o que me faz estremecer”. 

Fé pública e verdade são os esteios que garantem todos os deveres, todas as leis, todos os contratos. É isto, afirma Amélia Valcárcel, ( ) que afasta a Razão de Estado para fora dos limites da moralidade. É por este motivo que Hegel estigmatizou a critica da razão, proposta por Kant, como algo desagregador para a sociedade civil e para o Estado. Sem dúvida, imagina Hegel ao perverter a noção de mentira na República de Platão, o sujeito individual não deve mentir, mas deve ser admitido que entidades não subjetivas podem trazer verdades que para ele, indivíduo abstrato, são mentiras. A instituição estatal é a verdade suprema dos indivíduos, ela tem o direito à mentira para o bem do coletivo. Moralmente se exige que uma pessoa não minta a outras, sendo repreensível se ela mente sobre assuntos de sua esfera profissional ou familiar. Sua mentira será punida se a mentira cometida afeta o Estado. Este, segundo Hegel, não precisa dizer a verdade, porque ele é a verdade. Instituições não mentem, indivíduos sim. 

Termino essas notas sobre Razão de Estado com a lembrança de Pitt Rivers ( ) que afirma ser a mentira essencialmente uma categoria que mede a hierarquia. Mentir é uma relação que se faz cima para baixo. Trata-se de saber quem possui direito à verdade. Mentira é não dizer a verdade a quem possui direito a ela. A ordem que chega de cima não é mentira, mas palavra de poder pertinente em si mesma, modelo e guia do saber e da ação dos que a recebem. Quem precisa fazer com que sua informação suba pode mentir, mesmo inadvertidamente, se esconde ou tergiversa parte de sua informação ou se não purifica o conveniente para o seu nível. Os totalitarismos, finaliza Valcárcel, “nunca reivindicaram a si mesmos como prováveis, mas como verdadeiros”. O absolutismo fez o mesmo, com a terrível mentira que se encerra na Razão de Estado. Para dizer tudo com Zaratustra: “Em alguns lugares do mundo existem ainda povos e rebanhos, mas não entre nós (…) aqui só existem Estados. Estado? O que é isto ? Abri os ouvidos e lhes falarei da morte dos povos. O Estado é o mais frio dos monstros frios. Ele é frio mesmo quando mente; eis a mentira que sai de sua boca: ´Eu, o Estado, sou o povo’. Mentira. Os criadores formaram os povos e desenrolaram sobre suas cabeças uma fé e um amor; eles serviram a vida. Mas os destruidores puseram armadilhas para a multidão, é o que eles chamam Estado; eles puseram sobre suas cabeças uma espada e cem apetites. Se ainda existe um povo, ele nada compreende do Estado e o odeia como um pecado contra a moral e o direito. (…) Cada povo tem seu idioma do bem e do mal e o povo visinho não o entende. Mas o Estado sabe mentir em todas as linguas do bem e do mal e em tudo o que ele diz, mente e tudo o que possui, roubou. Tudo nele é falso; ele morde com dentes falsos, até suas entranhas são falsas. ( ) O Estado é o lugar onde todos estão intoxicados, bons e máus, onde todos se dissolvem (…) onde o lento suicidio de todos é chamado ´vida´. (…) Vede estes superfluos: eles adquirem riquezas e apenas se tornam mais pobres. Eles querem o poder (Macht) e, antes, a alavanca do poder, muito dinheiro —esses impotentes! Vede como eles sobem, estes macacos ágeis. Eles sobem uns sobre os outros e se fazem mutuamente cair na lama e no abismo. Todos querem ganhar o trono. Com frequência é a lama que está sobre o trono, e não raro o trono está plantado na lama. Todos loucos…seu idolo fede, este monstro frio; eles também fedem, os idólatras…”. 

Nietzsche não foi um democrata, longe disso. Mas viu coisas não percebidas por muitos militantes que, por nada perceberem na Razão de Estado, coonestaram horrores na Alemanha, na Itália, na URSS, no Camboja e em muitas terras. É o que eu tinha para dizer sobre o tema. Obrigado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Fragmento de um prefácio às Obras de Giordano Bruno programada pela Ed. Perspectiva. O texto inteiro está com a Editora e não é possível saber se a edição será publicada. Em tempos de pandemia e de perseguição à cultura, Bruno não é a elhor opção dos negacionistas governamentais. Roberto Romano

 Giordano Bruno. 

