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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SHAME ON YOU, DOM ODILO. SHAME ON YOU !!!

João Doria e arcebispo de São Paulo: “Pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome”

Revista ihu on-line

19 Outubro 2017
O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), voltou a apresentar nesta quarta-feira a farinata, uma espécie de farinha composta por alimentos próximos de sua data de validade ou que não seguem os padrões de comercialização, como carro-chefe de um programa municipal. Dessa vez, o prefeito afirma que ela será incluída na merenda das crianças em escolas e creches públicas e nas refeições dos centros de acolhida de moradores em situação de rua. O objetivo, segundo explicou, é evitar o desperdício de alimentos que ainda são próprios para o consumo e complementar — e não substituir — os alimentos in natura.

A reportagem é de Felipe Betim e publicada por El País, 18-10-2017.
O prefeito já havia divulgado, no último dia 8 de outubro, uma espécie de biscoito feito de farinata que seria usado em um programa para erradicar a fome em São Paulo e distribuído para famílias de baixa renda. O produto ficou então conhecido como "ração humana", foi alvo de críticas de diversos especialistas e nutricionistas e, devido à discussão gerada, ajudou a viralizar nas redes sociais um vídeo do prefeito gravado em 2007, época em que ele apresentava o programa de TV O aprendiz. Nele, Doria afirma que "gente humilde" não possui "hábito alimentar" e "tem que dizer graças a Deus" caso possa comer.

Presente na entrevista coletiva, o cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, buscou amenizar as palavras do prefeito: "Pobre tem fome. Hábito alimentar é para quem tem disponibilidade de alimento e quem pode se dar ao luxo de ter uma alimentação regular, refeições regulares, alimentos selecionados. O pobre não tem isso (...). Quem se arrasta no chão por fome, eu vou deixar de atender a fome dele porque ele não está podendo sentar numa mesa bem posta? A necessidade é socorrer primeiramente a fome do pobre".

Doria disse não se lembrar do vídeo, mas corroborou a afirmação de Scherer e voltou a dizer: "Pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome". A Prefeitura não apresentou qualquer dado sobre quantas pessoas de fato se encontraram nesta situação na cidade ou quais são as metas de seu programa de erradicação da fome.

Proprietária da Plataforma Sinergia, que detém a patente da farinata, Rosana Perrotti esclareceu durante entrevista que seu produto pode ser usado não apenas no polêmico biscoito, mas também na fabricação de bolos e pães ou para reforçar sopas. A ideia é que seja utilizada na cozinha de centros de acolhida e escolas para a fabricação de alimentos. Doria garante que a distribuição na rede de ensino começará ainda em outubro.

Entretanto, a secretária municipal de Direitos Humanos, Eloisa Arruda, admitiu que ainda precisa fazer estudos sobre as demandas nutricionais dos alunos e a forma que seria distribuído. "Teremos um diagnóstico das carências nutricionais da população. Isso será feito de forma paulatina, quem vai fazer isso é o Observatório de Políticas para o Desenvolvimento Social, que está alocado na secretaria de Desenvolvimento Social. Quando o prefeito fala das creches, é possível que alimentos que hoje são fornecidos, como bolacha ou macarrão, sejam substituídos pela farinata já disponível. Ao lado dessa introdução na merenda nós desenvolveremos um estudo sobre as carências nutricionais da população em São Paulo", disse.

Perrotti garante que todos os nutrientes dos alimentos são preservados — uma afirmação que vem sendo contestada por diversos nutricionistas — e que sua vida útil pode ser prolongada por mais dois anos. Isso ocorre após a comida passar por processos como o de liofilização, ou desidratação, considerado caro e demorado pela indústria. Mas a proprietária da Sinergia, ligada à Igreja Católica, não soube explicar os custos envolvidos para a fabricação da farinata.

Limitou-se a explicar que o programa seria custeado pelas próprias empresas — supermercados, produtores, entre outros —, que hoje gastam muito mais com o descarte de alimentos e custos de logística. "O processo de descarte custa 750 bilhões de dólares para a economia global. Nós vamos reduzir esses custos ao operacionalizar a farinata", explicou. "Vamos colocar tecnologias em cima de carretas, como já fizemos, para poder processar dentro da indústria, do armazém, ou fundo de supermercado. E isso vai ser bancado pela própria empresa, que vai diminuir os custos com logística", acrescentou. Também disse: "Como vamos conseguir produzir em escala para acabar com a fome? Somente através de políticas públicas, somente através de lei. A gente não pode abrir essa tecnologia para uma, duas, três toneladas. A gente está falando aqui de muito volume de alimento".
Apesar de não estar claro os custos de todo o processo — não apenas de produção, mas também de armazenagem e distribuição, por exemplo —, tanto Doria como Perrotti asseguraram que a Prefeitura não desembolsará recursos próprios e que a farinata será repassada de graça para a administração pública. No entanto, uma lei recentemente sancionada por Doria prevê isenção de impostos para as empresas que doem seus alimentos prestes a vencer. Questionado, o prefeito frisou que se trata de uma recomendação e que sua gestão não abrirá mão do dinheiro arrecadado via impostos para apoiar as companhias que participem do programa.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Entrevista de Roberto Romano à Deutsche Welle 18/outubro/2017

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Brasil

Caso Aécio pode ser divisor de águas

Salvação do ex-candidato presidencial, alvo de nove inquéritos, marca nova fase no embate entre Lava Jato e mundo político, com o Congresso com a palavra final. "Porteira foi aberta para a impunidade", diz especialista.

Há cinco meses, Aécio, que recebeu 51 milhões de votos nas eleições de 2014, parecia ter chegado ao fim a linha Há cinco meses, Aécio, que recebeu 51 milhões de votos nas eleições de 2014, parecia ter chegado ao fim a linha

Pela segunda vez em menos de três meses, um político brasileiro influente encrencado com a Justiça foi salvo pelos seus pares. Em agosto, a Câmara enterrou a primeira denúncia contra o presidente Michel Temer. Desta vez, coube ao Senado seguir o mesmo caminho ao salvar o tucano Aécio Neves, alvo de nove inquéritos e contra quem pesava uma ordem de afastamento determinada pela 1º Turma do Supremo.

