Flores

Flores
Flores

sábado, 3 de março de 2018

Somos o país mais corrupto do mundo?


PONTO DE PARTIDA (PÁG.1)
Reflexões sobre temas desafiadores e essenciais



DEBATE (PÁG.20)
Somos o país mais corrupto do mundo?


SINTONIA (PÁG.26)
Edição 82 - Janeiro/Fevereiro/Março de 2018

DEBATE (PÁG.20)

Somos o país mais corrupto do mundo?

O brasileiro é o povo mais corrupto do mundo?

A corrupção no Brasil é decorrente da colonização portuguesa? Existem sociedades incorruptíveis?
Como alguns países conseguiram atenuá-la?
O que é preciso fazer para eliminá-la?
Qual o papel da mídia brasileira no combate à corrupção?
Nosso Judiciário é equânime quando enfrenta corruptos e corruptores? Essas são algumas perguntas importantes neste momento
em que se fala muito em corrupção, mas há poucas análises para compreendê-la e enfrentá-la de forma mais sistemática e democrática. Para responder a essas indagações, a Ser Médico reuniu o professor titular de Ética da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano, que também foi presidente da Comissão de Perícias, integrou a Comissão de Avaliação como titular
e foi presidente do Grupo de Estudos para a instalação
do Curso de Direito, na mesma universidade;
e o presidente do Conselho Deliberativo da organização não governamental Oxfam Brasil e presidente emérito do Instituto Ethos, Oded Grajew. Ambos fizeram reflexões relevantes para se entender como funciona a corrupção e o combate à mesma, não só no Brasil como no mundo, e apontaram caminhos para superá-la.
O debate contou com a mediação do conselheiro e diretor de Comunicação do Conselho Regional de Medicina do
Estado de São Paulo (Cremesp), Antonio Pereira Filho.
Antonio Pereira: Para iniciar, os senhores poderiam definir o que é corrupção?
Oded Grajew: Primeiramente, é uma atividade ilegal que coloca interesses privados acima dos públicos. Por exemplo: a pessoa que dá dinheiro para um guarda que deveria multá-la. Além de ser ilegal, ela coloca seu interesse sobre o do coletivo, pois a multa visa a preservar a integridade das pessoas, o trânsito... É a mesma coisa quando se canalizam recursos públicos – que deveriam ser aplicados em Educação, Saúde etc. – para interesses privados.
Roberto Romano: Eu tomaria um caminho um pouco inverso em relação ao que o Oded disse. Cada sociedade tem um conjunto ético de valores e práticas. Mas chega um momento em que esse conjunto de costumes passa a não vigorar mais e há uma espécie de descrença muito forte em relação a eles. Tem-se a percepção de que aquele conjunto, que supostamente é harmonioso e bom, está morrendo e corrompendo-se. É uma ideia que vem desde a pré-história, e teve seu grande momento justamente na Grécia, onde surgiu o termo “ética” e o conceito de doença do corpo coletivo. A corrupção é indissociável de um todo ético harmonioso, o que muitas vezes faz com que tenhamos uma visão um tanto quanto unilateral do fenômeno ético e da corrupção. Esse modelo correto que nós projetamos nunca existiu, pois uma coisa é o modelo ético que está na cabeça das famílias, da Igreja e do Estado, outra é a sociedade tal qual ela se desenvolve. Nesse sentido, nenhuma sociedade pode ser dita não corrompida. Porém, em determinadas sociedades, como nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra, por exemplo, ocorreram modificações estruturais devido a movimentos políticos, que colocaram princípios de atenuação da corrupção. Eles funcionam mais ou menos bem, mas não são aplicados na totalidade, pois não existem sociedades incorruptíveis. Então, precisamos ter cautela. É preciso combater a corrupção e denunciá-la, porém, não podemos cair na ilusão de que exista um modelo ético que funciona exatamente na sociedade. Seria negar a humanidade do ser humano.
Pereira: Alguns países conseguiram combater mais fortemente a corrupção, como os escandinavos – Suécia, Finlândia, Dinamarca e Noruega. Como eles conseguiram isso? É verdadeira a fama de que os brasileiros são um dos povos mais corruptos do mundo?

Roberto Romanto, Antonio Pereira Filho e Oded Grajew
Romano: Tenho muitas dúvidas em relação a uma pesquisa do Ibope que concluiu que o povo brasileiro seria o mais corrupto do planeta. Em primeiro lugar, acho que um dos povos mais corrompidos do planeta é o da Suíça, porque lá há lavagem universal do dinheiro de corrupção e do tráfico de armas. A corrupção do mundo passa pelo filtro suíço. E, por favor, não me digam que os suíços não sabem disso. Tenho também um dossiê sobre uma licitação de uma rodoviária, fraudada, na Suécia. Então, vamos com calma com essa história. Os países escandinavos chegaram ao nível atual por meio de mecanismos de ordem social, política e, inclusive, ideológica. Não se pode descartar o peso da social-democracia na governança deles. Aqui no Brasil, eles são citados como exemplos a serem seguidos. Porém, estrategicamente, deixa-se de citar o sistema político e ideológico que os levou a práticas mais fortes, que é a social-democracia. Quando falamos da luta contra a corrupção temos de pensar nos meios políticos, éticos e religiosos que entram na composição dos projetos que conseguiram atenuá-la.
 "É preciso tornar a corrupção difícil, arriscada e perigosa"

