Flores

Flores
Flores

quinta-feira, 1 de junho de 2017

"É um escárnio ter um Romero Jucá no Conselho de Ética", diz Roberto Romano UOL. 01/06/2017

"É um escárnio ter um Romero Jucá no Conselho de Ética", diz Roberto Romano

Aiuri Rebello
Do UOL, em São Paulo

  • Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
    O senador Romero Jucá (PMDB-RR) participa de sessão no Congresso
    O senador Romero Jucá (PMDB-RR) participa de sessão no Congresso
À direta ou à esquerda do espectro político e partidário brasileiro, cientistas políticos ouvidos pelo UOL são unânimes em avaliar negativamente a escolha de réus em ações penais no STF (Superior Tribunal Federal) como integrantes do Conselho de Ética do Senado. 

Nesta terça-feira (30), o Senado aprovou em plenário as indicações dos partidos políticos para 20 das 30 vagas no Conselho de Ética da casa. Entre eles, estão nove parlamentares investigados em pelo menos uma ação penal no STF. Três dos senadores respondem a processos na Operação Lava Jato: Eduardo Braga (PMDB-AM), Jader Barbalho (PMDB-PA) e o líder do governo na Casa, Romero Jucá (PMDB-RR). Apenas os dois últimos respondem a 15 investigações (oito de Jucá e sete de Jader). 

O conselho é responsável por analisar eventuais denúncias por quebra de decoro parlamentar que podem levar à cassação do mandato e foi instaurado no Senado com três meses de atraso neste ano. A Rede Sustentabilidade já pediu abertura de processo contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no conselho. Enquanto os trabalhos não começam, a polêmica da composição do conselho fez sua primeira vítima.

Indicado pelo PTB, o senador Telmário Mota (PTB-RR) desistiu do cargo, alegando as más companhias no colegiado. "Meu nome foi indicado pelo meu bloco, Bloco Moderador, para compor a Comissão de Ética, e eu comporia com a maior satisfação e honra", declarou o senador na quarta-feira (30) no plenário. "Entretanto, com essa composição, eu me recuso a fazer parte da referida comissão", completou. O próprio Mota, no entanto, é um dos réus no STF que foram indicados. O motivo não é corrupção, e sim violência doméstica contra a mulher. O senador nega.

Em meio à crise ética na política em geral e no Conselho de Ética do Senado em particular, as previsões que os cientistas políticos fazem para o Brasil são sombrias. Confira abaixo.

"A gente sempre se engana quando acha que chegou no fundo do poço"

Roberto Romano, professor de ética e política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
"Ali temos um retrato fidedigno do que é o Congresso Brasileiro. Esse Conselho de Ética é um anacoluto do Senado. Exprime de forma clara os traços éticos e políticos dos parlamentares: legislam em causa própria, operam ao arrepio da moral da sociedade e viram as costas para a opinião pública. A ética dos políticos que temos no Congresso é essa. Não ligam para o país e as pessoas. No Brasil, onde tudo é tão desigual, a figura do favor ganhou uma função central na sociedade. Quando alguém usa o clássico 'você sabe com quem está falando?', reivindica a rede de favores políticos, econômicos e sociais a que ele tem direito. É o contrário do 'quem você pensa que é?', que os norte-americanos usam para lembrar alguém que não é melhor ou diferente que ninguém. O político brasileiro opera nesse universo do favor. Faz favores para ele, família, amigos e até adversários, já que se protegem mutuamente contra o restante da sociedade. Esse Conselho de Ética representa o pior tipo de ética que temos no Brasil. A sociedade tem evoluído, mas a política não. Quando legislam em causa própria, os parlamentares o fazem à revelia da maioria da população. No geral, eles não estão no Congresso para garantir a democracia, estão lá para se proteger e prosperar pessoalmente, não para representar a população. A política virou um meio de ascensão social e econômica.

Quando chegamos a uma situação limite, procuramos um salvador da pátria: Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Dutra, militares, Lula... A máquina continua funcionando igual e sendo corrupta, e mais cedo ou mais tarde o salvador é exposto. O presidencialismo de coalizão é corrupção pura e simples. A própria base do sistema político brasileiro é a corrupção. Esse problema não é uma exclusividade brasileira, e nem acredito que o Brasil seja o campeão mundial disso, mas aqui a cultura da punição, do combate, ainda é muito nova incipiente. O novo Conselho de Ética até pode emitir pareceres e decisões corretos tecnicamente, mas vai faltar legitimidade ao conselho. Imagine a situação de um senador honesto sendo julgado por qualquer motivo por colegas corruptos ou suspeitos de corrupção. Vai ser surreal, cadê a ilibada reputação? Todo mundo é inocente até que se prove o contrário, mas como você vai aplicar uma lei que você é suspeito de não cumprir? É um escárnio ter um Romero Jucá no Conselho de Ética, mesmo que ele seja inocente. A gente sempre se engana quando acha que chegou ao fundo do poço."

Procurada pela reportagem para comentar a indicação e as críticas, a assessoria de imprensa do senador Romero Jucá não atendeu nem retornou as ligações.

