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sábado, 1 de julho de 2017

Gazeta do Povo Curitiba, 29/06/2017

Existe algo a temer com Raquel Dodge no comando da Lava Jato?

Subprocuradora escolhida por Michel Temer para chefiar o Ministério Público prometeu ampliar investigação do petrolão, mas apoios recebidos durante campanha deixaram ponto de interrogação


Os rumos da Operação Lava Jato não devem mudar com a indicação de Raquel Dodge para chefiar a Procuradoria-Geral da República (PGR). Se for aprovada na sabatina do Senado, a escolhida pelo presidente Michel Temer para assumir o comando do Ministério Público Federal (MPF), a partir de setembro, deve seguir com os trabalhos do antecessor Rodrigo Janot. É o que pensam especialistas consultados pela Gazeta do Povo.
Raquel tem 30 anos de experiência no Ministério Público. É subprocuradora-geral da República e membro do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP). Ao indicar Raquel, reconhecida como uma rival de Janot dentro da corporação, Temer tenta fragilizar o poder do atual procurador-geral no fim de seu mandato, que se encerra em 17 de setembro. Mas todos concordam que ela tem uma carreira sólida no MPF, com destaque para a atuação de combate à corrupção, e, por isso, deve dar sequência às investigações da Lava Jato, sem prejudicar a operação. 
Durante a campanha pela PGR, Raquel afirmou que pretendia ampliar o número de investigadores na Lava Jato e a estrutura disponibilizada para eles, caso fosse necessário. 
O professor de Ética e Filosofia Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano, explica que Raquel estará sob “200 mil lentes” e que vai precisar tomar decisões “diplomáticas” para reduzir os ruídos por não pertencer ao grupo de Janot.
O que gera dúvida sobre eventual prejuízo da Lava Jato é o suposto apadrinhamento dela por membros do governo. Segundo o jornal O Globo, ela teve apoio de investigados na Lava Jato: o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP). Também era a preferida do ministro da Justiça, Torquato Jardim, e do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). 
Para o professor da Unicamp, a forma como Raquel foi anunciada não foi adequada. Ele menciona o encontro de Temer com Gilmar Mendes na noite de terça-feira (27). Nos bastidores especula-se que a conversa serviu para que o magistrado do STF desse seu aval para escolha de Raquel. 
“É muito complicado você aplaudir o que foi feito ontem. Isso trará muitas sobras sobre o começo do trabalho dela. Vai trazer a suspeita de ter sido indicada de maneira política [e não técnica]”, opinou Romano. O professor pondera que não necessariamente ela tem culpa desse apadrinhamento, mas que a circunstância a coloca numa posição de observação da opinião pública.

Encontro

Na quarta-feira (28), logo após ser anunciada, Raquel esteve com o presidente Temer. Depois, ela se encontrou com o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), para esclarecer os ritos da sabatina a qual será submetida na Casa. Para o professor da Unicamp, essa “ritualística” deveria ser evitada porque vivemos um momento delicado de crise e denúncias graves. “Ela pode visitar quem quiser após a posse, mas no calor da decisão é complicado.”
Raquel era a segunda colocada na lista tríplice que foi elaborada com base em eleição interna do Ministério Público Federal. O candidato mais votado entre os pares foi Nicolao Dino, que defendeu a cassação da chapa Dilma-Temer no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral e é mais alinhado a Janot. Mesmo antes da nomeação de Temer, já se sabia que Dino teria menos chances de ser o escolhido do presidente.
Para Rafael Cortez, consultor político da Tendências, o fato de o peemedebista não escolher o mais votado indica que a tensão entre Temer e o MP deve continuar. 
David Fleischer, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), afirmou que Raquel não deve impedir o andamento das investigações, mas que será mais comedida. “Eu não vejo mudança, vejo menos estilo contundente como o de Janot, com menos manchete [nos jornais]”, opinou.

Impacto entre procuradores

O presidente da Associação Nacional de Procuradores da República, José Robalinho Cavalcanti, admite que Dino teria mais respaldo da categoria, pois recebeu mais votos. “Em hora nenhuma nós falamos que a ordem era desimportante, se fosse desimportante eu entregava uma lista alfabética. Não é tanto faz. Existe uma preferência, tanto que apresentamos o ofício indicando o primeiro, o segundo e o terceiro colocado”, declarou Robalinho. “Mas cabe ao presidente escolher”, ponderou.
Embora tenha sido a segunda na lista, é inegável que ela alcançou uma votação expressiva. Raquel conquistou apenas 34 votos a menos que o primeiro colocado, Nicolao Dino, que obteve 621 votos. Os 587 votos que ela recebeu indicam, em certa medida, algum respaldo da categoria. 
“Ela vai atuar com o mesmo rigor [que seu antecessor]. A colega tem histórico de liderança, tem qualificação técnica e obteve uma votação massiva na consulta da corporação”, declarou o procurador Bruno Calabrich, que já atuou na Lava Jato ao lado de Janot.
O apoio dos colegas é um ponto importante, pois pode interferir na forma como Raquel irá liderar ou não os trabalhos no MPF. 
Cortez explicou que, como ela não foi primeira escolha de seus pares, isso pode gerar tensão na corporação porque ela já chegaria ao posto com um rótulo de ser a preferida do governo, em detrimento da escolha da classe. “Por ser a segunda colocada, ela pode ser considerada uma dissidente, uma representante de uma fratura da corporação, da oposição. A força do MPF está na sua corporação”, disse Romano.
Temer justificou sua escolha defendendo que foi responsável pela nomeação da primeira procuradora-geral da República. Ele tentou assim amenizar o desgaste de romper com a tradição de escolher o nome mais votado. Para Cortez, essa iniciativa não terá efeito prático. Isto porque o governo do peemedebista praticamente não inclui mulheres no seu quadro e isso não irá convencer a opinião pública de que tenha ocorrido uma mudança de postura. O índice de rejeição de Temer na população é maior na parcela feminina. 

Polêmica sobre forças-tarefas

Em abril, Raquel apresentou um projeto de resolução no conselho da categoria que, se aprovado, limitaria a cessão de procuradores das unidades estaduais a operações em andamento. 
Com o argumento de que era preciso preservar o funcionamento das unidades do MPF, ela propôs que cada unidade do Ministério Público só poderia ceder 10% dos membros. À ocasião, Janot criticou a iniciativa e declarou que a medida afetaria a Lava Jato. Antes que fosse aprovada, ficou definido que a proposta só afetaria as novas operações, o que preservaria a Lava Jato. A análise da norma não foi concluída pelos conselheiros do MPF.
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terça-feira, 27 de junho de 2017

Jornal da Unicamp: 27/junho/2017. Crise Política Quatro visões sobre a denúncia de Janot ter, 27 jun 2017 | 21:12 Atualidades Armando Boito, Roberto Romano, Ruy Braga e Walter Belik opinam sobre a decisão do procurador-geral da República


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Quatro visões sobre a denúncia de Janot


Armando Boito, Roberto Romano, Ruy Braga e Walter Belik opinam sobre a decisão do procurador-geral da República

Armando Boito, Roberto Romano, Ruy Braga e Walter Belik opinam sobre a decisão do procurador-geral da República,  Rodrigo Janot, que denunciou criminalmente o presidente Michel Temer (PMDB) por corrupção.

