Flores

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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Blog de Frederico Vasconcelos. Folha. "Basta de impunidade", diz Roberto Romano

Professor de Ética e Filosofia Política vê campanha para desmontar as carreiras da magistratura e do Ministério Público.

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Sob o título “A vingança contra a justiça“, o artigo a seguir é de autoria de Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp.
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Nenhum cidadão, que contribui com pesados impostos para manter o Estado brasileiro, concorda com pagamentos abusivos, incluindo os que se destinam aos magistrados ou membros do Ministério Público. A maioria esmagadora das pessoas que integram aquelas carreiras trabalha arduamente em prol de um país mais justo e menos corrupto sem viver, como os nossos governantes, em palácios mantidos pelo erário oficial.
Com a operação Lava Jato e outras iniciativas dignas de respeito, Ministério Público e magistratura escrevem uma nova e digna página da nossa história, com a prevalência da ética e dos princípios republicanos.
A exibição repetida dos casos individuais, como o dos juízes de Mato Grosso e algumas reiterações midiáticas trazem à memória determinada cena em que o PCC colocou fogo em um único ônibus e a TV mostrou ao vivo, repetindo o fato o dia inteiro, levando muitas pessoas a pensar que ônibus e terror estavam espalhados por toda a cidade de São Paulo.
A propaganda pode facilmente induzir as pessoas a pensar que as exceções são a regra. Mas aquele comportamento não se restringe a uma parte importante da mídia. Também entra na mesma campanha o Sr. Gilmar Mendes, ministro no Supremo Tribunal Federal, que tem feito articulações e pedido votos a políticos e tem-se envolvido em atividades impróprias para magistrados, como dar declarações à imprensa acerca do mérito de casos que irá julgar, sem falar das decisões favoráveis a poderosos, como o sócio do seu cunhado, envolvido na Operação Lava Jato.
O ministro, sobretudo nos últimos tempos, dedica-se a demonizar o Ministério Público e a magistratura, especialmente os extratos das carreiras dedicadas à luta contra a corrupção. O procurador-geral da República foi por ele ofendido porque apenas cumpriu seu dever, logo após vir à tona a delação de Silval Barbosa, ex-governador de Mato Grosso, onde nasceu.
O mesmo Senhor Gilmar Mendes ajudou poderosamente a absolver Michel Temer por “excesso de provas” em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, após o voto rigoroso e técnico do relator Herman Benjamin.
A verdade por trás do ataque, urdido em palácios contra a magistratura e o Ministério Público, é que se pretende minar o sistema remuneratório de ambas as carreiras como estratégia para enfraquecer o controle da corrupção.
Se a meta fosse corrigir o que está errado, o embate deveria ter como alvo os casos específicos e individuais de pagamentos indevidos, e não, as carreiras como um todo. E seriam revistos os programas de anistia fiscal, que custarão 78 bilhões à União, ou mesmo divulgadas, em nome do princípio constitucional da publicidade, palestras pagas aos ministros do STF, quanto eles recebem, quem são os contratantes.
O Planalto quer aprovar o Projeto de Lei 6726/16, –inconstitucional por vício de iniciativa– articulado pelo senador Renan Calheiros e outros. O governo proclama querer com isto minimizar o déficit público. Este ponto é apenas o pretexto, bem ideado aliás, porque parte relevante da mídia aprecia criticar o que se paga no Brasil a juízes e membros do MP. Tal como um mantra, entoa-se uma inverdade, repetida à exaustão até se transformar em certeza.
Se o governo estivesse interessado em mudar o quadro do déficit, cortaria imediatamente cargos de confiança da presidência –como prometeu quando assumiu após o impeachment– em número quase 10 vezes superior aos da Casa Branca.
O governo deveria dar exemplo e abrir mão de privilégios como o cartão corporativo ilimitado, palácio com banquetes, carro oficial, plano de saúde vitalício ou uso de aviões da FAB. O prefeito de Londres é visto voltando para casa de metrô após trabalhar. No Brasil, basta exercer a função de senador por seis meses para ter direito a plano de saúde vitalício financiado pelos tributos, para si e para a esposa. O governo vive um eterno Baile da Ilha Fiscal, mas a tomada da Bastilha pode estar próxima.
Se a finalidade fosse mudar tal quadro, haveria imediato corte no número de 25 assessores permitido a um deputado federal e de 75 a um senador. O gabinete de um deputado chega a medir cerca de 20 metros quadrados, onde podem ser acomodados 3, 4 ou no máximo 5 assessores. Os demais operam no estado de origem do parlamentar para eternizá-lo no poder, já que não há limite de mandatos seguidos.
Assim ocorre o uso da máquina, com deslealdade em relação aos que disputam as eleições sem ter os mesmos privilégios. Dezenas de milhares de cargos de confiança poderiam ser extintos. Mais o corte do perdão dos 78 bilhões e a eliminação dos casos indevidos na magistratura e MP e o quadro seria outro.
As remunerações de um magistrado ou membro do MP podem e devem ser discutidas com franqueza, transparência e abertura republicanas. Mas é descabido almejar que enfrentem os detentores do poder sem justa remuneração, estando sujeitos a intimidações e pressões, como a salarial por exemplo.
Trata-se, nos dias atuais, de inequívoca vingança, orquestrada visando o desmonte destas carreiras, o que levaria a um desastre à democracia, ao descontrole da corrupção e ao fim do próprio Estado de Direito.
Ao mesmo tempo em que a campanha sobre os salários dos juízes e promotores corre solta, sem ouvir o contraditório, fala-se em aprovar quase 4 bilhões para o fundo partidário em prol dos partidos políticos e o relator da reforma política, o mesmo que queria impedir prisões de políticos oito meses antes das eleições e doações de campanha ocultas, declara que o valor é ínfimo perto dos bilhões da Lava Jato. Além disso, é proposto o chamado distritão, que só existe em Vanuatu, Afeganistão, Kuait e Emirados Árabes, clara tentativa de prorrogar os atuais mandatos sem ouvir o povo.
Basta de impunidade e de desrespeito à nação brasileira!

