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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ética e Serviço Pública, entrevista com Roberto Romano

PC43. Ética e Serviço Público - YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=vFYqh_cfjfE
8 de jun de 2017 - Vídeo enviado por estúdio egap
Neste episódio do programa CONVERSAÇÕES contamos com a presença de ROBERTO ROMANO ...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Artigo antigo. de 2005, atual ?

Por Roberto Romano
Professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp, romanor@uol.com.br
Artigo publicado no Correio Popular de Campinas em 26 de julho de 2005

Lula, o sobrevivente
Após os deboches contra a inteligência cidadã, nos “depoimentos” de Silvio Pereira e Delúbio Soares, pensemos sobre dois nomes: Celso Daniel e Paulo de Tarso Venceslau


Após os deboches contra a inteligência cidadã, nos “depoimentos” de Silvio Pereira e Delúbio Soares, pensemos sobre dois nomes: Celso Daniel e Paulo de Tarso Venceslau. O primeiro foi assassinado por questões que hoje exibem no PT algo mais do que a hegemonia política. Trata-se de atentado à fé pública. Recebi ofício da Câmara Municipal de Diadema (número 902) com a “Moção de Apoio ao Prof. Roberto Romano, da Unicamp, por suas críticas ao posicionamento do governo federal na condução da investigação do caso Celso Daniel”. Assumido pela Câmara, o voto foi encaminhado pelo vereador José Dourado. É preciso lutar contra a impunidade, inclusive na “esquerda”. Paulo de Tarso Venceslau precisa ser convocado para depor nas CPI’s, visto que, em 1995, ele escreveu uma carta ao então presidente do PT, Luiz Inácio da Silva, denunciando crimes contra o erário em prefeituras petistas. Os denunciados por Venceslau nada sofreram, mas o acusador foi expulso do partido por ordens de Lula. O fato mostra que o presidente da República reserva o castigo para quem denuncia falcatruas e incentiva o erro. Daí, para o que se passa atualmente no PT e no governo, não existe solução de continuidade.

Elias Canetti, em Massa e Poder, analisa o poderoso enquanto sobrevivente. A paixão o leva a praticar traições e vilanias para garantir o trono. Traição é técnica comum dos príncipes. Canetti cita o caso de Flávio Josefo, o historiador judeu que lutou contra o imperialismo romano. Em certo momento, na companhia de outros guerrilheiros, ele só encontrou abrigo num buraco sem saída. Cercado o grupo, ocorre um pacto de morte coletiva “para não perder a honra”. Josefo, astuto poderoso, convenceu os seus pares de que a matança eficaz seria a de cada um após o outro. Os indivíduos em fila terrível matavam o próximo da lista. Josefo arrumou as coisas para ser o último. Entregou-se aos romanos e viveu bom tempo. Todo poderoso sobrevive ao modo de Flávio Josefo. Quanto maior o seu Estado, mais gente segue para os braços da morte confiando em suas palavras. Hitler e Stalin levaram milhões para o Nada, mas não foram os únicos.

Luis Inácio da Silva sobrevive. Mesmo a hagiografia de sua origem humilde traça o roteiro ao modo de Canetti. Ele sobreviveu aos operários do ABC, esquecendo-os e deixando suas antigas reivindicações para trás. Se Josejo aderiu aos romanos, ele aderiu às “negociações” com a Avenida Paulista. Enquanto mantinha para as massas a fala de um radical (chegou a cogitar luta armada, já no regime civil), com os empresários ele usava o discurso conciliador. Jogando com essas duas faces, conseguiu, gradativamente, galgar os vários níveis de poder. Analistas do PT afirmam que ele sempre esteve acima das várias tendências que se matavam no partido. Na verdade, ele sobreviveu com a técnica de Josefo: enquanto as facções se destruíam, ele subia na escala do poder. Na presidência, silenciou quando foram expulsos os “radicais” em processos comandados pelo grupo “Genoino assinei sem ler”, “Dirceu nada vi de Waldomiro”, “Delúbio só eu somos o culpado” e “Pereira Land Rover”. Ele aceitou o “apagão” sobre Celso Daniel, inclusive, os atos de Dirceu para intimidar a imprensa e o Ministério Público. Todos assistiram a um triste espetáculo quando ele fugiu do debate sobre a morte do prefeito Toninho. Josefo rendeu-se aos romanos, ele rendeu-se às finanças. A Febraban o considera um herói, os empresários nem tanto. O último ato de sobrevivência, talvez o seu erro fatídico, foi a “entrevista” de Paris na qual o roteiro é o mesmo usado por Delúbio e Valério. Ele manda o PT às urtigas (“fui presidente do PT há muito tempo”, “o PT precisa se explicar”) e tenta… sobreviver.