"O Brasil é mesmo o país da piada pronta"

Fernando Abrucio, professor de ciências políticas e coordenador do mestrado e doutorado em administração pública e governo da Fundação Getúlio Vargas
"O Brasil é mesmo o país da piada pronta. Isso demonstra o quanto a classe política nacional está de costas para a sociedade. Vivem em uma bolha sem entender o quanto a sociedade os rejeita e este tipo de prática. É uma contradição enorme: eles abraçaram uma agenda moderna, de reformas econômicas, e colocam isso como salvação do país. Como se com isso fossem capazes de escapar incólumes, escondidos embaixo do pacote de reformas. A bandeira esconde os políticos e um sistema político carcomidos, datados, sem nenhum compasso com os anseios das pessoas. Até quando vai durar esta esquizofrenia? Uma agenda política de modernização tocada pelo que há de mais velho, arcaico e errado. Essa oligarquia política autocentrada e patrimonialista tentando impor mudanças legislativas profundas ao país, carecendo de legitimidade para tanto, é uma bomba relógio para o país e só aprofunda o fosso entre os políticos e a sociedade. Neste cenário, é natural que eles se fechem em si mesmos e tentem de qualquer forma se proteger."

"Essa situação no Conselho de Ética não surpreende"

Francisco Fonseca, professor de ciências políticas da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) e da Fundação Getúlio Vargas

"Essa situação no Conselho de Ética não me surpreende por que a política brasileira vive em estado de exceção. Desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a tomada do poder pelo grupo político que aí está no comando, criou-se uma ruptura e um abalo institucionais que culminaram na completa falta de legitimidade dos governantes que temos hoje. Eles não governam para ninguém fora eles mesmos e um pequeno grupo econômico forte que ainda os apoia. A principal intenção do grupo político que tomou o poder sempre foi se proteger contra investigações e punições desde o começo. Essa decisão dos partidos de indicar suspeitos para o Conselho de Ética é simplesmente mais um passo nesse sentido, nessa estratégia. 

Por outro lado, temos as distorções provocadas pela Operação Lava Jato, que distorce a ordem jurídica institucional ao prender sem provas e direcionar suas investigações. É uma verdadeira Inquisição. O fato de alguém ser citado ou suspeito na Operação Lava Jato de Curitiba não quer dizer nada por si só. As delações dos irmãos Batista desmoralizaram a Operação Lava Jato em Curitiba. Você pega o Aécio e pessoas ligadas a ele, por exemplo. Já havia sido delatado na Lava Jato diversas vezes, sem que fosse efetivamente investigado. Foi só a denúncia ser feita em outra esfera, na PGR e no STF, que em cerca de um mês ele foi afastado do mandato, dada a quantidade de provas que parece haver contra ele. 

Mas mesmo a presunção de inocência tem limites. Terem a coragem de indicar o Romero Jucá para um conselho de ética é demais. Por mais que possa ser inocente, parece demais não ser e, já que é assim, mais adequado seria esperar a conclusão dos processos e investigações fora de um lugar tão emblemático. A indicação de nomes assim mostra a importância desse conselho. Está aparelhado pelo mesmo grupo político que articulou o impeachment, que para mim foi um golpe, que dá suporte ao governo e quer se proteger."

"Não tenho nem o que dizer. Procurar alguém íntegro e ético hoje na política é quase irreal"

Paulo Kramer, professor licenciado de ciências políticas da UnB (Universidade de Brasília)
"Não tenho nem o que dizer. Hoje tudo está subordinado à imensa crise política no país. Procurar uma lanterna de Diógenes, alguém íntegro, ético, hoje é quase irreal. Dado que são as relações patrimonialistas que regem as relações políticas no Brasil, é natural que chegássemos a essa situação onde não sobra  quase nenhum político para servir de exemplo. Os parlamentares são meros coadjuvantes. Com a chegada do 'lulopetismo' ao poder, em 2003, essa dinâmica se agravou. Antes tínhamos uma corrupção artesanal, digamos, que virou algo industrial. Antes os políticos roubavam para enriquecer, e com o PT passaram a roubar para perpetuar-se no poder indefinidamente. Neste cenário, o papel dos parlamentares virou de coadjuvante. Então o 'lulopetismo' levou o modelo do presidencialismo de coalizão ao limite.

O que era normal agora não funciona mais, e ainda não sabemos no que essa instabilidade toda vai dar. Enquanto isso, os políticos vão tentando sobreviver, como sempre. Outra coisa: sinceramente, qual é o senador que pode dizer hoje que é 100% ético para estar lá? Fica complicado, não tem muita opção. Além do que, no meio dessa crise política e econômica, o que eles fizerem lá vai ter uma repercussão menor. A grande limpeza entre os parlamentares vai acontecer pelas mãos da polícia e Justiça e por meio das eleições do ano que vem. Acredito que boa parte deles já não volta para Brasília a partir do ano que vem. Temos que ver se vai melhorar ou não."