Armando Boito – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp
Foto: Antoninho Perri

A denúncia de Rodrigo Janot contra Michel Temer, por corrupção passiva, é um episódio muito importante no contexto de um conflito que vem se arrastando desde que o governo atual assumiu o poder. Trata-se de um conflito no interior do campo das forças políticas que promoveram a deposição de Dilma Rousseff por meio de um golpe parlamentar. É uma instabilidade crônica que provém muito mais das contradições desse campo do que da luta do campo democrático e popular.
É óbvio que Temer, por não ter voto e por ser contestado pelo movimento sindical no que diz respeito às reformas trabalhista e previdenciária, fica vulnerável, mas o elemento ativo da instabilidade desse governo tem sido o sistema de justiça – o Ministério Público, a Lava Jato etc. Muitos imaginavam que as investigações parariam depois da deposição de Dilma, mas isto não ocorreu. Este é um primeiro elemento muito importante.
O segundo elemento, que tem ligação com este ao qual acabei de me referir, é que, por se tratar de uma luta interna a esse campo, quase que circunscrita às instituições do Estado, um tanto palaciana, o governo Temer dispõe de muitas armas, recursos e trunfos para evitar sua deposição. O mais evidente, neste caso, é que a denúncia do procurador geral da República terá de ser aprovada por 342 votos no Congresso Nacional para seguir em frente; do contrário, ela morre no nascedouro...
Nessa perspectiva, minha conclusão geral é a seguinte: como a instabilidade do governo é provocada muito mais pelas contradições no interior do campo político que promoveu o golpe, como o conflito está circunscrito às instituições do Estado, como já disse anteriormente, é plausível, infelizmente, a possibilidade de que o governo se arraste de crise em crise, até dezembro de 2018.
Essa perspectiva, obviamente, é muito negativa para o movimento democrático e popular. Em primeiro lugar, porque a deposição de Temer elevaria o moral do campo democrático. Segundo, porque resultaria em uma grande turbulência, que, em última instância, dificultaria a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária.


Roberto Romano – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp
Foto: Antoninho Perri


O primeiro ponto a ser destacado é a crise geral do Estado brasileiro, marcada sobretudo pela perda de governabilidade. Se o presidente da República conseguir segurar o Congresso, em seu ponto limite de votos, será à custa de muito recurso público e de muitos cargos, o que não estão significando muita coisa – o dinheiro está sumindo... Henrique Meirelles e integrantes do Ministério do Planejamento, por exemplo, já estavam pensando em meter a mão no dinheiro do FGTS e do seguro-desemprego. O dinheiro não está resistindo, a não ser no BNDES, mas, se continuar fluindo, as consequências serão graves. Se Temer conseguir segurar nessa base, ele não vai ter efetivamente o poder de fato, vai ser apenas um dirigente formal. Vai lembrar muito os últimos meses do governo Sarney, quando ninguém mais governava o país.
O segundo ponto é prestar atenção no que o PSDB vai fazer. O problema não é o componente numérico, mas sim o simbólico, caso haja o desembarque. Se o partido que começou o processo de impeachment de Dilma, deixar o governo, haverá uma confissão de que o governo Temer é indefensável. Isso pode causar um abalo maior ainda na popularidade do presidente e desencadear fissuras na própria base aliada. Muita gente vai abandonar a rapadura.
Por fim, destacaria a crise nas instituições. Fui a um evento [na Fiesp] ontem (27) na Fiesp em que boa parte dos participantes era da opinião de que o governo Temer chegou em seu ponto limite. Por outro lado, no mesmo evento, Gilmar Mendes defendeu a política, os políticos e os partidos, alertando contra a ditadura de juízes e de procuradores, que, no entender dele, seria tão nefasta quanto o regime militar. A questão é que essa fala revela um racha no sistema de justiça, o que me leva a reiterar que o problema não é na Presidência, mas sim no Estado brasileiro, que não está conseguindo trabalhar minimamente em termos de republicanismo, de troca democrática e de respeito de um Poder pelo outro.
Tenho repetido, há muito tempo, que as instituições não estão funcionando normalmente. Em primeiro lugar, precisamos discutir o conceito do que seja a normalidade. O que é normal? Em se tratando de luta pelo poder, a normalidade tende sempre a ser desrespeitada – um poder tende a aumentar em detrimento do outro. Há um dito interessantíssimo do Maquiavel: “No mundo da política, quem não cresce, diminui enquanto o outro cresce”. Daí a importância do equilíbrio entre os poderes, tema recorrente dos pensadores clássicos, entre os quais Montesquieu. Aliás, Gilmar Mendes insistiu profundamente ontem na tese de que há um desequilíbrio na balança dos poderes no Estado brasileiro.
Outro ponto, nesse contexto, é a seguinte indagação: como pode ser normal, num regime político, que dois dirigentes máximos sejam afastados em tão pouco tempo, como ocorreu nos casos de Collor e de Dilma? Indo além: como pode ser normal que você tenha uma parte do Congresso sendo ameaçada de prisão? Mais: como pode ser normal que você tenha uma Corte Suprema dividida em equipes? Neste último caso, por exemplo, vários analistas têm chamado a atenção para o fato de que, há muito tempo, o STF não tem uma decisão coletiva. As contagens são sempre apertadas, com uma diferença de um ou dois votos. Não há, portanto, uma doutrina na esteira das decisões do Supremo.
É muito ruim você ter o direito público determinado pela presença de pessoas num sentido ou em outro. Não vejo normalidade nenhuma no funcionamento das instituições. Pelo contrário, vejo uma crise de Estado que se agrava a cada dia. O caso de Temer é típico: temos um presidente da República denunciado por corrupção no exercício do mandato. É um fato inédito na história do Brasil.
Quanto ao futuro de Temer, para além dos limites da distribuição de recursos à qual me referi, há um outro componente que não pode ser desprezado: a gente não conhece os limites do instinto de sobrevivência dos políticos...Elias Canetti, em Massa e Poder, dedica um capítulo ao poderoso como sobrevivente. Ele mostra que, quando o poderoso entra nessa lógica da sobrevivência, os limites são muito tênues, ele é capaz de tudo. Num momento de crise, o poderoso se revela. Há toda uma mitologia a respeito, a começar do tirano que comete atrocidades no palácio...
Se a Câmara dos Deputados aceitar a denúncia do procurador-geral, os deputados estarão admitindo que a Lava Jato é um superpoder do Estado, que se coloca acima dos outros poderes, ou seja, é um Estado dentro do Estado, o que não procede. Se passar a denúncia, esses políticos evidentemente estarão a perigo. Parece-me que o que mais pode fazer com que Temer continue até 2018, formalmente – e a questão do formal é importante –, 2018 é justamente o instinto de sobrevivência dos nossos políticos.
No meu entender, a crise perdura e tende a piorar, trazendo à tona mais fatos novos. A impressão que eu tenho é a de que, desde a saída de Dilma Rousseff, estamos num trem-fantasma.