As oposições, a imprensa, as pessoas sérias do Brasil precisam ter cuidado com o mestre da sobrevivência. É temerário aceitar “negociações” propostas por ele para “salvar a governabilidade”. Quando recebe ajuda de “companheiros” ou da oposição, Lula age como Josefo. Acuado, manda a polícia prender oponentes, para “equilibrar” as notícias fedorentas que vêm da sede petista. A sua polícia invade escritórios de advocacia. Confiar na sua palavra diplomática é seguir, como os amigos de Josefo, rumo ao desastre. Cautela deve ser empregada no seu possível impedimento. Sobrevivente, ele radicalizará a tese ridícula, mas sempre eficaz quando se trata de inteligências pequenas, de um “golpe”. E se for defenestrado sem evidências cabais de sua parceria na farsa imunda que seus subordinados representam nas CPI’s, um sebastianismo idiota (os sebastianismos sempre são idiotas) pode preparar seu retorno ao poder. Então, para que ele sobreviva, muitos brasileiros serão jogados nas águas de Caronte. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Programa E Noticia, Rede TV, de amanhã, entrevista sobre a situação da política nacional.


Idéias a serem pensadas.

Dr. Carvalhosa e Dr José Carlos Dias, bom dia

Me desculpem abusar desse meio de comunicação, porém o único caminho que encontrei para expor uma ideia que considero interessante.
Refletindo sobre a questão do financiamento dos sindicatos, atualmente em discussão no Congresso, ocorreu-me:
Ser o imposto sindical fruto da visão cartorial brasileira, desde as caravelas, em que são criados “direitos para alguns” com incidência compulsória sobre a população;
Que a extinção desse imposto decorre do principio que define: qualquer associação civil livremente constituída com determinada finalidade, deve ser mantida pelos associados em decorrência dos benefícios por ela proporcionados;
Porque não utilizar o mesmo conceito para os partidos políticos?
Os benefícios seriam múltiplos:
1)      Apenas subsistiriam os que tem adeptos a seu ideário, propostas e efetividade;
Benefícios:
-caracterização explicita da filosofia e princípios que justificariam a existência;
-clausula de barreira natural, decorrente de haver limites à criatividade de “filosofias politicas” e competência na ação;
-redução do poder dos caciques, limitados pelo poder dos associados (poder mantenedor);
-obrigar suas excelências a trabalhar permanente e eficazmente pelas bandeiras defendidas;
-renovação periódica dos representantes ineptos substituídos pelos associados na próxima eleição;
-aumentar o grau de maturidade cívica da população pelo maior envolvimento com suas questões;
-redução objetiva dos atuais 38 partidos (recentemente foi criado +1, o Podemos??)
2) Do aporte de recursos pela contribuição voluntária do cidadão, seja ou não associado:
-diretamente ao partido pelos meios de pagamento estabelecidos (carnets, boletos etc);
-encaminhada via declaração anual do IRPF em campo especifico com valor/partido;
IMPORTANTE: o valor NÂO SERIA PARTE DO IR DEVIDO, mas um valor adicional aportado livremente pelo contribuinte;
Beneficios:
-abolição imediata do fundo partidário e da ampliação pretendida de mais 3 bilhões para as eleições de 2018;
-orçamento seria incerto, mas decorrência da efetividade do partido e do grau de satisfação do filiado;
-o partido teria de estar permanentemente ligado ao filiado unindo necessariamente prática e discurso eleitoral;
-redução objetiva dos vergonhosos e imorais custos atuais das campanhas eleitorais;
-redução do nível de corrupção eleitoral (hoje iniciados na merenda escolar municipal, coleta do lixo etc.)
-maior controle fiscal sobre receitas/despesas eleitorais

Naturalmente, suas excias. não iriam gostar, pois adoram a retórica de que a sociedade tem de custear a democracia?????
A verba atual provém do orçamento da união portanto, é uma contribuição compulsória semelhante a do imposto sindical
Que tal tentar difundir essa ideia na sociedade?

Attos
Alberto Mac Dowell de Figueiredo

Entrevista de Roberto Romano à Revista Nordeste, sobre a pós verdade. 19/06/2017

19/06/2017

Revista NORDESTE: O prazer de implantar mentiras 

Revista NORDESTE: O prazer de implantar mentiras
O filósofo Roberto Romano discorre sobre a pós-verdade. Diz que não há nada de novo no verbete, e que “fazer o mal pelo prazer de fazer o mal” está presente nas mais profundas fibras do corpo e da alma humana
Por Pedro Callado
Roberto Romano é professor aposentado de Ética e Filosofia na UNICAMP. Em seus estudos, analisa a obra de Descartes, Espinoza, Diderot, Rosseau, dentre outros pensadores. Como escritor, destacam-se as obras O caldeirão de Medeia, Moral e ciência: a monstruosidade no século XVIII e O Silêncio e o Ruído, onde trata sobre o que hoje tem sido chamado de pós-verdade.
Revista NORDESTE: Nos últimos anos têm surgido um conceito Pós-Verdade, cunhado pelo escritor norte-americano Ralph Keyes no livro The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life, no seu entender o que significa a pós-verdade?