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Um Papa muito popular, mas não entre os bispos Revista ihu on-line

Um Papa muito popular, mas não entre os bispos

Revista ihu on-line

  • Um Papa muito popular, mas não entre os bispos

    LER MAIS
  • Lula não unificará esquerda se propuser 'mais do mesmo', diz Guilherme Boulos

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU
30 Maio 2017
Com a nomeação do cardeal Gualtiero Bassetti à presidência, após ficar três anos como secretário geral, o Papa Francisco tem agora o pleno controle da Conferência Episcopal Italiana, na qual já um terço dos bispos foram incardinados por ele, também na diocese de primeira grandeza como Bolonha, Palermo, o viacariato de Roma e, logo, também Milão.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 28-05-2017. A tradução é do Cepat.

As nomeações são um elemento chave da estratégia de Jorge Mario Bergoglio. Basta ver como está remodelando a sua imagem o Colégio de Cardeais, que no futuro elegerá seu sucessor. Depois da última fornada de púrpuras, anunciada há uma semana para o final de junho, torna-se mais distante a hipótese que o próximo Papa possa marcar um retorno ao passado.

Contudo, Itália à parte, a conquista do consenso dos bispos é para Francisco uma empresa nada fácil.

Os únicos episcopados nacionais com os quais pode contar, hoje, são os da Alemanha, da Áustria e da Bélgica, ou seja, aqueles das nações que a Igreja Católica está sofrendo a decadência mais dramática.

Ao passo que, ao contrário, as muito mais vitais Igrejas da África são as que se alinharam de forma compacta, nos dois combatidos sínodos sobre a família, contra as inovações desejadas pelo Papa.

Além disso, caso se observe a América, tanto do norte como do sul, o quadro parece ainda mais desfavorável para o Papa.

No Canadá, os seis bispos da região de Alberta tomaram posição publicamente contra o caminho livre dado por Francisco à comunhão para os divorciados em segunda união, ao mesmo tempo em que nos Estados Unidos a Conferência Episcopal escolheu como seu presidente, no último mês de novembro o cardeal Daniel N. Di Nardo, ou seja, justamente um dos treze cardeais da memorável carta de protesto que enfureceu Bergoglio, no início do último sínodo.

Nos meios de comunicação estadunidenses, esta eleição foi acompanhada como um referendo sobre o Papa Francisco, e havia motivo para isso. Um ano antes, em sua visita aos Estados Unidos, Francisco havia ordenado aos bispos que mudaram de rumo e se posicionaram com ele; e acompanhou suas ordenações com uma série de nomeações próximas ao seu sentir, em primeiro lugar a de Blase J. Cupich como arcebispo de Chicago e cardeal.

Contudo, se houve referendo, Bergoglio o perdeu completamente. Na pré-seleção da nomeação a presidente, de dez candidatos eleitos, apenas um entrou daqueles que lhe agradava entrou. E também as eleições de vice-presidente – dom José H. Gómez, arcebispo de Los Angeles e membro do Opus Dei – e de chefes das comissões foram todas contrárias às expectativas do Papa.

Também na América Latina Bergoglio é pouco amado.

Na Colômbia, os bispos não gostaram, e o fizeram saber, do apoio prejudicial dado por Francisco ao “sim” no referendo para o acordo com os guerrilheiros das FARC. Um acordo que muitos bispos julgaram como um fracasso e que, com efeito, foi rejeitado pelo voto popular.

Na Bolívia, os bispos justamente não suportam a relação tão ostentosamente amistosa entrelaçada entre Bergoglio e o presidente “cocaleiro” Evo Morales, seu acérrimo inimigo, especialmente a partir do momento em que acusaram publicamente as “altas estruturas” do Estado de relações com o narcotráfico.

Na Venezuela, precipitada na catástrofe, entre os bispos há dor e raiva todas as vezes em que o presidente Nicolás Maduro se lança contra eles apelando ao Papa Francisco, gabando-se de seu apoio. E, lamentavelmente, para os bispos as palavras pronunciadas pelo Papa ao comentar a crise venezuelana, durante sua última coletiva de imprensa, no avião, ao retornar do Cairo, soaram muito benévolas ao presidente e malévolas à oposição.

Um análogo sentimento de ser traídos pelo Papa surgiu também entre os bispos da Ucrânia, após o abraço, em Havana, entre Francisco e Cirilo, patriarca de Moscou, visto por aqueles como um enésimo “apoio da Sé Apostólica à agressão russa”.

Isto sem falar da China, onde Francisco continua declarando que “se pode praticar a religião”, ao mesmo tempo em que alguns bispos, e justamente os que mais querem obedecer ao Papa, são perseguidos e encarcerados.

Leia mais

"Vejo sombras no horizonte", diz professor de Ética sobre pasta da Justiça, Correo Braziliense, entrevista com Roberto Romano, 31/05/2017

"Vejo sombras no horizonte", diz professor de Ética sobre pasta da Justiça

Professor de Ética critica a demora na troca de comando na pasta da Justiça e a saia justa do Planalto com Gilmar Mendes

postado em 31/05/2017 06:00 / atualizado em 31/05/2017 07:53
A longa crise política enfrentada pelo Brasil não dá sinais de trégua. Pelo contrário: o violento protesto em Brasília e a demissão do ministro Osmar Serraglio, substituído pelo jurista Torquato Jardim na pasta da Justiça, sacudiram o país. Em meio a esse caos, o filósofo e professor de Ética Política da Universidade de Campinas (Unicamp) Roberto Romano busca respostas e critica a demora na troca dos ministros e a saia justa do Planalto com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes. Romano também comenta a falta de lideranças políticas e reprova os excessos cometidos nos últimos anos pelos Três Poderes. Confira a seguir os principais trechos da entrevista de Roberto Romano ao Correio:

