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segunda-feira, 13 de março de 2017

Sobre o pedantismo. Roberto Romano


Quando se fala na crítica do pedantismo, o ponto cultural e política de referência é o Renascimento. Definidas as técnicas da impressão, editores e acadêmicos lançam a corrida ao livro, à fama, aos lucros. A passagem de manuscritos gregos e romanos ao prelo, seu trabalho de escrita na análise filológica e histórica, demandam imenso labor coletivo. Mas tudo é feito tendo em vista a venda dos volumes, seja aos potentados do poder, aos donos das finanças, aos proprietários das religiões, em especial a protestante com a Biblia. Gradativamente o livro se “democratiza” e atinge setores cada vez mais amplos, anunciando a nova era científica, humanística, estatal.

Entre os ávidos consumidores das letras surgem indivíduos que delas se nutrem mas, sem equilíbrio psicológico ou social, se empanturram. A figura do pedante é o elemento perene da ironia intelectual, do século 16 aos nossos dias. Ainda na Encyclopédie, Diderot afiança que o pedante é alguém “de uma presunção gárrula que fadiga os outros com o exibicionismo de seu saber em todo gênero, e pela afetação de estilo e maneiras”. Seriam os pedantes os culpados da má fama das letras, assim prejudicando a erudição correta.

O avanço técnico trazido pela imprensa foi um salto enorme em termos civilizatórios. Permitiu descobrir os pretéritos (do Ocidente, do Oriente) e o futuro, com invenções ou apropriações de saberes já existentes nas sociedades as mais diversas. As novas propostas de estudo cosmológico na física, nas matemáticas, na geografia, na medicina, na arte náutica, etc., mudaram a face do mundo humano e natural, nem sempre para a melhoria ética, como constataram escritores que seguiam Erasmo, um pouco mais tarde Pascal e outros.

A critica do pedantismo seguiu a primeira via citada, a do uso errado da erudição para exibicionismos que, não raro, traziam o ridículos aos seus autores. Tal é a via seguida por Montaigne. A outra, segue o caminho de Francis Bacon, amigo das técnicas, das máquinas e acérrimo adversário dos saberes livrescos.

Montaigne critica o pedantismo porque ele é um jeito de “mobiliar a cabeça com a ciência”. Mobiliar, sabemos, tem o sentido de repetir na mente procedimentos costumeiros, institucionais. A memória entra no aprendizado pedante. Nada que não tenha sido o ensino de Giordano Bruno, assumido pelo jesuíta Mateo Ricci, tal como relata Francis Yates. Mobiliar, alojar na própria cabeça fórmulas estabelecidas, o ponto define uma concepção espacializada do saber, o que dele extrai a sua ponta aguda, o entendimento, ou wit, “uma alma mais viva e desperta”diz Montaigne. O conhecimento pedante diminui o vigor intelectual, atenua a força do pensamento devido ao descanso no que foi forjado pelos escritores pretéritos. De tanto viver com o mundo passado, o pedante se torna estranho às existências presentes, tornando-se ridículo. Professores pedantes recebem salários por tornar a consciência dos alunos pesada de citações, piores. O aluno pedante recebe e faz circular certa moeda “inútil para qualquer uso”senão o exibicionismo acadêmico ou social.  Um livro na biblioteca ou na memória é algo externo ao intelecto, ao juízo próprio. Além disso, eles pode trazer a vaidade, a tolice de um saber vácuo. O essencial, adianta Montaigne numa sentença que será mantida por I. Kant, encontra-se no juízo. Quem dele não é assistido, dirá ainda Kant, é o perfeito idiota. O pedante não faz experiências, ele repete as alheias, sendo marcado pela opinião, a famosa doxa exorcizada nos diálogos platônicos.

