Flores

Flores
Flores

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Umberto Eco, como se nasce e como se morre de fascismo

Umberto Eco, como se nasce e como se morre de fascismo

Revista ihu on-line

17 Janeiro 2018

O fascismo é como a tuberculose. A pessoa tem uma aparência saudável e, de repente, começa a expelir sangue. Isso é o que sabe e o que conta Umberto Eco em Il Fascismo eterno - La nave di Teseo, (O Fascismo Eterno, O Navio de Teseu), utilizando materiais de um evento que organizamos juntos na Columbia University.

Naquela época (1995) eu estava ensinando na universidade e era o diretor do Instituto Italiano de Cultura. A intenção era celebrar pela primeira vez, publicamente, a data de 25 de abril nos Estados Unidos (Festa da Libertação, ndt). Os protagonistas eram, além de Eco, Giorgio Strehler, o lendário diretor de Brecht no Piccolo Teatro de Milão e Lucianio Rebay, comandante da resistência na juventude e professor de poesia na Universidade de Columbia pelo resto de sua vida. Strehler e Rebay falaram sobre resistência e prisões, traidores e heróis na Milão do último fascismo.

A reportagem é de De Furio Colombo, publicada por Fatto Quotidiano, 15-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eco narra neste livro como se nasce e como se morre de fascismo. Eis aqui o começo: "Em 1942, aos 10 anos, ganhei um prêmio respondendo a uma pergunta ‘Deveríamos morrer pela glória de Mussolini?’. Minha resposta foi sim. Eu era um menino esperto".

Eco escolheu um extraordinário fragmento de autobiografia que, no final, você percebe, torna-se toda a sua autobiografia, claro que do ponto de vista moral e intelectual: o que entende uma criança de fascismo? Que legado fica para um adulto depois de um encontro tão assustador? E como você pode se comprometer para sempre em defender a liberdade, quando percebe que o pesadelo não acaba?
Umberto Eco não viu os fascistas de Como, que entraram em uma casa particular, que circundaram um grupo de voluntários pró-migrantes para ler sua mensagem. Mas era escritor e filósofo, e sabia que aquele perigo estava por vir. "Na Itália, algumas pessoas se questionam se a resistência teve um impacto militar. Para a minha geração a questão era irrelevante: logo percebemos o significado moral e psicológico da Resistência", Eco escreve em seu livro, que é imprescindível ter e difundir.
Mas reflete sobre essas afirmações, escrevendo no final: "O fascismo cresce e busca consenso explorando e exacerbando o medo natural de diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou prematuramente fascista é contra os intrusos. Todo fascismo, portanto, é racista por definição".
Essas poucas páginas são um dos livros mais belos e mais importantes de Eco. Ele termina com uma maravilhosa poesia de Fortini ("No parapeito da ponte / as cabeças dos enforcados ....") e com sua advertência: "Que este seja o nosso lema: jamais esquecer".

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Jornal da Unicamp. Peter Schulz


 '  
Foto: Antoninho PerriPeter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