Professor, qual sua percepção sobre a substituição do ministro Osmar Serraglio pelo ministro Torquato Jardim na pasta da Justiça?
É uma estratégia própria de um governo que sente o perigo se aproximar. Retirou um ministro extremamente fraco, que tem grande abertura para o mundo jurídico, e colocou alguém que tem grande experiência com os tribunais e, sobretudo, com aquele que no momento é essencial: o TSE. Mas é uma estratégia que vem um pouco tarde. Essa medida deveria ter sido tomada há muito tempo, porque uma série de passos foram dados com base nas informações obtidas com o Serraglio. Ela vem tarde e mostra justamente a falta de coesão, de rapidez e eficácia nas decisões do presidente Temer.
 

Se o ministro Torquato intervir, não vai ficar exposto?
Não, se ele seguir o processo legal. Quem fica exposto é o TSE, porque a decisão fica mais delicada agora. Vão negociar com alguém que é da casa. O ministro Gilmar Mendes, que vai presidir o processo, está furibundo com o Palácio do Planalto, porque estão querendo fazer o TSE de peteca. O ministro é conhecido por não dar ponto sem nó. Criou uma rede de insegurança tanto para o TSE quanto para o STF (Supremo Tribunal Federal). Isso vai trazer fios desencapados para o relacionamento do presidente Temer com a Justiça. Isso pode piorar a situação do Temer.

Num cenário em que o TSE pede vista, dando sobrevida ao governo, o que se pode esperar? 
O presidente Temer está criando a ilusão de que ele está no governo, mas o país está sendo governado pelo ministro da Economia, do Planejamento, agora da Justiça. Ele está cuidando quase que exclusivamente de si mesmo e do seu mandato e isso paralisou o país até agora. Quem acompanha desde Getúlio Vargas a agonia de presidentes da República, esse desmanche dos aliados no Congresso é muito sintomático: um dia o PSDB diz que está estudando desembarcar, outro dia diz que dá apoio. São esses sinais que mostram a fragilidade estrutural do governo. Comprar briga com a Justiça, neste momento, é um atestado de óbito, ainda mais tendo uma base desidratada a cada instante. A não ser que o ministro Jardim consiga fazer um milagre.
O senhor vê saída para a crise brasileira?
Creio que sim. Nós temos potencial para deixar de lado a situação atual, mas eu vejo sombras espessas no horizonte. Em primeiro lugar, para que você possa encontrar uma saída, é preciso que tenha lideranças. Praticamente não temos lideranças nacionais. Há 20 anos, contávamos com um quadro de, pelo menos, umas 50 lideranças. Hoje não. Temos partidos políticos destroçados. Instituições que estão anacrônicas, antiquíssimas. A reforma política não aparece no horizonte e a classe política está mais preocupada com os seus privilégios do que com o bem-estar do país.

O senhor tem visto em uma nova Constituição a saída para toda essa crise?
As propostas trazidas pelo jurista Modesto Carvalhosa e seus companheiros devem ser examinadas. Uma nova Constituição é algo urgente para o Brasil e para redefinir os poderes, a prática política, os partidos e modificar pontos essenciais na estrutura do Estado. Essa é a tese e a urgência. O problema é com quais instrumentos nós podemos fazer isso. Do modo como estamos, que partido político terá legitimidade para liderar eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte? Acredito que não podemos deixar mais 10 anos com a atual Constituição, que se transformou numa colcha de retalhos, desfigurada por emendas. É preciso chamar uma Constituinte. Uma série de instituições que poderiam ajudar estão à margem, como, por exemplo, as universidades.

Em meio à crise de representatividade e da desconfiança com a classe política, como o senhor avalia as instituições?
Há um mantra, que venho criticando há um bom tempo e quase que sou voz solitária nisso, que insiste em dizer que as instituições brasileiras estão funcionando normalmente. Normal seria aquilo que atende ao intento inicial. Quando você tem presidentes da República que não conseguem estabelecer o período do seu mandato, essa normalidade no plano do Executivo se torna problemática. Quando se tem um Congresso que legisla em causa própria e quando a Justiça intervém em última instância sem prever situações de crise, como essa que nós estamos seguindo, isso também não é normal.

Antonio Scarpinetti/Unicamp

“A classe política está mais preocupada com os seus privilégios do que com o bem-estar do país”

terça-feira, 30 de maio de 2017

Roberto Romano: a corrupção virtuosa

Roberto Romano: a corrupção virtuosa

"Um pilar do Estado burguês, pensam setores à esquerda, é a legalidade. Esta seria um cálido truque dos capitalistas e de suas bases políticas ou jurídicas"

12/12/2015 - 15h07min
Roberto Romano: a corrupção virtuosa Reprodução/Reprodução
Robespierre e o mito da esquerda incorruptível Foto: Reprodução / Reprodução  
Explicar a corrupção política tradicional é relativamente fácil. Presos aos privilégios, os donos do poder julgam correta a simbiose entre seus bolsos e os cofres públicos. Já fornecer razões para a corrosão ética progressista é mais complicado. As Luzes, doutrinas que inspiram a esquerda jacobina, herdaram dos revolucionários puritanos ingleses a igualdade política, na luta contra a venal monarquia absoluta. Surge daí o mito da esquerda incorruptível, título outorgado a Robespierre. A cada versão do jacobinismo o mote retorna: o Estado, aristocrático ou burguês, está imerso necessariamente na corrupção. Para destruir tal inferno, só a prática revolucionária. O resto se limita à conversa reformista que apenas adia a morte das elites parasitárias.

