CIDADANIA, VERSO E REVERSO
VÁRIOS AUTORES SÃO PAULO IMPRENSA
OFICIAL 1997/1998
UMA QUESTÃO DE COSTUMES
Roberto Romano Professor Titular de Filosofia
Política e Ética - UNICAMP
Quando falamos de educação para a cidadania, nos
referimos imediatamente ao estudo. Trata-se de uma questão de costumes. E
costumes são a matéria da ética. Quem deseja estudar, deve assumir uma ética da
frugalidade severa, com um regime grave, sem ornamentos inúteis, sem pressa,
sem escutar professores que adulam os alunos e seus pais. A ética recusa a
lisonja, o regime a ser seguido requer disciplina e trabalho árduo. Esta
advertência nos vem de Platão. A herança grega afirma que ensino e regime
alimentar identificam-se. Uma comida engordurada, abundante e imprópria, abafa
os talentos da inteligência. A pedagogia correta de corpos e almas resume-se no
ditado grego: "educação ou alimento". Regime, na antiguidade e hoje,
diz-se da dieta e do governo. Há no pensamento platônico um nexo entre ambos,
mediado pela educação. A prática lisonjeira entre mestres e discípulos também
ocorre, escreve o filósofo, entre governantes e governados na política licenciosa,
um grave problema da democracia.
Permitam-me recordar algumas passagens platônicas,
porque elas inserem-se diretamente no tema "educação e cidadania". No
livro VIII da República, nas alturas das páginas 562, Platão descreve os
costumes e o ensino na polis democrática. Afirma ter sido a cobiça de dinheiro
e a negligência de outros elementos políticos e educativos a desgraça do
governo anterior, o mando oligárquico. Agora, pergunta Sócrates,
"porventura não é a voracidade daquilo que a democracia assinala como o
bem supremo a causa da sua dissolução? De qual bem falamos ? Da
liberdade". É o desejo deste bem e a negligência do resto que faz mudar
tal forma de governo, abrindo caminho para os tiranos. No trato democrático não
se misturam com prudência agua e vinho, dando-se uma bebida muito forte ao
povo. Este, enternecido e embriagado de licença, diz que "servil" é
quem obedece os magistrados. Neste regime, são engrandecidos e benditos os
"governantes que parecem governados, e os governados que parecem
governantes". Temos um nome para este parecer e não ser: demagogia.
Permitam-me um ligeiro anacronismo. Ouvi no horário eleitoral "gratuito"
um candidato a deputado berrando: "vocês são os patrões, nós os
empregados". Conhecemos os costumes destes "empregados" quando
passam os pleitos, sentimos sua arrogância, e corremos, como o fez Maquiavel,
rumo à biblioteca, para ler Platão. A licença demagógica invade todos os
recantos da polis. Platão diz que tal atitude chega às casas particulares e
atinge os animais domésticos. Nesta democracia, "o pai habitua-se a ter
medo dos filhos, desejando ser igual a eles, o filho a ser igual ao pai, sem
ter respeito ou receio dos pais, a fim de ser livre". Em tal regime,
"o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em
pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens
imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e em atos; ao passo que
os anciãos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a
imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários". Num
regime semelhante, a liberdade é tão ampla, "que as cadelas, conforme o
provérbio, são como as donas e também os cavalos e burros andam pelas ruas,
acostumados à uma liberdade completa e altiva, chocando-se sempre contra quem
vier em sentido contrário, a menos que saia do caminho; e tudo o mais é assim
repleto de liberdade". Termina o arrazoado platônico: "A resultante
de todos esses males é tornar a alma dos cidadãos tão melindrosa que, se alguém
lhes ordena um mínimo de responsabilidade, eles se agastam e não a suportam;
acabam por não se importar nada com leis escritas ou não escritas (...) a fim
de que de modo algum tenham quem seja senhor deles". Eis, afirma o
filósofo, "o belo e soberbo começo de onde nasce a tirania (...) O excesso
costuma ser respondido pela mudança radical, no sentido oposto, quer nas
estações do ano, quer nas plantas, quer nos corpos, e não menos nos
Estados" (1)
Não há muito do que rir nesse retrato da democracia
ateniense, feito por Platão. A lisonja, base das relações interpessoais também
possibilita, no Brasil, a imitação recíproca de governantes e governados, uns
vendo os outros enquanto modelos de esperteza . Demagogia, falta de respeito
pelas leis, tudo isto integra nossa vida política e educacional. Docentes há
que afirmam "aprender com os alunos", deles recebendo "lições de
sabedoria". Na "boa" sociedade, mulheres enricadas julgam-se
livres quando exibem suas celulites durante o carnaval, nas televisões,
servindo como escravas da vista e do erotismo alheios, além de proporcionarem
lucro aos anunciantes de cerveja, etc. Mas não só de "colunáveis"
vive a polis licenciosa. Ela também suporta burros que atropelam os passantes.
Se fizermos uma pequena alteração no texto platônico, onde lemos
"burros", podemos enxergar espécimes da atualidade brasileira,
justificando aquela imagem . O trânsito nacional está repleto de asnos no
volante. Todos imaginam que não devem nem precisam obedecer as leis. A
violência é maior se o idiota (no sentido grego, o que só enxerga a si mesmo)
está dentro de um automóvel importado ou caro. Os anúncios criminosos são explícitos,
como o que declara: "Se você enxergar este logotipo, passe para a
direita". Trata-se de um incitamento irresponsável à velocidade,
empurrando aço contra a carne humana. E ficam impunes os trêfegos canalhas da
propaganda, e ficam impunes os por eles persuadidos. Na Unicamp, foi preciso
colocar barras de ferro nas calçadas porque professores, funcionários, alunos,
sobre elas estacionavam seus automóveis , impedindo mesmo a entrada para a
Biblioteca Central da universidade. O número de atropelamentos no campus é
assustador.