Ruy Braga – Departamento de Sociologia da USP
Foto: Reprodução

A absolvição de Temer no STE mostrou-se mostrou muito frágil, tendo em vista que a denúncia de Rodrigo Janot o acusa diretamente do crime de corrupção. Isto significa que a crise política se aprofunda e, ao se aprofundar, abre uma série de possibilidades. Tenho insistido na tese de que o governo Temer se mantém, basicamente, por duas razões. A primeira delas é que ele conta, até o momento presente, com o apoio e a confiança do empresariado brasileiro. E é isso que, através de interesses privados e empresariais no parlamento, representado pelos seus deputados, mantém o governo de pé. Claro que a amálgama disso tudo são as reformas levadas adiante – hoje, a trabalhista e, em breve, a previdenciária. Se o governo não conseguir aprovar a reforma trabalhista no plenário do Senado, muito possivelmente os setores empresariais tenderão a retirar o seu apoio. Consequentemente, isso teria um forte impacto na base parlamentar de sustentação do governo.
O segundo ponto que mantém o governo é porque, aparentemente, não há um interesse muito agudo de parte da oposição, em especial de setores do PT, em levar adiante uma campanha pelas diretas-já. Raciocina-se basicamente com os seguintes termos: é mais fácil bloquear as reformas trabalhista e previdenciária com um governo caótico e claudicante, como é o caso de Temer, do que num cenário de eleições indiretas que, eventualmente, poderia levar ao poder um governo com mais chances de aprovar essas reformas. Ademais, o PT está com a cabeça na defesa de Lula no âmbito da Lava Jato; por outro lado, Lula está com a cabeça na eleição de 2018. Ele sabe que tem grandes chances de ganhar.  No agregado, portanto, é isso que explica, na minha opinião, o fato de o governo manter-se de pé.
 No entanto, o elemento desestabilizador, nesse contexto, é que a profundidade e a gravidade das acusações da Procuradoria Geral da República contra o Temer podem alterar esse cenário com alguma brevidade, o que significaria um encurtamento do mandato, quer seja através da renúncia, quer seja por meio de um estratagema parlamentar qualquer. Neste último caso, Rodrigo Maia assumiria com a prerrogativa de convocar eleições indiretas via parlamento o que, de alguma maneira, tendo em vista a composição conservadora do Congresso, se constituiria num expediente para entronizar também um governo bastante conservador e, consequentemente, comprometido com o avanço dessas reformas antes de outubro de 2018, ou seja, quando estão previstas as eleições presidenciais.
Gostaria de acrescentar que não há solução para a crise política atual que não passe, necessariamente, pela soberania popular, ou seja, pelas eleições diretas. Isso depende muito do nível de mobilização popular, de um grande consenso entre setores de oposição. No atual momento, não apostaria nessa alternativa. No entanto, sempre é bom destacar, o movimento desestabilizador é muito marcante, como disse anteriormente. A denúncia de Janot é muito forte. Temos um relatório de 60 páginas muito contundente nas acusações. Isso pode trazer água para o moinho das diretas-já, galvanizando a população.


Walter Belik – Professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp
Foto: Antoninho Perri

Já foi destacado que é a primeira vez que um presidente da República em exercício é denunciado, no Brasil, por atos de corrupção, o que é gravíssimo. Quando isso acontece em outros países, o presidente ou renuncia imediatamente ou abre espaço para investigação. Aparentemente, não é o que vai ocorrer no Brasil. Temer dá todos os sinais de que vai resistir e tentar se manter no poder, e isso é muito complicado, refletindo até no dia a dia das pessoas.
Esperava-se, dentro de um quadro de normalidade, que as reformas seriam aprovadas e as eleições para 2018, convocadas, no transcurso natural da política. Teremos, ao que tudo indica, o oposto do esperado. Provavelmente, o ambiente ficará muito conturbado. Não sei a gente chega a 2018 nesse estado de turbulência, radicalização, intransigência e nervosismo que paira sobre a economia e a sociedade.
As negociações acerca da permanência do presidente no cargo devem resultar em concessões para vários setores da economia de uma forma bastante contraproducente. Havia uma expectativa sobre o restabelecimento da vida econômica do país, e aqui não estou dizendo apenas no que diz respeito às reformas. Elas são necessárias, mas devem ser negociadas com a sociedade e não ficar condicionadas a cargos e à manutenção de poder. A discussão que vinha sendo travada no Congresso era positiva e saudável e, a partir de agora, estará contaminada por essas questões de curtíssimo prazo.
Do ponto de vista da previsão econômica e da precificação que vinha sendo feita pelos agentes econômicos sobre o nosso destino nos próximos meses, a confusão é generalizada. Isso já está refletindo na questão fiscal, porque não está ocorrendo a recuperação que se imaginava na arrecadação. A situação está se agravando. Como nós vamos fechar as contas, que era o objetivo principal desse governo que se pretendia estabilizador?
Está ocorrendo um movimento inverso. Estamos vivendo um período de incerteza crescente. Não se sabe o que vai acontecer daqui para a frente em termos de mudanças fiscais. Muito provavelmente, as agências de classificação devem rebaixar o Brasil ainda mais. Devemos ter instabilidade do ponto de vista cambial, do ponto de vista do mercado de trabalho, além de um período de agitação social maior, o que certamente afetará as companhias que estavam conseguindo melhorar a sua situação.
 Se o grupo político que apoia Temer pensasse um pouco mais no país, haveria um movimento para que ele renunciasse ou, em última instância, que propusesse a sua substituição ou convocação de eleições. Poderíamos ter uma articulação, caso houvesse maturidade por parte do Congresso, visando uma transição que evitasse uma convulsão. Como cidadão, estou muito preocupado.
A manutenção de Temer, nesse contexto, vai depender do apoio político que ele conseguir. Enquanto o PSDB sustentar o governo, certamente Temer se mantém no cargo. O partido [PSDB] é hoje a principal força de equilíbrio. Seus integrantes têm uma visão míope do que pode se passar na economia e, para além disso, não estão vendo que as coisas podem respingar para o lado deles na eleição de 2018.
Se Temer permanecer no cargo, nesse cenário, a crise sem dúvida vai se aprofundar. Virão certamente outras denúncias. As chances de novas crises institucionais também são grandes. Dizia-se que as instituições estavam segurando o Brasil e eram mais fortes do que a crise econômica. Mas, não. As instituições estão demonstrando uma fragilidade enorme. Não conseguem sequer tirar o presidente do poder. Pior: são manipuladas por ele. Há claramente uma crise entre poderes.
O impeachment de Dilma Rousseff foi articulado em nome de uma “necessária estabilidade” e/ou da promoção de reformas. Foi feito por conta de uma, digamos, tecnicalidade jurídica no campo da política fiscal. No entanto, o que se vê hoje é um absurdo, é muito pior. Passa um elefante em cima e a sociedade está letárgica. As forças de oposição também estão totalmente desarticuladas.