Um pilar do Estado burguês, pensam setores à esquerda, é a legalidade. Esta seria um cálido truque dos capitalistas e de suas bases políticas ou jurídicas. Uma coisa seria a justiça almejada pelos oprimidos, outra o simulacro legal que auxilia as classes dominantes. A incorruptibilidade da esquerda é mitológica já antes do Termidor. Apesar de seus muitos políticos honestos, boa parte dela já se entregou à dilapidação do tesouro público sob Robespierre. Michel Benoit,  historiador nosso contemporâneo, publicou correta análise da ladroagem jacobina: 1793: A República da Tentação – Um Assunto de Corrupção na Primeira República (Paris, Éditions de l ‘Armançon, 2008). Jacobinos roubaram joias da Coroa francesa e açambarcaram bens nacionais em proveito próprio. A técnica defensiva dos larápios “virtuosos”  era acusar adversários de crimes idênticos, não julgados ou punidos. A história lembra algo a você, caro leitor? Pois é, nihil sub sole novum…

O Termidor foi o triunfo da parcela corrupta e autoritária da Revolução Francesa. “Os bandidos venceram”, gritou Robespierre no momento em que foi deposto por seus companheiros da esquerda. Tal setor se beneficiou com o império corrompido de Napoleão. A desculpa de que a lei serve aos dominantes burgueses leva parte dos progressistas ao crime sob a aparência de “expropriar aristocratas e burgueses”. O luxo dos expropriados passa a nutrir quem falava em nome dos oprimidos. Muitos enriqueceram ao optar por Napoleão: da praça subiram aos palácios, onde o apoio ao Corso era vendido conforme o mercado político.

Desculpa similar foi exposta por György Lukács em nauseante artigo recolhido de História e Consciência de Classe. No texto Legalidade e Ilegalidade, ele afirma que a vida revolucionária não deve obedecer à lei, mas seguir as circunstâncias da luta das classes. A decisão sobre agir seguindo a lei ou dela fugir “depende inteiramente da utilidade momentânea; em tal atitude completamente sem princípios reside o único modo de negar praticamente por princípio a validade da ordem jurídica burguesa”. Os jacobinos ladrões também pensaram assim e muitos  “revolucionários” seguiram tal parolagem.

Vejamos a lógica assumida por tais meliantes: o Estado é propriedade da burguesia. Mesmo empresas públicas pertencem aos dominantes. Logo, a vanguarda dos dominados pode expropriar em favor da causa justa tudo o que puder para vencer os burgueses. A consciência moral ou ética dos rapinadores fica tranquila: roubam em favor dos oprimidos. Mas, a exemplo do que ocorreu na Revolução francesa com os larápios jacobinos, o fruto do roubo segue em pequena escala para a causa alardeada e se detém na maior parte nos bolsos dos “revolucionários”.  G. Lukács chegou a ser próximo de Carl Schmitt, inimigo ferrenho da legalidade. Ambos desprezam a lei em proveito de suposta justiça legítima. “Nosso tempo é fortemente dominado por uma ficção, a da legalidade, e tal crença num sistema de rigorosa legalidade se opõe manifestamente e de modo claro à legitimidade de todo querer aparente inspirado pelo direito”(Schmitt).

Os nazistas negaram a lei, o fruto todos conhecem. Os progressistas idem.  Como veremos em artigo futuro, a contaminação entre pressupostos nazistas do direito e a ortodoxia partidária do stalinismo é tremenda, mas dificil de ser negada. Recordemos o “nacional-bolchevismo”, delirante união dos opostos. O problema, discutido na Grécia e na Roma antigas – o choque entre justiça e lei–  serve para negar o normativo e o justo, em prejuízo do povo e do regime democrático.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estado de São Paulo, domingo 28/05/2017

TRÊS PERGUNTAS PARA... Roberto Romano, professor de Ética Política na Unicamp 

Valmcir Hupsel Filho Alexa Salomão Daniel Bramatti 

 Entre as centenas de políticos envolvidos nas processos da Operação Lava Jato há uma “elite” de 42 nomes que apareceram nas duas maiores delações reveladas pela Justiça até agora: as da Odebrecht e da JBS. Na lista dos citados por sócios e executivos tanto da empreiteira quanto do conglomerado do setor de carnes estão o presidente Michel Temer e seus antecessores Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além de ministros, ex-ministros, governadores e ex-governadores, entre outros. 