No diálogo Gorgias, Platão indica que a artimanha
lisonjeira (e a propaganda é apenas um de seus casos) oculta-se sob uma arte
efetiva. Assim, sob a medicina, surge a cozinha "que faz cara de saber
quais são, para o corpo, os melhores alimentos. Se, por acaso, diante de um júri
de crianças, for estabelecida a competição entre um cozinheiro e um médico,
para saber quem dos dois, médico ou cozinheiro, tem competência sobre os
alimentos úteis ou nocivos: o médico deveria, desde o começo, deixar-se morrer
de fome!" 2 . O bajulador assume aparências de fala amiga, o discurso
veraz exige disciplina, sobretudo na amizade. Quem lisonjeia, deixa os amigos
na hora negra, toda pessoa franca enfrenta o próprio amigo, para seu bem, nunca
o abandonando. A lisonja acostuma o corpo e a alma do estudante aos prazeres, o
transforma em ser ineducável para a cidade. Certos indivíduos resistem, desde o
nascimento, à educação para a cidadania. Como grãos duros , diz o filósofo,
eles não amolecem na panela do ensino (Leis, 853 d, 880 e). Do mesmo modo que
não se deixa "cozinhar" pela educação, um homem assim não se submete
às leis, nelas ele não se funde.
Educar para a vida cidadã, escreve Platão, é como
tingir almas. No livro IV da República , no processo de educação dos
magistrados, lemos que "educar" uma pessoa é dar-lhe a melhor tintura
das leis (República, 420d a 430a).Quem foi assim tingido possui uma opinião
indelével sobre o que deve temer e sobre o que deve fazer, pois tal tintura
resiste aos sabões tão ativos para descolorir, como o são os prazeres, a dor, o
medo e a paixão. Esta imagem aparece também na Carta VII, um dos textos
capitais para a epistemologia e a política platônicas. Ali, vemos que a cultura
de quem não é filósofo compara-se ao colorido superficial dado pelo banho de
sol.
A imagem mais usada por Platão é a do alimento, no
processo educativo e ético. No Protágoras (35lb) diz-se que como a força física
vem da natureza, e de uma boa nutrição do corpo, assim também a coragem vem da
natureza e de uma boa nutrição da alma. Em multiplas obras de Platão o termo
"alimentar" é tomado neste sentido (Alcibíades Iº, Critias,
Protágoras, Banquete, Fedro, Teeteto, Timeu, Leis, Carta VII). Na maioria das
vezes, "alimentar" une-se à educação, paideia. Este último termo
designa, nos estados mais eminentes da educação, uma via para atingir o
conhecimento do Bem. Mas quase sempre paideia e alimentação são usados como
sinônimos. (3)
Poderíamos seguir longe, na busca dos
entrelaçamentos , dentro da obra platônica, entre educação e cidadania. Falei
acima da lisonja. Por que surge a tirania, a partir da licença democrática? Sua
causa é o idiotismo, a filáucia, o amor de si mesmo, que geram o discurso
enganoso e dissimulado e nos prendem nas armadilhas de oligarcas e tiranos. A
filáucia, em Platão e na filosofia ocidental inteira, é o contrário de amizade
efetiva. O texto nuclear neste plano, encontra-se no livro de Platão denominado
As Leis (Livro V, 73l d). É sintomático que, naquele texto, no trecho sobre o
amor de si, o sujeito acometido deste idiotismo seja comparado ao "amante,
cego no relativo ao ser amado, sendo péssimo juiz das coisas justas, boas,
nobres". A paixão impede o conhecimento e a prática do bem. A pior paixão,
nós a temos quando amamos a nós mesmos acima de tudo. A frase platônica,
referida à filáucia, impressiona: "Há um grande mal, o maior de todos, que
o maior número de homens têm, e que lhes é congenital. Com ele, cada um é cheio
de auto-indulgência, e ninguém dele pode escapar. Este mal chama-se amor
próprio. Acrescentemos que esta ternura do homem para consigo mesmo pertence à
sua natureza e que ela causa nossos erros, pelo afeto que temos para conosco
(...) O grande homem não acaricia nem a si mesmo, nem as coisas que são de sua
propriedade, mas o que é justo".4 Os leitores de Rousseau sabem a
importância desta noção, o amor próprio, sobretudo quando este último irrompe
na experiência política. O amor- próprio conduz à tirania plena. Como na cidade
licenciosa cada um é amigo cego de si mesmo, todos exigem adesão irrestrita à
sua própria egoidade. Como este projeto não pode se realizar, alguns dentre os
homens, cuja arte de enganar é mais eficaz, e cujo amor de si é maior,
tornam-se governantes, logo assumindo o papel de tirano.Segundo Xenofonte o tirano
não pode suportar a amizade. Ele teme e odeia os cidadãos livres que usam a
rude franqueza na linguagem. Os membros da polis também o temem, em
contrapartida. O governo tirânico é exercício de autoerotismo e temor
generalizado. "Uma das singularidades do tirano é procurar suprimir não só
os seus inimigos, mas também destruir os que, por terem sido seus iguais ou
cumplices, a ele se dirigem com franqueza, o que é sinal de uma amizade
verdadeira (República, VIII, 567b). O tirano é cercado apenas por homens que,
não sendo nem amigos nem inimigos, contentam-se em parecer o que lhe apraz que
eles sejam, testemunhando, deste modo, sua ausência de caráter e uma ambição
temível para seu próprio patrão".5 O tirano não possui amigos. Ele é o
grande solitário, apesar dos muitos parasitas que o cercam, louvando-o com
hipocrisia.