(Grajew)
Grajew: Para diminuir a corrupção, é preciso torná-la difícil, arriscada e perigosa. Por exemplo, no Brasil, não era crime previsto na legislação o fato de um empresário, brasileiro ou estrangeiro, corromper um político. Virou crime graças à mobilização da sociedade. Os empresários que estão hoje na cadeia, antigamente não estariam lá. Várias empresas estão preocupadas e tomando uma série de providências. O mesmo ocorre com os políticos. Alguns deles, muito poderosos, também estão na cadeia. Para inibir atividades ilegais, que operam no escuro, é preciso jogar luz. Mas outras iniciativas deveriam ser tomadas, no Brasil, para inibir mais a corrupção. Uma delas é acabar com o foro privilegiado, que é uma excrescência. Ele deveria ser apenas para delitos de opinião, para preservar a pluralidade, não para crime de corrupção. Outro problema são os milhares de cargos de confiança trocados a cada governo, seja municipal, estadual ou federal. Isso explica, em parte, o mal funcionamento do Estado. Os cargos mais disputados são aqueles que têm maiores orçamentos, exatamente para se apropriarem dos mesmos. Com os funcionários de carreira não se acaba a corrupção, mas diminui a chance de ela ocorrer. Deveria ser instalado um disque-denúncia para o caso de algum desses funcionários perceber que há algo errado. É preciso também, no Brasil, tornar as campanhas políticas mais baratas, porque se há necessidade de financiamento alto das mesmas, quem é eleito tem de ressarcir quem o financiou. Isso significa tirar dinheiro público para fins privados. Uma coisa positiva foi o fim do financiamento das campanhas por empresas, e isso aconteceu graças à mobilização da sociedade. Mas tem uma brecha no funcionamento do sistema político brasileiro, que são as campanhas publicitárias. O Brasil é um dos únicos países onde, com dinheiro público, o político pode fazer campanha em benefício próprio. E a escolha de uma agência de propaganda para trabalhar para o governo é subjetiva. Na realidade, elas são escolhidas para se retribuirem serviços de campanha, passados ou futuros. Há necessidade também de mais independência dos órgãos de controle. A independência desses órgãos é muito relativa, a começar pelo Supremo Tribunal Federal e os Tribunais de Conta, pois seus membros são indicados pelos governos que teriam de fiscalizar.
A Lei de Acesso à Informação foi um avanço e revelou muita coisa para a sociedade. Precisamos desmontar a ideia de que a corrupção é inerente ao povo brasileiro. É possível mudar, vários países mudaram. Para começar, precisamos fazer o que eles fizeram.
Pereira: Muitas pessoas acham que a corrupção no Brasil é fruto da colonização portuguesa. Isso é aceitável? Teríamos, então, de falar também sobre o que a Espanha fez na América Latina, o que a França fez nos países que ela colonizou, e de inúmeros outros países?

 "Um dos povos mais corrompidos do planeta é o da Suíça"

(Romano)
Romano: O que ocorreu em relação a Portugal foi a aplicação de algo que era muito mais amplo do que este País: o princípio absolutista. Fomos descobertos no século 16, quando o rei, em toda a Europa, estava açambarcando a liberdade dos municípios, centralizando todas as políticas. Assim, tivemos uma colonização que tinha uma centralização do poder e, com a Independência, esse poder passou a ser definido no Rio de Janeiro e em Salvador, com um reforço do absolutismo, e não uma passagem para um regime liberal minimamente democrático. Essa centralização do poder permanece desde então. Temos 99% das políticas públicas concentradas no poder executivo federal e 70% dos impostos vão para lá. Os municípios continuam sem autonomia e sem recursos. Nosso sistema de Estado precisaria, urgentemente, ser modernizado, mas não é. Há um abuso semântico quando se diz “a culpa é dos portugueses”. É uma situação partilhada pelos ingleses, franceses, holandeses etc. E enquanto tivermos a centralização de poderes e de recursos – e os municípios e Estados ficarem à míngua, dependendo de tratos com o poder central –, teremos esse jogo corrupto de compra, venda e chantagem. É o que você vê o dia inteiro no parlamento brasileiro. E há, ainda, outras questões mais localizadas. No Congresso brasileiro, a bancada da bala, bancada evangélica, bancada ruralista etc. são lobbies organizados, uma fonte muito forte de desvio de recursos públicos para empresas e grupos particulares. Não por acaso, temos 11 projetos de lei para regulamentar o lobby que sequer são tocados.
Grajew: Você tem toda a razão. Vou dar um exemplo, quase que em primeira mão, envolvendo a área médica. Quando eu era presidente do Instituto Ethos, comecei um movimento pela adoção dos remédios fracionados no Brasil, pois os vendidos em caixas são um crime contra a economia popular. São bilhões de reais que a população paga desnecessariamente. Quando se tem remédio em casa, corre-se o risco de tomá-lo depois de vencido. Sem contar que é um perigo para as crianças. Além disso, a pessoa que não tem dinheiro para comprar duas caixas, compra apenas uma, melhora, e para o tratamento. Quando comecei a campanha, ligaram-me da Novartis, dizendo: “olha, todas as empresas farmacêuticas vão sair do grupo Ethos”. Eu respondi: “então vamos fazer uma coletiva de imprensa e vocês explicam que vão sair porque são contra o remédio fracionado”. Em seguida, liguei para o presidente da Novartis, na Suíça, que fazia discursos de responsabilidade social, e perguntei: “esse discurso que você faz pelo mundo é uma coisa séria? Porque uma pessoa de sua empresa me ligou dizendo que vocês vão sair do Ethos”. Esse cara acabou sendo demitido e hoje faz lobby para a indústria farmacêutica, em Brasília. Esse lobby é fantástico no sentido de não permitir a venda de remédio fracionado no País. É o interesse privado acima do interesse público.

 "Muitas pessoas acham que a corrupção no Brasil é fruto da colonização" portuguesa