Quando cientistas não bastam para fazer ciência

Ilustração: Luppa SilvaNa minha formação como físico, da graduação ao doutorado, nunca me deparei com uma disciplina sobre metodologia científica, tema que é mais presente nas grades curriculares em outras áreas do conhecimento, como vim a descobrir bem mais tarde. Interessava-me, juntos com alguns outros colegas naquele longínquo século XX, por filosofia e história das ciências, mas passamos ao largo de qualquer manual de metodologia científica. Assim se alguém perguntasse naquela época o que era ciência, não teria uma resposta pronta (como ainda não tenho), mas poderia enunciar um conjunto de crenças, regras e práticas próprias daquilo que estava aprendendo e fazendo e que uma comunidade reconhecia como ciência, afinal meus artigos estavam sendo aceitos em revistas internacionais. E como isso que fazíamos (e continuamos a fazer) diferencia-se do que não era chamado de ciência? A demarcação da ciência frente a outras formas do conhecimento ocupou (e ocupa) um respeitável time de filósofos da ciência, entre eles, por exemplo, Imre Lakatos (1922-1974), que ainda aparecerá em uma nota nessa coluna.  Mas não é esse, pelo menos diretamente, o assunto desta coluna. No entanto, preciso mencionar que nos manuais de metodologia científica existe sim a preocupação de delimitar o conhecimento científico dos outros tipos de conhecimento: popular, religioso e filosófico; como descrito no capítulo três dos “Fundamentos de metodologia científica” de Marina de Andrade Marconi e Eva Maria Lakatos. Breves definições sobre esses tipos de conhecimento podem ser lidos aí [1], [2], portanto não vou me estender na descrição dessas caixas separadas, mas no que sempre me despertou maior curiosidade: a comunicação entre elas.
Os contatos entre ciência e religião vão, dependendo do representante de cada campo, da hostilidade declarada e beligerante ao diálogo respeitoso, que reconhece os dois territórios do conhecimento. Como exemplo desse último tipo de contato, temos o debate epistolar entre o semiólogo (entre outras coisas) Umberto Eco e o cardeal Carlo Maria Mantini, que ficou conhecido como “Em que creem os que não creem?” [3]. O diálogo é sobre Ética, mas Eco aborda diretamente a ciência em perguntas ao final de uma das suas cartas: “Qual é o estado atual do debate teológico a respeito, agora que a teologia não se mede já com a física aristotélica, a não ser, com as certezas (e as incertezas!) da ciência experimental moderna? Como bem sabe você, sob tais questões não subjaz, unicamente, uma reflexão sobre o problema do aborto, mas também, uma dramática série de problemas novíssimos, como a engenharia genética, por exemplo, ou a bioética, sobre a que hoje todos discutem, sejam crentes ou não. Qual é hoje a atitude do teólogo frente ao criacionismo clássico?” Mantini na carta resposta não aludiu diretamente a essas questões, mas começou a carta reafirmando: “Com toda razão recorda você, ao princípio de sua carta, o objetivo desta conversa epistolar. Trata-se de estabelecer um terreno de discussão comum entre laicos e católicos, confrontando também aqueles pontos nos quais não há consenso”.
Por outro lado, entre conhecimentos filosófico e científico o trânsito é bem mais intenso, ainda que um tanto assimétrico: o meu convívio acadêmico levou-me à percepção de que, em geral, os filósofos se interessam mais pela ciência do que os cientistas pela filosofia, o que é uma pena para estes últimos.
Não é, no entanto, as relações entre ciência e filosofia ou religião a questão central aqui, e sim a relação do conhecimento científico com o conhecimento popular, em particular os saberes tradicionais ou indígenas (indigenous knowledge). São muitas vezes saberes que correm risco de extinção junto com as línguas nas quais (ainda) são transmitidos, mas que, embora sejam “conhecimento não produzidos por meio de métodos de pesquisa tradicionais, podem ter valor científico” [4]. Para não cair na armadilha da mera abstração, seguem três breves exemplos.
O primeiro eu aprendi lendo o artigo citado logo acima, que menciona como algumas tribos na Indonésia escaparam do Tsunami de 2004 (incluindo aí alguns grupos de turistas ocidentais), graças aos conhecimentos tradicionais passados oralmente de geração em geração. Não foi um caso isolado, como o relatório Indigenous Knowledge for Disaster Risk Reduction” [5] mostra em seus 18 estudos de caso. Esses exemplos, se por um lado reconhecem a importância do conhecimento tradicional, por outro lado tem um quê de objeto de estudo da ciência, ou seja, ainda uma assimetria, como nas outras relações.
O segundo exemplo é o dos parabotânicos na Amazônia, identificadores da biodiversidade da floresta, profissional cuja formação parte do conhecimento tradicional e que está em extinção [6]. Nesse caso o conhecimento tradicional não só é reconhecido, mas é estratégico para viabilizar a pesquisa em si e até para que esta tenha credibilidade na comunidade científica internacional.
O último exemplo eu costumo apresentar nas aulas de Física sobre ondas, é uma pesquisa sobre a navegação através da “leitura do formato das ondas” em torno das ilhas Marshall no oceano Pacífico. Na primeira década deste século, as autoridades locais, preocupadas em promover o turismo, buscaram um meio de fazê-lo a partir do conhecimento tradicional de navegação com mapas de treliças de madeira, indicando as ondas e seus formatos, e conchas, identificando as ilhas, que refletem e refratam essas ondas. O sistema é eficiente, pois permite a navegação precisa por centenas de quilômetros, mas esse conhecimento tradicional estava se perdendo, pois poucos nativos ainda o detinham e sem nenhum estímulo para preservá-lo. Como resgatá-lo? Através de pesquisa conjunta entre portadores desse conhecimento tradicional, antropólogos para traduzir esse conhecimento e oceanógrafos com seus modelos computacionais da dinâmica marítima para comparar as ondas do conhecimento tradicional com as ondas da ciência. Resultado duplo: preservação através da ciência ocidental de um conhecimento tradicional, que ajuda a melhorar os modelos computacionais dos oceanógrafos. O artigo “Wave Navigation in the Marshall Islands – Comparing Indigenous and Western Knowledge of the Ocean” [7] é também assinado por Korent Joel, um dos últimos navegadores tradicionais dessas ilhas da Micronésia. Uma rota mais simétrica entre diferentes tipos de conhecimento.