A oposição,na cultura grega, entre amigo e
adulador, ajuda a compreender a perversidade das relações humanas sob o regime
tirânico. A verdadeira amizade tem seu principio e base na adesão racional e
penosa de quem busca reger a cidade segundo a justiça. Uma cidade bem
administrada, pensa Platão, é regida pela philia entre seus membros. A metáfora
corporal é assumida pelo filósofo. Na cidade justa ocorre algo análogo ao que
se passa "quando ferimos um dedo, pois toda a comunidade, do corpo à alma
(...) sente o fato, e toda ao mesmo tempo sofre em conjunto com uma de suas
partes.Assim , dizemos que ao homem lhe doi o dedo. E, sobre qualquer outro
órgão humano, o raciocínio é o mesmo, relativamente a um sofrimento causado
pela dor, e ao bem-estar derivado do prazer". Numa cidade livre e justa,
ao mesmo tempo, "se a um dos cidadãos acontecer seja o que for, de bom ou
mau, a cidade proclamará sua essa sensação e toda ela se regozijará ou se
afligirá juntamente com ele" (6)
Vimos Platão chamar, nas Leis, o amor próprio como
o "maior mal" que possa ocorrer na vida humana. Na República esta
peste manifesta-se na cidade cujo caminho é tirania: ela é dilacerada,
tornando-se múltipla em vez de una. O maior bem reside na vida unitária, como
se enunciou acima para as dores e alegrias do ser singular e do coletivo. O
pior malefício vem da individualidade posta acima do socia l, o maior bem
ocorre com a união proporcionada pela amizade. Somos derrotados pela tirania
alheia, porque nos dobramos diante de nossa própria tirania. Porque só gostamos
de ouvir elogios, proibimos nossos amigos verdadeiros de nos mostrar a verdade,
somos todos semelhantes ao rei sem roupas da fábula moderna. Seria preciso uma
criança, sem treino na dissimulação e na lisonja, para indicar o ridículo de
nosso estado. Mas como somos reis despidos, todos nós exigimos elogios às
nossas magníficas roupas. Pior: como ninguém enxerga a própria nudez, rimos com
a falta de vestimenta alheia.Platão reserva o riso e a comédia para escravos.
Hobbes considera o riso execrável, justo por isto: ele seria a demonstração de
que somos lobos cruéis, ou hienas, nada mais. Na polis que se dirige para a
tirania, cuidamos de nossos negócios, o resto não importa ou é motivo de
caçoada. Nela, a nossa "liberdade" pessoal e nossos bens, materiais e
anímicos, são tudo. O resto não conta. Quando leio a descrição platônica da
cidade democrática, lembro-me do liberalismo ou do chamado "neo"
liberalismo, com seus "executivos financeiros", jovens e belos,
destruindo investimentos produtivos e produzindo apenas dividendos nas bolsas,
com uma deliberada ignorância do coletivo. Os anos de individualismo
desenfreado abrem caminho para o coletivismo brutal. Os anos loucos, ao redor
de l920, produziram gente que dançava e bebia sobre o desemprego e o desespero
de milhões. Logo após, tivemos as mais espantosas tiranias que o ser humano já
conheceu. Vivemos os anos setenta e oitenta sob o signo do mercado absoluto,
onde indivíduos espertos valem mais do que empreenderores e operários. Na
ciranda financeira ocorreu uma glamorização que, adulando jovens executivos
apresentou seu modo de vida como paradigma a ser mimetizado. Não espanta se os
frutos começam a surgir, nos movimentos neo-fascistas que se tornam governo,
impondo uma nova forma de controle social, abolindo a liberdade dos pobres, dos
estrangeiros, dos homosexuais, em primeiro lugar. Depois, seguir-se-á a perda
da liberdade coletiva. Repetindo Platão, citado acima: "O excesso costuma
ser respondido por uma mudança radical, no sentido oposto, quer nas estações do
ano, quer nas plantas, quer nos corpos, e não menos nos Estados".
Liberdade em excesso conduz à servidão em excesso, "para o indivíduo ou
para a cidade". 7 Com Platão, encontramos algumas razões da imitação
perversa entre estudantes e professores, a qual insere-se numa perversão mais
ampla, política, onde a lisonja desempenha papel nuclear na passagem da
democracia para a tirania, com a perda do sentimento de ser cidadão.
O tirano mais perigoso está em nosso próprio ego,
desejoso de se impor ao todo, dilacerando-o. Plutarco, num dos mais importantes
tratados políticos do Ocidente, mostra que a lisonja impede o princípio
fundamental da sabedoria, o "conhece-te a ti mesmo" délfico.8 Esta
cegueira, individual e coletiva, marca uma ética escrava. Colaborando com ela,
através da lisonja e da demagogia, professores e homens públicos preparam
reinos de medo e de mentiras, baseados na propaganda e na inimizade entre
cidadãos. A amizade, deste modo, é princípio político que tece uma ética da
liberdade sem licença, cuja disciplina deve ser ensinada, e ministrada com o
primeiro alimento. Produzir indivíduos absolutamente livres é loucura que só
pode levar à ruina social e à desgraça destes pobres idiotas. Sem amizade, a
vida se transforma em inferno, onde o perigo reside nos outros, para falar como
Jean-Paul Sartre.
Se todos temos a possibilidade de nos transformar
em tiranos, o governante que resulta de nossa idiotia coletiva se caracteriza
pelo aspecto mais detestável de todos nós: sobreviver às custas dos outros.Este
traço, que nega a amizade na política, foi discutido durante séculos no
pensamento filosófico, de Platão aos nossos tempos. Se consultarmos um autor
eminente, Elias Canetti, nele encontraremos uma reflexão acuradíssima sobre o
problema. Lembro que amizade e inimizade foram tema de constrangimento estatal
sobre povos inteiros, no século vinte dominado pelo nazismo e pelo
estalinismo.No lado nazista, basta recordar as depurações étnicas geradas pela
loucura "científica", a qual decidiu quem poderia ser
"amigo" do povo Alemão e de seu Líder. No plano jurídico, tais
sandices tiveram seu profeta em Carl Schmitt, sobretudo no texto grávido de
horrores cujo título é "O conceito de Guerra e de Inimigo" (l938).