(Pereira)
Romano: Exemplo perfeito. Temos também os lobbies dos ruralistas, dos pastores evangélicos, dos padres católicos etc., que, muitas vezes, têm um papel mais estratégico que os partidos políticos. É um ponto que precisa ser discutido. Em relação aos partidos políticos, há a questão do apadrinhamento político, que, segundo o pesquisador Jens Ivo Engels*, ocorre do seguinte modo: o político ganha recursos para vencer uma eleição e, uma vez vencida, seu partido indica, para ocupar cargos em empresas estatais, indivíduos que vão servir como “sanguessugas”. Eles levam recursos para o partido se manter e reeleger seus políticos. Isso começou nos Estados Unidos e na Inglaterra, no século 19, e ainda hoje existe na Alemanha, na França, na Holanda, na Itália etc. O apadrinhamento é fruto da estrutura de partidos sem doutrina, sem ideologia nem democracia interna. São propriedades de pequenos grupos oligárquicos. Isso é gravíssimo. Mesmo o fundo eleitoral, que proíbe o uso de recursos de empresas privadas ou públicas para o caixa deles, não toca na estrutura interna dos partidos. Se não houver uma democratização partidária, será sempre como enxugar gelo com toalha quente. A fábrica da corrupção continuará montada.
Grajew: Hoje, podem-se fazer somente doa­ções de pessoas físicas para as campanhas. Contudo, deveriam ser proibidas as doações de diretores, dirigentes ou donos de empresas fornecedoras do governo, enquanto pessoas físicas. Eles doam para ter o retorno financeiro, que é a famosa corrupção. Volto à questão do lobby da indústria farmacêutica. O Brasil é um dos países que têm os remédios mais caros do mundo. O preço é determinado por várias questões fiscais e tributárias. Segundo relatório da Organização Não-Governamental Oxfam, divulgado no ano passado, sobre a desigualdade, 5% dos brasileiros têm 95% da riqueza nacional e 1% deles tem a riqueza equivalente a 100 milhões de brasileiros. Um país com essa desigualdade é um terreno propício para a corrupção. Não é por coincidência que o Brasil é o 10º país mais desigual do mundo e o 9º mais violento, em termos de assassinatos per capita. Os países escandinavos eram os mais pobres da Europa no começo do século passado. O Brasil não é pior que eles, mas lá as estruturas mudaram.
Pereira: Como os senhores vêem a imprensa brasileira? Ela é seletiva na divulgação da corrupção? Por que alguns casos são hiper-noticiados e outros não têm tanta importância?
Romano: Boa parte da nossa imprensa trabalha no ritmo das propagandas que veiculam. É muito difícil acharmos um meio jornalístico brasileiro que seja realmente investigativo, que vai atrás de fatos, de provas etc. O que noticiam vem dos financiadores, dos poderes que mantêm as contas de propaganda. Basta ver o que está ocorrendo hoje. As tevês e os jornais repetem o mantra das reformas, sem nenhuma qualificação ou quantificação. Dizem apenas que as reformas são importantes para o País, que a Previdência está deficitária, e os números simplesmente desaparecem. No caso da corrupção, muitas vezes ela tem um papel de distorcer para pior.


"Fico com a sensação amarga de que a justiça é seletiva"

(Pereira)

Grajew: Não acho que a mídia brasileira escolha só um partido ou outro. Pelo que conheço, mais de 90% das notícias que têm saído na imprensa são verdadeiras. Acho que o papel dela, nesse sentido, tem sido positivo. Ela revelou vários casos de corrupção, não foram os órgãos de controle.
Pereira: E como os senhores vêem o nosso Judiciário? Está correta a forma como ele lida com a corrupção? Nossos juízes, da primeira instância ao Supremo Tribunal Federal (STF), são equânimes?
Romano: Em primeiro lugar, nosso sistema de Justiça é, ainda, napoleônico. O Executivo tem a palavra decisória sobre a composição dos tribunais superiores. Esse modelo faz com que o juiz seja poderosíssimo, independente da população, e se julgue superior a ela, e aí nós temos casos e casos de arrogância do Judiciário. Agora, temos o surgimento dos juízes justiceiros. Só que é escandaloso verificar, por exemplo, uma unilateralidade desse rigor. O segundo ponto é o conluio desse setor do Judiciário com a polícia e com o Ministério Público. Sou uma das pessoas que mais defenderam e defende o Ministério Público, mas não deixo de notar que, atualmente, alguns setores dele estão sendo profundamente autoritários. Quando propuseram as famosas “10 medidas contra a corrupção”, achei algumas muito interessantes, mas como professor de Ética fiquei escandalizado com outras. Aquela que previa dar 5% para quem delatar, dando lucro para o Estado, é coisa de corrupção das mais violentas. A outra, sobre provas ilícitas de boa fé... Isso não existe. Noto que, a partir da Lava Jato, temos uma espécie de autonomia do combate à corrupção, desligado do restante da vida social. Isso me parece muito perigoso.
"Um país com essa desigualdade é um terreno propício para a corrupção"

(Grajew)
Grajew: Acho que, como qualquer categoria, o Judiciário tem de tudo. Não gosto de generalizar. No Judiciário, temos pessoas muito bem intencionadas, equilibradas, que procuram ser justas e levam a sério o que fazem. O Brasil passou muito tempo com a ideia de que poderosos e ricos não iam para a cadeia. Foi uma mudança importante. Mas é um processo que vai de 8 a 80, e uma hora vai acabar achando o seu equilíbrio. O que está acontecendo é resultado de muitos anos de repressão e de descrédito total na Justiça brasileira. Há casos justos, mas também os abusos.
Pereira: Sim, melhorou muito, mas ainda fico com uma sensação amarga de que a Justiça é seletiva e muito mais severa com os pobres do que com os ricos...
Grajew: É o que eu falo sobre a desigualdade no Brasil. Se visitarmos as cadeias brasileiras, vamos dizer “negros e pobres são criminosos”, porque são eles que estão lá. Por consequência, “brancos e ricos são bonzinhos”. Isso faz parte do quadro das desigualdades brasileiras.
 "Se não houver uma democratização partidária, a fábrica da corrupção continuará montada"

(Romano)
*Cf. Jens Ivo Engels: “La modernisation du clientélisme politique du XIXe et du XXe siècle. L‘impact du capitalisme et des nouvelles formes d’organisation politique” in Monier, Frédéric (org.) Patronage et corruption politiques dans

l‘Europe contemporaine (Paris, Armand Colin, 2014).

O Sobrinho de Rameau




A Editora Perspectiva efetua uma tarefa editorial importante no Brasil: traduzir o maior número dos textos produzidos por Denis Diderot. Já foram publicados por ela 4 volumes da obra diderotiana, contendo as análises filosóficas, estéticas e universitárias. Também foram traduzidos O Sobrinho de Rameau e Jacques o Fatalista pelo professor Jacó Guinsburg. Segue o prefácio escrito por mim e editado com a tradução.
************************