terça-feira, 22 de agosto de 2017

The Washington Post, interessante matéria...


It’s time to talk about Trump’s mental health



Opinion writer
How unstable and divorced from reality is President Trump? We’ve reached the point where the nation has the right and the need to know.
We’re not accustomed to asking such questions about our presidents. We don’t know how to even begin inquiring into a president’s mental health, so we rationalize aberrant behavior as being part of some subtle strategy. We say that Trump is cleverly playing to his base, or employing the “madman theory” of foreign relations, or simply being unpredictable to gain an advantage by keeping everyone off balance.
But if Trump were really playing three-dimensional chess, presumably he’d be getting things done. His approval ratings would be rising rather than falling. Allies in Congress would be expressing admiration rather than increasing dismay.
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Sen. Bob Corker (R-Tenn.) hit a nerve Thursday when he said that Trump “has not yet been able to demonstrate the stability nor some of the competence” needed in a president. That indictment was significant because Corker, who chairs the Foreign Relations Committee, is a respected Capitol Hill veteran who chooses his words carefully — and who thus far has been willing to give Trump a chance. Corker said he feared that “our nation is going to go through great peril” and called for “radical change” at the White House.
Democrats have been slightly more plain-spoken. Rep. Adam B. Schiff told CNN on Sunday that “I certainly think that there’s an issue with the president’s capability.” And fellow California Rep. Jackie Speier tweeted last week that Trump “is showing signs of erratic behavior and mental instability that place the country in grave danger.”
Play Video 2:27
GOP grapples with response to Trump
After President Trump's most recent rhetoric about Charlottesville inflamed even more criticism, a handful of GOP lawmakers, including Sens. Bob Corker (R-Tenn.) and Lindsey Graham (R-S.C.), are criticizing Trump directly, while others stay silent. (Jenny Starrs/The Washington Post)
Speier went so far as to call for action under the 25th Amendment, which allows the vice president and the Cabinet to relieve the president of his “powers and duties” if he is unable to discharge them.
Trump’s performance last week following the Charlottesville incident was indeed alarming, the problem being not just what he said but how he said it. After initially blaming the violence — which led to the death of 32-year-old Heather Heyer — on “many sides,” Trump reversed course and specifically condemned neo-Nazis and the Ku Klux Klan — but looked like the reluctant star of a hostage video. Then the next day, Trump went back to blaming “both sides” in what can only be called an angry, red-faced rant.
We should assume that the ugliness we heard from Trump about Charlottesville reflects his true feelings. And we can conclude that he failed to grasp how jarring those sentiments would sound to most Americans’ ears.
Anyone can have a bad day. But according to many published reports, Trump often erupts into rage — especially when he sees something he doesn’t like on the cable news shows he is said to watch compulsively.
In his Twitter postings, he increasingly lashes out in ways that are counterproductive. I can see some method behind his incessant ranting about “fake news,” which may actually help him with his political base. But why attack Senate Majority Leader Mitch McConnell (R-Ky.) whose help the president needs if he is to get legislation passed or nominees approved? Why campaign against Sen. Jeff Flake (R-Ariz.), who has been a frequent critic but ended up supporting Trump on health care? Is Trump unable to imagine how other GOP senators — whose votes he needs if he is to get anything done — are going to react?
I have spoken with people who have known Trump for decades and who say he has changed. He exhibits less self-awareness, these longtime acquaintances say, and less capacity for sustained focus. Indeed, it is instructive to compare television interviews of Trump recorded years ago with those conducted now. To this layman’s eyes and ears, there seems to have been deterioration.
I am not professionally qualified to assess the president’s mental health; psychiatrists and psychologists who have the proper credentials and experience to do so are silenced by ethical rules. The stakes are so high, however, that the officials who work alongside Trump and observe him closely bear a tremendous responsibility. There is a huge difference between sounding as unhinged as North Korea’s Kim Jong Un and actually being that unstable.
It is of some comfort that Trump is surrounded by levelheaded military men — Defense Secretary Jim Mattis, national security adviser H.R. McMaster and Chief of Staff John Kelly — who are unlikely to do anything rash. But no one elected them.
It is uncomfortable to talk about the president’s mental health. But at this point it is irresponsible not to.