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Revista Exame, 22/junho/2017

Romano, da Unicamp: Presidentes são frágeis

“Chegamos a esse ponto porque os mecanismos normais do funcionamento do Estado não serviram, não deram certo”, diz o filósofo

O processo de impeachment de Dilma Rousseff, que definiu sua cassação na última quarta-feira, entra para a história como um dos momentos mais traumáticos da história recente do país. Mas representa risco às instituições democráticas? Para o filósofo e professor de ética da Unicamp, Roberto Romano, uma ruptura democrática não seria definida pelo processo em si, mas pela forma como o país se sairá daqui em diante. Se asseguradas a liberdade de expressão e a alternância de poder, para ele, não há motivo para alarde. “Chegamos a esse ponto porque os mecanismos normais do funcionamento do Estado não serviram, não deram certo”, diz Romano. O acadêmico acredita ainda que o processo de impeachment é legítimo, mas a lei que o rege não atende aos tempos atuais. Romano concedeu a seguinte entrevista EXAME Hoje. 
O que implica o fato de discutirmos até agora se houve ou não crime de responsabilidade no processo de impeachment?
O impeachment sempre é um procedimento traumático. É traumático porque sai do estritamente legal, do que é definido pela Constituição, pela norma jurídica. Ele acolhe a possibilidade de um juízo estritamente político pelo Senado Federal. O juízo político passa por vários interesses ideológicos, sociais e econômicos que norteiam a ação dos julgadores. Então não pode esperar um juízo de tribunal. Isso que causa esse desconforto. Há uma espécie de impossibilidade de apelar para a lei na sua essência e essa comoção não é sanável. Tudo isso faz parte desse “remédio” com suas contraindicações. Vejamos se o remédio não mata o doente.
Essa indecisão macula a imagem das nossas instituições?
O problema não está nelas. O problema é o fato de precisarmos usar um “remédio heroico” que mostra o quanto as instituições estão alheias à legitimidade da população. Chegamos a esse ponto porque os mecanismos normais do funcionamento do Estado não serviram, não deram certo. Não é que o impeachment pode macular a imagem do Legislativo, mas é um sintoma, um resultado dessa falha estrutural do relacionamento entre os representantes com o representado. Há uma desconfiança enorme do povo em relação ao Executivo, ao Legislativo e até ao Judiciário.
Senadores da base de Dilma reclamaram de cartas marcadas durante o julgamento. Isso é um problema real?
O julgamento é essencialmente político. A questão simbólica pouco discutida é que o Senado é a representação dos estados junto ao poder central. Não se trata de uma decisão estritamente jurídica, mas de uma decisão institucional, federativa, que leva em conta autonomia dos estados. Assim, os representantes têm direito de expressar opinião antes do julgamento, como prestação de contas. Não é como um julgamento normal, em que o juiz está impedido de se manifestar fora dos autos. O PT pediu o impeachment de FHC lá atrás e tenho certeza que a mesma situação aconteceria. É mais um argumento retórico do que de peso político ou jurídico.
Três senadores declararam na quarta-feira que tinham convicção que a presidente não cometeu crime, mas era a alternativa para retomar a governabilidade. Esse discurso não compromete a legitimidade do processo?
O juízo desses senadores é muito próximo à técnica para garantir a governabilidade comum a todos os políticos. Assim, passam por cima da rigorosidade da lei, num sistema ‘dando que se recebe’. E foi algo muito usado por Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro governo. Veja, o PT abandonou todo o seu programa quando assinou a Carta aos Brasileiros e contrariou o programa de moralização da coisa pública quando se uniu a José Sarney, Paulo Maluf, Jader Barbalho, etc. Houve uma espécie de abuso, de passar por cima das próprias ideias tendo em vista a governabilidade. A governabilidade é um mantra que atravessa todo o relacionamento do presidente com o Congresso porque a presidência tem poderes enormes, mas tem um ponto frágil que é a quase impossibilidade de ter uma base aliada constante e fiel. Porque lhe faltaram isso, Jânio Quadros, João Goulart e Fernando Collor caíram. Agora Dilma.
Por possibilitar que um presidente seja derrubado por argumento jurídico ainda confuso, podemos concluir que a lei do impeachment é frágil?
A lei do impeachment é de 1950. Desde então, fizemos uma modificação enorme da sociedade e economia brasileira. Essa lei é antiga, não corresponde à realidade complexa do Estado e sociedade de hoje e colide de certo modo com a Constituição. A discussão de ontem foi isso. A Constituição rege que o cassado deve ficar oito anos sem cargo público, sem separação da perda de direitos. Mas a lei antiga retomada criou uma confusão que precisa acabar. É necessária uma regra constitucional especifica que corresponda a complexidade da vida política e social de hoje.
Fala-se em risco à democracia. Até que ponto isso é verdade?
Todo ato político, sobretudo nas altas esferas de um Estado, é arriscado. Desde uma lei da ordem econômica, um aumento de juro, o preço da gasolina, tudo isso traz risco. Segundo ponto, a democracia é sempre um regime mais arriscado de sofrer dominação pela força do que os outros regimes. Um regime ditatorial tem exército ao seu dispor e mesmo assim teve problemas. Na ditadura, não se podia governar sem representação política e apoio da sociedade. A democracia é muito mais frágil. Desde a Grécia, ela sofre perigos internos, externos, de rebeliões, golpes, etc. Isso é agenda da democracia. O mais importante é como ela supera esses períodos e como garante liberdade de oposição, alternância de poder, liberdade de imprensa, etc. Se não garantir esses pontos, não é mais democracia.
A falta de continuidade de presidentes brasileiros eleitos representa falha no sistema político? É hora de discutir a transição para um parlamentarismo, por exemplo?
O sistema político é um Frankenstein. Atribui demasiado poder ao presidente da República, mas exige essa adesão forte e majoritária do Congresso Nacional. A Presidência é um gigante de pés de barro. Isso faz com que qualquer presidente que não tem condições de maioria caia. Isso poderia se resolver com o parlamentarismo, em que o chefe de Estado garante a estabilidade, enquanto o primeiro ministro responde diante do Congresso. Essa é uma maneira de fazer o Congresso se responsabilizar. Durante todo esse processo de Dilma, uma pergunta que não se fez é: onde estava o Congresso quando os atos de responsabilidade fiscal foram cometidos? O que foi feito? Qual a atuação do Congresso para barrar esses atos? Como o Legislativo fiscalizou o Executivo? Como que o TCU que é composto por ex-políticos deixou tanto tempo para assumir posição tão drástica como 2014 e 2015? Isso é uma prática que vem de longa data. Esse modo de prover cargos e divisão dos poderes é extremamente falha e atabalhoada no Brasil. O parlamentarismo pode ser uma solução desde que assegure que parlamentares sejam responsabilizados pelas ações do governo que eles aprovam ou fazem cair.
Algum outro sistema seria adequado?
Não sei se uma mudança de sistema. Essa distorção de poderes é algo que vem desde Platão. Podemos olhar por esse lado: Benjamin Constant tentou aplicar o poder moderador, algo que foi usado aqui. Ele queria evitar a ditadura do executivo e a ditadura dos parlamentares. Ele propunha um chefe de estado como poder neutro que poderia coordenar os dois. Na Constituição de 1824, o conceito deu errado porque virou um poder superior a todos. Essa tese continuou na República, com um poder superior para o presidente da República, que se soma a um elemento da democracia que é prestação de contas e fiscalização do Congresso. É nesse núcleo de coordenação do chefe de Estado que deveria se voltar a atenção de juristas e sociólogos para redefinir esse imenso poder que é dependente do Legislativo.

Sobre Reforma Política, Fiesp 26/06/2017

...Mais...