Alí se diz que no período da guerra total (Schmitt é o inventor do têrmo
"totalitário"), "mesmo setores extra-militares (economia,
propaganda, energías psiquicas e morais dos combatentes) são envolvidos nas
hostilidades. A superação do dado puramente militar comporta não só uma
ampliação quantitativa, mas um reforço qualitativo, acentuando a hostilidade.
(...) O conceito de amigo e de inimigo tornam-se por si mesmos novamente
políticos e se liberam (...) da esfera dos argumentos privados e
psicológicos" 9 Conhecemos os resultados desta teoria sobre o amigo e o
inimigo: a guerra total abatendo-se sobre civís e sacrificando, com predileção
assassina, seis milhões de judeus, mais os ciganos, e outros povos
"inferiores".
No lado estalinista, do próprio Stalin até
Ceaucescu, passando pela "pequena e heróica Albânia", para atingir os
porões aterrorizantes da Stasi alemã, há muito o que dizer sobre a distinção
entre os "que são amigos ou inimigos do Povo". O tirano da hora, o
infalível Partido, declarava quem era amigável ou hostil ao proletariado. Em
l939 a loucura chegou ao ponto do estalinismo proclamar Hitler amigo da massa
operária mundial. "Estratégia" do gênio onisciente que dominava no
Kremlin, ou cinismo de potência, o resultado foi uma enorme pilha de cadáveres
na Polônia e alhures. Hitler ou Stalin, com seus êmulos menores e piores, são
possibilidades sempre abertas quando não se reflete, em termos éticos, sobre a
questão da igualdade cidadã, à luz das noções de amizade. Um concidadão jamais
brota da natureza : ele é formado num longo processo educativo, para aprender a
relativizar seus desejos e seus impulsos tirânicos. Uma pessoa que não foi
educada para a cidadania, quando assume postos de governo, não pensa no
coletivo, mas apenas na sua própria egoidade. Ela se torna um sobrevivente à
custa de todos os demais. Para este tipo de governante, é pouco significativo
que milhões morram ou sejam massacrados. o que lhes importa é sua manutenção
nos cargos de mando.
Imanuel Kant, nos seus escritos pedagógicos, repete
as lições de Platão, de Erasmo de Roterdam, de J-J.Rousseau : se uma criança de
berço chora, dizem estes autores, é preciso acudí-la, para saber se experimenta
alguma dor ou incômodo. Se no dia seguinte o choro se repetir, e não for
encontrado motivo para ele, deve-se deixar que o infante berre a vontade.
Deixar-se dominar pelo seu berro é educá-lo para a tirania de sua vontade. Se
ele não encontrar obstáculos ao seu anseio de mando, e não perceber que outros
existem no mundo, ele acarinhará cada vez mais o próprio ego, às expensas dos
demais. Todo sujeito humano, pensa Kant, precisa encontrar limites à sua
vontade, para se tornar realmente um sujeito livre, e não arbitrário e
despótico. Quem se acostumou com o arbítrio do próprio eu, não imaginará ser
estranho que outros sejam submetidos ao querer despótico de um professor, de um
governante, ou de...um Deus. A liberdade, arremata Kant, ergue-se sobre o
respeito sublime pela nossa própria pessoa, e pela pessoa de nosso igual.
Erasmo de Roterdam dizia, no seu tratado sobre a educação do principe, que os
cavalos seriam um ótimo exercício contra as tendências tirânicas do futuro
governante: as alimárias, desconhecendo a lisonja, jogam para fora da sela
quem, principe ou plebeu, não obedece as regras da equitação.
São translúcidas e impiedosas as páginas dedicadas
por Elias Canetti à analise do amor de si, da amizade e do poderoso como
sobrevivente. Lemos em Massa e Poder: "na sobrevivência, cada qual é
inimigo do outro; comparado com este triunfo elementar, qualquer outra dor não
tem muita importância (...) o sobrevivente deve estar sozinho diante de um ou
de vários mortos. Ele se vê só, sentindo-se só, e, quando se fala do poder que
o momento da sobrevivência lhe confere, jamais devemos esquecer que ele deriva
da sua unicidade (os grifos são de Canetti) e somente dela". Todos ficamos
satisfeitos quando nosso corpo e alma sobrevivem aos demais. Um monte de
cadáveres estimula nosso sentido de sobrevivência isolada. Testemunhamos uma pedagogia
assassina e genocida da imagem, na imprensa que exibe corpos de assassinados.
Os que sobreviveram se comovem na pele, mas no íntimo, o mais frequente é o
regozijo, inconfessável, pelo massacre dos outros. As cenas dos caixões do
Carandiru ou da Candelária, excitam os que vivem. Quando ocorreu em São Paulo o
incêndio do Edifício Andraus, repetido pela destruição do Edifício Joelma, a
massa humana que rodeava as construções excitava-se, como num jogo erótico,
todas as vezes que um infeliz se precipitava no ar, esfacelando-se nas
calçadas. Não faz muito tempo, o programa "Aqui e Agora" filmou e
exibiu o suicídio de uma jovem no centro de São Paulo, as cenas fariam o
Marquês de Sade parecer um casto e respeitoso defensor dos direitos humanos.
Laurent Dispot,
escritor francês preocupado com os nexos entre a mídia televisiva, o
terrorismo. a educação cidadã, dizia que o máximo da violência ocorrerá quando
um refém fôr executado, pelos sequestradores, diante das câmaras, ao vivo. Não
estamos longe deste evento, aumentando a audiência da televisão que tiver esta
ventura. "A satisfação de sobreviver" afirma Canetti, "uma
espécie de volúpia, pode transformar-se numa paixão perigosa e insaciável. Ela
cresce de acordo com as ocasiões. Quanto maior for o monte de mortos diante dos
quais alguém ergue-se com vida, quanto mais frequentemente se viver estes
momentos, tanto mais intensa e mais imprescindível torna-se esta necessidade de
sobrevivência".