Frei Aidan Nichols, OP tem feito críticas aos textos do papa Francisco. Vale a pena ter contacto com os escritos do frade. Eles são mais substanciosos do que os gerados pela direita católica.


How Not to Be Ecumenical

October 1993By Brian Barbour

Brian Barbour, who recently re­turned from doing sabbatical re­search at Cambridge University, is Professor of English at Providence College in Rhode Island.
The Panther and the Hind: A Theological History of Angli­canism.  By Aidan Nichols. T. & T. Clark (Edinburgh, Scot­land). 186 pages. $12.


The contents of this timely book are well conveyed by its sub­title. In nine compact chapters, Fr. Aidan Nichols, an English Do­minican, presents the main lines of Anglican development from the 1530s to the present. Scholars will be familiar with this material, but the author has a different audience in mind: the Catholic layman who wishes to know how and why Anglicanism arose, what is dis­tinctive about it, how it developed, why it has its current form, and what the prospects for reunion with Rome are. So successful is he in this endeavor that it is to be hoped that an American publisher will be quickly found.

"Anglicanism," the via media between Protestantism and Rome, was invented by Richard Hooker in the 1590s. He gave it intellectual justification and estab­lished the basis for its apologetics. But he was writing long after the fact, for the English Reformation had occurred in the 1530s and was not an ecclesiastical but a politi­cal act: It was the state that made the Reformation. A new religion, Ecclesia Anglicana, was imposed from above for economic and po­litical reasons. But King Henry VIII and his associates were often working at cross purposes. British Catholicism was mixed with four elements -- Wycliffite, Erastian, Lutheran, Calvinist -- and the re­sult was fractious. While Henry lived, it was power that mattered and state power held this melange together. His successors, differ­ently placed, had to practice com­promise, as each element sought to dominate the others. During the reign of the boy king Edward VI, Cranmer veered first in a strongly Lutheran, then in a Cal­vinist, direction. Elizabeth might have settled for what her father had, but she lacked his power, and the fractious elements had to be held in check. The Elizabethan Settlement was a compromise between the parties and was intended to put an end to all dis­cussion. But, despite Hooker's brilliant efforts, it failed to do so, and the Civil War of the 17th cen­tury was one terrible, perhaps in­evitable, result. The present anomaly of an established church in a secular, indifferent society was yet to come.

