Flores

Flores
Flores

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Roberto Romano: Os anjos e o PT.

São Paulo, terça, 5 de maio de 1998


Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Os anjos e o PT


A liderança do PT sugeria aos militantes que todos no partido eram anjos e os demais, "farinha do mesmo saco"
ROBERTO ROMANO

Acontecimentos como a escolha do candidato a governador no Rio pelo PT mostram que o autoritarismo deita raízes no mais antigo pensamento político. Os donos nacionais daquele partido, gerados pelo ideário stalinista e semelhantes, enfrentam as oposições internas com chantagem e outras armas violentas. Mostram que pouco mudaria a República sob seu comando. Façamos uma rápida síntese do ideário mais amplo que define a sua lógica.
Alguns escritores vincaram a cultura do Ocidente. Eles modelaram as almas. Depois, seus textos seguiram para o inconsciente, no qual continuam operando de modo eficaz.
Um teórico assim é Dionísio Areopagita. Seus livros principais, "A Hierarquia Celeste", "Hierarquia Eclesiástica", "Os Nomes Divinos", apareceram por volta de 533 d.C., em Constantinopla. O nome do autor era falso: Dionísio teria testemunhado a pregação de São Paulo no areópago.
Só no Renascimento essa piedosa mentira caiu por terra, com a pouco verdadeira "doação de Constantino". Mas o conjunto textual seguiu prestigiosa via: em 827, o imperador romano do Oriente o depositou na igreja de Saint-Denis. Isso serviu para legitimar o rei da França, cuja sagração se dava naquele templo.
Com as traduções de Erigena, os textos tornaram-se vitais na Idade Média. Tomás de Aquino, o doutor da igreja, cita-os 1.700 vezes. A renascença religiosa tomou-os como oráculo. No século 16, ocorreram 44 edições da "Hierarquia Eclesiástica". No século 17, eles justificavam o poder da igreja contra o Estado. Mas já potenciavam a propaganda do rei absoluto diante do papa, dos bispos e nobres.
O que importa em Dionísio? Nele se diz que Deus está além de nossa capacidade de pensá-lo e nomeá-lo. Entre a divindade (supremo abismo) e nós existe uma cadeia de seres intermediários, garantindo uma hierarquia rigorosa. O universo se baseia na ordem. A falta desta última é o grande mal.
Deus pode ser atingido pelos homens, mas só por seus intermediários. "Da matéria até os anjos reina uma infinidade de ordens, cada uma delas guiando seus inferiores e progredindo com eles rumo à divindade" (Durand, Y., "Mística e Política no Século 17, a Influência do Pseudodionísio", revista "Século 17", 1991).
No sistema dionisíaco, bispos e padres espelham a ordem celeste, na qual se movem os anjos. Tudo é mediação: os sacerdotes são o elo entre os homens e Deus, espécie de anjos humanos. A sociedade exige a hierarquia.
A lógica hierárquica plasmou nossa cultura política e religiosa. Não por acaso, a revista brasileira do catolicismo integralista chamou-se "A Ordem". Ainda no século 19, os padrinhos do totalitarismo, como De Maistre, Bonald, Donoso Cortés e Auguste Comte, viam na igreja apenas isso: a mantenedora da ordem.
Esse ideário conduziu milhões às passeatas da direita nacional, gerando o golpe de 64 e o regime castrense. Nele, tivemos excesso de ordem hierárquica e pouquíssima democracia. O controle vertical, como demonstra Canetti em "Massa e Poder", é marca dos exércitos. Um partido não deveria seguir essa linha, sobretudo se estamos diante de uma agremiação democrática.
No século 20, a humanidade caiu no abismo totalitário. A igreja ou colaborou com os nazifascistas ou foi aniquilada enquanto poder autônomo. Mas permaneceu a idéia de hierarquia, agora sem Deus. Os partidos assumiram, a ferro e fogo, os graus de eminência decisória. No topo, as escolhas certas e infalíveis. Entre os seguidores, a obediência cega, surda, muda.
Militantes estupefatos que afirmavam, acatando ordens dos comitês, a essência demoníaca dos inimigos viram-se sem chão sob os pés com o pacto entre URSS e Alemanha, em 1939. Mas o partido era absoluto. A base nada tinha a opinar: bastava-lhe a militância, recheada de slogans e de heroísmo absurdo.
O PT prometeu novidades. Nele, bases e dirigentes teriam voz e voto. Mas, com a certeza atual de nunca chegar ao poder, os seus grupos dirigentes, hierarquias sacerdotais, retomam a forma autoritária nas estratégias e táticas. Em Dionísio Areopagita, só o superior, anjo ou sacerdote, pode conduzir o inferior, o simples cristão, ao divino.
Houve certa época em que a liderança do PT sugeria aos militantes que todos no partido eram anjos e as demais pessoas, "farinha do mesmo saco". Com o realismo em alta, notório com a ida para o governo de um ex-secretário do partido (membro da hierarquia e não da base) e de quadros importantes para o ministério Itamar, a militância foi atingida pela desconfiança em face da ordem angélica. Brizola deu-se muito bem no período Collor, sendo criticado por muita gente, em especial na Folha.
No Rio de Janeiro, as bases ousaram negar as ordens dos arcanjos petistas. Foi um deus-nos-acuda. Tudo estaria de cabeça para baixo. Subversão da ordem! Interessante acompanhar a vida e a morte de muitos sonhos.
Ou o PT aceita a democracia, estranha à mente hierárquica, ou implode. Não existe essência angélica que possa interceder nessa labuta. O codinome do anjo que dirigiu a aliança do Partido Comunista, no pacto germano-soviético de 1939, era Lúcifer.