Roberto Romano: Bem, o caminho de um vocábulo para chegar ao plano do conceito é longo, tortuoso, complexo. Não basta para determinar uma palavra como conceito a sua aceitação geral, as bençãos dos dicionários, as formulações acadêmicas ou jornalísticas. Se assim fosse, todos os clichês que sufocam a língua desde milênios seriam conceitos. É relevante levar em conta uma reflexão trazida por Denis Diderot: "se o senhor refletir um momento sobre a rapidez incompreensível da conversa, o senhor conceberá que os homens não profeririam vinte frases num dia, se eles se impusessem a necessidade de ver distintamente em cada palavra por eles dita qual é a idéia ou a coleção de idéias que a ela se apegam". Podemos dizer do enunciado sobre a pós-verdade algo similar ao que ajuíza Diderot. Trata-se de algo diagnosticado pela filosofia desde o seu nascimento na Grécia. Nunca a verdade foi tratada apenas em si mesma, de forma isolada. Ela sempre recebeu análise em companhia de sua irmã inimiga, a mentira, que exibe o parecer e afasta o ser das coisas e dos pensamentos. Nos últimos tempos, sobretudo no século 20, pensadores e políticos, religiosos e ateus, buscam uma higiene da palavra, tentam encontrar linguagens que escapem dos equívocos e demais armadilhas da expressão verbal e corporal nos atos comunicativos. Desde Platão, no entanto, existe a esperança, sempre ilusória, de que a língua natural pode e deve ser corrigida pelas matemáticas. Volto a Diderot: "se nossos dicionários fossem tão bem feitos ou, o que é o mesmo, se as palavras usuais fossem tão bem definidas quanto as palavras 'ângulos' e 'quadrados', sobrariam poucos erros e disputas entre os homens". Mas o enciclopedista percebeu, em breve tempo, que seu alvo, como o de Platão, Aristóteles e dos filósofos medievais ou modernos, era impossível. Até hoje, e talvez para sempre, a busca de sanar a língua escrita e falada continua na lógica, na filosofia, na psicanálise, etc. Nomes como Carnap, Quine, Wittgenstein trazem fortes contributos na tarefa de encontrar sentido para a expressão verbal. E não esqueçamos os esforços de Heidegger, em especial o parágrafo 37 de Ser e Tempo, sobre o equívoco. Vale a pena reler um volume "antigo", bem anterior à fábrica de enunciados que gerou o termo "pós verdade", escrito por Ogden & Richards, “The meaning of meaning”. Alí, os autores discutem o amálgama do verdadeiro e do falso nas múltiplas atribuições de sentido que assaltam a vida política, religiosa, científica, ideológica, moral. Estranho a relevância dada a um termo que pretende desmistificar o discurso enganoso, sem que exista referência ao aporte milernar da filosofia e da ética para refletir sobre o assunto. Não é preciso insistir sobre as meditações de Nietzsche e de Freud sobre o assunto (por exemplo, em “Verdade e Mentira no Sentido Extramoral”). Uma leitura de Plutarco ( "Sobre o Falatório", "Sobre a curiosidade", "Sobre a lisonja") ajudaria bastante a entender o jogo de aparência e verdade em nosso trato coletivo de agora, em especial na política. Erich Auerbach (Mimesis) e Shoshana Felman (La Folie et la chose littéraire) trazem preciosas elucidações sobre a propaganda e o clichê no pensamento de hoje. A lista feita acima por mim não se deve ao pedantismo acadêmico. Ela procura advertir para a veiculação de "novidades" que têm milênios de história. Em resumo: a profissão do sofista se renova, mas sempre apresenta a marca reconhecida por Platão: confundir o verdadeiro e o falso e, assim, encantando os seres humanos aos milhões. Modestamente procuro, no Brasil, investigar e discutir o assunto em livros e artigos. Até hoje, minha busca foi quase solitária (remeto em especial ao livro “Silêncio e Ruído” e ao artigo "Sobre o segredo e o silêncio", publicado pela Revista USP, 2011).

NORDESTE: O Dicionário de Oxford, na Inglaterra, elegeu esta como a palavra destaque do ano de 2016, estamos vivendo um movimento mundial onde valores em relação aos conceitos tradicionais de verdade, mentira, honestidade e desonestidade, credibilidade e dúvida, estão em xeque no mundo?