Por 44 votos contra 26, a Casa decidiu que o tucano deve reassumir seu mandato. O caso Aécio marca um divisor de águas no embate entre a Operação Lava Jato e o mundo político. O quadro começou a ser desenhado na semana passada, quando o plenário do Supremo contrariou a decisão da sua turma e determinou que cabe ao Congresso ter a palavra final sobre a manutenção do mandato. O evento apontou o fim da possibilidade de novos episódios como o afastamento do ex-deputado Eduardo Cunha, determinado exclusivamente pela Justiça.

"Ao recuar dessa maneira, o STF voltou ao papel tradicional de tribunal político, no pior sentido, tal como ocorreu nos anos 30 e na ditadura. A porteira foi aberta para a impunidade”, afirma Roberto Romano, professor de ética da Unicamp.

E, no seu primeiro teste para decidir se decisões de turmas do STF devem ser ou não acatadas, uma das Casas do Congresso mostrou o que está disposta a fazer com esse poder, especialmente quando o político alvo de acusações graves ainda detém influência. Presidente do PSDB, Aécio foi o principal fiador da entrada do partido no governo Temer. Nos bastidores, o Planalto trabalhou para que os senadores do PMDB votassem a favor do tucano.

Inconsistência

O caso Aécio também contrastou com o do ex-senador Delcídio do Amaral. No final de 2015, 59 senadores votaram a favor da manutenção da prisão do então senador, que era filiado ao PT. Desta vez, os membros do Senado explicitaram que seus votos variam de acordo com a pessoa que está sofrendo as acusações e suas cores partidárias.

Vinte e nove que haviam votado contra o petista decidiram na terça se posicionar a favor de Aécio. Outros seis, todos do PT, que haviam votado pela revogação da prisão do seu então colega de partido, desta vez votaram pelo afastamento de Aécio.   

"Os senadores estão subvertendo a instituição, cometendo um crime continuado, foi a mais deslavada operação para legislar em causa própria”, diz Romano.

Entre os senadores que votaram para salvar Aécio, 17 figuras estão na mira da Lava Jato, como Romero Jucá (PMDB-RR) e Fernando Collor (PTC-AL). Ao todo 28 senadores alvos de inquéritos no STF votaram a favor do tucano.

"O corporativismo instalado estabelece como regra a defesa dos seus integrantes e não a defesa da instituição. Aqui mora o corporativismo", lamentou o senador Alvaro Dias (Podemos-PR), que votou pelo afastamento de Aécio.

Impunidade

Com a decisão do Senado, resta aos adversários de Aécio apresentarem um pedido de cassação por quebra de decoro. Mas é improvável que esse caminho seja bem-sucedido. Entre os senadores que votaram a favor de Aécio estava João Alberto Souza (PMDB-MA), justamente o presidente do Conselho de Ética do Senado.

 
Assistir ao vídeo 01:39

Os países mais corruptos do mundo

Como chefe da comissão, cabe exclusivamente a Alberto determinar se alguma representação deve ser submetida ao conselho. Em junho, no auge do escândalo dos grampos da JBS, ele decidiu de maneira solitária indeferir um pedido de cassação contra Aécio apresentado pelo PSOL e pela Rede.
"A tendência é só piorar. Vai ser praticamente impossível o STF recuperar sua influência. Casos como o de Aécio tendem a se repetir em todos os três níveis, do vereador ao deputado federal”, disse Romano.

Em outra frente, o governo vem atuando para influenciar o STF a rever a decisão que determinou o início do cumprimento de pena em regime fechado para condenados em segunda instância. Tomada em outubro de 2016, a decisão do Supremo foi encarada pelos membros da Lava Jato como um das conquistas da operação.

O ministro Gilmar Mendes, por exemplo, já indicou que deve mudar seu entendimento sobre a decisão, invertendo o placar de 6 a 5 pela execução das penas após a segunda instância.
"Se o STF modificar o entendimento atual (...) nem Lula nem Cunha irão presos. Esta é a atual batalha que a Lava Jato enfrenta, e talvez a maior de todas", disse o procurador Carlos Fernando Dos Santos Lima, membro da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba.

Renascido das cinzas

Há cinco meses, Aécio, que recebeu 51 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2014, parecia ter chegado ao fim a linha. Em maio, gravações divulgadas por Joesley Batista revelaram que o senador pediu dois milhões de reais ao empresário, mesmo depois das revelações do caso Odebrecht. Aécio também afirmou que estava "trabalhando como um louco" para aprovar uma anistia ao caixa dois no Congresso.

As gravações também revelaram outros aspectos sobre o caráter do senador. Autor do pedido de anulação da chapa Dilma-Temer nas eleições em 2014, que contribuiu para o clima de confronto do Congresso, Aécio foi flagrado nos grampos afirmando que a representação foi feita apenas para "encher o saco".

No dia seguinte, agentes da Polícia Federal reviraram várias propriedades do Senador. Andrea Neves, irmã e colaboradora política do senador, acabou sendo presa. Um primo também foi detido. A Procuradoria-Geral da República pediu ao STF a prisão do tucano, mas o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, entendeu que ele só poderia ser detido em flagrante, e se limitou a afastar o tucano das suas funções.

A partir daí, começou a costura para salvar Aécio. No final de maio, o ministro Marco Aurélio decidiu devolver o mandato do tucano. Em junho, foi a vez de o Conselho de Ética do Senado arquivar o pedido de cassação. No mesmo período, um dos inquéritos contra o Senador foi sorteado para o ministro Gilmar Mendes, a quem Aécio pediu ajuda para influenciar na aprovação de um projeto contra abuso de autoridade que mirava na atuação de juízes e procuradores.

Em setembro, um revés temporário: a 1º turma do STF aceitou um novo pedido de afastamento e determinou que o senador tivesse que ficar em recolhimento noturno em sua casa. Dias depois, o plenário do STF deu novo fôlego ao tucano ao determinar que seu futuro fosse decidido pelos seus colegas no Senado.   