Roberto Romano, 52, filósofo, é professor titular de ética e filosofia política da Unicamp (Universidade Estadual de

domingo, 14 de maio de 2017

Radio ABC. Roberto Romano analisa depoimento de Lula para Moro

http://www.radioabc.com.br/roberto-romano-analisa-depoimento-de-lula-a-sergio-moro/




Roberto Romano analisa depoimento de Lula a Sérgio Moro

0
99
O cientista político Roberto Romano falou sobre o tema no Jornal ABC desta quinta-feira (11/05/17), um dia após o depoimento do ex-presidente em Curitiba.
Tocador de áudio
00:00
00:00


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Tre Bicchieri, umrestaurante que já foi bom.

Claude Levi Strauss disse certa feita que no Brasil as coisas estragam antes de envelhecer. Triste verdade nos tristes trópicos. Se um serviço estréia bem, temos a certeza de que logo, logo, estará em frangalhos. Ontem tive mais uma evidência do fato. Gostava de frequentar, de vez em quando porque não sou rico, o restaurante Tre Bicchieri, na rua General Mena Barreto. Ambiente agradável, serviço atento e gentil, comida e vinha de boa qualidade. Fui almoçar alí ontem e, não foi surpresa, nada era como antes. Ambiente mal arrumado, serviço eivado de grosserias e ineficácia descuidada (para cada item do cardápio foi preciso pedir mais de três vezes, sem atendimento), comida péssima. O molho de linguiça que antes acompanhava o macarrão estava negro, sem que a linguiça fosse reconhecível. O pior mesmo foi a grosseria dos supostos atendentes. Não mais colocarei os pés alí, e avisarei todos os meus conhecidos para a péssima experiência. A entropia funciona mesmo no Brasil, sobretudo em restaurantes. Sempre digo aos amigos que em São Paulo nunca se deve afirmar que tal restaurante é bom. Pode-se, no máximo, arriscar: "está bom", infelizmente. Se não quiserem sofrer o mesmo que eu passei, sugiro procurar outra instituição. Roberto Romano

terça-feira, 9 de maio de 2017

Unisinos, Revista ihu: O lulismo é um sintoma da atual crise do sistema político, não sua solução

O lulismo é um sintoma da atual crise do sistema político, não sua solução

Revista ihu on-line


Por: Jonas Jorge da Silva | 09 Maio 2017

Rodrigo Guimarães Nunes (PUC-Rio) pertence a uma jovem geração de intelectuais não imbricada com os resquícios de uma forma de enxergar e fazer política que, aos poucos, vai exigindo uma mudança de postura analítica e conceitual. Com uma cabeça bem formada, própria daqueles que extraem da filosofia ótimos exercícios para o pensar, não titubeia quando desafiado a utilizar essa capacidade para analisar a conjuntura brasileira. Foi com essa disposição que, no último dia 06 de maio, apresentou o tema A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira, pelo ciclo de debates Brasil: conjuntura, dilemas e possibilidades, promovido pelo CEPAT, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Cáritas Regional Paraná, e apoio do IHU, na cidade de Curitiba.