Se todos os entes humanos partilham essa loucura, o
poderoso a eleva ao máximo. Todos os governantes, de um modo ou de outro,
"fingem estar encabeçando a marcha de seus subordinados para a morte. Na
verdade os enviam na frente para eles próprios poderem salvar a própria vida. O
ardil é sempre o mesmo. O condutor quer sobreviver, ele se fortalece nisto.
Quando tem inimigos aos quais possa sobreviver, muito bem; quando não os tem,
continua tendo seus próprios amigos. De qualquer forma, ele utiliza ambos,
alternadamente ou de uma só vez. Os inimigos são utilizados abertamente,
afinal, é para isto que eles são inimigos. Os amigos só podem ser utilizados às
escondidas".
Uma pergunta que raramente é respondida, quando se
trata da sobrevivência política, é relativa ao que ocorre depois de nossa morte
física. Os poderosos querem sobreviver na lembrança dos homens, mas não raro
esquecem que os me ios utilizados para este mister farão deles imagens
aterrorizantes do medo, do pavor, da morte. Ou da covardia. Quando vivos, os
aduladores dão-lhes uma espécie de "imortalidade" forçada. É o que se
passou com o Fuhrer, com o Pai dos Povos soviético, com o Grande Timoneiro
chinês, com o Pai dos Pobres brasileiro. Este último foi conduzido, pelos
bajuladores, à "imortal" Academia de Letras. Mas quando seus corpos
desaparecem, a verdade bíblica a seu respeito surge impiedosa : "Tu és pó,
e ao pó restornarás". É preciso, no ensino da cidadania, mostrar que a
imortalidade, caso não seja religiosa e aí cada crença possui uma doutrina
própria e se refira à vida civil laica, secular, só pode ser atingida através
da elevação da alma, e não de sua venda no leilão econômico, político,
ideológico. Um país que não valoriza, na formação de seus jovens, os dotes do
espírito, os dons intelectuais, está fadado à morte, à insignificância.
Elias Canetti termina o seu capítulo sobre a
sobrevivência e as armadilhas da amizade, discutindo o trabalho intelectual,
filosófico e literário. O escritor, e Canetti toma Stendhal como exemplo,
escreve no presente para poucos, sabendo que muitos o lerão no futuro. Ele
continuará existindo quando os outros estarão mortos. Mas o escritor não mata
ou manda matar os seus rivais, como o faz o governante tirânico. Ele opta pela
companhia dos que são autores de obras lidas ainda hoje, "daqueles que
falam conosco, dos quais nos nutrimos". Deste modo, no mundo da escrita
artística e especulativa, "matar para sobreviver nada significa (...)
porque não se trata de sobreviver agora mas, sim, de entrar na liça apenas
dentro de cem anos, quando já não se estará mais vivo pessoalmente e, por conseguinte,
não se poderá matar. Serão as obras que se enfrentarão, e será tarde para
acrescentar alguma coisa. A rivalidade propriamente dita, a que realmente
importa, começa quando os rivais já não estão presentes. o combate que será
travado por suas obras nem sequer poderá ser presenciado por eles. Mas esta
obra precisa existir, e para que exista deve conter a maior e mais pura medida
de vida. Não apenas se desdenhou a possibilidade de matar; fez-se com que
entrassem para a imortalidade todos os circunstantes. Para aquela imortalidade
onde tudo se torna efetivo, tanto o menor quanto o maior".
É fantástica essa oposição entre a sobrevivência do
grande escritor e a sobrevida gozada pelo poderoso. Ensinamos, nas nossas
escolas e famílias, em demasia, as artes de sobreviver no mercado econômico ou
político. Esquecemos de expôr o caminho da sobrevivência verdadeira. Maquiavel
afirmava entrar em seu escritório, à noite, depois de uma vida diurna prosaica
e sem maiores méritos, para conversar com Platão. É semelhante reino da
cultura, o qual Hegel nomeava a corrente dos grandes pensadores que definem o
espírito do mundo com seus "heróis do pensamento", é este o plano
visado por Canetti, ao descrever a sobrevivência almejada pelo homem de bem, o
cidadão na sua plenitude. "Trata-se", diz Canetti, " do oposto
daqueles donos do poder que arrastam consigo para a morte tudo o que os cerca
(...) Eles matam em vida, matam na morte, um séquito de mortos os acompanha
para o além". Contra as manobras para a sobrevida do político demagogico
ou tirano, temos a sobrevivência do escritor. "Quem abrir um volume de
Stendhal torna a econtrá-lo juntamente com tudo o que o rodeava, e o encontra
aqui nesta vida. Assim, os mortos se oferecem aos vivos como o mais nobre de
todos os alimentos. Sua imortalidade acaba sendo proveitosa para os vivos,
nesta reversão da oferenda aos mortos, todos acabam sendo beneficiados. A
sobrevivência perdeu seus aspectos negativos e o reino da inimizade chega ao
fim" (10)
Os senhores podem perceber, agora, porque evoquei
longamente o ensino, a lisonja, a amizade, a demagogia, o excesso que conduz ao
regime tirânico, como intróito para a questão do vínculo entre educação e
cidadania. A escola brasileira, do primário à universidade, desde seu início,
colocou-se entre duas éticas opostas, a do sobrevivente político, continuada
pela ética do sobrevivente dos negócios, e a ética do trabalho espiritual, com
uma dimensão diversa do tempo. Mas este prisma não é privilégio
brasileiro.Torna-se muito instrutivo ler os textos do Prof. Jacques Le Goff
sobre o nexo entre universidade e poderes na época de sua gênese. Em meu livro
intitulado Lux in Tenebris procurei acompanhar as notas do historiador ,
mostrando que a universidade, do Renascimento em diante, assumiu a ética da
formação dos técnicos e dos manipuladores do poder. Com o reitor Gerson, a
Universidade de Paris chegou a elogiar o tirano, "desde que os habitantes
do reino durmam sossegados, sem perder suas galinhas". Le Goff mostra que
os campi tornaram-se "polícias", servindo para reprimir os engenhos
inventivos que semearam a Europa na Renascença e na modernidade.