Áudios e vídeos relacionados

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Já não se fazem mais autores como antigamente

Foto: Antoninho PerriPeter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

Já não se fazem mais autores como antigamente

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Ilustração: Luppa Silva​ No começo dos anos 1990, passeando pela seção de painéis de um encontro de física, chamou a minha atenção um trabalho sobre estatística de distribuição níveis de energia em um cristal. Bem, não é importante aqui o assunto, não se preocupem, o tema é outro. Perguntei ao colega que estava apresentando o painel sobre essa estatística e a resposta foi que ele fizera os cálculos dos níveis de energia, não sabia interpretá-los e quem poderia responder a minha pergunta era o outro autor, que não estava presente. Conheci tempos depois esse colega e aprendi com ele sobre essa estatística de níveis, que acabei usando em alguns trabalhos já nesse século. Mas não foi por isso que nunca esqueci o episódio e sim pela questão que era inescapável: o que significava ser autor de um trabalho sem ter autoridade sobre todo o seu conteúdo? (É preciso dizer que os dois neste "causo" tornaram-se bons cientistas).
Lembro aqui que autor e autoridade são palavras com a mesma origem. Na época o desconforto que a questão suscitou foi aplacado pela lembrança de uma prática internalizada na comunidade científica a qual pertencia. Experimentos importantes são realizados por diferentes grupos utilizando amostras sofisticadas obtidas em poucos laboratórios. O uso dessas amostras configura um tipo de colaboração comum e os artigos resultantes dessas colaborações sempre têm o produtor das amostras como autor. Faz parte do paradigma da comunidade a percepção clara da função específica daquele autor na lista de autores.  A autoridade dele é sobre a amostra e não sobre a pesquisa resultante em si.  Então, inicialmente: o que é um autor? Olhando a ciência a partir das bases de dados, autor é todo aquele que assina um artigo indexado.
Foto: Reprodução
O filósofo francês Michel Foucault, que em 1969 deu a conferência “O que é um autor?”
Hoje a maioria dos artigos são multiautorais, muitos com dez, quinze ou mais autores em várias áreas das ciências naturais. Nas bases de dados todos eles recebem automaticamente uma citação a mais, quando o artigo em questão é citado. Mas qual é a função de cada um dos autores? Será que a função (contribuição) de um dado autor merece a citação que ele automaticamente recebe? O problema passou a ser parcialmente abordado por algumas revistas, que pedem a descrição do papel de cada autor no artigo publicado. Mas a coisa foi se complicando. Jason Osborne e Abigail Holland abordam a questão em um artigo com o interessante título “O que é autoria e o que deveria ser?” [I], começando pela enunciação de dois extremos. Por um lado mencionam um artigo relatando um estudo clínico internacional com mais de 900 autores. Relativamente poucos, perto da outra menção: os quase 3000 autores que assinam um artigo sobre a detecção do bóson de Higgs (a tal partícula de deus). Por outro lado, lembram o inventário de autores impossivelmente produtivos com 32 ou mais artigos por ano: um artigo a cada semana e meia. Meu antigo supervisor de pós-doutorado é um prêmio Nobel e, vasculhando outro dia seu currículo, descobri que seu recorde era (na virada do século) assinar 10 artigos científicos por ano, mesmo tendo um departamento inteiro à sua disposição (não só administrativamente, mas academicamente). Em um exercício de etnografia por memória posso dizer que ele tinha autoridade sobre a construção do conteúdo, a articulação e consistência das várias partes desse conteúdo e, finalmente, sua textualização: ele assinava e era de fato o autor com autoridade sobre o artigo como um todo. Desconfio da possibilidade de autorias com essas características para uma produtividade anual muito acima disso. A percepção é de que as diretrizes de avaliação acadêmica incentivam essa hiperautoria, bem como antecipam no tempo os autores. Há 50 anos esperava-se que um físico começasse a ser autor no final do doutorado. Na virada do século passou a ser quase mandatório que o mestrando assinasse um artigo científico. Hoje é comum que alunos de graduação sejam autores. O que tal precocidade acarreta?
“O que é um autor?” é o nome de uma conferência de Michel Foucault de 1969, mas o filósofo francês não estava considerando a autoria científica, mas que nessas últimas décadas passou a ter relevância crescente. Um sintoma dessa relevância, além das perguntas que coloco acima, é o final do título do artigo de Osborne e Holland, que menciono acima: “um levantamento de orientações proeminentes para determinar a autoria em publicações científicas”.  De um ponto de vista mais denso, recomendo o livro “Autoria científica – crédito e propriedade intelectual na ciência”, organizado por Mario Biagioli e Peter Galison [II]. O livro divide-se em três partes: a emergência da autoria, os limites da autoria e a fragmentação da autoria. Anuncia-se assim o que, pensando bem, não seria inesperado: se o artigo científico foi se modificando com o tempo, por que não o próprio significado de sua autoria? A emergência refere-se à delimitação ainda no período moderno de quem poderia ser considerado um autor científico, ou seja, um cientista. Os limites da autoria referem-se a questões mais contemporâneas como a relação do autor científico com outros atores não acadêmicos. O exemplo mais simples, ainda que não tão instigante, é o conflito entre o interesse do cientista em publicar e a exigência de sigilo por questões de propriedade intelectual de quem financia a pesquisa. Outro é a relação entre o cânone do conhecimento científico e conhecimentos nativos. A fragmentação da autoria é dedicada em grande parte à multiautoria, com a qual me ocupei no início dessa coluna. Um dos capítulos, de Peter Galison, é de acesso livre: “O autor coletivo” [III]. Esse autor coletivo é a “colaboração” em si, que envolve, por exemplo, os quase 3000 autores do trabalho mencionado por Osborne e Holland. Essa imensa lista de autores é como um abaixo-assinado que valida a reivindicação de conhecimento obtido pela “colaboração” declarada no artigo. É parte de uma institucionalização da ciência característica de um clube pequeno de instituições como o CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), cuja história fica para outra hora. Por agora interessam as questões levantadas por Galison na construção de seus argumentos e que se aplicam às multiautorias menos numerosas. Novamente: em uma multiautoria qual é a função de cada autor? Se cada autor tem uma função diferente, quem tem visão geral do trabalho e pode responder pela consistência do artigo e o conhecimento que este reivindica (como o meu antigo supervisor no exemplo mais acima)? Ou seja, de todos os autores que levam crédito igualmente nas citações registradas nas bases de dados, quem constrói de fato uma apercepção acerca do artigo que assina? A apercepção é um ingrediente fundamental na formação e na prática do cientista e não pode ser acelerada.
Última pergunta dado o andar da carruagem: que ciência estamos fazendo e que cientistas estamos formando?