If this is familiar to scholars, Nichols's argument may not be. For he contends that the success of the Tudor compromises was deadly. "Anglicanism," he says, "testifies to the wisdom of Tudor government in the latter part of the 16th century. It does not tes­tify to the 'wisdom which is from above' of which the Bible speaks." The subsequent history of Anglicanism is the story of each faction trying to achieve its own end, each attempting to keep the others from imposing their iden­tity on the church, and all held at arm's length from one another by an ongoing series of political ar­rangements. Not surprisingly, there grew up from within the notion that disparate elements of Christianity, no matter how con­tradictory, could be brought to­gether. It was this "comprehen­siveness," not truth, that came to be prized. But behind it lay only incoherence. That this was inher­ent in the project and not a later development is suggested by the apposite quotations from Dryden's The Hind and the Pan­ther (1687), with which each chap­ter begins. Three hundred years ago the poet saw the situation with radical clarity: Compromise can yield comprehensiveness, but what it usually costs is truth.

From the first, Anglicanism suffered a crisis of authority. That crisis has persisted and is the deeper issue behind the present conflict over the attempted ordi­nation of women. Cranmer served his master. Religious authority re­sided in the king's pleasure. In an Erastian church, authority resides with political power -- which to­day means the church ac­commodates the times. Graham Leonard, retired Bishop of Lon­don, has described the situation thus: "Nowadays aberrant inter­pretations of Scripture pass unchallenged...." So, what we find in Anglicanism is an Erastian church, composed of competing factions, with an inherent, press­ing crisis of authority.

Ordination of women divides the house today. But this book is timely in another way. Many people take the superficial view that Anglican compre­hensiveness provides a desirable model for the church as a whole. For Nichols this is a disastrous misconception. "If one regards Anglican pluralism as a euphemism for the self-contradictions of a national church, brought into existence for political ends and preserved as a unity by historical nostalgia, one may feel that Anglicanism is a model of how not to be ecumenical." Many think that Anglican-Catholic ecumeni­cal discussions are likely to lead the way to reunion. But it isn't go­ing to happen. When American Catholics think of Anglicanism, they are usually thinking of the High Church and T.S. Eliot. What Nichols shows is that there is no "Anglican Church." Anglicanism is really an unstable federation of competing factions -- High, Low, Broad -- each with its own out­look and agenda.

Nichols's book brings historical understanding and intellectual pleasure, but its story is one every Catholic ought to find distressing. Sed gratia Dei. Yet de­spite the tragedy of its history, Anglicanism retains a great deal of "mere Christianity" and it contin­ues its local successes: Outstand­ing minds are nourished by it (like E.L. Mascall, to whom this book is dedicated) and good men and women come to holiness of life through its offices. God writes straight with crooked lines.

Nonetheless, we need to reflect on what can happen when we cease to think of the church as the worldwide Body of Christ, as the corporate reality of the Incar­nation continuing in time, and begin to think of it as an institu­tion or (God forbid!) a power structure, something we can ap­propriate and direct for our own ends. American Catholics should take note.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Uma entrevista com Maria Sylvia Carvalho Franco, na qual boa parte das teorias sobre o Brasil sào dissecadas com lucidez, para infelicidade dos batalhões ideológicos que pululam nos campi brasileiros. RR

http://www.scielo.br/pdf/trans/v4/v4a01.pdf

Jornal da Unicamp, Roberto Romano : O nazismo não mora apenas em Charlottesvile

Roberto Romano da Silva é professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Autor de vários livros, entre eles “Brasil, Igreja contra Estado” (Editora Kayrós, 1979), “Conservadorismo romântico” (Editora da Unesp), “Silêncio e Ruído, a sátira e Denis Diderot” (Editora da Unicamp), “Razão de Estado e outros estados da razão” (Editora Perspectiva). 