Basta, para indicar o quanto os campi estiveram
longe da gênese democrática e do saber moderno, enumerar os pensadores
decisivos para o engendramento de nossa cultura mais elevada, notando que eles
pensaram fora e contra a universidade. De Bacon até Sartre, passando por
Descartes, Spinosa, Pascal e tantos outros, com raras exceções acadêmicas, como
Kant e Hegel, o essencial da cultura deu-se extra muros, longe das reitorias e
dos conciliábulos burocráticos da universidade. Qualquer estudioso da filosofia
enrubesce ao ler a carta de Espinosa ao Eleitor Palatino, rejeitando uma
cátedra em Heidelberg, porque recusava aceitar um limite para sua liberdade de
pensamento. Quantos intelectuais, hoje, possuem esta coragem ética e cidadã?
Mesmo Kant, professor apegado às salas de aula,
criticou com virulência a universidade de seu tempo, submissa à Igreja ou ao
Estado e contrária ao saber.A sua obra imortal, O Conflito das Faculdades que
lhe valeu muita dor de cabeça, junto com A Religião nos Limites da Simples
Razão, é um libelo contra as faculdades que servem para manter a sobrevivência
dos poderosos. As ditas faculdades, sabemos, eram a de Teologia, Direito,
Medicina. Excluindo a Teologia, hoje um pouco desprestigiada junto aos
governos, as outras continuam a tradição de produzir especialistas em domínio
legal, enganando a massa com normas jurídicas não raro sofísticas, com base na
força física inconfessada. As faculdades de medicina continuam produzindo
milhares de pessoas interessadas no lucro a ser extraído do Estado e dos
particulares. Como o governo é mau pagador, quem termina enriquecendo os
discípulos de Hipócrates são os particulares.
Há muito que refletir sobre a união entre o ensino
"especializado" nestas Faculdades, e a caixa registradora. Sempre que
ouvimos a pergunta, nos consultórios médicos: "com recibo ou sem",
devemos nos interrogar a respeito do ensino ético dado a estas pessoas, e
acerca de nossa responsabilidade social. Num país onde 50% dos impostos são
sonegados, torna-se urgente discutir os métodos e as bases axiológicas que
produziram indivíduos que traficam com a saúde. Por outro lado, os que se
dedicam ao público, como os professores secundários e médicos do serviço
oficial, ou abreviam sua estadia nos ambulatórios e salas de aula, na busca de
sobreviver com os famosos "extras", ou são tratados pelos governantes
como profissionais de última categoria. Com isto, se degrada não apenas os
serviços, mas o ensino sobre o valor da vida humana e da cidadania.
Na oposição entre os dois alvos a submissão aos
poderosos ou o trabalho para a cultura reside a força que dirige a sociedade
para o plano imortal, que servirá para alimentar (gostaria, se me permitem,
lembrar as notas platônicas sobre a comida, as quais abordei no seu vínculo com
o ensino, no começo) as pessoas que viverão daqui a mil anos, ou ajudará a
produtividade que traz dinheiro e honras para os poderosos . Hoje, nas escolas,
enfrentamos duas pressões. A primeira, cada vez mais tênue, é a da grande
cultura científica e técnica que produziu Platão, Leonardo da Vinci, Leibniz,
Espinosa, Descartes, Diderot, as Luzes. A outra vem dos que vivem para a
inimizade e para a destruição do que é uno na sociedade e na política. Com
isto, em nossas escolas agonizantes (não sou trágico, apenas expresso o que
existe), some a idéia de unidade do saber e da prática cidadã. Com isso,
enfrentamos outro problema: a educação técnico-científica das massas. Desde o
Renascimento produziu-se o sonho de uma difusão universal do saber, podendo-se
mesmo falar num "milenarismo" científico-pedagógico. Bacon, Comenius,
Erasmo, estes nomes são conhecidos pelos historiadores da educação. Um trabalho
importante, nesta linha, é o livro de Charles Webster, The Great Instauration,
Science, Medicine and Reform, l626-l660.11 Nele esgotam-se as análises das
sugestões da frase profética lida no livro de Daniel (l2,4): "Plurimi
pertransibunt et multiplex erit scientia". Vale a pena lembrar o trecho
inteiro: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão , uns para a
vida eterna, outros para vergonha e horror eterno. Os que forem sábios
resplandecerão, como o fulgor do firmamento, os que a muitos conduzirem à
justiça, como as estrêlas sempre e eternamente. Tu, porém, Daniel, encerra as
palavras e sela o livro, até ao tempo do fim; muitos o esquadrinharão, e o
saber se multiplicará" (trad. João Ferreira de Almeida). Este grito de
guerra, ligando saber e vida nova, dominou a Europa científica e pedagógica, no
mesmo instante em que as escolas, inclusive as universidades, serviam aos
poderosos da hora, a Igreja oficial e o Príncipe. Desse brilho profético e
pedagógico surgiram as Luzes, no século l8, movimento dividido entre adeptos de
um saber acessível a poucos e os propagandistas de um saber ampliado ao maior
número possível de pessoas. Infelizmente, no Brasil, como não pudemos recolher
toda a herança das Luzes, apagadas pela repressão militar e policial na
Colônia, costumamos denegrir este movimento, ligando-o unicamente à famosa
burguesia. Parece-me muito estrito e estreito este juízo, sobretudo porque a
ausência dos saberes foi suprida pela ignorância fabricada nos governos e nas
sacristias. Perdoem-me os defensores da pedagogia jesuítica e dos supostos
benefícios trazidos pelos inacianos ao Brasil. Mesmo aceitando sua contribuição
para atenuar a barbárie dos colonizadores - e isto é matéria disputada em plano
histórico - a política global de nosso colonizador dirigiu-se para afastar nosso
povo do entusiasmo gerado no Renascimento e na modernidade européia. E isto
afastou de nós a prática cidadã.