Com grande versatilidade, Nunes transitou de um tema a outro de sua abordagem, estabelecendo relações e limites, desde um quadro mais global da atual crise da representação política até a especificidade das questões internas que o país brasileiro atravessa. Quando precisou, foi contundente na análise dos dilemas da esquerda brasileira.

A crise da representação política é uma realidade na maioria dos países, provocada por uma fissura, que só tem aumentado, entre os desejos da sociedade e as alternativas viáveis oferecidas pelo mercado eleitoral. Em termos de posições políticas, vive-se um desmoronamento do centro, que atinge muito mais a esquerda que a direita. Os quadros da direita são mais voláteis e mais ou menos se equivalem. Já a esquerda, diante da instauração de uma crise, necessita de maior tempo para sua regeneração, pois possui uma base social organizada, que demanda um trabalho articulado das forças sociais. Contudo, a crise faz crescer os dois polos radicais, o da extrema-esquerda e, do outro lado, o da extrema-direita, cuja ascensão mundial já se fez notória.

Os cidadãos representados vivem o dilema entre insistir em “optar pelo mal menor” ou rejeitar totalmente o sistema, na expectativa de uma futura reforma do mesmo. Tal questão vai além da crise de um projeto político, pois esta se resolve com a alternância de poder, ao passo que a crise da representação demora muito mais tempo para se resolver, dado o corporativismo da classe política, que engessa as possibilidades.

Muito cauteloso em suas análises, Nunes evita as ciladas de uma leitura simplista da realidade dos representados. No caso brasileiro, é categórico ao rejeitar as comparações fáceis entre a sociedade brasileira e o Congresso Nacional, como se o último fosse simplesmente uma expressão simétrica da primeira. Inclusive, constata que muitas análises fazem bastante confusão com adjetivações à sociedade, que facilmente passa a ser considerada de direita, conservadora, liberal, etc. A realidade social é muito mais complexa e os agentes nela envolvidos se movem a partir de diferentes enfoques, nem sempre coincidentes com as rápidas análises de momento. Nesse sentido, é um erro analítico enxergar a movimentação política como o simples resultado de uma ascensão conservadora na sociedade brasileira, pois oferece uma visão distorcida da realidade, tratando como fato consumado o que ainda está em disputa e retira da esquerda sua parcela de responsabilidade sobre a atual conjuntura.

É preciso lembrar que a maioria da população é contra o programa antipopular do atual governo pós-impeachment, que só fez aumentar a descrença no sistema político. Há uma quantidade expressiva de pessoas que defendem a universalização da qualidade dos serviços públicos e que são liberais nos costumes. Além disso, a grande maioria das pessoas não tem uma noção ideológica definida, estando muito mais preocupadas com os possíveis resultados da gestão pública.


Participantes do debate "A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira". (Foto: Ana Paula Abranoski)

Para tentar elucidar o atual momento político, Nunes retomou as Manifestações de Junho de 2013, afirmando que as mesmas escancaram uma crise da representação política que já existia e que, nesse momento, persiste em grau agravado. Nelas atuaram cinco atores ou forças sociais:
1) Uma nova geração política à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT);
2) Uma pequena direita ideológica, mas muito bem organizada;
3) Pessoas que não eram de direita, mas que naquele momento comungavam com suas aspirações, por exemplo, com o antipetismo, que parece ser um significante vazio que congrega por aproximação à direita;
4) Os governistas que chegaram tarde demais, mas que interferiram por fora;
5) Por fim, um grande número de pessoas, novos atores políticos, que nunca tinham ido às ruas, mas que se manifestaram amplamente, de diferentes maneiras, empunhando suas bandeiras.
Nesse cenário ímpar, a nova direita foi a que mais soube se beneficiar com as manifestações, encontrando interlocutores dentro do sistema político. Para Nunes, enquanto os jovens da direita foram recebidos com tapetes vermelhos pelos representantes do sistema político, os jovens da esquerda apanharam da polícia, com uma rigorosa repressão. Hipoteticamente, o desfecho ideal daquele momento político do país deveria ter sido o encontro entre a nova geração militante à esquerda com aqueles inéditos atores políticos que, infelizmente, desde a sua irrupção em 2013, não se tem mais notícias.

Para Nunes, o momento atual oscila entre o cinismo e a revolta dos cidadãos. A questão é: persistirá a descrença generalizada, arrastando a crise ou haverá um novo episódio ‘selvagem’ como foram as Manifestações de Junho de 2013? Não há clareza a respeito de quem e como será possível mobilizar este mal-estar generalizado.