[I] ‘What is authorship, and what should it be? A survey of prominent guidelines for determining authorship in scientific publications. Jason W. Osborne and Abigail Holland, Practical Assessment, Research & Evaluation, Vol 14, No 15
[II] Scientific Authorship: Credit and Intellectual Property in Science, editado por Mario Biagioli e Peter Galison. Routledge (Taylor and Francis Group), 2003
[III] https://galison.scholar.harvard.edu/publications/collective-author

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Professor Luiz Marques, Unicamp

Caros colegas e amigos,

Envio-lhes o link do meu artigo quinzenal no Jornal da Unicamp:

A atual trajetória de colapso socioambiental é incontestável
 

Resumo em 4 pontos:

(1) Nenhum dado quantitativamente relevante contesta a mais distintiva das proposições científicas de nosso tempo: a escala e rapidez crescentes das pressões deletérias exercidas pela lógica expansiva do capitalismo global sobre o sistema Terra coloca as sociedades humanas e a biodiversidade numa trajetória de colapso iminente;

(2) Essa proposição é o conteúdo comum dos vários alertas emitidos pelos mais importantes coletivos científicos desde 1992, incluindo os relatórios de avaliação do IPCC;

(3) Esses alertas têm sido pouco escutados. Prova disso é que as concentrações atmosféricas de CO2 vêm se acelerando ininterruptamente e desde 2010 estão crescendo a uma taxa média anual de 2,5 ppm (partes por milhão). Estamos hoje beirando 410 ppm, de modo que, mantido esse ritmo e mesmo sem acelerações sucessivas, as concentrações terão ultrapassado 450 ppm em 2035, nível que, segundo o IPCC, “tem uma probabilidade significativa de desencadear um evento climático de larga escala”. 

(4) Em 2016, lançamos na atmosfera 53,4 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa (GtCO2-eq), o que nos aproxima rapidamente de um aquecimento global considerado perigoso. Essas emissões aumentaram cerca de 7% em relação à 2010. Isso se deve agora tanto à crescente produção de energia quanto a um regime alimentar perverso, transformado em commodities e baseado em proteínas animais.

Abraços,

Luiz

Entrevista ã Folha, quando ocorreu a escolha do Papa Francisco.

Folha de S.Paulo. 

Entrevista da Segunda Roberto Romano 

Francisco terá de enfrentar Cúria se quiser arejar igreja

Professor da Unicamp diz que Papa pode administrar Santa Sé junto com bispos; jesuítas, ordem do pontífice, são 'exército'
LAURA CAPRIGLIONE DE SÃO PAULO
 
Professor de ética e filosofia na Unicamp e doutor em filosofia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Roberto Romano considera que Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, tem credenciais de sobra para enfrentar os dilemas da igreja num mundo multicultural, globalizado, acossado pelos avanços da ciência, cada vez mais dessacralizado.

Segundo Romano, a Companhia de Jesus, ordem fundada por Inácio de Loyola no século 16, de onde provém o atual papa, é a que mais dialoga com os desafios da modernidade. "Eles estudam, estudam, estudam, debatem com pesquisadores laicos do mundo todo para saber como reafirmar da melhor forma os princípios da igreja".

O filósofo foi, durante 12 anos, frade dominicano. O Brasil vivia sob a ditadura militar, fase em que o Convento dos Dominicanos de São Paulo converteu-se em base de apoio da luta armada e de seu líder principal líder, Carlos Marighella (1911-69).

O jovem Romano (o nome homenageia a igreja de Roma) chegou a amargar um período atrás das grades, no famoso presídio Tiradentes.

É com esse histórico que Romano avalia as denúncias de que Francisco teria delatado dois padres jesuítas para a ditadura argentina.

Segundo Romano, o pontífice está pagando pelos erros de toda a igreja naquele país, que colaborou ativamente com a repressão.
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Folha - Qual a importância de, pela primeira vez, o papa ser um jesuíta?

Roberto Romano - A Companhia de Jesus foi criada no século 16 como parte da Contrarreforma. As pessoas ligam a Contrarreforma apenas ao combate à Reforma Protestante. Mas, na verdade, tratou-se de uma estratégia definida em relação à Reforma e ao Renascimento.

Os desafios que eram apresentados à igreja na época vinham de um mundo que já era em boa parte laico e que estava produzindo uma série de saberes que ultrapassavam o quadro da metafísica tomista [de são Tomás de Aquino (1225-74)], adotado oficialmente pela igreja.

Os jesuítas foram produzidos como verdadeiros guerreiros em luta pela conquista da modernidade para a Igreja Católica e para combater o protestantismo.

Eles prepararam-se com todas as armas da cultura que era sua adversária.

E como essa cultura jesuíta pode ajudar nos dias de hoje o governo da igreja?

Não se pode pertencer a essa ordem sem um trabalho intelectual. É uma ordem que cultiva a ciência e a técnica.

O caso do papa Francisco ilustra bem esse fato: primeiro, ele se formou em química, então, sentindo essa adequação com a ordem jesuítica, foi ser um deles.

Muitos são médicos, físicos, matemáticos, teólogos, filósofos. Dedicam-se a um diálogo com o mundo científico, tecnológico e político.