Romano: O fato de uma expressão chegar aos dicionários não lhe dá o estatuto de conceito, como sugeri acima. Nunca, em sociedade alguma, ocorreu um recobrimento perfeito entre ideais, mitos ou doutrinas, e os atos dos indivíduos ou coletivos. Os sofistas e, depois deles, os doutrinadores religiosos cristãos que inventaram o inferno e a inquisição, mostram a quebra inevitável entre os dois campos, o dos ideais e o dos atos. Uma religião do amor que joga corpos nas fogueiras e torturas, além de incinerar livros aos milhares, já viveria na pós verdade. O mesmo pode ser dito para as práticas da razão de Estado com seus golpes e contra golpes. Gabriel Naudé, o primeiro a publicar um livro com o título Considerações Políticas sobre os golpes de Estado, dizia que no mundo dos interesses palacianos , "tudo é escrito ao modo judaico, de trás para diante", tudo é invertido. Não por acaso, o grande mito do poder moderno traz a marca sinistra do maquiavelismo, com o uso do engodo como técnica essencial de controle alheio. Hoje as coisas são mais complexas, dado o avanço das comunicações com a internet e outros meios. Mas os homens seguem seu destino de serem lobos uns dos outros. E, infelizmente, o único remédio (muito fraco, diga-se) encontra-se na lei e na soberania estatal. Elementos que, eles também, estão em franca degenerescência (desde a Grécia platônica...).

NORDESTE: Uma reportagem da revista The Economist relaciona a pós-verdade com a eleição de Donald Trump e a vitória do Brexit no voto popular. Há relação? O senhor concorda?

Romano: A revista, no meu entender, confunde os sintomas com a origem dos males. Um povo sem emprego, sem saúde, sem educação, sem ciência, sem liberdade e igualdade, mas com acesso ao voto, escolhe a saída mais esperançosa, mesmo e sobretudo se ela for um amontoado de mentiras. É o que ocorreu com o nazismo na República de Weimar e em todas as outras repúblicas que proclamaram em Constituições coisas que não cumpriram na ação. Trump e Brexit resultam de políticas que visaram, antes de tudo, preservar a saúde da ordem financeira em detrimento da economia mais ampla e dos seres humanos. Notícia recente sobre a Grécia, traz o mea culpa do Fundo Monetário Internacional sobre a política imposta ao referido país: "exageramos na dose". A linguagem dos votos, como as demais linguagens, não tem o poder criador do mundo, à semelhança do Verbo Divino. Ela exprime os afetos humanos. Uma leitura atenta da Ética spinozana ajudaria bastante a deslindar tal puzzle.
NORDESTE: A Justiça com a tese do Domínio do Fato, a Lava Jato com delações premiadas e acusações e vazamentos sem provas concretas, mas que já apontam para uma condenação midiática dos envolvidos, a suspensão de direitos fundamentais como a prisão (preventiva e longa) sem provas seriam exemplos desse novo momento da pós-verdade, por quê?

Romano: Os fenômenos enunciados na pergunta acima são velhos como os milênios que definem o direito, a política, as religiões. No Brasil, eles constituem casos particulares, mas que entram na péssima norma assumida por um povo sem democracia e sem maior sentido de justiça. Quem viveu no Brasil durante a ditadura Vargas e de 1964, sabe perfeitamente o que significa não ter direitos diante da força. E sabe, também: as massas seguem um Salvador que lhes promete tudo, a começar com o fim da corrupção. Pouco importa se o Salvador é Vargas, Jânio, militares, Joaquim Barbosa, Moro. Para tal alvo, tudo vale, sobretudo pisar direitos individuais e coletivos. Getulio, o pai do povo, disse com todas as letras: "o indivíduos não têm direitos, têm deveres". Joaquim Barbosa, o justiceiro, também disse: "Não existem direitos adquiridos". Assim que se vive aqui. Os instantes em que os direitos humanos são respeitados são átimos diante da eternidade em que eles são expulsos da ordem civil e política. Somos a terra dos não-direitos. Mas, como disse acima, trata-se de um tema velho como o poder. Gabriel Naudé, nas mesmas Considerações Políticas sobre o golpe de estado que, neles, "vemos a tempestade cair antes dos trovões; as matinas ditas antes que o sino toque; a execução precede a sentença". A última frase é capital: nas ditaduras brasileiras e na prática das massas e das nossas elites. "A execução precede a sentença". Dá o que pensar sobre a Lava Jato, não?
NORDESTE: O Facebook foi mencionado como uma força nas recentes eleições da França, sabe-se de notícias falsas, perfis falsos construídos para atacar políticos e pessoas. O crescimento da intolerância e do xenofobismo utilizando as redes como mola disseminadora. As redes sociais e a internet têm cumprido um papel importante na pós-verdade?