O resultado está aí : massas analfabetas
conduzidas, na política, através de novelas e de noticiosos demagógicos. Quem,
entre nós, é cristão, tem muito o que pensar sobre o peso eclesiástico nesta
idiotia generalizada da massa brasileira. A crença nos milagres, que a Igreja
sempre procurou administrar com prudência, aqui adquiriu foros de realidade
permanente. Basta lembrarmos os anos do milagre ditatoriais, sob o mago Delfim,
o plano Cruzado, a salvação collorida, a adesão a-crítica e desesperada aos
"planos". A fórmula é tudo, menos raciocinada: "tem que dar
certo". Esta é mais uma "épode", como diriam os gregos, um encantamento
repetitivo que hipnotiza a massa e muitos intelectuais, retirando-lhes a
capacidade de pensar. O pêndulo entre adesão misóloga e desencanto absoluto
corrói a cidadania brasileira. Todo governante responsável, antes de impôr
esperanças messiânicas ao povo, deve refletir muito sobre esta corrosão que
opera em longo prazo, destruindo a fé pública, conditio sine qua non de
qualquer Estado democrático. Há quem ache graça nas manifestações de cinismo no
povo, do tipo: "ele rouba, mas faz.". Isto não prenuncia uma gente livre
e franca. E a franqueza é atributo essencial da liberdade. Os que hoje utilizam
o poder com regras casuísticas, deseducam o povo, no desejo de ganhar eleições.
Esta atitude corrompe todas as fibras da república. Os poucos privilegiados
pela situação econômica brasileira, estruturalmente injusta, com seus carros
Audi ou BMW, suas canetas Montblanc, seus telefones celulares, o famoso
"kit imbecil", não sabem que engenhocas "modernas" não
substituem a lealdade e a franqueza amiga, fundamento essencial da cidadania. A
classe média brasileira, sobretudo a que se alimenta dos despojos
internacionais da produção efetiva, é flutuante e aduladora. Como todo segmento
sem capital próprio e sem as mãos como único recurso de vida, ela vive, como
diria um hegeliano, "em outro", ou, como poderíamos dizer, "de
outro", como vampiro pós-moderno. Se a classe média é presa da idiotia, de
outro lado não podemos esquecer as tentativas fracassadas para produzir e
comunicar saberes urgentes ao povo. Num artigo sobre o pensamento de Diderot,
Roland Mortier relata os projetos feitos por este último de produzir uma
"filosofia popular". Um texto anônimo, atribuído a Dumarsais, lembra
Mortier, intitulado Essai sur les Préjugés, enfureceu Frederico II, um dos
poderosos sobreviventes mais adeptos de mentir ao povo dentre os que já
existiram no planeta. Todos conhecem a pergunta, formulada por Frederico, sobre
se é lícito mentir ao povo. A resposta do militar e burocrata moderno é óbvia,
ela já existia antes dos textos chegarem à Academia Prussiana. Frederico lê
Platão seletivamente. Dele, reteve apenas que só ao magistrado é lícito mentir
ao povo. O resto e o entorno foi jogado às traças. O autor do Essai sur les
Préjugés mostra que não existe política sem verdades ditas à população. O
intelectual deve a verdade aos seus semelhantes, aos concidadãos, ao gênero
humano. "Ele é desumano e sórdido quando recusa partilhar com eles o
tesouro que descobriu". Cabe ao Estado, mantido pelos cidadãos, expandir o
conhecimento descoberto pelos cientistas. Assim, a "experiência e o hábito
chegam a facilitar ao homem do povo, ao mais grosseiro artesão, operações muito
complicadas.Temos, pois, o direito de duvidar que o hábito e a experiência lhe
facilitem do mesmo modo os conhecimentos mais simples dos deveres e da moral e
os preceitos da razão, dos quais evidentemente depende sua
felicidade?".Note-se a insistência no termo "hábito", tanto para
a vida científica quanto para a vida moral. Não por acaso este é o termo que,
em nossas linguas modernas, utilizamos para traduzir a palavra grega
"ethos". Sem estes hábitos, o homem do povo fica preso as paixões dos
poderosos, ou se entrega às próprias paixões. Neste ponto, nosso autor anônimo
apresenta uma dúvida que até hoje, ou talvez, sobretudo hoje, atravessa nossa
prática educativa. Os livros úteis, diz ele, parecem não terem sido escritos
nem para os grandes, nem para os pobres. "Uns e outros quase não costumam
ler. Os grandes, diga-se, acreditam-se interessados com a perpetuação dos
abusos, e o povo miúdo não raciocina". Deste modo, conclui o autor,
"todo escritor deve ter em mente a parte média de uma nação".12 Todo
o esforço das Luzes foi o sonho de tornar acessível o saber ao maior número.
Até hoje suas sugestões estão aí, recusadas que foram pelo clero conservador e seus
êmulos, e assumidas pelos liberais democráticos e socialistas, herdeiros da
utopia científico-pedagógica renascentista. Roland Mortier reflete, na obra
citada, sobre o fracasso do "projeto" diderotiano de uma filosofia
popular. Ele mostra que duas ordens de fatores definiram este fracasso.