Você tem há séculos jesuítas nos Estados Unidos, na Alemanha, em Israel, no Brasil etc. Eles detêm um saber antropológico e científico muito aprofundado e ramificado internacionalmente.

São uma ordem com capacidade intelectual e disciplina imensas. "Perinde ac cadaver" ou obedecer como um cadáver. Fazem tudo para a maior glória da igreja. 

Quem é a "turma" do papa no Brasil?

Hoje, no Brasil, os jesuítas têm centros de excelência, como a Unisinos, no Rio Grande do Sul. Os temas mais relevantes do debate ético e religioso mundial aparecem lá: homossexualidade, aborto, vida, eutanásia. 

Quem é a estrela jesuíta no Brasil?

É muito difícil encontrar um jesuíta estrela. Eles são avessos a esse brilhareco tão comum no meio acadêmico.

De vez em quando, aparece um. Curiosamente, não pelo que ele fazia ou dizia, mas porque a igreja colocou-se contra o que ele fazia.

Foi o caso de Teilhard de Chardin [1881-1995], jesuíta francês. A igreja proibiu-lhe que continuasse suas pesquisas sobre a evolução. Aí, contra a vontade dele, ele tornou-se famoso. 

A escolha de um jesuíta pode significar um arejamento da igreja?

Vai depender da capacidade de resistência da Cúria Romana a esse tipo de posição.

Houve um movimento de centralização terrível no período de Pio 12 (1939-58), que reprimiu o quanto pôde as divergências internas e legou um poder imenso à Cúria quando morreu.

João 23 foi um grande papa justamente por ter enfrentado a Cúria e convocado o Concílio Vaticano 2º. Isso permitiu que o papa Paulo 6º governasse em colegialidade.

Com João Paulo 2º, a Cúria voltou ao centro, com repressão, perseguição etc. Foi um dos papados mais repressivos da história da igreja. Eleito Ratzinger, o papa Bento 16, ele não conseguiu dominar a Cúria. Esse desafio o papa jesuíta terá de enfrentar.'

Como?

A igreja tem movimentos de sístole e diástole. Há os conciliaristas, que defendem o Concílio e o colégio dos bispos como autônomos em relação ao papa, e há os que defendem o poder absolutista do papa.

Conforme a crise, a igreja apela para a colegialidade ou para a hipercentralização do poder. O que Francisco pode fazer é, pouco a pouco, aumentar a colegialidade. 

Há alguma chance de o novo papa flexibilizar a imposição do celibato?

Eu acho muito difícil, mas será uma das questões a ser debatida nessa possível colegialidade.
O papa terá de estabelecer um diálogo com os bispos nacionais e colocar na pauta todos esses problemas, inclusive a questão do celibato.

Mas não sei se Francisco, pela idade, terá forças suficientes para tanto. 

Como o senhor avalia a denúncia sobre a suposta colaboração do novo papa com a ditadura argentina?

Se existe um problema gravíssimo é o fato de a igreja argentina ter colaborado ativamente com a repressão. Foi muito mais do que uma simples omissão.

A Argentina presenciou uma unidade da igreja com o regime ditatorial que é espelho do que já havia acontecido na Europa -na Espanha franquista, na Itália fascista, na Alemanha nazista.

Não é por acaso que, depois da ditadura, a igreja perdeu um número imenso de fiéis na Argentina.
Aliás, quem mais colaborou com a repressão ditatorial na Argentina não foram os jesuítas. Foram os dominicanos, a mesma ordem que, no Brasil, abrigou Carlos Marighella, o inimigo número um do regime militar. 

Como é possível?

Essas ordens têm várias tendências internas. No caso dos jesuítas, essas tendências são mais disciplinadas.

No caso dos dominicanos, as tendências transbordam em público porque a ordem tem origens históricas e ideológicas muito diferentes.

Quando os dominicanos quiseram trazer a ordem para o Brasil, dom Pedro 2º disse que jamais deixaria que inquisidores entrassem.

Mas aí contaram-lhe que eram os dominicanos franceses, de tendência socialista, e ele permitiu. Eram dominicanos diferentes dos que foram para a Argentina, herdeiros do ramo espanhol, ligados à tradição inquisitorial e, mais tarde, ao franquismo.

Para mim, o papa Francisco pode estar pagando pelos pecados da igreja argentina como um todo.
Até porque acho muito esquisito que um superior jesuíta colaborasse ou mesmo abandonasse à morte ou para a tortura dois "soldados" da sua própria ordem. Não se esqueça de que a Companhia tem a organização de um Exército.

É preciso investigar melhor. É contra o espírito de disciplina da ordem. 

Como o novo papa tende a se relacionar com a Renovação Carismática?

Ele pode aproveitar muito. Essa sabedoria antropológica que o jesuíta tem traduz-se justamente pela capacidade que eles têm de usar todos os movimentos que possam levar a uma expansão da fé.

É evidente que parece um pouco esquisito pensar em um padre intelectualizadíssimo como o jesuíta em um movimento como a Renovação Carismática. Mas é assim que eles atuam.

Na China do século 17, eles adotaram a língua, os costumes, os paramentos chineses, o culto aos ancestrais e fizeram de Confúcio a filosofia de base.

Contra os jesuítas, estavam os dominicanos que queriam impor o latim e que a filosofia de Confúcio fosse declarada demoníaca. Ganharam os dominicanos, e a igreja perdeu a China. 

 ENTREVISTA DA 2ª (18.MAR, PÁG. A15) Por equívoco da reportagem, o texto "Francisco terá de enfrentar Cúria se quiser arejar igreja" trouxe a informação incorreta de que o filósofo Teilhard de Chardin viveu entre 1881 e 1995. O correto é entre 1881 e 1955.


Roberto Romano Unicamp Novembro de 2005 Considerações sobre o golpe de Estado.

Roberto Romano Unicamp

Novembro de 2005

 Considerações sobre o golpe de Estado.
 