Evento é o primeiro de uma série promovida pela Fiesp destinada a provocar a discussão do tema e fortalecer a democracia
Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp
“Não existe democracia sem política. Não existe política sem debate”, foi a frase do presidente da Fiesp e do Ciesp, Paulo Skaf, destacada na abertura nesta segunda-feira (26 de junho) do seminário Reforma Política Já, realizado no prédio das entidades da indústria, na avenida Paulista, e transmitido online. Skaf disse que o seminário é uma busca de respostas para as perguntas feitas momentos antes pelo estudante do Ensino Médio Thiago Cavalheri, o primeiro a falar no evento.
Há necessidade de mudanças no sistema político, afirmou Skaf. E para mudar a imagem política é preciso abrir um debate amplo, com a participação da sociedade. Skaf explicou a iniciativa da Fiesp pela Reforma Política Já, que começou com manifesto publicado nos principais jornais brasileiros em 25 de maio, seguido pela criação de um site destinado a provocar a discussão do tema. O seminário, explicou, é o primeiro de uma série de eventos. O objetivo da Fiesp com isso é provocar a discussão, levando ao fortalecimento da democracia brasileira.
Todas as reformas estruturais são importantes, afirmou, listando por exemplo a trabalhista, a tributária, a da Previdência, o teto do crescimento dos gastos. Mas a reforma política é especial, porque vivemos uma grave crise. “O que nós precisamos”, defendeu, é uma ampla e rápida discussão, para mudar pontos essenciais já para as próximas eleições.
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, em sua apresentação no Seminário Reforma Política Já. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

A abertura teve também um eloquente discurso de Thiago Cavalheri, aluno do terceiro ano do Ensino Médio do município de Alumínio, defendendo a participação política. Ele enfatizou a importância do envolvimento dos jovens. A culpa pelo desinteresse em relação ao debate sobre política e ao voto é “dessa bagunça que virou a política brasileira”. Ela precisa mudar, afirmou.
“Ninguém entende como um deputado é eleito e nem o que ele faz. As pessoas, hoje, não se sentem bem representadas”, disse. “Isso é um grande perigo para o Brasil. Imaginem se no futuro ninguém mais se interessar por política?” Para encerrar sua fala, pediu “Reforma Política Já”.
O estudantte Thiago Cavalheri, em sua fala na abertura do seminário. Foto: Helcio Nagamine/FIesp

A liberdade do voto
Com o jornalista Gerson Camarotti como moderador, o seminário teve como primeiro painel “A liberdade do voto”, com a discussão dos temas
  • Voto facultativo ou obrigatório
  • Monopólio de Candidaturas ou Candidaturas Avulsas
  • Prévias Partidárias
  • Liberdade de Propaganda
Vídeos curtos com a opinião de pessoas de diversas idades foram exibidos antes do início do debate, discutindo temas do painel. Camarotti destacou a importância do debate da Fiesp, num momento de colapso da política. Um debate para agora e para o futuro, disse.
O senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), autor da PEC 282/2016, que veda coligações em eleições proporcionais, comentou o ceticismo do discurso de Cavalheri, presente na sociedade. “Precisamos reforçar o papel da política numa sociedade democrática”, destacou. Em sua opinião, a deterioração do ambiente político no país é visível, mas é preciso separar a política da politicagem, os políticos dos maus políticos. “É o momento de enfatizar a política com pê maiúsculo.”
Segundo o senador, para o ano que vem é preciso resolver dois pontos, sendo um deles a proliferação de partidos. Ferraço falou de proposta de emenda constitucional de sua autoria aprovada no Senado sobre a cláusula de barreira e fim de coligação nas eleições proporcionais. A cláusula de barreira não impede a organização e a manutenção dos partidos, explicou, mas estabelece o mínimo de votos para lhes dar acesso a tempo de TV e a verbas. Se for aprovado também na Câmara, deve haver redução para 12 partidos, dos atuais 35. É uma jabuticaba, uma invenção brasileira que deforma o sistema. Outra deformação é a coligação nas eleições proporcionais, em que se vota em Joaquim, mas se elege Francisco, disse.
Fernando Neisser, fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, disse que grande parte da demanda por mais liberdade nasce do desencanto pela politica. Liberdade hoje é de participar, de construir a democracia. “Não consigo entender que tenhamos o direito de nos colocar fora da democracia”, disse. Vários países que têm o voto facultativo vivem crise de representatividade, lembrou. As pessoas aproveitam essa facultatividade para se retrair, agravando crises. Há uma sedução no discurso do voto facultativo, de que somente os mais instruídos vão querer votar. Isso é mentira. O voto do curral eleitoral, comprado, vai sempre ocorrer. Com o voto facultativo, o voto de menos qualidade democrática ganha maior peso relativo. Neisser não vê o voto facultativo como meio de depurar a política. “Temos que organizar os partidos, acabar com a distribuição de dinheiro público, o que a cláusula de barreira faz. Defendeu também a liberdade na propaganda eleitoral. Há uma tentativa de levar a Justiça Eleitoral a tutelar o eleitor. O cobertor é curto, destacou, e se a Justiça Eleitoral se prende a dirimir questões menores, não consegue cuidar do abuso de poder econômico.
O professor de ética política da Unicamp Roberto Romano disse que o desencanto com a política não é superado com fórmulas mágicas. A situação é fruto de centenas de anos de arbítrio, que acabou se tornando uma ética. No Brasil, quando se começa a falar de política, imediatamente vem o desencanto. “Isso me parece um dos pontos mais graves da vida brasileira”, afirmou. Segundo Romano, não adianta repetir o mantra de que as instituições estão funcionando normalmente, o que não é verdade porque a população não participa. A expectativa é sempre a pior em relação ao Estado.
O professor da Unicamp vê os partidos como tendo grande importância na produção desse desencanto. Um partido deveria ser um conjunto de pessoas que querem um modelo de sociedade. Se o partido não tem essa proposta, não é partido. É uma máquina, sem alma, afirmou. As alianças partidárias no Brasil não fazem sentido, com uma fusão doutrinária que mostra que os partidos são produtores da falta de valores e de esperança. Não oferecem aos eleitores a oportunidade. Os partidos são oligárquicos, não consultam suas bases, não fazem eleições prévias com sua base. Com dirigentes que se perpetuam, quem quiser fazer política nos partidos precisa pedir sua bênção, explicou. A primeira coisa a fazer é promover a democracia interna nos partidos. É preciso criar novas lideranças em seu interior. “Ou não se tem em quem votar. É o que está acontecendo no Brasil.”
Maria Claudia Bucchianeri, advogada especialista em direito eleitoral, disse que há um desencantamento com a política, refletida em números. Há crescente abstenção, com recorde nas eleições passadas, além de recorde de brancos e nulos, com os candidatos eleitos em muitas capitais tendo sido eleitos com menos votos que os brancos e nulos. E há baixíssimo percentual de participação de votos dos jovens de 16 a 18 anos. Chegou a 60% na última eleição a proporção dos que não quiseram tirar o título de eleitor. Isso todo mostra desapontamento agudo com a política. O sistema partidário precisa passar urgentemente por reformulação. Há um processo no mundo de ruptura na política, e decisões importantes que não representam a opinião das pessoas são tomadas. É preciso refletir sobre como aproximar as pessoas e seus representantes, sendo uma das formas os meios eletrônicos. No Brasil há o agravante do descontentamento com os políticos.
Assim como Neisser, disse que não é seduzida pelo voto facultativo. Se adotado, quem vai votar? Deixarão de votar as pessoas mais privilegiadas, que ficarão em casa assistindo à eleição. No Brasil o voto facultativo não iria criar uma casta de representatividade?, perguntou. Vê o risco também de radicalização, com grupos votando mais maciçamente que outros. Pode aprofundar o déficit de representatividade e criar um processo de extremos. “O caminho é o do engajamento, de chamar o eleitor para perto da política.”
A primeira pergunta feita pelo público, via WhatsApp, foi sobre voto facultativo e foi dirigida por Camarotti para Ferraço. O senador se disse com muitas dúvidas em relação ao tema, apesar de ser autor de uma emenda que o implanta. “Sou a favor, sim, do voto facultativo, mas não acho que seja a solução para os gravíssimos problemas do sistema político do Brasil.” Ferraço destacou que na prática o voto já não é obrigatório, pela baixa punição. Antes do voto facultativo é preciso resolver premissas básicas, como a cláusula de barreira e o fim da coligação proporcional.
Para Romano a questão foi sobre o papel da imprensa como tutor do público. Para o professor, é ponto essencial que não pode ser resolvido de maneira apressada. Em cidades pequenas, coronéis pressionam, com suas emissoras de rádio e TV. A existência de partidos democráticos ameniza o problema, afirmou. Concessões para deputados são ponto sério, segundo Romano. Para enfrentar esse problema defende o reforço dos partidos democráticos, porque quando por meio deles a população pode se opor aos líderes regionais, as coisas mudam.
Neisser disse que a raiz do problema de representatividade está no coração dos partidos, que em sua maioria são oligarquizados, autoritários, o que se reflete no Parlamento. A forma de escolher dirigentes e candidatos é pouco discutida e fica fora do alcance da Justiça eleitoral. Neisser defendeu igualdade de gênero, veto a perpetuação de dirigentes partidários, prévias para a escolha de candidatos. O foco está na democratização dos partidos, defendeu.
Não há formula pronta para atrair os eleitores. É preciso soltar um pouco mais a propaganda eleitoral, disse. A tarefa para a Justiça Eleitoral é hercúlea. A justificativa de limitação de gastos deixou de ser relevante, devido ao teto instituído. Por que gastar a energia da Justiça Eleitoral, em vez de se dedicar a questões mais importantes? Um ponto fundamental é a democracia interna nos partidos. Eles deixaram de fazer seu papel de representação. Há baixíssima participação feminina, destacou. Precisamos focar em onde queremos chegar, não caindo na armadilha de quanto mais normas melhor. É preciso votar mais, e a propaganda favorece o envolvimento da população.
Ferraço concorda com a análise sobre a oligarquização dos partidos, mas ressalvou que isso parece um traço cultural brasileiro. Não há uma bala de prata para resolver o sistema politico e partidário brasileiro.
Romano não vê renovação nos partidos. Em relação à educação política, disse, há uma questão anterior, o baixo nível da educação, com os alunos incapazes de fazer cálculos básicos. Há um problema de lógica, que impede que os futuros eleitores consigam calcular probabilidades ligadas a seu voto. “Se não temos uma sociedade capaz de raciocinar matematicamente, não temos uma sociedade democrática. Nossos passos são liliputianos em relação a nossas necessidades, que são enormes.”
Candidaturas
Neisser considera grande tema o das candidaturas avulsas. Achava inviável isso, mas nos últimos meses tem procurado se abrir à opinião de quem as defende. “A sociedade atual não se identifica com os partidos como bloco fechado de pensamento”, explicou. Os interesses das pessoas são muito mais transversais, podendo defender liberalidade em alguns pontos e mais regulamentação em outros. Esse eleitor multifacetado é cada vez mais frequente no Brasil e no mundo. Talvez seja o momento de criar abertura para candidaturas independentes, disse.
A advogada Maria Claudia Bucchianeri disse que há muita coisa mais urgente a debater que as candidaturas independentes. Há uma fragmentação em nosso parlamento sem paralelo no resto do mundo, avaliou. O chefe do Executivo abre flancos para que o Legislativo indique ministros, o que na prática torna o modelo brasileiro quase um parlamentarismo. Acrescentar a possibilidade de parlamentares sem ligação com partidos pode levar a negociações ainda mais no varejo.
A candidatura avulsa, disse, vai na contramão da necessidade de fortalecer os partidos. Provoca a fulanização da política, quando já há uma ascensão de pessoas com capacidade de atrair eleitores, como apresentadores de TV e religiosos.
O senador Ferraço considera que candidaturas avulsas banalizariam ainda mais a política.
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domingo, 25 de junho de 2017