A curto prazo, parece que o lulismo se beneficiará da atual conjuntura, mas isso não significa, de forma alguma, uma solução para a crise, ao contrário, é justamente o sintoma da crise. Para Nunes, o fato de Lula (alguém que pode ser preso a qualquer momento) aparecer como o salvador da lavoura, e talvez do sistema político como um todo, é a prova sintomática da crise que se vivencia. O lulismo foi dependente de condições econômicas e políticas que já não existem mais. Tal saída é apenas paliativa, em um arranjo que busca uma acomodação do sistema a curto prazo, mas que é incapaz de estancar a atual hemorragia. É bem provável que, com o passar do tempo, o lulismo saia de cena e sem o mesmo, na opinião de Nunes, o próprio PT estará morto.

A crise da representação é uma crise do poder constituído, que não pode contar com a solução por ele próprio (por dentro do sistema). Em se tratando da esquerda como um todo, um de seus desafios é quebrar o monopólio da representação política do PT. Utilizando uma linguagem metafórica, Nunes considera que a esquerda possui uma relação monogâmica com o PT, mas, ao contrário, o PT não possui uma relação monogâmica com a esquerda. Em sua opinião, este momento abre a possibilidade para que a esquerda tenha uma relação de promiscuidade virtuosa com diferentes grupos e faça diferentes experimentações. Como exemplo de uma experimentação, citou o caso da eleição da vereadora mais votada em Belo Horizonte, na última eleição, Áurea Carolina, negra e feminista, pelo movimento Cidade que queremos, a partir de diversos grupos que negociaram a candidatura utilizando a legenda do PSOL.

Nunes listou uma série de possíveis iniciativas que, a seu ver, poderiam melhorar a relação entre representante e representado. Entre elas, acabar com o monopólio dos partidos políticos, possibilitando candidaturas independentes e a criação de plataformas cidadãs; criar instituições que garantam o controle dos representantes pelos representados, já que não se deve esperar chegar o dia em que todos os políticos serão honestos; instituir condições de revogabilidade de todos os mandatos; colocar limites para o número de mandatos, não permitindo que o indivíduo seja carreirista na política; ampliar o debate sobre a reforma política e reforçar as bases organizadas.

Se a experiência das Manifestações de Junho de 2013, em certa medida, trouxe elementos traumáticos, Nunes não hesita em defender a necessidade de superação, construindo bases, voltando à organização popular, consciente que somente o burburinho pelas redes sociais não constrói compromisso coletivo. As redes socais possuem muitas possibilidades, mas junto a elas é preciso criar condições para que se tenha bases organizadas e estratégias comuns. Nesse sentido, a ideia de ecologia organizacional, com a valorização da complementaridade, parece ser valiosa. Diferente da perspectiva que busca unificar tudo, onde todos fazem o mesmo, esta vê como benéfico para o processo de transformação social tudo o que ocorre de favorável nos diferentes grupos e movimentos, que se complementam. Como bem salientou Nunes, todo movimento é uma ecologia e uma ecologia deve ser preservada.

Entrevista Roberto Romano, sobre a atualidade política, Rádio Difusora, Santa Catarina

http://www.difusora910.com.br/noticias/2017/05/cientista-analisa-momento-politico-do-pais/

Apontado como um dos principais cientistas políticos do Brasil o professor da Unicamp Roberto Romano, avaliou o momento político do país em entrevista na Difusora. Confira os principais pontos:
“Não dá para traçar paralelo entre Temer e Itamar Franco. Itamar era estadista. Tirou do Governo quem tinha qualquer mácula”
“Temer não inova, as propostas da previdência e trabalhista segue na retórica. Não tem nada de concreto, de realista”
“Lula é a única liderança de massa que existe hoje no Brasil e isso é terrível. Neste cenário surgem figuras como Bolsonaro, que representam um risco muito grande para o convívio da pessoas”.
“A prisão de Lula o transformaria em um mártir, mas não agruparia a esquerda brasileira. As muitas esquerdas não se unirão por Lula”
“A política Brasileira empobreceu enormemente. Perdemos a capacidade de produção de lideranças. Agora se tentam criar figuras de marketing e empurrar a população. Estamos tentando fazer candidatos para serem vendidos como se fossem sabonetes”.