Começo com os países que produziram os primeiros Estados modernos. Antes e depois do Renascimento a Itália se debate entre os territórios pontifícios e as cidades republicanas. Na Alemanha, o povo se espalha em áreas dirigidas pelos bispos ou pequenos príncipes. Até o século 19 aqueles “Estados” geram caçoadas por causa de seus domínios minúsculos (o fenômeno conhecido como Kleinstaaterei), frágil moeda, alfândega, “exército”, tudo nas dimensões de Lilliput. Em sentido oposto, o governo francês unifica parte considerável das suas províncias e define padrões comuns no campo jurídico, militar, político. O rei confisca as prerrogativas dos nobres em tempo certo, sobretudo no governo do cardeal Richelieu. O poder central francês garante para si os monopólios do Estado reunidos na força física (polícia e exército), na ordem jurídica (leis e justiça) e na taxação do excedente econômico (impostos, taxas). Essa tarefa monopolizadora não se efetivou sem violências.

A corte francesa precisava conhecer o país real e as zonas a serem integradas sob a sua égide. Era preciso saber onde habitavam os súditos e quem eram eles. Contar a população e a superfície do território não foi tranquilo nos primeiros dias da França moderna. Como os demais Estados com origem no feudalismo e no controle eclesiástico, ela tinha fronteiras indefinidas e ora se expandia num sentido, ora se retraía noutro. A demografia, nos seus inícios, permite buscar um projeto fiscal. Mas As Crônicas da França, de Pierre Desrey (1515) afirmam a existência na França de 1.700.000 torres de sino, dando uma população por volta de 600 milhões de habitantes ! O dado fantástico foi repetido nos séculos XIV, XV, XVI. Outros escritores falam em números ao redor de 112 milhões. Com tal “saber” o fisco é impossível. A busca de mais arrecadação moderniza a máquina fiscal e incentiva a estatística. Esse movimento aparece no livro de Jacques Coeur, Cálculo ou enumeração do valor dos ganhos do reino de França, relatórios e instruções para administrar o estado e a casa do rei e todo o reino. As guerras religiosas, a concorrência dos Estados pelo domínio territorial e os avanços da arte bélica, que incluem novas tecnologias custosas, colocam os governos na urgência de aumentar os recursos. Enquanto isso, a Assembleia dos Três Estados combate o fiscalismo dos soberanos e nada consegue pois do século XV ao XVII os impostos se multiplicam. Esse desenvolvimento é favorecido pela reorganização administrativa. Os números arábicos, no século XV, facilitam o cálculo. A partir de 1539 anotam-se os batismos, as mortes e casamentos. O poder começa a conhecer o nome, a idade, a qualidade e o número dos súditos. Os registros também revelam as riquezas familiares. (1)

Norberto Elias afirma que o Estado dirigido pela corte domestica os nobres e define modernos padrões civilizatórios na França, ética que se espraia pela Europa. De fato, mesmo quando visitamos os castelos de Luis II da Baviera, erguidos em pleno século 19, percebemos o quanto o modêlo francês inaugura políticas e costumes originais. Versalhes é copiado da Rússia ao Mediterrâneo, bem como a sua vitoriosa centralização burocrática. A tese de Norberto Elias apresenta lados frágeis. Daniel Gordon, secundado por Emmanuel Le Roy Ladurie mostram a inconsistência das suas hipóteses para descrever o centralismo francês. (2)

Se é verdade o enunciado de Francis Bacon segundo o qual knowledge and power meet in one, também é correto dizer que a domesticação que gerou o Estado e a nova ética na França antecipou procedimentos hoje em voga. Richelieu e demais estadistas não realizam o seu projeto sem golpes de Estado. É estranho constatar esse ponto, visto que imaginamos o Estado como o avesso dos golpes. Mas esquecemos que semelhantes técnicas existem agora porque produziram as instituições a que nos acostumamos e que recebem o nome abstrato de “Estado”. O coup d´État é irmão gêmeo do conceito estratégico mas “esquecido”, a raison d´État.

É imensa a literatura sobre o golpe de Estado e a razão estatal. O símbolo maior de todas as análises e propostas encontra-se no maquiavelismo. Não cabe neste espaço analisar todas as interpretações do Florentino e de suas fórmulas brilhantes sobre o exercício do poder. O juízo de Spinoza, autor da mais relevante Ética moderna, resume o que é possível dizer sobre Maquiavel e a conservação do poderio político: “Maquiavel, agudíssimo autor, apresentou com detalhes as medidas a que um príncipe recorre, quando dominado pelo desejo de poder, para fundar e conservar o seu domínio. Mas perde-se com frequência o sentido de suas palavras. Se pensamos que ele tenha destinado aos homens uma lição útil, o que é provável em pessoa tão sábia, ele teria querido —parece— mostrar o quanto a tentativa de suprimir brutalmente um tirano não é eficaz sem que as causas da tirania tenham sido suprimidas, causas que produzem a tirania do principe. Tais causas apenas se reforçam se o principe encontra motivos maiores para ter medo. É apenas a isso que a multidão chega quando ela derruba o príncipe e se gloria do assassinato de um chefe consagrado , como se tivesse cometido uma ação meritória ao praticar um parricídio. Ou talvez Maquiavel tenha querido mostrar que a multidão livre não pode confiar sua salvação a um homem isolado. Pois ele, a menos que seja excessivamente vaidoso e imagine que pode agradar a todos os seus governados, temerá diuturnamente as suas armadilhas. Ele será obrigado a se manter alerta e jogar, por sua vez, armadilhas contra a multidão, em vez de garantir, como seria o seu dever, os interesses gerais. Esta é a intenção, no meu entender, que deveríamos emprestar ao nosso autor. Porque é muito certo que tal homem prudentíssimo amava a liberdade e apresentou salubérrimos conselhos para a sua conservação”. Num escritor decoroso como Spinoza, ressaltam os superlativos sobre Maquiavel: acutissimus, prudentissimus, saluberrima consilia. A inteligência e a cautela são as virtudes políticas mais requeridas na política, sobretudo quando se trata de impôr ou derrubar governantes. Maquiavel encontra-se em todas as linhas, ou entrelinhas, do que foi chamado depois dele a razão e o golpe de Estado. (3)