DIDEROT NAS VIELAS DAS LUZES OU O SOBRINHO DE RAMEAU

Roberto Romano
A tradução do Sobrinho de Rameau elaborada por Jacó Guinsburg representa um marco importante para a filosofia no Brasil. A coleção das Obras diderotianas – inédita no país – se enriquece e os estudiosos nela encontram não apenas um refinado texto coberto pelo tecido da língua portuguesa, mas também as tensões e dissonâncias, o brilho e a inteligência do original. Jacó Guinsburg pratica, no trabalho que hoje vem à luz, o mais importante preceito retórico, seguido na escrita moderna de escol. Ele aproxima, com felicidade incomum, as práticas da enargeia e da energeia. O Sobrinho de Rameau segue o mandamento poético e retórico que exige a reunião daquelas técnicas e sentidos. Nele, tudo se move, tudo é novo, tudo surpreende, tudo comove, tudo leva à indignação e ao encanto. No Thesaurus Graecae Linguae, o humanista Henry Estienne apresentou os termos equivalentes a enargeia e a energeia. Para o primeiro, illustratio e actio para o segundo. A “tradução” de Estienne é falsa? Verdadeira? Em qual plano ela se confirma ou pode ser negada? Apesar das longas discussões estabelecidas pelos eruditos, o fato cultural é inconteste: illustratio pretende trazer ao leitor alheio ao grego o que Aristóteles intitula “metáfora ativa”, o poder de certas figuras poéticas de animar palavras, nelas infundindo a vida, ação esvoaçante. Como diz Rabelais no Quarto Livro, no episódio das palavras congeladas (1), para Aristóteles “as palavras de Homero saltam, voam, movem-se e são por conseguinte vivas”. A citação da Retórica (1412a) por Rabelais define toda uma idéia do mundo, da linguagem, dos sentidos (2).

Tal idéia é copiada literalmente por Diderot no Sobrinho, do início ao fim. Basta recordar que o intróito já apresenta o ritmo, as figuras, o movimento esvoaçante do diálogo: “Abandono meu espírito a toda sua libertinagem. Deixo-o senhor de seguir a primeira idéia sábia ou louca que se lhe apresente, tal como se vê na Alameda de Foy nossos jovens dissolutos andar na cola de uma cortesã de ar estouvado, de rosto risonho, olhar vivo, nariz arrebitado, deixando esta por outra, abordando todas e não se prendendo a nenhuma”. Num prefácio, evidentemente, não é possível levar muito longe a análise sobre este prisma. Basta mencionar que ele existe e não é muito observado em nossos dias. Passemos a outro ponto.

Raros estudos sobre o Sobrinho de Rameau analisam as fontes usadas em sua redação. A maioria limita-se aos infortúnios vividos por Diderot com os adversários – a luta e a vingança do autor contra a tropa dos sicofantas intelectuais – ou ao debate interminável sobre o “Eu” verdadeiro sugerido no texto (o lado escuro do filósofo apareceria no “Ele” malandro). Finalmente, os comentários giram ao redor da identidade correta do vagabundo a quem se dedica o escrito. Todos esses aspectos retomam a evidência: trata-se de uma sátira. E chega a tarefa difícil. De Ernst Curtius aos nossos dias, a tese mais comum indica o modelo horaciano como fonte da façanha efetivada por Diderot. Este parte do homem efetivo, o sobrinho do músico Rameau, e produz um ser monstruoso onde o mundo físico e o espírito se encontram e se expulsam mutuamente, a música se transforma em cacofonia, a moral veste as roupas do proxenetismo, a hipocrisia passeia sob o silêncio da mímica, a qual duplica a mediocridade aduladora de ricos e poderosos e também esmaga o alento, o talento e a energia dos que tropeçam no “grande agito do mundo” (grand branle de la terre). Dança doida bem descrita na Fenomenologia do Espírito. O Sobrinho, recorde-se, é a única obra ali citada explicitamente. Segundo Hegel, a originalidade surge do refinamento técnico e não, como pregavam os românticos, do gênio que, sem lastros proporcionados pela educação, é selvagem (3). Permita-me o leitor apontar algumas fontes usadas por Diderot na pedagógica artesania do Neveu.

No verbete “Sátira” da Enciclopédia, Diderot define aquele gênero: “poema no qual se atacam diretamente o vício ou algum ridículo reprovável”. Do principal às alternativas, o verbete mostra que a sátira varia na história, o que muda inclusive a sua forma. “Lí, para pesquisar e seguir, tratados mais ou menos extensos como o de Casaubon”. Antes de analisar o autor citado por Diderot, chamo a atenção para o último verbo usado na frase citada acima : “seguir”. Ele indica que o filósofo não teve intenção apenas de conhecer a sátira, mas desejou aplicar o aprendido e, logicamente, isto só poderia ser feito em uma sátira. Para quem já escrevera sátiras (As Jóias Indiscretas, por exemplo) este desejo mimético é singular. Ele anuncia escritos sine ira et studio, para além do simples desabafo ou vingança. Trata-se de um estudado ataque à cultura que não se limita aos personagens medíocres e hilários expostos impiedosamente no Sobrinho de Rameau. Vejamos o autor citado por Diderot, o humanista Casaubon. Isaac Casaubon (4) analisa a sátira apoiando-se em Varrão (5), o qual elogia os bons velhos tempos e ataca o luxo decadente.


A exposição crítica é tarefa de um narrador, quase sempre o próprio Varrão, o qual opera uma paródia de si mesmo. É o que se passa no escrito Sexagessis (o sexagésimo aniversário). Um indivíduo adormece por longo tempo e ao despertar, percebe que a sociedade piorou. O adormecido fala com o sotaque de Varrão e recebe réplicas dos jovens urbanos, os quais caçoam da sua moralidade desatualizada (6) . No século 18 a sátira ao modo praticado por Varrão é vista como elegante, vária, inteligente e nela a erudição ajuda na crítica dos costumes dissolutos em contraste com os valores e práticas tradicionais7. Dentre os críticos especializados em Varrão, Casaubon (8) é visto como um dos mais profundos. Ele notou o hibridismo, na sátira, de metros diversos e também o hibridismo de prosa livre e metrificada, o que aumentaria a liberdade dos escritos (9).

A mistura de estilos e idiomas (grego e latim), seriedade e brincadeira, prosa e poesia, evidencia-se nos seus imitadores, inclusive por Diderot no Sobrinho. O leitor educado e sensível nota, neste último diálogo, a tecitura de elementos heterogêneos. Ali, o texto vai da prosa mais banal à poesia sublime. Os projetos se engastam no texto – como o de musicar os Pensamentos de Pascal – evidenciam a união de estilos e técnicas literárias. A imitação diderotiana, porém, pesa com finura todos os elementos reunidos na sátira. E para isto, com certeza, as lições de Casaubon valeram a Diderot. Casaubon critica insistentemente Luciano de Samosata porque neste último a cópia de Menipo seria demasiada, o que resultaria mais em ridículo do que em genialidade. A sátira menipéia, incluindo a escrita por Luciano, seria non tam iocosa quam ridicula. Já o trabalho de Varrão consegue uma síntese bem sucedida e elegante de versos e de variações prosaicas (10) , uma filosofia em sentido próprio.