O nazismo não mora apenas em Charlottesvile


Foto: Reprodução “Ainda é fecundo o ventre de onde surgiu a besta imunda”. A frase é profética. Nela, Brecht revela a desgraça da suposta civilização moderna e a face horrenda das sociedades que portam a máscara democrática. Elas disfarçam a gravidez do estado de exceção com frangalhos de leis, retóricas camaleônicas. As instituições, em compasso de espera, nas delações premiadas e tribunais enviesados, falecem por causa dos monstros que alimentam nas suas barrigas de aluguel. Europa, Estados Unidos, Brasil: o nazismo está na ordem do dia.
Foto: Reprodução
Manifestação em Chartlottesvile, EUA: a reboque de um mandatário bufão | Foto: Steve Helber AP
As peças de Bertold Brecht alertam as consciências entorpecidas pela propaganda, martelada dia e noite pelos que assassinam direitos, liberdade, vidas dos “negativamente privilegiados” (Max Weber). Terror e miséria do Terceiro Reich (Furcht und Elend des dritten Reichs) peça espantosamente atual, expõe o pavor imposto pela generalizada delação, comum no raivoso nacionalismo. Recordemos que o autor usa a língua de Lutero. O reformador, ao traduzir a Carta aos Romanos (13, 1-7) usa o termo “Furcht”para salientar o elevado e sublime poder divino, fonte legítima de mando político. O medo trazido pelo nazismo não é  divino, mas miséria humana absoluta. Pena que no Vaticano de Pacelli, a concepção do Apóstolo tenha sido desviada até o cerne. Leia-se o pungente O Papa e Mussolini, publicado por David Kertzer. Numa cena estratégica do texto brechteano vemos o juiz com receio de julgar certo processo, porque alguns acusados pertencem à SA e, do outro lado, acusadores operam na SS. Como manter a impessoalidade do tribunal em semelhante choque de poderes? De outro lado, pais temem que seus filhos os delatem como contrários ao regime, porque aquela é a norma da juventude hitlerista. Cena patética numa prisão: o comunista critica o socialista por ter negado a frente única contra o fascismo, preferindo dar a vitória aos sequazes de Hitler, em vez de se aliar aos comunistas. Análises agudas de toda a produção brechteana podem ser lidas na imprensa alternativa, mesmo em nossos dias. Por exemplo no site lesmaterialistes.com, onde surgem leituras oportunas sobre Brecht e o nazismo.

Diderot, no início do “Plano de uma universidade, ou de uma educação pública em todas as ciências”, afirma com estilo também profético : “instruir uma nação, é civilizá-la. Diminuir os conhecimentos é a conduzir ao estado primitivo da barbárie. A Grécia foi bárbara; ela se instruiu e se tornou florescente. E o que ela é hoje? Ignorante e bárbara. A Itália foi bárbara; ele se instruiu e se tornou florescente. Quando a ciência e as artes se afastaram, o que ela se tornou? Bárbara. Tal foi também a sorte da África e do Egito; e tal será o destino dos impérios em todos os lugares da terra e em todos os séculos futuros”.

Não existe permanência garantida para a existência humana civilizada, sem que os saberes científicos e técnicos domem a barbárie. As artes, fruto mais delicado do espírito, moldam a sensibilidade, ajudam na tarefa de Sísifo: refinar  paixões e vencer a selvageria que dormita em todos e cada um dos que se abrigam nos coletivos humanos. A civilização possui fendas que, a qualquer momento, podem levar massas, governos, religiões, pensamentos, ao abismo. 

Volto ao teatrólogo. “O fascismo não é o contrário da democracia, mas sua evolução em tempo de crise”. Em outro contexto, na peça aludida acima, Terror e miséria do Terceiro Reich, surge a passagem do pensamento liberal à tirania nazista, ilustrada pela técnica da mentira e do medo, a perda da liberdade e dos direitos das grandes massas, o que implode a democracia. 

O que assistimos nos EUA, com a presidência Trump? Fruto da ausência de emprego, instrução e cultura, o mandatário bufão (palhaços no poder são perigosos, o exemplo de Hitler seria um aviso) levantou a capa superficial de civilização que enfeitava a sociedade, trouxe à luz o ressentimento, os preconceitos, o racismo e o nazismo de vastas camadas dos “negativamente privilegiados” norte-americanos.   Ele prometeu devolver a América aos brancos, banir os estranhos, impor uma nova leitura de “Law and Order”. Ele prometeu a guerra contra a democracia, a caçada ao diferente, a morte do “inimigo interno”.   Chamou a paixão do ódio como eficaz cabo eleitoral. E venceu. Charlottesville não é causa de nada, mas sintoma do que vai no ventre imundo da besta. 