O “autor prudentissimo” foi atacado na França desde cedo. Como no prefácio ao importante Vindiciae contra tyrannos (1581) onde ficamos sabendo que as teses de Etienne Junius Brutus “são manifestamente contrárias às práticas perversas e conselhos perniciosos e também adversárias das falsas e pestíferas máximas de Nicolau Maquiavel”. Os livros do Florentino “afiam o espírito de certas pessoas para encontrar os meios de subverter o Estado, com ajuda trazida pela autoridade dos governantes. Maquiavel colocou os fundamentos da tirania nos seus livros, como é notório nos preceitos e ensinamentos detestáveis semeados por ele aqui e acolá”. A doutrina maquiavélica “é bobagem perversa e perniciosa ao gênero humano. Ela arruina a si mesma e não subsiste, mesmo sendo forte”. (4)

A mais contundente refutação de Maquiavel vem Innocent Gentillet no Discurso sobre os meios de bem governar e manter em boa paz um reino ou principado. Dividido em três partes, a saber: sobre o Conselho, da Religião e da Política que deve manter um Príncipe. Contra Maquiavel Florentino (1576). (5) Para os líderes políticos e intelectuais protestantes, após a Noite de São Bartolomeu (1572), a França é nutrida por Maquiavel. Entre as acusações à doutrina e à prática dos que dirigem o Estado francês, existe a denúncia de que todos eles eram ateus. “Não devemos nos maravilhar” afirma Gentillet, “se os que pertencem à nação de Maquiavel (postos no governo da França) tenham abandonado o antigo modo de governar dos nossos ancestrais francêses, para introduzir e por em uso na França a nova maneira de governar o país, ensinada por Maquiavel”. E Gentillet apoia-se no desprezo do próprio Maquiavel pela França e pelos francêses, os quais, segundo o italiano, nada entendiam dos negócios estatais.

Assim, muitos francêses (sobretudo os protestantes e os demais perseguidos pelo reino que se instalava sob os auspícios da razão e do centralismo) enxergavam nos golpes de Estado o grande e pernicioso contributo maquiavélico. Golpes brancos ou rubros de sangue, o fato é que Maquiavel teria a paternidade do monstro estatal que tudo devorava na França, da liberdade antiga às riquezas privadas que seguiam para os cofres reais. Além, naturalmente, da repressão impiedosa e do monopólio da polícia e do exército.

Maquiavel, de fato, redige páginas inteiras sobre os golpes de Estado, tanto no mundo antigo quanto na sua Itália destroçada. Gênio agudo, ele descreve as conspirações e mostra os seus perigos, tanto para o governante quanto para os rebeldes. Dessa violência, extrai o lema famoso : Non vive sicuro un principe in uno principato, mentre vivono coloro che ne sono stati spogliati. Mas ele aponta o outro lado da contradição (para falar como os hegelianos e marxistas) : os príncipes devem saber dos graves riscos e da perda de sua coroa quando “violam as leis e os costumes sob os quais o povo vive desde longa data”. É mais fácil diz ele, ganhar o respeito e amor dos cidadãos honrados do que o dos bandidos, mais fácil submeter-se às leis do que violentá-las. Como aproveitar a lição no caso do Brasil atual ? Seria mais fácil ao atual governo brasileiro receber o apoio da cidadania honesta do que o amor de quem exige mesada para aprovar projetos palacianos. Os honestos não desejam golpes, os desonestos vivem apenas dos golpes, financeiros ou institucionais. Mas deixemos esse ponto e sigamos.


Na gênese do moderno Estado francês portanto, Maquiavel é estratégico, bem como a noção de golpe de Estado. O texto mais influente sobre os dois temas foi redigido por Gabriel Naudé : Considerações Políticas sobre os Golpes de Estado (1679). (6) O autor apresenta o golpe como remédio a ser definido com prudência. Seguindo Charron, ele apresenta as regras dos golpes: os conspiradores devem operar no modo preventivo, jamais ofensivo. O golpe serve para que o Estado se defenda, não para aumentar os territórios, ele deve ser dado para que o país se defenda das armadilhas e não para aplicá-las.Se é verdade, segundo Aristóteles, que os governos são derrubados pela fraude, os golpistas devem agir com fraude honesta ao enfrentar as raposas com astúcia de raposas. Aqui surgem os ecos do livrinho importante de Torquato Aceto, Della dissimulazione onesta (1641), relevante nas teses sobre a razão de Estado. Os golpes são necessários para salvar o povo e o reino mas devem ser postos em movimento devagar, nunca em ritmo célere. Os meios para aplicar um golpe devem ser fáceis, jamais complicados. O governante precisa parecer atribulado ao dar um golpe e fazer como o pai que assiste a ablação de uma perna do filho : contrito e só golpeando com desprazer. Os golpes devem ser desfechados quando o governante ainda possui força suficiente para garantir o dia seguinte.

A regra maior dos golpes é extraída do pensamento romano : salus reipublicæ suprema lex. Para os que imaginam Montesquieu como partidário de uma condenação absoluta dos golpes, é preciso recordar que o autor retoma todos os pensadores citados acima, sobretudo Maquiavel, Spinoza, Naudé. O Espírito das Leis avança, a propósito das sucessões no poder, o princípio de todos os golpes. “Quando a lei política, que estabeleceu certa ordem de sucessão no Estado torna-se destrutiva do corpo político para o qual ela foi feita, não se duvide que uma outra lei política possa mudar tal ordem; e longe da segunda lei ser oposta à primeira, ela será bem no fundo inteiramente conforme à ela, pois as duas dependerão do princípio segundo o qual a salvação do povo é a lei suprema”. (7). Embora Montesquieu esteja no fundamento de repúblicas abrigadas dos golpes de Estado, no pensamento de muitos juristas e políticos golpistas a passagem citada permanece como fonte de raciocínio e justificativa para intervenções drásticas. É sublinhemos que as piores tormentas sofridas pelos Estados encontram-se nas lutas relativas à sucessão do governo. No Brasil, a história é muito conhecida.