Os argumentos da Encyclopédie para expôr a sátira, sua origem e forma, assumem a figura romana: "pode-se dizer, segundo o caráter fixado pelos romanos, que a sátira é uma espécie de poema no qual se ataca diretamente os vícios e ridículos dos homens. Digo uma espécie de poema, porque não é um quadro, mas um retrato do vício dos homens, que ela nomeia sem desvios ao chamar um gato, um gato e Nero, um tirano. É uma das diferenças entre sátira e comédia. Esta ataca os vícios, mas obliquamente, e de lado. Ela mostra aos homens retratos gerais, cujos traços são emprestados de modelos diferentes; cabe ao espectador assumir a lição e se instruir, se ele julga coveniente. A sátira, pelo contrário, vai diretamente ao homem. Ela diz: é você, é Crispin, um monstro, cujos vícios não são desculpados por nenhuma virtude." O trecho a seguir, do mesmo verbete sobre a sátira, é estratégico para se entender o Sobrinho. Na peça, o diálogo se passa entre um filósofo sério, honesto, bem pensante e um monstro humano que nunca é idêntico a si mesmo e desafia a moral bem comportada ou hipócrita. “Não é difícil descobrir” adianta a dupla Diderot/Jaucourt, qual espírito anima ordinariamente o satírico. Não é o espírito de um filósofo que, sem deixar sua tranquilidade, pinta os encantos da virtude e o defeito do vício. Não é o espírito de um orador que, movido por um belo zelo quer reformar os homens e conduzi-los ao bem. "Não é o espírito do poeta que sonha fazer-se admirar excitando terror e piedade. Também não é o espírito do negro misantropo que odeia o gênero humano e que o odeia em demasia para torná-lo melhor. Não é nem um Heráclito que lamenta os nossos males, nem um Demócrito que deles zomba: o que é o espírito satírico? Parece que no seu coração há um germe de crueldade escondida, coberta com o interesse da virtude para ter o prazer de despedaçar o vício. Entram neste sentimento a virtude e a perversidade, ódio contra o vício e desprezo pelos homens […] Embora as sátiras tenham um caráter condenável, é possível que elas sejam lidos com muito proveito. Elas são o contraveneno das obras em que reina a moleza."

A última palavra citada – moleza – retoma as lições de Varrão e os juízos de Casaubon sobre a essência da sátira: quando os homens deixaram o campo e os panoramas rústicos, e seguiram para as cidades, surgiram a licença e a moleza, o luxo e a perversão moral. O tema da urbanização como fonte dos males éticos não era desconhecido no século XVIII, muito pelo contrário. Longe iam os tempos em que, para escapar dos barões arbitrários, o refrão mais ouvido na Europa, sobretudo em língua germânica, dizia que Die Stadtluft macht frei. Ainda não era o tempo da desgraça que entronizou na entrada do Inferno totalitário um outro refrão nefasto: Arbeit macht frei. Tal ignomínia foi erigida nos arredores de Auschwitz, Dachau, Gross-Rosen, Sachsenhausen, Terezín e de tantas cidades assoladas pelos movimentos anti-semitas. A “moleza” no século XVIII era satirizada em nome do trabalho que se traduz em dinheiro.

No século XX, conforme o psicanalista Bruno Betelheim, a colaboração das vítimas com os carrascos nazistas aumentou o delírio da sociedade disciplinada pelo trabalho. Enquanto prisioneiros de guerra eram obrigados a trabalhar para a máquina de guerra totalitária, os encarcerados nos campos de concentração produziam, sob o chicote dos carrascos, a morte de seus próprios irmãos. O resultado da cultura urbana é duplo: ela gerou liberdade, com certeza. Mas esta mesma força livre serviu como fábrica monstruosa que destruiu milhões de seres humanos. A cidade também exerceu a função de enorme ventre devorador dos sonhos, esperanças, dignidades, valores. O século XVIII filosófico temia as grandes reuniões urbanas, a exemplo dos seus antecessores renascentistas, como Erasmo, atormentado pela imagem de Babel. As desgraças dos grandes aglomerados se evidenciavam nas guerras entre protestantes e católicos, cristãos e muçulmanos, indivíduos e indiví duos. Hobbes, ansioso diante das mesmas guerras, buscou remédios para elas e, de modo claro, apontou as cidades como ameaças ao corpo da república. Ao entrar na lista dos que diagnosticam as ameaças ao governo como doenças – as metáforas médicas tiveram seu ápice no século XX, tanto nos idioletos nazistas quanto na propaganda do stalinismo (11) – Hobbes enxerga nas cidades o inchaço orgulhoso a ser curado para bem da comunhão política. Assim, diz ele, uma enfermidade da república é a grandeza imoderada de uma cidade, quando ela está apta para fornecer fora do seu circuito o número e o custeio de um grande exército; como também é o grande número das corporações, que se constituem como pequenas repúblicas nos intestinos da maior, como vermes nas entranhas do homem natural (12).