Artigo ainda válido...e como !

Roberto Romano Unicamp

Sunday, November 27, 2005

 
Considerações sobre o golpe de Estado.


Aproveitando as manifestações de rua na França, coisa a ser discutida durante bom tempo, inicio com os países que produziram os primeiros Estados modernos. Antes e depois do Renascimento a Itália se debate entre os territórios pontifícios e as cidades republicanas. Na Alemanha, o povo se espalha em áreas dirigidas pelos bispos ou pequenos príncipes. Até o século 19 aqueles “Estados” geram caçoadas por causa de seus domínios minúsculos (o fenômeno conhecido como Kleinstaaterei), frágil moeda, alfândega, “exército”, tudo nas dimensões de Lilliput. Em sentido oposto, o governo francês unifica parte considerável das suas províncias e define padrões comuns no campo jurídico, militar, político. O rei confisca as prerrogativas dos nobres em tempo certo, sobretudo no governo do cardeal Richelieu. O poder central francês garante para si os monopólios do Estado reunidos na força física (polícia e exército), na ordem jurídica (leis e justiça) e na taxação do excedente econômico (impostos, taxas). Essa tarefa monopolizadora não se efetivou sem violências.

A corte francêsa precisava conhecer o país real e as zonas a serem integradas sob a sua égide. Era preciso saber onde habitavam os súditos e quem eram eles. Contar a população e a superfície do território não foi tranquilo nos primeiros dias da França moderna. Como os demais Estados com origem no feudalismo e no controle eclesiástico, ela tinha fronteiras indefinidas e ora se expandia num sentido, ora se retraía noutro. A demografia, nos seus inícios, permite buscar um projeto fiscal. Mas As Crônicas da França, de Pierre Desrey (1515) afirmam a existência na França de 1.700.000 torres de sino, dando uma população por volta de 600 milhões de habitantes ! O dado fantástico foi repetido nos séculos XIV, XV, XVI. Outros escritores falam em números ao redor de 112 milhões. Com tal “saber” o fisco é impossível. A busca de mais arrecadação moderniza a máquina fiscal e incentiva a estatística. Esse movimento aparece no livro de Jacques Coeur, Cálculo ou enumeração do valor dos ganhos do reino de França, relatórios e instruções para administrar o estado e a casa do rei e todo o reino. As guerras religiosas, a concorrência dos Estados pelo domínio territorial e os avanços da arte bélica, que incluem novas tecnologias custosas, colocam os governos na urgência de aumentar os recursos. Enquanto isso, a Assembléia dos Três Estados combate o fiscalismo dos soberanos e nada consegue pois do século XV ao XVII os impostos se multiplicam. Esse desenvolvimento é favorecido pela reorganização administrativa. Os números arábicos, no século XV, facilitam o cálculo. A partir de 1539 anotam-se os batismos, as mortes e casamentos. O poder começa a conhecer o nome, a idade, a qualidade e o número dos súditos. Os registros também revelam as riquezas familiares. (1)