Romano: Facebook é um constructo técnico que apenas efetiva a ferocidade ínsita no ente humano. Ele não é causa de nada, quando se trata daquilo que os gregos chamavam a kakourgia, o fazer o mal pelo prazer de fazer o mal. Plantar mentiras, enganar para lucro financeiro ou político (ou religioso) é algo que está presente nas mais profundas fibras do corpo e da alma. Schopenhauer tem uma imagem sugestiva: somos como porcos espinhos. Se ficarmos muito longe uns dos outros, morremos de frio. Se nos aproximamo em demasia, nos espetamos mortalmente. O Facebook nos aproxima, mas junta ferroadas. Muito raramente une e auxilia. Mas trata-se de um conjunto técnico novo, que a humanidade ainda não aprendeu a manejar para o bom e o belo. Quem sabe, no futuro, o Facebook e outros instrumentos mereçam, de fato, o título de "rede social"...
NORDESTE: "Uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade". Esta frase atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler, pode ser relacionada com a pós-verdade? O que existe é um confusão em relação ao que é real ou irreal, ou é uma confusão de valores éticos e morais?

Romano: O enunciado não é de Gobbels, mas de Platão. Goebbels estudou filosofia antiga e, sobretudo, Platão. O enunciado sobre a mentira repetida que se torna verdade encontra-se no livro terceiro da República (415 c-e). O interlocutor de Sócrates duvida que a mentira, usada por Platão, sobre a origem dos homens possa ser acreditada pelos homens de seu tempo. Resposta do filósofo: ela será, se repetida, crível para o seus filhos, a posteridade deles, e finalmente para toda a gente futura!". Platão, inimigo dos sofistas, conhecia perfeitamente a arte de enganar. Ele a considerava mesmo um remédio a ser usado pelos governantes sábios, para prevenir a catástrofe da polis. Mas, como diziam os médicos gregos, a diferença entre veneno e remédio (ambos designados pela mesma palavra, pharmakon na lingua grega) é a dose. Goebbels, João Santana e seus colegas, usaram doses cavalares que apressaram toda a agonia do paciente.
NORDESTE: Nos EUA Trump foi eleito, mas na França Le Pen, que foi acusada de muitas mentiras em sua campanha, perdeu. É possível dizer que há movimentos de esperança? As pessoas estão abrindo os olhos ou esse processo de negação de valores e de intolerância está apenas começando?

Romano: Não sabemos se estamos no início, ou no limiar do fim. É preciso analisar melhor os Signa temporum. Mas a ambivalência técnica, ética, moral, sempre funcionou entre os homens. Somos, como disse Pope, o orgulho e a vergonha da natureza. Assim, tudo é possível. Mas cuidado com a esperança: ela exprime fraqueza, pois é apenas o lado oposto do medo.
 

Revista Nordeste, 13/06/2017, sobre a pós verdade, o Brasil....etc.

13/06/2017

Revista NORDESTE: A vida na era da pós-verdade

Revista NORDESTE: A vida na era da pós-verdade
Em 2016, o Oxford Dictionaries, do departamento da Universidade de Oxford, responsável pela elaboração de dicionários, elegeu a “pós-verdade” (“post-truth”) como a palavra do ano. A instituição a definiu como um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.
No Brasil, a pós-verdade pode ser reconhecida quando a grande mídia assume um lado da disputa pelo poder e interpreta os fatos com essa intenção. Um dos exemplos é a Revista Veja, a Globo, o Estadão, a Folha de S. Paulo, todos assumiram a defesa da Lava Jato, do impeachment de Dilma Rousseff (PT), da ascensão de Michel Temer. Todos, com maior ou menor pressão, têm pedido a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na capa da Veja o ex-presidente já apareceu até vestido de presidiário sem que haja uma prova consistente de seu envolvimento em corrupção. Ainda que se tenha ressalvas a conduta do petista e do seu partido na história recente do país, há que se considerar que há também benefícios. Mas o que está acontecendo na mídia vai além de discordância ideológica ou uma cruzada contra a corrupção. Pelo menos esse não parece ser o interesse real da grande mídia. Nos últimos dias, quando um dos jornalistas da Veja, Reinaldo Azevedo, teve a conversa com Andrea Neves, irmã de Aécio Neves (PSDB), divulgada, a revista resolveu se posicionar sobre os excessos em torno de decisões do Judiciário, Ministério Público e da Polícia Federal. No áudio, nada que interessasse ao Ministério Público ou à Polícia Federal, apenas críticas a própria gestão da Veja e amenidades. Era um recado ao jornalista que vinha criticando Rodrigo Janot, o ministro Edson Fachin e a Lava Jato.