 Os integrantes desse clube de elite teriam recebido, em conjunto, cerca de R$ 1,2 bilhão em propinas e contribuições oficiais de campanha, segundo os depoimentos dos delatores. O dinheiro teria sido  usado pelas empresas para comprar influência ou como contrapartida por benesses recebidas do setor público. 10 poder econômico é mais forte do que o voto do elei• tor na política brasileira? 

 Temos um sistema formal no qual o voto do eleitor é condição sine qua non para que alguém assuma um cargo eletivo. Agora, o real é o controle das máquinas partidárias, dos cofres do Estado por setores oligárquicos, que controlam a vida econômica, política e social. E que têm interesses muito específicos, que são contrários aos interesses que existem no mercado e na sociedade. No ranking dos valores recebidos, quem se destaca é o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, mencionado nas duas delações como intermediário de doações em caixa 2 para campanhas eleitorais do PT e influente para intermediar operações com fundos de pensão e o Banco Nacionl 

Qual é a consequência? 

 Esses congressistas são  lobistas disfarçados. Defendem interesses determinados. As chamadas bancadas no Congresso são reunião de lobbies que vão de interesses econômicos a religiosos. São pessoas que não representam o eleitor indiferenciado, formal, mas interesses materiais muito específicos e opostos a outros interesses que foram preteridos. Isso traz problemas sérios, até mesmo de desenvolvimento econômico. nal de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os depoimentos em que Mantega é citado o relacionam a quase R$ 450 milhões em repasses. Nessa conta estão incluídos os US$ 150 milhões convertidos em reais pela cotação da época que o ex-ministro teria operado 

0 que fazer? 

Seria muito angelismo imaginar que políticos não têm relação com os interesses vários do plano econômico. Justamente por isso é que precisava regulamentar o lobby. Porque temos hoje no Brasil o lobby feito de maneira selvagem e não temos nenhuma garantia de concorrência entre interesses econômicos na sociedade. O mercado então se despotencializa porque já se sabe de antemão quem vai ser o vencedor. em nome de Lula e Dilma em contas no exterior, de acordo com o relato de Joesley Batista, um dos donos da JBS. 

O nome de Mantega também apareceu envolvido em supostos crimes no relato de Marcelo Odebrecht, ex-presidente da maior empreiteira do País. Segundo ele, o ex-ministro “azeitou” um esquema para garantir que a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, aprovasse a compra de uma torre comercial e shopping center em São Paulo da Odebrecht Realizações. O negócio foi fechado em 2012. Em resposta, Mantega disse que a delação de Odebrecht é uma peça de ficção. Rio e Minas. O segundo nome de maior destaque nas delações, em termos de valores implicados, é o do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB). Ele teria recebido cerca de R$ 125 milhões, sendo R$ 98 milhões da Odebrecht. A seguir, com cerca de R$ 96 milhões associados a seu nome, aparece o tucano Aécio Neves, senador afastado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em razão das investigações sobre a JBS, ex-governador de Minas e ex-candidato a presidente. Com base nos depoimentos dos executivos da Odebrecht, foram abertos cinco inquéritos no STF para investigá-lo o que o tornou recordista em investigações ao lado do senador Romero Jucá (PMDB-RR). Na delação da JBS, Aécio é citado em pagamentos de propina disfarçados em operações imobiliárias e de compra de espaço publicitário. O tucano também aparece em uma gravação, feita por Joesley, na qual pediu R$ 2 milhões para pagar sua defesa em processos da Lava Jato. Ao acertar os detalhes de quem buscaria o dinheiro, o senador afirma: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”. A seguir, indica um primo para fazer a coleta dos recursos. Atual ocupante da cadeira presidencial, Temer é o personagem de maior peso político a aparecer nas delações. Dois episódios citados nas duas delações tiveram como palco o Palácio do Jaburu, residência oficial dos vice-presidentes. O primeiro foi um jantar no qual Marcelo Odebrecht teria acertado apoio financeiro ao PMDB nas eleições de 2014. O segundo, em março deste ano, foi o diálogo entre Temer e Joesley, gravado pelo empresário, e que mergulhou o governo em sua maior crise.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

sto é Dinheiro entrevista Roberto Romano, 26/05/2017

Entrevista
Roberto Romano, filósofo
Entrevista
Roberto Romano, filósofo
A seu modo, o Estado brasileiro é perfeitamente ético
Daniel Teixeira
Cláudio Gradilone
Edição 26.05.2017 - nº 1020

Prestes a completar 72 anos, o paranaense Roberto Romano, doutor em filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, disse não ter se surpreendido com a crise política deflagrada pelas delações do empresário Joesley Batista, no dia 17 de maio. Para ele, é mais uma demonstração das malformações do Estado brasileiro. Esses desvios, avalia, são antigos e moldam a ética do País até hoje. Desembarcaram no começo do século XIX, com as caravelas que trouxeram a Corte portuguesa à então colônia. Para Romano, as mudanças já estão ocorrendo, mas serão lentas. Ele falou à DINHEIRO:

DINHEIRO – O presidente da República pode perder o cargo por obstrução da Justiça. Isso quer dizer que o Estado não tem ética? Qual sua reação?
ROBERTO ROMANO – Não foi de surpresa, mas foi de tristeza, de decepção com o País em que vivemos. Não me considero nem otimista, nem pessimista, procuro ser sóbrio. Esse evento veio trazer uma luz bem mais forte sobre a estrutura absolutamente corrupta do Estado brasileiro. Nós costumamos associar os parlamentares, os ministros e o presidente da República à corrupção. Mas essa revelação mostra que o caso é mais grave. As notícias mostram a impossibilidade de uma atuação eficaz do sistema de Estado. Mostram que a proposta de Platão, adotada por Montesquieu, da existência de diversos poderes que se fiscalizam e que se controlam reciprocamente, não funciona.