De inimiga, a cidade tornou-se, ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, a grande base do Leviatã. Os males nela gerados, no entanto, foram muito bem percebidos pelos filósofos e moralistas das mais diversas escolas. Em primeiro lugar, naturalmente, vem Rousseau. Este, ao se instalar no Ermitage perto de Montmorency, execra Paris “cidade de lama e fumaça”. O juízo apocalíptico é repetido no primeiro livro do Emilio: “as cidades são o abismo da espécie”. Depois vem Marivaux nas Cartas sobre os Habitantes de Paris: “difícil definir a população de Paris… a melhor imagem é a de um monstro” (13) . Diderot está imerso nesta cultura oposta às grandes cidades. É o que se pode notar no trecho inserido na História das Duas Índias: o homem, sem dúvida, é feito para a sociedade. Sua fraqueza e suas necessidades o demonstram. Mas sociedades de 20 a 30 milhões de homens, cidades de 4 a 5 mil almas, são monstros no interior da natureza. Não é a natureza que as forma. É ela, pelo contrário, que tende, sem cessar, a destrui-las. Elas só se sustentam por uma previdência contínua e por esforços inauditos. Elas não tardariam a se dissipar, se uma porção considerável da multidão não cuidasse de sua conservação. O ar é infecto, as águas são corrompidas, a terra esgotada em grandes áreas. A duração da vida nelas se abrevia, as doçuras da abundância nelas são pouco sentidas, os horrores da fome nelas são extremos. É o lugar do nascimento das doenças epidêmicas, a morada do crime, do vício, dos costumes dissolutos. Estes enormes e funestos amontoados de homens são ainda um horror para a soberania, ao redor da qual a cupidez chama e aumenta sem cessar a massa dos escravos, sob a infinidade de funções, denominações. Estes montes sobrenaturais de população são sujeitos à fermentação e à corrupção durante a paz. Se a guerra neles imprime um movimento mais vivo, o choque é espantoso.

Cada divisão se coloca em Condenação dos aglomerados onde fermenta o vício, elogioEm sentido contrário ao das urbes ameaçadoras, pensa Diderot, as sociedades naturais são pouco numerosas. Elas subsistem por si mesmas. Não se espera, nelas, a superabundância distâncias convenientes. […] A pureza do sangue entre as nações, se é permitido nos exprimir assim, e também a pureza do sangue entre as famílias, só pode ser momentânea, a menos que instituições estranhas e religiosas se oponham. A mistura é um efeito necessário de uma infinidade de causas. da mistura de sangue, num veto ao racismo que já vicejava na vida européia e francesa, em tempo muito próximo dos philosophes (14) .

Duas sociedades são mencionadas por Diderot no mesmo trecho citado acima, da História das Duas Índias: aquela na qual o fundador se dirige a um homem novo que sente sua infelicidade, sendo mais dócil à moldagem do caráter. Para adestrá-lo, o fundador precisa usar a benevolência e exibir uma só face, para se fazer amar. “Ele prega a virtude, a qual será sempre mais imperiosa quanto mais simples será o discípulo. Não é difícil, então, desacreditar o vício, do qual o vicioso é a primeira vítima”. Mas vem depois a sociedade envelhecida e dissoluta.

O dirigente, em vez de fundar, tem missão restauradora naquele aglomerado corrompido. Ele é
um arquiteto que se propõe construir sobre uma área coberta de ruínas. É o médico que se propõe curar um cadáver gangrenado. É um sábio que prega a reforma a endurecidos. Ele só pode receber ódio e perseguições […] ele não verá a futura geração, ele produzirá poucos frutos. Uma nação só se regenera num banho de sangue. É a imagem do velho Eson, a quem Medéia só concedeu a juventude ao decepá-lo, cozinhando-o. Quando decaiu, nenhum homem pôde levantá-la. Parece que isto seja a tarefa de uma longa seqüência de revoluções. O homem de gênio passa muito rapidamente e não deixa posteridade. As duas sociedades enquadram-se perfeitamente nos preceitos de Varrão sobre a sátira. A primeira corresponde aos “bons velhos tempos” da virtude e da obediência ao Bem coletivo, enquanto a segunda identifica-se à dissolução verberada. Diderot, no trecho das Duas Índias interpreta a velha fábula de Eson, a qual também inspirou Hobbes para demonstrar a incompetência da cidadania quando se trata de legislação e governo. Na análise hobbesiana as filhas do velho rei o despedaçam sem resultados positivos. Segundo Diderot, no entanto, as bruxarias de Medéia, com o esquartejamento do corpo republicano, corrompido pelo tempo e pelos costumes dissolutos, conduzem à regeneração social e política (15). O Sobrinho efetiva, no plano das idéias, a mesma técnica louvada na feitiçaria de Medéia: ele despedaça os costumes do seu tempo, dilacera corpos e reputações dos parisienses que acumulam vícios no mesmo tempo em que se acotovelam nos salões, nos restaurantes, na Ópera e nas praças públicas.

Esse quadro da vida urbana é trágico. Tudo levaria a prever que Diderot, diante de uma situação assim calamitosa, ajuizaria sem equívoco em favor do estado de natureza. Mas o juízo
diderotiano é matizado nessas matérias. É possível, no entanto, perguntar, com base na sua obra: como se conciliam o otimismo das Luzes e a imagem da humanidade em guerra generalizada, pervertendo-se no correr dos tempos? Próximo a Rousseau, nesse ponto, Diderot une diretamente a causa ao efeito, entre progresso das ciências e a depravação urbana. “As pessoas mais esclarecidas com freqüência são as mais viciosas e a História é apenas uma longa série de incidentes imprevistos que levaram o homem à luz e à depravação”, diz ele na Introdução aos Grandes Princípios (16).

Na passagem do tempo o homem adquire, em cada átimo, uma consciência aguda de sua irremediável decadência e inventa meios sempre mais eficazes de remediar o mal, retardá-lo por algum tempo. É nesse quadro sem ilusões que se move a investigação diderotiana. Breve Diderot perde a confiança no “grande homem” que salvaria a Europa de sua decadência. Na Carta a Wilker (14/11/ 1771) e na mesma História das Duas Índias, ele renuncia à esperança que passa a considerar vã. Quando uma nação caiu, ninguém pode levantá-la. Diderot, que seria péssimo cidadão do “melhor mundo possível”, elabora a fábula do Taiti, diante da multiplicidade do modelo inglês, holandês, chinês a ele oferecidos. E o filósofo seguiu a tentação de entender o que se passava em Paris, São Petersburgo ou na Filadélfia. Ele viveu a necessidade de construir “um modelo ideal de toda verdade sobre a História” (Discurso sobre a Poesia Dramática).