A fogueira das vaidades do Poder

Em seu editorial “Um estado policial”, transcrito a seguir em parte, a revista Veja acusa. “Diz a lei que uma intrceptação telefônica só pode ser feita com autorização judicial, no tempo em que perdurar a autorização judicial, e seu conteúdo só poderá ser preservado se for relevante para a investigação em curso. Tais limites são estabelecidos para que as conversas telefônicas, de qualquer pessoa, inclusive de suspeitos, não fiquem boiando no éter das tramoias de um Estado bandoleiro. No curso da mais ampla investigação sobre corrupção na história do país, a lei tem sido lamentavelmente desrespeitada. Na noite de 23 de fevereiro do ano passado, a ex-primeira-dama Marisa Letícia falava por telefone com seu filho Fábio Luís, o Lulinha. Na conversa, Marisa, que morreu há quatro meses, ironizava, com o uso de um palavrão, as pessoas que haviam participado de um panelaço contra o PT que acabara de acontecer. Na gravação, ela não dizia nada que interessasse à investigação da Polícia Federal. No entanto, a conversa, que deveria ter sido destruída nos termos da lei, foi preservada e divulgada. Em 16 de março de 2016, o país inteiro ouviu um diálogo telefônico entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eram 13h32 de uma quarta-feira, e os dois discutiam sobre o envio de um documento para a posse de Lula como ministro da Casa Civil. O conteúdo da conversa era do interesse da investigação, mas a autorização judicial para monitorar o telefonema acabara às 11h12, duas horas antes. Portanto, depois desse horário a gravação era ilegal. Ela foi feita mesmo assim, seu conteúdo foi divulgado e a crise política daqueles dias se aprofundou dramaticamente”.
Deve-se saudar o editorial de Veja, contudo não se pode deixar de frisar que, infelizmente, a publicação chega com umano de atraso, como informou o advogado de Lula, Cristiano Zanin. Fica-se com a impressão que foi preciso estar do lado da pedrada e não mais junto de quem atira, para que a revista se posicionasse de uma maneira mais coerente com a Justiça e a Verdade. Antes de ser ela mesma atacada, a Veja nada fez, defendeu e considerou mais o benefício dos artifícios utilizados pelo estado que agora considera “bandoleiro”, do que o malefício. Entretanto, como disse Zanin no Twitter: "Antes tarde do que nunca. As violações precisaram atingir Reinaldo Azevedo para serem reconhecidas como incompatíveis com o Estado de Direito”.
As mentiras sempre foram utilizadas dentro da Imprensa e entre grupos políticos rivais. Os fatos, como explica Jorge Luis Borges no início deste texto, “são meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio”. Assim, dados divulgados pelo IBGE sempre podem ter a divulgação de um lado negativo ou de um positivo, dependerá do viés que o veículo de Imprensa assume. E esse viés dependerá do interesse do grupo econômico que comanda o veículo de Imprensa. Isso é assim para a Imprensa com um pendor á direita, como os citados anteriormente, como para os que pendem para a esquerda, tipo Carta Capital, Diário do Centro do Mundo ou Socialista Morena. A questão é que uns têm mais poder econômico do que outros.
No site “Manchetômetro”, que faz análise das manchetes feitas no Brasil, há uma pesquisa reveladora sobre o recente embate entre o juiz Sérgio Moro e Lula. Os jornais O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo deram 13% de manchetes favoráveis a Moro e 79% neutra. Já Lula recebeu 3% de manchetes favoráveis, 15% de neutras e 79% negativas. Em relação as manchetes da crise envolvendo Temer, o site aponta que a grande mídia nacional “é apoiadora ferrenha das reformas neoliberais de Michel Temer, mais do que propriamente de sua figura política”. As matérias das páginas de opinião analisadas pelo site mostram uma espécie de obsessão de editores e colunistas na defesa de uma agenda de reformas consideradas neoliberais. Segundo o site, essa agenda dá o tom em todos os jornais impressos e no Jornal Nacional, este último editado pela Rede Globo de Televisão e ainda o mais assistido da TV aberta. A questão é: qual a melhor direção de realmente? Quem tem mais razão? Direita, esquerda? A visão mais neoliberal, uma mais socialista? O sistema está completamente equivocado, seja o capitalismo, comunismo, nacionalismo? É preciso surgir algo novo? Talvez as respostas não sejam tão simples como se gostaria. Esta matéria não se propõe a encontrar respostas, apenas a propor mentes abertas e olhos atentos na busca da verdade. Afinal, essa questão é antiga... como disse o filósofo e escritor francês Denis Diderot, morto 1784: “Engolimos de um sorvo a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga”.

Trump, Brexit, Le Pen, a pós-verdade no mundo

A pós-verdade não está só no Brasil, é uma tendência mundial. Como exemplos da pós-verdade no mundo pode-se olhar para a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, para o referendo que decidiu pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia, apelidada de “Brexit” e a eleição de Emmanuel Macron contra Marine Le Pen, na França. Essas campanhas fizeram uso indiscriminado de mentiras. Na campanha do Brexit, foi divulgado que a saída do bloco iria liberar até 350 milhões de libras (mais de R$ 1,7 bilhão) por semana para aplicar na saúde pública. O número foi questionado por autoridades do governo e descrito como potencialmente enganador pela Autoridade de Estatísticas britânica , contudo isso não reduziu sua força. Num debate televisivo Trump chegou a dizer que Barack Obama era o real fundador do Estado Islâmico. Explica-se. Numa construção enviesada de raciocínio, ele atribuiu a falta de uma conduta mais afirmativa e incisiva dos EUA no Afeganistão e no Iraque como molas propulsoras do terror. A campanha de Trump ainda divulgou que Hillary Clinton comandava uma rede de pedofilia na pizzaria Comet. Internautas insistiram que o local era sede de uma rede de prostituição infantil, comandada pela ex-candidata à presidência, além de outras figuras do Partido Democrata. O mundo ainda viu, associadas a esse tema, as mentiras nas eleições da França realizada em abril e maior de 2017. A candidata Marine Le Pen teria divulgado notícias falsas contra Emmanuel Macron, que efetivamente ganhou as eleições. Macron abriu processo contra Le Pen acusando a candidata de ter, no mínimo, incentivado “falsos anúncios e mentiras” com suas “tropas na internet”. Entre as informações divulgadas estavam que o candidato teria evadido divisas para as Bahamas, um paraíso fiscal.