Repetir ou inventar? A oposição, na qual Montaigne prefere o segundo termo, encontra em Francis Bacon uma outra via, que também valoriza o intelecto, mas o encaminha às novas formas técnicas do saber. Segundo Bacon, Aristóteles o ditador escolástico, adequava o mundo à sua lógica e não vice-versa. Donde a inanição do saber por ele representado. Assim, vem a invenção do Novo Organum, no qual se procura indicar o caminho da indução, ou seja, a saída da mente para o mundo externo. Bacon critica o perene onanismo dos intelectos votado ao saber pedante. Nele, os acadêmicos admiram o próprio espirito e dele não saem. Duas vias existem na ciência: a que vai da experiência aos axiomas muito gerais. A outra se eleva da experiência aos axiomas que se tornam gerais gradualmente. É preciso, para chegar ao saber, tornar a própria inteligência uma tabula rasa, da qual os preconceitos (os idola) seriam afastados pouco a pouco. Um espírito pode ser potente, mas se não passar pela experiência, seu exercício pouco ajudará a humanidade. Para desenhar um círculo perfeito é preciso virtuosismo sobre humano. Mas se usamos um  instrumento, como o compasso, todo ente humano pode efetivar o referido círculo. O método é o instrumento que, inventado em certa época, pode se aperfeiçoar, democratizando o saber, a sua comunicação.

Deixo o Renascimento e recordo um dos mais importantes etonólogos do século 20, André-Leroi Gourhan. No seu entender, “o técnico comporta-se frente à matéria, que ele ataca, em função de certos meios de atividade, do mesmo jeito que o ser vivo, no interior de seu meio”. Só há produção para o ente vivo, para a técnica, para as sociedades, sob constrangimento. A evolução transforma o constrangimento em tendência adquirida pela espécie. As faculdades do cérebro e das mãos, em milênios, se tornam tendências inconscientes, mas ativas nas sociedades.

O instrumento é conseqüência da mão. “O homem não é um resultado, ele é um produto, e mesmo seu produto, um ser que soube e pode acomodar sua contingência, aproveitar a si mesmo e ao meio”. A humanidade vive, desde época remota, no “meio técnico” cuja tendência é substituir o natural.
Nenhuma técnica existe isolada e toda sociedade é politécnica. O instrumento ou processo ausente num coletivo humano encontra-se em outro, premido à sua invenção pelos desafios naturais. São fatos diferentes “ter” um instrumento e “fixar” o mesmo instrumento. Só na segunda via o objeto é “digerido” pelo meio, “integrado ao seu capital, porque é harmônico à politécnica preexistente ao grupo.” (Guérin). Entre a vida e a morte, o instrumento técnico possibilita uma tripla sequência comportamental (agressão, aquisição, alimentação), de preensão (lábio-dental, digito-palmar, interdigital e projeção), de percussão (dentária, manual, unguear).  Para quem se apresta a olhar o ente humano com as lentes da etnologia, portanto, nada surpreende quando se trata de perceber os acréscimos trazidos ao corpo e à mente pelas próteses avançadas de nossos dias. Se nós mesmos somos o resultado técnico de nossa atividade corporal, quando novos instrumentos auxiliam a aumentar nossa força e poder sobre o universo e sobre a sociedade, tal fenômeno inscreve-se numa continuidade milenar, durante a qual produzimos o que entendemos como homo sapiens.
O que ocorreu, e me aventuro a parafrasear Gourhan, com o pedantismo? Muitos conseguiram “ter” o novo instrumento, o livro impresso, mas poucos o conseguiram “fixar”, digerir. O número dos que usam livros e pouco fixam tendências profundas em matéria científica, técnica, humanística se mantêm constante. A voga de edições de divulgação ou aparato exibicionista de ciência cede o passo aos escritos de auto-ajuda, romances levemente pornográficos, biografias, etc. Em 2013, na Europa, os números eram aproximadamente os seguintes, em termos editoriais: Inglaterra 184000, Alemanha 93.600, França 66.530, Espanha 76430, Itália 61100, para os mais importantes mercados. Os elementos são fornecidos por Jakub Marian. Outro colaborador de site especializado marca: em 2013 na França os campeões de vendagem são Asterix, algo previsível, e três livros contendo os 50 matizes de cinza, 50 mais claras, 50 mais sombrias. 25 % dos livros vendidos eram romances, 21% de juventude, 13% de turismo, 8% escolares, 6% quadrinhos, 6% de aperfeiçoamento docente.
As edições eletrônicas, em 2014 na França, cerca de 8, 300 milhões de livros foram “baixados”. Havia 1 milhão de compradores de livros contra 26 milhões de livros impressos, Cerca de ¾ dos compradores de livros eletrônicos, também comprarm livros físicos. Mas o livro eletrônico representa apenas 1/6 dos negócios totais do livro, e 2/4 dos volumes de venda.

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