O Suplemento à Viagem de Bougainville não é um programa burguês revolucionário, nem se trata de levar os costumes taitianos a Paris. Seria uma violência semelhante à dos cínicos. Diz o verbete sobre o cinismo da Encyclopédie: quando se examina de perto os bizarros cínicos, encontra-se o fato de que eles queriam transportar para o meio da sociedade os costumes do estado de natureza. Ou eles não perceberam, ou não se preocuparam com o ridículo que existia em afetar, entre homens corrompidos e delicados, a conduta e o discurso da inocência dos primeiros tempos, e a rusticidade dos séculos onde reinava a animalidade Claro que a ponta venenosa do verbete inteiro é dirigida diretamente a Rousseau, sobretudo no seguinte trecho: "Os cínicos tinham aversão à cultura e às Belas Artes. Eles contavam todos os momentos que nelas eram empregados todo tempo extraído da prática da virtude e do estudo da moral. Eles rejeitavam, por conseguinte, os mesmos princípios e os mesmos conhecimentos da matemática e da física, e da história da natureza; eles afetavam sobretudo um desprezo soberano por aquela elegância particuliar aos atenienses, que se faziam notar e sentir nos seus costumes, seus escritos, seus discursos, seus ajustamentos, a decoração de sua casas; numa palavra, em tudo o que pertencia à vida civil. Entusiastas da virtude, os cínicos exigiam um retorno impossível à natureza e o controle ascético dos costumes.

O verbete “Cidade” da Encyclopédie segue o padrão de lamentar os bons tempos iniciais das concentrações urbanas, mas recusa o seu mito: "Se os poetas se contentassem em apenas nos ensinar o nome dos grandes homens que fundaram as primeiras cidades, e as cerimônias religiosas observadas naquelas ocasiões, teríamos aprendido traços da história que os anais dos povos nunca conservaram, e preferiríamos simples verdades em vez do maravilhoso que eles expandiram neste assunto". Philippe Roger (17) assim analisa o problema urbano, em especial o parisiense, no século 18: Paris é um embaraço para as Luzes. Como, de fato, conceituar aquela cidade? Já Rabelais declarou guerra contra Paris, lugar do luxo, da comilança, do pedantismo universitário, da hipocrisia, do ar fétido. Mas como pensar a grande cidade? O Dicionário de Trevoux trazia um desalento: “é muito difícil fornecer uma boa definição da palavra ‘cidade’”. Voltaire, no poema O Mundano, e seu entusiasmo pela pavimentação de Paris (no Século de Luis XIV), choca-se com Rousseau, o inimigo da corrupção parisiense que entra e sai da urbe “pelo jardim que dava sobre o boulevard, de modo
que eu podia dizer com a mais exata verdade que nunca tinha colocado o pé nos pavimentos de Paris” (Confissões, I, X).

A cidade é centro da atenção e de muito medo no século XVIII. As fórmulas de Rousseau encontram ressonância em escritos econômicos, médicos, financeiros, relatórios de Turgot ou Lavoisier. Se Rousseau assimila Paris a um abismo, Turgot compara a capital do reino a um abismo que absorve todas as riquezas do Estado. Enumera Lavoisier, por sua vez, os gastos de Paris. Ali são consumidos anualmente 260 milhões de libras (250 para os homens, 10 para os cavalos). Seu ativo é de apenas 20 milhões em comércio. Tudo o mais vem das rendas do Estado (140 milhões) ou rendas fundiárias e de empresas situadas fora de Paris (100 milhões). Montyon, demógrafo, sugere esvaziar autoritariamente Paris de uma parte de seus habitantes. Mirabeau propõe expulsar 200 mil parisienses. Rousseau, num de seus paradoxos habituais, afirma que o Emilio deve habitar nas cidades… no mesmo passo em que afirma, nas Confissões: “a corrupção agora é igual em toda parte. Não mais existem costumes, nem virtudes na Europa. Mas existe ainda algum amor por elas, é em Paris que devemos buscá-las” (I, XI). Diderot aconselha a Catarina II : “cercai vossos súditos [em Petersburg] e só com essa operação tereis um império”. O ideal do citoyen pertence às Luzes, mas nas cidades imperiais os filósofos não “estão em casa” (18) . A noção de cidadania enfrenta dois obstáculos graves: de um lado os grandes impérios. Neles, reina o despotismo e o cidadão some do imenso espaço e não tem lugar no tempo. Nos reinos menores, onde a capital é desproporcionada em relação ao corpo do país, a massa devoradora, inútil, manipulada, impede a consciência humana de ser parte de um todo mais digno.

E também some a cidadania. Entre Silas e Caribde, o filósofo naufraga com seus sistemas políticos que pretendem regenerar os Estados, a sociedade, o gênero humano. As Luzes fracassam, como diz Hans Meyer, diante da monstruosidade (19) , só que agora elevada ao máximo possível, na teratologia que amontoa seres que deixam de ser humanos e se transformam em feras, num retorno ao estado de natureza que não é virtuoso, muito pelo contrário. O Sobrinho é um filtro, produzido com a técnica da sátira, pelo qual atravessam todos os tipos humanos amontoados em Paris, a grande capital. O choque entre o personagem “Eu”, um representante dos “bons velhos tempos”, quando a moral seria perfeita – nos parâmetros estritos de Varrão e de Casaubon – e o monstro “Ele”, produzido idealmente, síntese de todos os mendigos, mentirosos, cortesãos, proxenetas, poetas e músicos fracassados,
ambiciosos de todo calibre, ocorre num poema em prosa sublime, o que espanta o leitor e o coloca em pânico permanente, até que a última linha chicoteie a sua boa consciência: “rirá melhor quem rir por último”.

Rameau é um filtro pelo qual passam todos os habitantes da urbe acanalhada, dos vagabundos ao rei, todos dançando a pantomima dos miseráveis, todos entoando canções sem harmonia, todos violentos como os tigres. O contraste entre o campo e a cidade, com a ferocidade só vista na segunda, encontra-se na cena da Menagenie de Versailles: se o jovem provinciano – puro, inocente, virtuoso como o homem da natureza – diante das jaulas onde estão presos os bichos urbanos, mete a mão lá dentro, a culpa pela seus membros devorados não é deles, mas apenas dele. Estamos aqui no aproveitamente mais realista da imagem de Paris como um abismo devorador. Rameau, uma teratologia ambulante, cantante, recitante, irritante, apresenta-se de maneira a enganar os tolos que o julgam inocente. Ele os desmascara e revela o monstro escondido sob as belas palavras e maneiras. Em Paris ninguém é inocente. De certo modo, a cidade é a grande Babilônia, prostituta apocalíptica onde se revela todas as manchas do gênero
humano, manchas adquiridas na queda, quando ainda residíamos no paraíso.