Donald Trump afirmou que Hillary Cliton e outros integrantes do partido democrata, comandavam uma rede de prostituição infantil a partir de uma pizzaria

A Rússia tem sido acusada como um dos países a frente na criação e disseminação da pós-verdade. Evidentemente, para manter seus próprios interesses no globo. Democratas denunciaram a intromissão do país nas eleições do ano passado com divulgação de informações falsas. O país também foi acusado de interferência nas eleições da França. O governo russo nega: “Nós não tivemos e não temos nenhuma intenção de interferir nos assuntos internos de outros países ou em seus processos eleitorais”, disse Dmitry Peskov, porta-voz do presidente russo. “Que existe uma histérica campanha anti-Putin em alguns países é um fato óbvio”, completou. Por outro lado, em se tratando da guerra na Síria, o jogo de mentiras parece pender para os EUA. Professores universitários alemães, membros da organização ATTAC Deutschland (Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos — Alemanha), publicaram uma declaração conjunta, na qual criticaram a interpretação que a maioria das mídias apresenta no que se trata do papel russo e iraniano na resolução do conflito sírio. No texto intitulado "Declaração sobre a guerra na Síria", os professores afirmam que a Rússia e o Irã "primeiro esgotaram todas as possibilidades de uma solução diplomática e pacífica do conflito" e ao ver que não funcionaram, iniciaram ações militares. "Os ataques contra a Rússia por parte dos principais meios de comunicação são absurdos", asseguram.
Uma realidade nada utópica
Para entender a pós-verdade basta se colocar no universo dos livros distópicos – algo como o inverso do que seria utópico, um universo na maioria das vezes totalitário e autoritário. Livros como “1984”, de George Orwell, falam de controle dos direitos individuais e manipulação da informação. “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, sobre um tempo em que a vida é basicamente orientada para o trabalho e a produção. “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, descreve dias onde a pensamento crítico é suprimido e opiniões próprias são consideradas antissociais.

Cena do filme 1984, adaptação do livro de George Orwell, que se passa em um universo distópico onde todas as informações são controladas pelo governo

A pós-verdade fala de um tempo em que a mídia resolveu divulgar fatos a partir de interpretações. Algumas dessas interpretações de moral duvidosa, com a finalidade de beneficiar uma parcela específica da sociedade. Assim é possível ver meias verdades incendiando preconceitos e radicalizando posicionamentos de leitores, telespectadores e ouvintes. Plataformas sociais favorecendo a replicação de boatos e mentiras e grande parte desses boatos sendo compartilhados por conhecidos. O que lhes dá mais credibilidade e confiança, aumentndo a aparência de legitimidade das histórias. Basta lembrar do boato que o filho de Lula seria dono da Friboi, história divulgada a exaustão pelo Facebook, Twitter e Whatsapp. ‘Tanto é assim que mesmo boatos, que apesar de serem infundados e denunciados como falsos, ainda conseguem manter na cabeça da maioria a impressão de há algo de verdadeiro. A desconfiança nas instituições como o Judiciário, Legislativo, Executivo, as Polícias e até em médicos e advogados, ampliam a sensação de teoria da conspiração que a pós-verdade tenta imprimir nos mais apressados, e mesmo nos mais atentos. Como se o mundo estivesse de novo metido numa espécie de fogueira de vaidade como a que aconteceu em 1497 quando foram queimados livros, cosméticos e obras de arte consideradas pecaminosas. A questão é que o erro (ou o pecado) fica cada vez mais difuso e vai se ficando mais inapto para distinguir mentiras de verdades. 
Aliado a este universo de neurose conspiratória, está a inteligência artificial utilizada nas redes sociais, construída a partir de algoritmos e cruzamento de dados, e utilizada como mecanismos de buscas na web, ela ajuda a fazer com que seus usuários tendam a receber informações que corroboram seu ponto de vista, formando bolhas que impossibilitam o acesso ao contraditório.