Primeiro, a separação feita sobretudo pelos ideologues, herdeiros da
Enciclopédia, mas limitados nas suas pretensões pelo governo tirânico de
Napoleão I entre técnica e pesquisa teórica. Esta redução extraiu a profundidade
nas suas exposições "científicas". Outra causa é a que já foi
indicada: imaginando-se uma elite separada e acima do povo, sobretudo na época
da Contra-revolução termidoriana, o grupo dos acadêmicos separou-se das camadas
populares. Se tiveram brigas com o grande tirano, não é menos verdade que
tinham medo da união com o povo miúdo. O reinado das massas, com Robespierre e
a máquina inventada pelo Dr. Guillotin, ainda estava fresco na memória. Depois
desse momento, houve a corrida dos socialistas utópicos, todos se imaginando
pastores científicos da multidão proletária, com direitos à infalibilidade na
condução dos negócios sociais. Neste clima, o comtismo, com seu "poder
espiritual", projetou um ensino técnico redutor da cidadania. É conhecido
o mote positivista sobre o operário que é cidadão apenas no interior da
fábrica. O marxismo, pensamento científico nos moldes do século passado, não
escapou da separação entre elites pensantes e massa dirigida. Nas experiências
ocorridas de fato, e não nos escritores vencidos, ele aprofundou o abismo entre
pesquisa e população. Enquanto tudo isso ocorria, a universidade seguiu seu
passo de tartaruga, imprecando as massas por sua ignorância, e aderindo sem
vergonha aos vencedores da hora. O fisiologismo universitário seria matéria de
uma longa pesquisa histórica e sócio-psicológica.
Até hoje enfrentamos um problema fundamental: como
assumir o desafio da necessária formação técnica e cidadã das massas, conditio
sine qua non de sobrevivência coletiva no século 2l ? Uma pergunta continua de
pé: qual a base ética das nossas escolas, do ensino elementar à universidade,
para produzir o ensino profissionalizante, se nelas o que se visa é a produção
de elites, elites estas, diga-se, cada vez mais degradadas e proletarizadas? Estes
desafios se emaranham na reflexão sobre o ensino da cidadania. Não tenho
resposta para tais pontos. E considero mentiroso quem diz ter soluções rápidas
e seguras para semelhantes aporias. Penso que uma saída é o empenho junto aos
partidos democráticos, pelo menos em setores deles, para que se transformem em
educadores coletivos, com ajuda dos mestres, visando, em prazo longo, mudar a
atitude das massas diante dos donos do poder. Para isto, a receita é a mesma
recomendada por Platão: disciplina e escolha criteriosa dos objetos a serem
estudados. Outro ponto desta receita é fugir da lisonja e da demagogia. Outra
recomendação ética é a fornecida por Elias Canetti: deixar de fornecer apoio
para a sobrevivência dos tiranos que "roubam mas fazem". Se nos desinteressarmos
e não enfrentarmos o problema da formação técnica e cívica das massas,
ficaremos sozinhos nos campi, nas igrejas, nos partidos. Sem assumir questões
como a do ensino tecnico-científico, vinculado à cidadania e aos direitos
humanos, ficaremos reduzidos à situação dos estabelecimentos italianos de
ensino, em l803, quando Roma estava ocupada pelas tropas francêsas. Perguntado
sobre a atitude dos governantes estrangeiros face às escolas públicas, um
professor respondeu: "Elas são toleradas, como os bordéis" (13) Se optarmos pelo "realismo", e pela
busca de sobrevivência política ou economica individual, certamente não
impediremos que nossas escolas se transformem em prostíbulos do espírito. Elas
estarão em consonância com o que ocorre, às vezes, no Congresso Nacional. Mas
para mudar, rumo ao melhor, o Parlamento, urge redefinir nossa prática
cotidiana no universo escolar, na sociedade, nos partidos políticos. O que
fizeram de nós, retomemos Sartre, pode ser modificado. Mas para isto é preciso
disciplina, rigor cívico, espírito democrático. Esperemos que estes elementos
aumentem em nosso convívio, se quisermos escapar, no milênio próximo, à pura e
simples barbárie.
1. República, trad. Maria Helena da Rocha Pereira,
Lisboa, Gulbenkian, 1980. 2. Gorgias, 464 c-e; Trad. francesa de Robin, L.
Pleiade, T. I 3. Para todos estes pontos, cf. Pierre Louis, Les Metaphores de
Platon, Rennes, Imprimeries Reunies, 1945. 4. Cf. Leis, V, 731 e. Trad.
francesa Robin, L. Pleiade, página 784; trad. Loeb, página 338-339. 5. Cf.
Fraisse, Jean-Claude, Philia, la Notion d' Amitié dans la Philosophie Antique,
Paris, Vrin, 1984, página 169. 6. República, 462 a-e, trad. Gulbenkian, páginas
23l-233. 7. Cf. República, Ed.Loeb,Oxford, página 3l2; Ed. portuguesa Fundação
Gulbenkian, página 399). 8. Cf. "De Discernendo Amico ab Adulatore" ,
ed. Loeb, Moralia,V.1, trad. Babbit, F.C., l986, página 267. Tradução
brasileira Isis Borges B. da Fonseca. in Como Tirar Proveito de seus Inimigos.
SP. Martins Fontes, 1997. 9. Cf. Le Categorie del 'Político', l972, Bologna, Il
Mulino, páginas l93 e seguintes. 10. Massa e Poder. Ed. Universidade de
Brasilia. 1986.Páginas 251-309. 11. London, Duckworth, l97511. London,
Duckworth, l975 12. Cf. Roland Mortier, "Diderot et le Projet d'une
'Philosophie Populaire'. In Revue Internationale de Philosophie, "Diderot
et l'Encyclopédie -l784-l984-, nº l48-l49, fasc. l-2, l984, páginas l82-l95.
13. Cf. Hegel, G.W.F. "Prefácio" à Filosofia do Direito, trad.
francêsa de R, Derathé, Paris, Vrin, l975, página 53.