[2] Uma curiosidade: Eva Maria dedica o livro a seu pai Tibor, mas um verbete na Wikipédia (acessado em 15/01/2017) assevera que “É filha do renomado Cientista húngaro e Teórico da Filosofia da Matemática Imre Lakatos. Checar informações assim não deveria fazer parte apenas da ciência.

Silence et Bruit Roberto Romano Prefácio (word).



Silence et Bruit





ROBERTO              ROMANO










































Roberto Romano
Silence eL Bruit
T rad uctio n: Maria Leonor Loureiro



Ro11E1no ROMA NO
Professeur de l'Université de Campinas - UNICAMP Dept. de Philoso p hie
Adresse electronique: romanor@uol.com.br






































Pour Maria Sylvia : "Ecce tu pulchra es amica mea, ecce tu pulchra es...sicut lilium inter spinas, sic amica mea inter filias".



























N
 
otre fin de  siecle  est  plongée  dans  une  cacophonie invraise mblable. L'exces de bruits et le vacarme gênent l'écoute  et   l'entendement.  Le  vertige  de   la   "vitesse  de

communication"   et   'l  e ngoue ment    pour   les   moyens  éléctroniques
sophistiqués de communication semblent faire perdre Ie gout de la réflexion et le sens de la critiq ue. On se gave de b la - bla-bla et l'on s' imagine avoir pensé ou compris. Les silences de la réfléx.íon sont souvent associés à l' omission ou à l'ignorance. Le bourdonnement ininterrompu est pris pour de l'activité et de l'érudition. La distance
critique  de  'l  iro nie,   de   la  satire,  de   la  caricature  de   l'abusif  et de
l'inadmissible semblent se perdre dans l'édat des feux du 20eme siede occultant le rayonnemem des Lumie res. Robeno Romano s·appuie sur Diderot pour produire une analyse ponderée et puissante du pouvoir du silence et du sens des sons. L' a uteur, professeur de philosophie politique à J'universi de l' Éta t de São Paulo à Campinas (Brésil), est issu d'une longue tradition de pensée universitaire brésilienne liée à la philosophie critique de l'histoire et du langage. Le theme de la satire, recours et refuge pour la pensée indépendente dans un monde en proie à la démagogie publicitaire et politique, lui offre, sur la scene du Neveu de Rarneau, un forum exceptionnel de débat et de critique du sens et du non-sens dans le dit et dans le no n-dit.
Huit   chapitres   marquenl   'l  itiné raire    parcouru    para Robeno
Ro ma no.  Dans  le  premier,  Diderot et la satire,  est discuté le  recours à
l'ironie et  à la satire comme  instruments du scepticisme  éclairé et

éclairan1. Un philosophe satirique (2eme chapitre) souligne la perspective philosophique de Diderot en tant que penseur préoccupé parle fond des questions et maniant avec adresse !'arme d'un la ngage âpre et énergique. Sans se sentir prisonnier d' une interprétation quelconque, Robeno Romano discute la littérature diderotienne récente, principalement de langue française , et met en valeur l'indépendance de Diderot  par  rapport à ses contemporains  et surtout à ses critiques, indépendance qui lui valut une sone  d' acc usa tion voilée d'éclectisme.
Romano ne distingue pas dans cet éclectisme une pene de qualité philosophique d1ez Diderot. Au contraire, l'interêt multiple porté par celui-ci à toute forme d'expression de la pensée humaine, y compris dans ses rêves, mythes ou songes (apparemment) les plus farfelus, le rend plus proche des grands écrivains satiriques de la tradition de 1'Occident classique. Romano passe ainsi, dans son 3eme. Chapitre, à établir entre Lucien et Diderot quelques approches.
Remarquable reprise de Lucien de Samosate par R. Romano. Notre auteur utilize les paralleles déjà établis, à partir de Renan, et
examine  les  rapports  entre  Diderot,  'l  homme   des  Lumieres,  et le
Syrien, se rallian t à L. Schenk, pour considérer Diderot comme "un Lucien moderne". Son chapitre expose clairement Jes raisons d' o rdre psychologique et philosophique, comme de style et de méthode, qui le menent à voir en Diderot un adm irateur sinon un disciple de Lucien.
Le 4eme. Chapitre apporte une démonstration détaillée de la these soutenue, car Roberto Romano se penche, chez Lucien, sur
quelques   dialogues   exemplaires    pou   'l  a nalyse   diderotienne. Le
Neveu de Rameau est étudié par comparaison directe avec quatre dialogues de Lucien: Dyonise, Annclwrse, lcaromeni ppe, Dialogue des Morrs et Cl1nron et /es observnteurs. Le recours au sujei du "masque" (et son parallele immediat avec la "persona" de la tragédie) permet à Diderot - comme le souligne l'auteur - de se servirdes techniques luciéniennes et moenipéennes de I'anabasis et de la /wtabasis pour construire "une critique  universelle  de la culture et de  la  politique".