No Brasil, segue a rotina de negar as Luzes. Aqui, os poucos combatentes em prol do saber e da técnica estão a cada minuto mais isolados. Eles são vozes a clamar no deserto. A rede universitária, gerada em décadas de batalhas, está sufocada pela ausência de recursos financeiros e pela fuga de cérebros. O brain drain faz razzia em todo mundo, mas aqui aparece sua face genocida: pesquisas graves na área médica e demais setores de saúde pública estão paralisadas. Agências de fomento têm seus cofres aniquilados, pouco sobrou, em termos federais, para a inovação industrial. A Fapesp é uma fortaleza, não sabemos até quando, que resiste com dificuldades crescentes.  Como fruto de semelhante campanha oficial contra os saberes, o Brasil anda rápido para trás em todos os campos científicos, tecnológicos, humanísticos. E, no mesmo passo, milhões de seres humanos aumentam o monstruoso exército de reserva que serve, quase escravo, aos fins do capital especulativo. Aumentamos a barbárie, sem nunca garantir a democracia, o saber científico, a liberdade de expressão. Responsabilidade estatal (nos três poderes) é apenas ....uma palavra, vazia de sentido.  Duas ditaduras recentes mostram o que pode ser o nosso futuro, caso não tenhamos força para barrar a propaganda das “reformas”, ablação última do direito que restou aos “negativamente privilegiados”.
Massas em desespero são cativas de sonhos e promessas. O nazismo, o fascismo e todas as formas de poder ditatorial trazem o ensinamento. Na Alemanha e demais países europeus, os políticos (incluindo os que se diziam progressistas) brincaram com fogo ao desprezar o peso das multidões reduzidas ao nível abaixo da subsistência. Atenção! O ódio que tomou conta de Berlim ou de Charlottesville, mora nas dobras da sociedade brasileira. Parte dos nossos juízes toma o partido dos “positivamente privilegiados”, contra os que perdem os direitos mais comezinhos. Logo, eles serão obrigados a decidir apenas entre os membros da SA e das SS. Não haverá cidadão para julgar, fora dos movimentos fascistas. Ressurgem nas ruas brasileiras os gritos do ódio. É de bom alvitre rever o filme Mephisto. O cômico, quando menos se espera, abre a via da tragédia.  

Mídias Sociais


Um acadêmico covarde (parece tautologia, mas não é, visto que existem alguns acadêmicos não covardes), para perseguir um aluno meu que pedia bolsa à Fapesp, chegou ao ponto de afirmar que eu era estranho à filosofia. Que meus textos eram alheios a qualquer lide filosófica. "Segundo ouvi dizer."escreveu o fulano que nunca leu Spinoza, pela frase usada, que o mostra como usuário do mais baixo grau de inteligência, segundo o autor da Ética, "ele escreve sobre religião e seu livro mais conhecido é O desafio do islã". O enunciado permite perceber até onde vai a baixeza dos assessores que, no anonimato, decidem o destino da pesquisa no Brasil, em especial no âmbito das "ciências"humanas. Segue abaixo o link de um texto velho meu, de 1980, sobre a linguagem em Max Stirner e Feuerbach. Gostaria que boa parte dos "especialistas em filosofia"(rá, rá, rá) um oxímoro, tivessem produções mais achefas à filosofia do que a minha. Estou preparando um livro de memórias sobre todas as coisas que vi, ouvi e olhei no reino animal do espírito. Espero que possa publicar ainda em vida. Aí, nomes e endereços serão dados. Vingança post mortem também vale, não é mesmo Rousseau?

http://www.scielo.br/pdf/trans/v3/v3a06.pdf

domingo, 20 de agosto de 2017

Doria aproveita eventos do Lide para marcar presença em eventos pelo País

Doria aproveita eventos do Lide para marcar presença em eventos pelo País

Desde que assumiu a Prefeitura, tucano já participou de cinco encontros promovidos pela organização que tem 18 unidades no País

Adriana Ferraz e Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo
20 Agosto 2017 | 05h00
O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB-SP), tem aproveitado os eventos promovidos pelo Lide, grupo empresarial criado por ele em 2003, para compor sua agenda de viagens nacionais e internacionais de olho na disputa presidencial de 2018. Com uma lista de filiados que juntos respondem por 46% do PIB brasileiro, como o próprio tucano costuma dizer, a organização conhecida por reunir empresários e políticos já o recebeu em cinco eventos oficiais desde 1º janeiro. No último, no Recife, anteontem, o encontro homenageou Doria diante de uma plateia lotada e atraiu a mídia local – ele concedeu uma entrevista coletiva.
João Doria durante evento em Recife
João Doria recebe homenagem do grupo Lide Pernambuco, em Recife. Foto: Arthur Mota/ESTADAO Foto: Arthur Mota/ESTADAO
Doria não é mais sócio do Lide. O dono e 'chefe' da organização privada hoje é o filho mais velho dele, João Doria Neto. A presença do tucano, no entanto, é agora cada vez mais valiosa, seja para atrair visitantes, seja para definir datas e convidados. O Lide de Goiás, por exemplo, ainda não decidiu quando promoverá seu próximo fórum – sobre segurança pública – porque aguarda uma resposta de Doria sobre sua participação no evento, previsto para outubro. O tema já foi abordado pelo prefeito e pelo Lide em fevereiro, diante do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