DINHEIRO – O senhor concorda que Judiciário está mais atuante em termos institucionais?
ROMANO – Não. A atuação do Judiciário, as próprias funções do Judiciário, são irrelevantes quando se pensa na atuação do Estado como um todo. A ex-presidente Dilma Rousseff e o atual presidente estão sendo julgados no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. As notícias revelam uma atuação do Executivo para tentar obstruir o funcionamento da Justiça. A mera consideração de que o Executivo tentou obstruir a atuação do Judiciário é incompatível com o bom funcionamento das instituições.

DINHEIRO – Na quarta-feira 24, Ministérios foram incendiados e o presidente convocou as Forças Armadas. Isso está longe de ser normal, não?
 ROMANO – Exatamente. É mais uma prova do mecanismo absolutamente disfuncional em que o Estado brasileiro se transformou.
DINHEIRO – Por que isso está ocorrendo?
ROMANO – Uma instituição não é uma entidade isolada em si mesma. Ela é um organismo, formado e movido por seres humanos. Nos Três Poderes há indivíduos agindo fora da lei. Isso faz as instituições funcionarem de maneira enviesada, pervertida. O presidente da República tem uma função constitucional importantíssima: ele é o fiador do bom funcionamento do Estado. Quando ele é pego tentando obstruir a Justiça, o que se pode esperar? E as consequências são muito graves para a sociedade e para a economia.

DINHEIRO – Como assim?
ROMANO – Pense em um trabalhador, em um investidor, ou em um empresário honesto, que não tenha se envolvido na Lava Jato. Como eles podem confiar que seus direitos serão respeitados? Pensando racionalmente, qualquer empresário que não seja partícipe de um esquema mafioso está colocando seu dinheiro na incerteza. Isso é terrível para a economia.

DINHEIRO – Qual a origem dessas distorções?
ROMANO – Voltemos aos clássicos. O que é o Estado? A palavra Estado vem do termo grego stasis, que significa guerra, conflito, contradição. O Estado é, e sempre será, uma reunião provisória e instável de múltiplos interesses: sociais, econômicos, religiosos e ideológicos. O aparelho estatal foi inventado para garantir alguma estabilidade na luta desses interesses opostos. Permitir um equilíbrio que funcione entre indivíduos, empresas e sindicatos.

DINHEIRO – Isso não tem funcionado dessa maneira no Brasil.
ROMANO – Não. Temos uma tradição de resolver as coisas pelo uso da força. Não só a força física, mas também por meio da força jurídica, da força política. Em muitos casos, o Estado – e isso vale desde o governo federal até as prefeituras de pequenos municípios – resolve as questões tendo em vista interesses específicos. Basta olhar para o notícias dos últimos anos. Mensalão, Lava Jato, tudo isso tem sido a crônica da proteção de uns em detrimento de outros. E o pior é que tudo ocorre por meio do Estado.

DINHEIRO – Qual seria a saída? Reduzir a atuação do Estado ao mínimo?
ROMANO – Não. Mesmo os liberais mais radicais não propõem a abolição do Estado. Eles tentam reduzir sua atuação na vida social e econômica, mas é preciso que o Estado exista para garantir os direitos dos diferentes da maioria. Mas o Estado brasileiro não faz isso.
DINHEIRO – O Estado brasileiro é anti-ético
O corrupto Marcelo Odebrecht, que já brilhou no Fórum de Davos
O corrupto Marcelo Odebrecht, que já brilhou no Fórum de Davos (Crédito:Cicero Rodrigues)
?
ROMANO – Não. A seu modo, o Estado brasileiro é perfeitamente ético.

DINHEIRO – Essa é uma afirmação surpreendente.
ROMANO – Sempre há uma incompreensão do que é ética. Normalmente, associamos a palavra ética ao conjunto de normas corretas. Na verdade, a ética é o estudo minucioso dos costumes aceitos por uma sociedade ou por um grupo social, tanto os corretos quanto os incorretos. Um dos problemas graves da ética é que ela é um fato coletivo. Ela se opõe à moral, que é mais ligada ao plano subjetivo, ao embate do indivíduo com sua própria consciência. Assim, sendo coletiva, a ética é um conjunto de práticas e valores que, de tanto serem repetidas, se tornam habituais e automáticas. Eu li um livro dos depoimentos obtidos na operação Mãos Limpas, que investigou os políticos italianos durante os anos 1990. Há um testemunho, absolutamente delicioso, de um prefeito de uma pequena cidade italiana. Ele admitiu tranquilamente que recebeu propinas, porque achava que aquilo era um brinde, um presente. Era o mesmo que ganhar um panetone no Natal. Até ele ser preso, não lhe passava pela cabeça que o que estava fazendo era contrário à moral. A ética social brasileira e a ética política brasileira são automatizadas nesse sentido péssimo. Para a maioria dessas pessoas, não há nenhum problema no seu modo de atuação. Ao iniciar uma atividade, o indivíduo não pensa em uma concorrência leal. Ele pensa em canalizar para si a força do Estado.
DINHEIRO – O Estado, então, é cooptado e acaba atuando como um concorrente?
ROMANO – Sim, e um concorrente muito desleal. Ele tem vários monopólios. Tem o monopólio da força, com as polícias e as Forças Armadas. Tem o monopólio da norma jurídica. E tem o monopólio dos impostos. Com esses monopólios, um Estado cooptado pode usá-los para distribuir privilégios aos aliados e para ameaçar e chantagear os adversários. Quem paga impostos não obtém nenhuma vantagem direta para si, mas quem recebe financiamentos subsidiados dos bancos estatais, aí ganha um apoio que faz diferença.