Para aplicar ou prevenir golpes de Estado, desde o início da instituição política, saberes são exigidos. É por um motivo assim que líderes incultos representam permanente perigo para qualquer regime. No Brasil de hoje alguns demagogos falam em golpe. E com as tramóias descobertas no Estado e nos partidos políticos, os amigos do Planalto e dos “cargos de confiança”, mas também das verbas milionárias, espalham fantasias sobre um golpe para desestabilizar o príncipe, abreviando o seu mando. As tolices ganharam foros de ciência política e quejandos. Enquanto esperam as CPIs e seus resultados, seria interessante que os partidários do poder lessem Maquiavel, Spinoza, Montesquieu e Gabiel Naudé. Tenho certeza de que gastariam menos folego com um golpe imaginário e se interessariam pela análise dos golpes cometidos no dia-a-dia da nossa cambaleante república. Tais providências trariam o selo da ética real, silenciando os slogans nas mentes que não sabem discriminar entre tentativas de golpe e funcionamento cotidiano do Estado. Golpe e razão de Estado são permutáveis. Os petistas que sairam da esquerda, ou insistem em se apresentar com aquele rótulo, têm plena consciência de que os regimes instaurados sob a sua égide brotaram de golpes. E a inspiração maquiavélica encontra-se nas teorias do golpe proletário para instaurar ditaduras. Como partilham o realismo da razão de Estado, os estalinistas no PT ou fora dele aceitam todas as consequências golpistas, desde que o golpe seja imposto por eles. Daí, a perene desconfiança contra os adversários: eles supostamente maquinam golpes sem cessar. Para saber quando é preciso redefinir a lei fundamental para deter a morte do Estado, ou para decidir sobre um golpe, é preciso muita prudência e conhecimento. Como não tiveram nem possuem tempo para leituras, dadas as suas perenes tarefas, líderes e boa parte dos militantes petistas não conseguirão dar um golpe de Estado porque “ditadura” vem de Ars dictaminis, técnica retórica exigida dos governantes e hierarcas religiosos. A raiva contra o pensamento, nas hostes petistas, recorda o dito medieval : rex illiteratus est quasi asinus coronatus. Eles desejam, mas não possuem os saberes para instalar uma ditadura. Apedeutas não ditam, como disse Julio Cesar contra os misólogos de seu tempo : Sylla nescivit literas, non potuit dictare (Sylla ignorava as letras, não podia ditar. (8) Com sua truculência, os amigos do rei solapam a confiança dos cidadãos no Estado de direito. Mas o mal nem sempre dura. Pelo voto, os que identificam as suas pessoas ao Estado e repetem no Brasil de modo hilário a tolice de Luis XIV, deixarão os palácios. Rumo à insignificância.

Notas


(1) Para essas referências e temas, conferir Dominique Reynié :”Le regard souverain, statistique sociale et raison d´État du XVIe au XVIIIe siècle”, in La Raison d´état: politique et rationalité. Paris, PUF, 1992. Informações importantes encontram-se em Christian Lazzeri e Dominique Reynié : Le pouvoir de la raison d´État. Paris, PUF, 1992. Análises rigorosas de Y. Ch. Zarka (org.) Raison et Déraison d´État. Paris, PUF, 1994. Cf. Roberto Romano: “Reflexões sobre impostos e razão de Estado”, Revista de Economia Mackenzie. Cf.www.mackenzie.br/editoramackenzie/revistas/economia/

(2) Cf. Emmanuel Le Roy Ladurie: Saint-Simon ou o sistema da Corte. RJ, Civilização Brasileira, 2004.
(3) Para uma excelente análise de Spinoza, sem os ranços demagógicos e as ideologias superficiais costumeiras, cf. Alexandre Matheron :”Passions et institutions selon Spinoza” in La raison d´État: politique et rationalité, citado acima. Outro texto que vale a pena encontra-se em Maria Luisa Ribeiro Ferreira: A Dinâmica da Razão na filosofia de Espinosa. Lisboa, C. Gulbenkian, 1997.
(4) Etienne Junius Brutus. Vindiciae contra tyrannos. Traduction française de 1581. Genève. Droz. 1979.
(5) Innocent Gentillet : Anti-Machiavel. Edition de 1576. Genève, Droz, 1968.
(6) Gabriel Naudé : Considérations politiques sur les coups d´État. Edição de Simone Goyard Fabre. Centre de Philosophie et Politique. Université de Caen, 1989.
(7) De l´Esprit des Lois, Livro 26, cap. 23, Bibliothèque de La Pleiade, p. 774

(8) Francis Bacon: Essais, “Of Seditions And Troubles”.

domingo, 15 de outubro de 2017

Entrevista de Roberto Romano a João Paulo Messer, da Rádio Eldorado, Santa Catarina, sobre a decisão do STF de ceder diante de Aécio Neves.


STF dá aval ao Congresso para afastamento de políticos

Deputados e senadores só poderão ser afastados dos mandatos caso Legislativo concorde

comment Jornalismo access_time13/10/2017 - 10:58
Fonte: Jornalismo / Rádio Eldorado - Foto: Agência Brasil
Por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que é necessário o aval do Congresso para o afastamento de deputados e senadores de seus mandatos por ordem da Corte. O voto de desempate foi da presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia (foto). De acordo com a decisão final, o Judiciário tem o poder de aplicar qualquer medida cautelar contra um parlamentar. Quando essa medida, porém, interferir "direta ou indiretamente" no exercício do mandato parlamentar, como no caso do afastamento, precisará do aval do Legislativo.

O professor de Ética e Filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e cientista político, Roberto Romano, comenta a decisão no Programa João Paulo Messer.
micÁudio da notícia
Para Romano, decisão é "salvo-conduto" para o Legislativo


Fragmentação inviabiliza poder do STF


Para mudar sistema de governo, são necessárias "soluções heróicas"