Une telle critique préfere la moquerie de maniere à prendre ses distances  par  rapport   aux   riches  et  aux  puissants,  si  farniliers  de 'l adu latio n.

Une citation remarquable des Pensées de Pascal ouvre le Serne. Cha pit re. L'ironie de l'adulation et de la flatterie et de ses mille un artifices est une constante de la socié té. Romano nous fait voir à que! point la pyrotechnie des mots et des bavardages constituait  un véritable rideau de dissimulation et de tromperie au XVI IIe. Commérages, non-sens, incommunicabilité: des traces du Neveu: le 7eme chapitre nous fait comprendre la réfléxion de Diderot, para Jean­ François, sur la futilité de la vie d'apparences, des bruits sans signification, du vide, du néant, de la mort.
Romano montre justemem avec élégance - sans trop de mots - la gêne de Diderot devant la prolixité du monde littéraire et social de son époque, gêne qui se traduit par la satire caustique de ses écrits. On peut ajouter sans crainte d' éxagérer, que beaucoup' pa rler pour ne rien dire' est, de plus, un mal persistam qui afflige la philosophie et les belles  lemes  depuis  bien  longtemps,  un  rideau   de   fumée  appélé la n gage qui voile l'absence de pensée - on lui préfererait un obséquieux silence, rnême imposé, et à la limite du martyre intellectuel! Le neveu de Rameau se réfugie dans le tourbillon des mots flatteurs, jouant le rôle que 'l on attend de lui, malheureux si la vélleité le prend de devenir lui-même.
La forte présence de la critique du langage creux chez Diderot mene Romano à examiner 'l influence de Plutarque sur la tendance moraliste  des  textes  du  XVllleme.  Pour  l'auteur  il  est  nécessaire  d' éta blir le rapprod1ernent entre Plutarque et Diderot, car pour celuci 1'impiété de Lucien devrait être comrastée sinon compensée par une sorte de moralisme confident chez le premier. Le dernier chapitre, sur la satire et la sécularisation, paracheve la réflexion (optim iste) de Romano sur le choix de la raison par les personnes libres, q ui savent (ou sauront un jour) avoir recours au rire et à 1 'ironie pour échapper au piege des croyances aveuglantes et des déluges de mots vides. "Un

satirique, un sceptique si l"on veul, sait. que p arler est important car, à partir de ses faiblesses, on peut établir d' in finies connexions nouvelles. 11 faut cependam, pour cela , philosopher avec les autres êtres humains, en refusant la leçon voltai rien ne et en assumant la culture du monde, bien au-delà du jardin confonable" (Roberto Romano). Une bibliographie qui tie nt compte des classiques et des in nova teurs en la recherche diderotienne liés spécifiq ue ment à J'objel du livre clõture celui-ci. Avec une  rigueur méthodologique et un soin linguistique qui n' a rie n en commun ni avec le bavardage creux ni avec le parler pour ne rien dire, Romano livre aux lecteurs une étude sérieuse, enrid1ei par un sty le lui- m ê me fin et ironique, mettant à la disposition (surtout) des spécialistes une vaste culture et u ne fresque analytique comparative qui couve bien la tradition  !atine de la sa tire ,  de  1 ' iron ie et  du  mo ralis me didactique du théatre, de la literature, du sermon.



CARLOS E..\TEVÀO  O lt\VES DE R. M ,\lff lNS
Professeur de  Philosophie à 1'