Um pensamento digno das Bacantes. Tal frase é dita por Hegel ao comentar os textos de Giordano Bruno. Logo a seguir o filósofo indica que as publicações esparsas do peregrino dominicano seriam idênticas às que pertencem  ao misticismo fanático (Schwärmerei), algo a ser afastado pela ciência. ([1]) Tais retratos têm fabricação datada e serviram para capturar as figuras mais controversas da modernidade, de Bruno a Spinoza. Tendo como base hipóteses antigas, retomadas na polêmica entre Lessing e Mendelssohn sobre o suposto panteísmo spinozano, Jacobi edita trechos selecionados evocando o escrito intitulado A Causa, Principio e Uno. ([2]) O equívoco sempre ronda a filosofia e a sua hermenêutica. Assim, muitos “ismos” são fabricados para glória da taxinomia aristotélica e alegria dos bibliotecários.. O panteísmo atribuído a Spinoza, que ricocheteia na leitura romântica de Giordano Bruno, é lugar comum pouco demonstrado, muito difundido sem sofrer a crítica estrita dos textos.

 

Jacobi amplia a suposta doutrina com antecedentes polêmicos trazidos do século 17, por exemplo, os ataques de Pierre Bayle. Dada por estabelecida a forma de pensamento panteísta em Spinoza, predecessores de tal figura noética são procurados. Assim, Bruno teria previsto a substância infinita de spinozana. Do predecessor delirante, brotam os descendentes românticos e idealistas como Schelling, Coleridge, e outros. Apesar de todo interesse votado por Hegel ao pensamento de Bruno,  sua atitude é clara: trata-se, para ele, de uma divagação onírica,  ou oceano revolto de pesadelos. Notemos que, de início,  Hegel julga honrar nosso herói com o qualificativo trágico trazido pelo teatro de Eurípides. Na sua obra de juventude, fronteira de uma filosofia contrária ao romantismo, Hegel define a própria verdade como dança onde deliram as bacantes. ([3]) 

 

Além do teatro, com a lembrança de Euripides em seu momento mais pungente, as Bacchae, na qual a dissolução dos corpos e das mentes atinge um ápice insuportável, Hegel atribui a Bruno uma outra forma cultural, agora o neoplatonismo. Uma fonte de Bruno seria Proclus, o místico que ajudou a levar adiante a reação contra a estrutura platônica do universo e da alma. A busca do Uno, que Hegel identifica em Bruno, teria sua origem especulativa em Proclus, para o qual “a inteligência é algo substancial que, na sua unidade a tudo contem : a a vida é o criador, o produtivo, a inteligência como tal é precisamente este algo que a tudo inverte, que faz tudo retornar à unidade”. E assim, temos a tese sobre o spinozismo antecipado de Bruno: “seus pensamentos filosóficos”, adianta Hegel, “somados ao entusiasmo pela natureza, por sua divindade, e pela presença nela da razão (…) são assim em geral uma filosofia spinozista, panteísta”. O universo para Bruno seria “um animal infinito no qual tudo vive e se move de maneiras diversas”.

 

A legenda de certo Bruno spinozista avant la lettre segue continua após Hegel na História da Filosofia. Um autor relevante para o pensamento materialista do século 19, Ludwig Feuerbach, ([4]) repete a tese panteísta, dando como base a substância de Spinoza. ([5]) Naturalmente, a referida substância é vista sob a optica hegeliana, como  infinitude que serve como base do Espirito. No caso de Feuerbach, ao contrário de Hegel, o espírito humano natural, não o divino. O leitor não está ainda livre, nestas considerações sobre a tradução de Bruno pela Editora Perspectiva, do idealismo alemão e de suas querelas contra as figurações românticas. Tal desvio de rota se justifica e as razões as darei adiante.



[1] Hegel, G.W. F. : “Bruno” in Vorlesungen über der Geschichte der Philosophie.  Frankfurt am Main, 1970, Werke in zwanzig Bänden, Suhrkamp Verlag, 20, T. III, p. 24.

[2] Nesta edição, página ? e seguintes.

[3] Das Wahre ist so der bacchantische Taumel, an dem kein Glied nicht trunken ist, und weil jedes, indem es sich absondert, ebenso unmittelbar auflöst, – ist er ebenso die durchsichtige und einfache Ruhe”.  “O verdadeiro é o frenesi báquico, no qual nenhum membro foge da embriaguez,. Como cada membro se dissolve imediatamente ao separar-se da roda, tal frenesi é ao mesmo tempo um repouso translúcido e simples”.  Note-se na frase o termo, oriundo da química imperante na época : Auflösung. A dissolução trágica do Todo mostra o trabalho do negativo, da morte e do sofrimento. Bruno, um pensador atormentado, teria intuido o movimento substancial da natureza e do divino. Hegel não precisaria de muito esforço para traçar, anacronicamente, o retrato do Nolano romântico que ainda hoje resiste em estudos especializados sobre sua filosofia. Cf. Hegel, G.W. F : Phänomenologie des Geistes, Werke in zwanzig Bänden, Shurkamp Verlag, 3, p. 46.

[4] Vorlesungen über die Geschichte der neueren Philosophie, von G. Bruno bis G.W.F. Hegel (Erlangen, 1835, Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1974.

[5] Tomasoni, Francesco: Ludwig Feuerbach : Entstehung, Entwicklung und Bedeutung seines Werke ( Münster/New York, Waxmann Verlag GmbH, 2015) p. 150.