Norberto Elias afirma que o Estado dirigido pela corte domestica os nobres e define modernos padrões civilizatórios na França, ética que se espraia pela Europa. De fato, mesmo quando visitamos os castelos de Luis II da Baviera, erguidos em pleno século 19, percebemos o quanto o modêlo francês inaugura políticas e costumes originais. Versalhes é copiado da Rússia ao Mediterrâneo, bem como a sua vitoriosa centralização burocrática. A tese de Norberto Elias apresenta lados frágeis. Daniel Gordon, secundado por Emmanuel Le Roy Ladurie mostram a inconsistência das suas hipóteses para descrever o centralismo francês. (2)

Se é verdade o enunciado de Francis Bacon segundo o qual knowledge and power meet in one, também é correto dizer que a domesticação que gerou o Estado e a nova ética na França antecipou procedimentos hoje em voga. Richelieu e demais estadistas não realizam o seu projeto sem golpes de Estado. É estranho constatar esse ponto, visto que imaginamos o Estado como o avesso dos golpes. Mas esquecemos que semelhantes técnicas existem agora porque produziram as instituições a que nos acostumamos e que recebem o nome abstrato de “Estado”. O coup d´État é irmão gêmeo do conceito estratégico mas “esquecido”, a raison d´État.

É imensa a literatura sobre o golpe de Estado e a razão estatal. O símbolo maior de todas as análises e propostas encontra-se no maquiavelismo. Não cabe neste espaço analisar todas as interpretações do Florentino e de suas fórmulas brilhantes sobre o exercício do poder. O juízo de Spinoza, autor da mais relevante Ética moderna, resume o que é possível dizer sobre Maquiavel e a conservação do poderio político: “Maquiavel, agudíssimo autor, apresentou com detalhes as medidas a que um príncipe recorre, quando dominado pelo desejo de poder, para fundar e conservar o seu domínio. Mas perde-se com frequência o sentido de suas palavras. Se pensamos que ele tenha destinado aos homens uma lição útil, o que é provável em pessoa tão sábia, ele teria querido —parece— mostrar o quanto a tentativa de suprimir brutalmente um tirano não é eficaz sem que as causas da tirania tenham sido suprimidas, causas que produzem a tirania do principe. Tais causas apenas se reforçam se o principe encontra motivos maiores para ter medo. É apenas a isso que a multidão chega quando ela derruba o príncipe e se gloria do assassinato de um chefe consagrado , como se tivesse cometido uma ação meritória ao praticar um parricídio. Ou talvez Maquiavel tenha querido mostrar que a multidão livre não pode confiar sua salvação a um homem isolado. Pois ele, a menos que seja excessivamente vaidoso e imagine que pode agradar a todos os seus governados, temerá diuturnamente as suas armadilhas. Ele será obrigado a se manter alerta e jogar, por sua vez, armadilhas contra a multidão, em vez de garantir, como seria o seu dever, os interesses gerais. Esta é a intenção, no meu entender, que deveríamos emprestar ao nosso autor. Porque é muito certo que tal homem prudentíssimo amava a liberdade e apresentou salubérrimos conselhos para a sua conservação”. Num escritor decoroso como Spinoza, ressaltam os superlativos sobre Maquiavel: acutissimus, prudentissimus, saluberrima consilia. A inteligência e a cautela são as virtudes políticas mais requeridas na política, sobretudo quando se trata de impôr ou derrubar governantes. Maquiavel encontra-se em todas as linhas, ou entrelinhas, do que foi chamado depois dele a razão e o golpe de Estado. (3)

O “autor prudentíssimo” foi atacado na França desde cedo. Como no prefácio ao importante Vindiciae contra tyrannos (1581) onde ficamos sabendo que as teses de Etienne Junius Brutus “são manifestamente contrárias às práticas perversas e conselhos perniciosos e também adversárias das falsas e pestíferas máximas de Nicolau Maquiavel”. Os livros do Florentino “afiam o espírito de certas pessoas para encontrar os meios de subverter o Estado, com ajuda trazida pela autoridade dos governantes. Maquiavel colocou os fundamentos da tirania nos seus livros, como é notório nos preceitos e ensinamentos detestáveis semeados por ele aqui e acolá”. A doutrina maquiavélica “é bobagem perversa e perniciosa ao gênero humano. Ela arruina a si mesma e não subsiste, mesmo sendo forte”. (4)

A mais contundente refutação de Maquiavel vem Innocent Gentillet no Discurso sobre os meios de bem governar e manter em boa paz um reino ou principado. Dividido em três partes, a saber: sobre o Conselho, da Religião e da Política que deve manter um Príncipe. Contra Maquiavel Florentino (1576). (5) Para os líderes políticos e intelectuais protestantes, após a Noite de São Bartolomeu (1572), a França é nutrida por Maquiavel. Entre as acusações à doutrina e à prática dos que dirigem o Estado francês, existe a denúncia de que todos eles eram ateus. “Não devemos nos maravilhar” afirma Gentillet, “se os que pertencem à nação de Maquiavel (postos no governo da França) tenham abandonado o antigo modo de governar dos nossos ancestrais francêses, para introduzir e por em uso na França a nova maneira de governar o país, ensinada por Maquiavel”. E Gentillet apoia-se no desprezo do próprio Maquiavel pela França e pelos francêses, os quais, segundo o italiano, nada entendiam dos negócios estatais.

Assim, muitos francêses (sobretudo os protestantes e os demais perseguidos pelo reino que se instalava sob os auspícios da razão e do centralismo) enxergavam nos golpes de Estado o grande e pernicioso contributo maquiavélico. Golpes brancos ou rubros de sangue, o fato é que Maquiavel teria a paternidade do monstro estatal que tudo devorava na França, da liberdade antiga às riquezas privadas que seguiam para os cofres reais. Além, naturalmente, da repressão impiedosa e do monopólio da polícia e do exército.

Maquiavel, de fato, redige páginas inteiras sobre os golpes de Estado, tanto no mundo antigo quanto na sua Itália destroçada. Gênio agudo, ele descreve as conspirações e mostra os seus perigos, tanto para o governante quanto para os rebeldes. Dessa violência, extrai o lema famoso : Non vive sicuro un principe in uno principato, mentre vivono coloro che ne sono stati spogliati. Mas ele aponta o outro lado da contradição (para falar como os hegelianos e marxistas) : os príncipes devem saber dos graves riscos e da perda de sua coroa quando “violam as leis e os costumes sob os quais o povo vive desde longa data”. É mais fácil diz ele, ganhar o respeito e amor dos cidadãos honrados do que o dos bandidos, mais fácil submeter-se às leis do que violentá-las. Como aproveitar a lição no caso do Brasil atual ? Seria mais fácil ao atual governo brasileiro receber o apoio da cidadania honesta do que o amor de quem exige mesada para aprovar projetos palacianos. Os honestos não desejam golpes, os desonestos vivem apenas dos golpes, financeiros ou institucionais. Mas deixemos esse ponto e sigamos.