Ataque à confiança e à realidade

A filosofia, a poesia, a psicologia, as ‘ciências’ que cuidam da alma, frisam que é da natureza humana recusar fatos que contrariem a visão que se tem do mundo ou de si mesmo. Já escrevia Fernando Pessoa, travestido de Alberto Caeiro, no poema “O Guardador de Rebanhos”. “O que nós vemos das cousas são as cousas. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? Por que é que ver e ouvir seria iludirmo‑nos. Se ver e ouvir são ver e ouvir? O essencial é saber ver. Saber ver sem estar a pensar. Saber ver quando se vê. E nem pensar quando se vê. Nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), Isso exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender”.
Para corroborar com essa visão, a NORDESTE pinçou um trecho do artigo do professor Carlos Castilho, membro do site Observatório da Imprensa. Castilho escreveu discorrendo sobre o tema no Observatório – como o nome já diz, um site vigilante da Imprensa. Castilho diz que na modernidade, os meios de comunicação, principalmente a imprensa, ganharam um papel de protagonista no fenômeno da pós-verdade.
“Afinal, a circulação de mensagens passou a ser o principal mecanismo de produção de novos conhecimentos numa economia digital movida a inovação permanente. A relevância conquistada pelos meios de comunicação os transformou em agentes fundamentais no processo que prioriza uma forma de descrever a realidade. Quando a imprensa norte-americana endossou a tese da existênciade armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, ela deixou de lado a verificação dos fatos e foi decisiva na transformação de uma possibilidade em certeza acima de suspeitas. Teoricamente, a pós-verdade pode ser usada tanto pela esquerda como pela direita no terreno politico, mas como a imprensa joga um papel fundamental no processo, os rumos obviamente serão determinados pela ação de jornais, revistas, meios audiovisuais e pelas redes sociais. A Imprensa, portanto, não é uma observadora, mas uma protagonista do processo de transformação de mentiras ou meias verdades em fatos socialmente aceitos”.

Compartilhamento em entre amigos dá credibilidade à informação

Outra boa conceituação sobre o tema está num artigo do professor Roberto Romano, “Sobre o Segredo e o Silêncio”, publicado pela Revista USP. Professor do departamento de filosofia da Unicamp, Romano escreve que alguns pensadores, como Paul Virillo (filósofo francês autor de vários livros sobre as tecnologias da comunicação), definem a vida contemporânea com o signo da velocidade. Outros a determinam pelo vínculo entre a ordem particular e pública com o espetáculo – tema abordado por outro escritor francês, Guy Debord, no livro “Sociedade do Espetáculo”. 
“O fato é que as duas vias se encontram quando refletimos sobre o barulho que nos enlouquece a cada instante. Estradas e ruas insuportáveis ao ouvido, divertimentos que fariam o alarido das bacantes parecer murmúrio, cultos religiosos efetuados aos berros, tanto em igrejas ortodoxas quanto nas reformadas, tom de voz humana mais próximo aos urros das selvas. Não apenas a nossa cultura se pauta pela espacialização: o sentido do tempo, a escuta, se perde a cada átimo numa ciranda infinda. Em tal cacofonia, o sentido lógico das palavras se dissolve com rapidez inédita e percebemos o quanto o discurso, em todos os âmbitos, se banaliza e decai nas formas da propaganda e da histeria. Não existem mais comícios políticos, são poucas as procissões religiosas, mas o ritual satânico da incomunicação anuncia o reinado de máquinas inteligentes e usuários “humanos” a cada hora menos atilados. As mônadas, dizia Leibniz (Gottfried Wilhelm Leibniz, filósofo alemão), não têm portas nem janelas. No mesmo ímpeto em que nos fechamos numa jaula definida como tecnosfera, perdemos a capacidade de falar e de ouvir”.
Agora, para fugir desse espectro da mentira e dos boatos a Imprensa criou o fact-checking, um nome americanizado para checagem de fatos. A tentativa é apostar que o meio pode voltar a se ancorar na veracidade e voltar à construir a credibilidade. Contudo, a questão permanece, como bem frisou Platão. Essa técnica de checagem pode vigiar os boatos, mas quem vigiará os guardas dos boatos? O problema foi proposto por Platão em “A República”. A obra, escrita por Platão, é um diálogo onde Sócrates discorre sobre Justiça, Moralidade e Governo. Na sociedade perfeita descrita por Sócrates, o personagem principal da obra depende de trabalhadores, escravos e comerciantes. Há uma classe guardiã para proteger a cidade. Mas uma pergunta é feita a Sócrates, "Quem guardará os guardiões?" ou, "Quem irá nos proteger dos protetores?" a resposta de Platão para esta pergunta é que os guardiões irão se proteger deles mesmos. A questão é que para isso seria preciso que esses guardiões tivessem um alto grau de ética e moral. Talvez “1984”, “Fahrenheit 451” e “Admirável Mundo Novo” esteja mais presente do que gostaríamos de pensar. Vale ressaltar que na antiguidade tudo isso que hoje chamamos de pós-verdade tinha outro nome: sofismas.

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