DINHEIRO – Essas práticas são antigas na sociedade brasileira, não?
ROMANO – Muito. Essas práticas antidemocráticas têm origem histórica. Não podemos nos esquecer que, quando desembarcou em 1808, D. João VI trouxe consigo a contrarrevolução. Ele se contrapunha aos ideais da Revolução Francesa, da revolução americana e mesmo da revolução puritana, que havia ocorrido décadas antes, na Inglaterra. Todos esses movimentos eram inspirados no Iluminismo e traziam os princípios clássicos da democracia: liberdade de imprensa, separação entre o público e o privado, responsabilização do governante pelos seus atos. Já as idéias que chegaram com a Corte portuguesa eram contrárias a isso. Não podemos nos esquecer que a Constituição outorgada de 1824 estabelecia a irresponsabilidade do imperador. Ou seja, o imperador não poderia ser processado pelos seus atos. Em 1988, a Constituinte estabeleceu o foro privilegiado para o presidente, ministros e parlamentares. O princípio é o mesmo. Se eu não posso ser julgado, ou se eu só posso ser julgado pelos meus pares, que terão uma avaliação viesada, a Justiça que existe para mim não é a Justiça que existe para o cidadão comum.

DINHEIRO – A situação atual é um problema da Constituição de 1988?
ROMANO – Não só, mas aquela Constituição é um produto doutrinariamente duplo. É confusa e contraditória. Tem pontos muito positivos, democráticos, e tem excrescências, como o foro privilegiado. É um Frankenstein. É como uma cidade medieval, cheia de vielas, ruas estreitas e escuras, e cada uma delas é um nicho de interesse de uma parcela da sociedade que possui algum poder. Um conjunto de tugúrios não é uma cidade. Esse Frankenstein não pode servir de base para uma reforma séria do Estado brasileiro.
Congresso aprova Constituição em 1988
Congresso aprova Constituição em 1988 (Crédito:Arquivo ABr)
DINHEIRO – O senhor espera mudanças no curto prazo?
ROMANO – Difícil. Nossa história é acidentada. Tivemos duas ditaduras truculentas no século XX, e sofremos depois com alguns governos ineptos e corruptos. Temos uma ética torta pelo hábito, e que deturpa todas as relações: as relações da sociedade com ela mesma, da sociedade com o Estado, e do Estado com ele mesmo. Voltar a um caminho de democracia e republicanismo é difícil. Não podemos esperar chegar, no curto prazo, ao grau de eficiência que existe na Europa e nos Estados Unidos. Nos falta aquela cultura republicana. Quando entro em qualquer repartição, vejo um cartaz enorme na parede, dizendo que é crime o cidadão desacatar o servidor público. Seremos um país republicano quando, ao lado desse cartaz, houver outro dizendo que é crime o servidor público não atender adequadamente às demandas do cidadão.

DINHEIRO – Não há nenhuma solução possível?
ROMANO – Há, sim, mas as soluções são tópicas e vagarosas. Houve alguns avanços, como, por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). É interessante notar que, nas manifestações de 2013, um dos protestos era contra as tentativas de atenuar essa lei. Os registros do Ministério Público Federal mostram que 40% dos governantes processados com base na LRF foram sancionados com pena. Pouco importa se essas penas foram apenas multas, ou sanções administrativas. Uma pena leve é preferível à impunidade. É pouco perto do que precisamos, mas aos poucos melhoramos os padrões. Outro exemplo é a ficha limpa. Tem inúmeros problemas de ordem constitucional, mas é um elemento que está ajudando a melhorar. Repercute na imprensa, mobiliza as lideranças de movimentos sociais importantes. Porém, a solução que me parece mais eficaz é algo que, neste momento, é utopia.

DINHEIRO – O que é?
ROMANO – A proposta do jurista Modesto Carvalhosa, de uma assembleia constituinte que redesenhasse o Estado e a política brasileira. Sem isso, o País é ingovernável.

Gamberini entrevista Roberto Romano sobre a crise política Jornal da Gazeta

https://www.tvgazeta.com.br/videos/rodolpho-gamberini-entrevista-roberto-romano-prof-de-etica-da-unicamp-sobre-situacao-politica/