O Lide chegou a oferecer a empresários filiados cotas de patrocínio no valor de R$ 50 mil para um almoço-debate em São Paulo, com palestra de Doria, em março. Os pagantes poderiam até se sentar à mesa com o prefeito. Com a polêmica criada entorno do custo e da relação entre o público e o privado, o tucano cancelou sua apresentação, mas compareceu para ouvir o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que acabou virando a estrela da festa

No mês seguinte, em abril, apesar de não configurar na lista de palestrantes, Doria também marcou presença no 16º Fórum Empresarial de Foz do Iguaçu, que teve entre os convidados o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ); o ministro da Educação, Mendonça Filho (PP-PR); e Ives Gandra Filho, presidente do Tribunal Superior do Trabalho. 

De lá para cá, outras duas participações em eventos do Lide ocuparam a agenda de Doria. Uma delas foi cumprida no mês de maio em Nova York com Alckmin, desta vez, como homenageado. A última, no Recife.

Mas, mesmo quando o evento do qual Doria é convidado não tem a bandeira do Lide, o roteiro é o mesmo. Na sexta-feira, por exemplo, antes de desembarcar em Pernambuco, Doria passou por Fortaleza e foi homenageado em um almoço com empresários organizado pela Federação das Indústrias do Ceará em parceria com o Lide Ceará.

Em todos os eventos fora da capital, sejam do Lide, sejam de outras instituições, o prefeito paulistano tem adotado o mesmo discurso nacional, firmado sua posição anti-Lula e ampliado sua cartela de contatos em busca de potenciais aliados. Os admiradores mais animados aproveitam a deixa para puxar o coro de “Doria presidente”, como em Natal, na quarta-feira passada.

“Não somos partidários, não fazemos campanha para ninguém. Essa, aliás, não é a orientação do João (Doria) nem do Lide, que é passado na vida dele. Mas é inegável que hoje qualquer evento com o João ganha uma conotação política”, afirmou o presidente do Lide Pernambuco, Drayton Nejaim, organizador da homenagem de sexta. “Já queríamos dar esse prêmio a ele desde o ano passado, mas só agora houve uma data possível.” Em uma espécie de caravana nacional, o tucano ainda visitou, semana passada, Palmas, no Tocantins; além de Natal, Fortaleza e Recife.

No limite. Para o professor de Ética Política da Unicamp Roberto Romano, Doria está atuando em uma zona cinzenta, quase ultrapassando os limites da lei eleitoral. “Ao participar desse tipo de encontro pelo País afora, o prefeito continua usando da mesma tática que o projetou junto às elites empresariais e políticas. Mas agora ele exerce um cargo público, o que deixa as coisas mais complicadas. Quando se caminha no limite entre o ético e o não ético, entre o legal e o ilegal, o melhor caminho é a prudência”, afirma.

Romano ressalta que o mesmo cuidado vale para outros cotados à Presidência, como o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e o governador Geraldo Alckmin, que, assim como Doria, exercem cargos públicos e agendam viagens pelo País. No caso de Lula e Ciro Gomes (PDT-CE), a regra também vale, mas os dois atualmente não têm mandatos.

Líder do PT na Câmara Municipal, o vereador Antonio Donato diz que o partido prepara uma representação ao Ministério Público na qual questionarão as viagens do tucano e pedirão instauração de inquérito por improbidade administrativa. Sobre a participação do prefeito em encontros do Lide, o petista diz que atitudes como essa mostram que ele continua em campanha. "E para isso mistura sua atividade empresarial com a política. Temos visto que essa promiscuidade não é boa para o País."

Em nota, a gestão Doria afirmou não haver qualquer conflito de interesses no fato de o prefeito participar de um evento para acompanhar palestra de pessoas de destaque do cenário nacional. "Quanto ao evento do Recife, tratou-se de uma homenagem oferecida por empresários que se relacionam com o prefeito."

Atual presidente do Lide, Gustavo Ene afirma que o grupo não realiza encontros pelo País para promover Doria e ressalta que parte desses eventos é organizada pelas unidades estaduais, que são autônomas.