Na gênese do moderno Estado francês portanto, Maquiavel é estrategico, bem como a noção de golpe de Estado. O texto mais influente sobre os dois temas foi redigido por Gabriel Naudé : Considerações Políticas sobre os Golpes de Estado (1679). (6) O autor apresenta o golpe como remédio a ser definido com prudência. Seguindo Charron, ele apresenta as regras dos golpes: os conspiradores devem operar no modo preventivo, jamais ofensivo. O golpe serve para que o Estado se defenda, não para aumentar os territórios, ele deve ser dado para que o país se defenda das armadilhas e não para aplicá-las.Se é verdade, segundo Aristóteles, que os governos são derrubados pela fraude, os golpistas devem agir com fraude honesta ao enfrentar as raposas com astúcia de raposas. Aqui surgem os ecos do livrinho importante de Torquato Aceto, Della dissimulazione onesta (1641), relevante nas teses sobre a razão de Estado. Os golpes são necessários para salvar o povo e o reino mas devem ser postos em movimento devagar, nunca em ritmo célere. Os meios para aplicar um golpe devem ser fáceis, jamais complicados. O governante precisa parecer atribulado ao dar um golpe e fazer como o pai que assiste a ablação de uma perna do filho : contrito e só golpeando com desprazer. Os golpes devem ser desfechados quando o governante ainda possui força suficiente para garantir o dia seguinte.

A regra maior dos golpes é extraída do pensamento romano : salus reipublicæ suprema lex. Para os que imaginam Montesquieu como partidário de uma condenação absoluta dos golpes, é preciso recordar que o autor retoma todos os pensadores citados acima, sobretudo Maquiavel, Spinoza, Naudé. O Espírito das Leis avança, a propósito das sucessões no poder, o princípio de todos os golpes. “Quando a lei política, que estabeleceu certa ordem de sucessão no Estado torna-se destrutiva do corpo político para o qual ela foi feita, não se duvide que uma outra lei política possa mudar tal ordem; e longe da segunda lei ser oposta à primeira, ela será bem no fundo inteiramente conforme à ela, pois as duas dependerão do princípio segundo o qual a salvação do povo é a lei suprema”. (7). Embora Montesquieu esteja no fundamento de repúblicas abrigadas dos golpes de Estado, no pensamento de muitos juristas e políticos golpistas a passagem citada permanece como fonte de raciocínio e justificativa para intervenções drásticas. É sublinhemos que as piores tormentas sofridas pelos Estados encontram-se nas lutas relativas à sucessão do governo. No Brasil, a história é muito conhecida.

Para aplicar ou prevenir golpes de Estado, desde o início da instituição política, saberes são exigidos. É por um motivo assim que líderes incultos representam permanente perigo para qualquer regime. No Brasil de hoje alguns demagogos falam em golpe. E com as tramóias descobertas no Estado e nos partidos políticos, os amigos do Planalto e dos “cargos de confiança”, mas também das verbas milionárias, espalham fantasias sobre um golpe para desestabilizar o príncipe, abreviando o seu mando. As tolices ganharam foros de ciência política e quejandos. Enquanto esperam as CPIs e seus resultados, seria interessante que os partidários do poder lessem Maquiavel, Spinoza, Montesquieu e Gabiel Naudé. Tenho certeza de que gastariam menos folego com um golpe imaginário e se interessariam pela análise dos golpes cometidos no dia-a-dia da nossa cambaleante república. Tais providências trariam o selo da ética real, silenciando os slogans nas mentes que não sabem discriminar entre tentativas de golpe e funcionamento cotidiano do Estado. Golpe e razão de Estado são permutáveis. Os petistas que sairam da esquerda, ou insistem em se apresentar com aquele rótulo, têm plena consciência de que os regimes instaurados sob a sua égide brotaram de golpes. E a inspiração maquiavélica encontra-se nas teorias do golpe proletário para instaurar ditaduras. Como partilham o realismo da razão de Estado, os estalinistas no PT ou fora dele aceitam todas as consequências golpistas, desde que o golpe seja imposto por eles. Daí, a perene desconfiança contra os adversários: eles supostamente maquinam golpes sem cessar. Para saber quando é preciso redefinir a lei fundamental para deter a morte do Estado, ou para decidir sobre um golpe, é preciso muita prudência e conhecimento. Como não tiveram nem possuem tempo para leituras, dadas as suas perenes tarefas, líderes e boa parte dos militantes petistas não conseguirão dar um golpe de Estado porque “ditadura” vem de Ars dictaminis, técnica retórica exigida dos governantes e hierarcas religiosos. A raiva contra o pensamento, nas hostes petistas, recorda o dito medieval : rex illiteratus est quasi asinus coronatus. Eles desejam, mas não possuem os saberes para instalar uma ditadura. Apedeutas não ditam, como disse Julio Cesar contra os misólogos de seu tempo : Sylla nescivit literas, non potuit dictare (Sylla ignorava as letras, não podia ditar. (8) Com sua truculência, os amigos do rei solapam a confiança dos cidadãos honestos no Estado de direito. Mas o mal nem sempre dura. Pelo voto, os que identificam as suas pessoas ao Estado e repetem no Brasil de modo hilário a tolice de Luis XIV, deixarão os palácios. Rumo à insignificância.

Notas


(1) Para essas referências e temas, conferir Dominique Reynié :”Le regard souverain, statistique sociale et raison d´État du XVIe au XVIIIe siècle”, in La Raison d´état: politique et rationalité. Paris, PUF, 1992. Informações importantes encontram-se em Christian Lazzeri e Dominique Reynié : Le pouvoir de la raison d´État. Paris, PUF, 1992. Análises rigorosas de Y. Ch. Zarka (org.) Raison et Déraison d´État. Paris, PUF, 1994. Cf. Roberto Romano: “Reflexões sobre impostos e razão de Estado”, Revista de Economia Mackenzie. Cf.www.mackenzie.br/editoramackenzie/revistas/economia/

(2) Cf. Emmanuel Le Roy Ladurie: Saint-Simon ou o sistema da Corte. RJ, Civilização Brasileira, 2004.
(3) Para uma excelente análise de Spinoza, sem os ranços demagógicos e as ideologias superficiais costumeiras, cf. Alexandre Matheron :”Passions et institutions selon Spinoza” in La raison d´État: politique et rationalité, citado acima. Outro texto que vale a pena encontra-se em Maria Luisa Ribeiro Ferreira: A Dinâmica da Razão na filosofia de Espinosa. Lisboa, C. Gulbenkian, 1997.
(4) Etienne Junius Brutus. Vindiciae contra tyrannos. Traduction française de 1581. Genève. Droz. 1979.
(5) Innocent Gentillet : Anti-Machiavel. Edition de 1576. Genève, Droz, 1968.
(6) Gabriel Naudé : Considérations politiques sur les coups d´État. Edição de Simone Goyard Fabre. Centre de Philosophie et Politique. Université de Caen, 1989.
(7) De l´Esprit des Lois, Livro 26, cap. 23, Bibliothèque de La Pleiade, p. 774

(8) Francis Bacon: Essais, “Of Seditions And Troubles”.

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