Na capital do reino tudo é instável. E sabemos o que Diderot pensa sobre os que vivem em regime de violenta instabilidade: “quando a energia da natureza dobra-se sobre si mesma, o ser infeliz, melancólico, chora, geme, suspira, ergue de tempos em tempos gritos, devora-se e se consome”. Esta passagem do Salão de 1767 citada por Jacques Chouillet (20) recebe o seguinte comentário do mesmo especialista em Diderot: “Quanto aos instáveis, conhecemos um deles de muita importância, aquele Sobrinho do qual Diderot poderia dizer com Horácio: Vertumnis, quotquot sunt, natus iniquis (Destinado pela natureza aos vertumnos caprichosos, tantos quantos sejam eles)”. No Sonho de D´Alembert existe uma chave para se entender o Sobrinho e Paris: “Nada é sólido, exceto beber, comer, viver, amar e dormir”. O comentário de Lester G. Crocker é exato: “O Sobrinho mantém este ponto de vista contra o seu adversário moralista” (21) . Entre a regularidade monótona da natureza e os encantos renovados do luxo, das mentiras, da política e das querelas acadêmicas, não existe retorno: somos condenados a viver com todos os Sobrinhos, como os Sobrinhos, contra os Sobrinhos. Não existe meio de retornar aos bons velhos tempos. A sátira perdeu a sua razão de ser, enquanto instrumento de luta contra a vida urbana, ela agora registra os passos daquela dança sinistra anotada por Hegel na Fenomenologia: roda dançante, “delírio báquico, no qual todos os membros estão embriagados, delírio que dissolve imediatamente cada um dos que buscam dele separarse” (22). E no Sobrinho: "Nós fazemos justiça uns aos outros, sem que a lei se imiscua. A Deschamps, outrora, a Guimard hoje, vingam o príncipe contra o financista; e é a modista, o joalheiro, o tapeceiro, a costureira de roupa branca, o escroque, a camareira, o cozinheiro, o correeiro, que vingam o financista contra a Deschamps. No meio de tudo isso, só o imbecil ou o ocioso é lesado, sem ter prejudicado ninguém. O trabalho recebe seu elogio, a moleza o seu castigo. Mas não existe mais a idade de ouro, o estado de natureza, no qual o trabalho era feito para o bem coletivo. O trabalho agora é letal. Nele, todos devoram o corpo e a alma alheias, todos fazem justiça comutativa e distributiva do pavor e da suspeita. Todos encarnam o sobrinho de Rameau. Mais não direi sobre o elevado documento da nossa modernidade e da nossa moral, redigido pelo gênio diderotiano. Síntese das artes e da política, a sátira agora editada pela Perspectiva, com o mais fino trabalho de tradução, abre perspectivas analíticas insuspeitadas e interroga todos os que desejam pensar sobre a ética sem repetir lugares comuns hipócritas e batidos. Um texto desta elevação exigia cuidados hermenêuticos e técnicos rigososos, além de sensibilidade incomum, educada. Este é o presente que o literato e meticuloso especialista em Diderot, o sábio Jacó Guinsburg, oferece ao leitor brasileiro. Sigamos ao banquete na boa companhia do anfitrião/tradutor, sabendo no entanto que no agape serão devorados os preconceitos, as tolices das capelas universitárias, as pretensões políticas e toda a vaidade mundana. Afinal, que seria mesmo o Sobrinho de Rameau, senão uma reescrita lancinante do Qohélet?

Notas

(1) “Comment en haulte mer Pantagruel ouyt diverses parolles degelées”, Pantagruel capítulo LV, in Rabelais, Oeuvres complètes, Paris: Gallimard/Pléiade, 1938, p. 713. Os recursos estilísticos de Rabelais e Diderot, onomatopéia sobretudo, “coincidem” e se ajustam. Entre muitos casos, falando-se do primeiro, no famoso episódio das palavras congeladas, a metáfora amorosa para indicar o pensamento e o diálogo surge quando Pantagruel recusaa Panurgo a doação de vocábulos novos: “doar palavras é ato dos amantes…”. Ao pedido reiterado para que vendesse as mesmas palavras, Pantagruel responde que vender palavras é coisa de advogado. “Eu lhe venderia, ao contrário,o silêncio…”. Mas Pantagruel deixa-se convencer e joga sobre o chão de gelo quatro ou cinco punhados de palavras. “E foram vistas palavras picantes, palavras sangrentas […] palavras horríficas e outras desagradáveis de se enxergar. Nós as ouvimos fundidas, hin, hin, hin, hin, his, tic toque, pisca, brededin brededac, frr,frrr, frrr, bu, bu, bu,bu,bu, bu, bu, bu, traccc, trac, trr, trr, trrr, trrrrrr, On, on, on, on ouououououououon: gótico, matagótico, e não sei quais outras palavras bárbaras, e dizia que eram vocábulos de hurros e relinchos de cavalos na hora do choque nos combates e depois ouvimos outras palavras grandes que soavam ao degelar, umas como tambores e pifanos, outros como trombetas…” [Livro Quarto, capítulo LVI, ed. cit., p. 715, a “tradução”, se tal palavra for perdoada, é minha]. “Não é que eu me preocupe com o caro tio, pois caro ele custa. É uma pedra. Ele poderia me ver com a língua de fora um palmo, que não me daria um copo d’água; mas em vão ele faz na oitava, na sétima, hon, hon, hon; hin, hin; tu, tu; tu-re-lu-tu-tu, com um charivari do diabo; aqueles que começam a entender da coisa, e que não tomam mais uma barulheira por música, jamais se conformarão com isso. […] Eu te respondo: tarare, ponpon” (na tradução de J. Guinsburg). A mais aguda leitura da retórica de Rabelais por mim conhecida encontra-se nos trabalhos de Timothy Hampton, sobretudo o excelente artigo "Signs of Monstrosity. The Rhetoric od Description and the Limits of Allegory in Rabelais and Montaigne", in L. L. Knoppers e J. B. Landes, Monstrous Bodies/Political Monstrosities in Early Modern Europe, Ithaca/London: Cornell University Press, 2004, p. 179 e seguintes. Para o relacionamento entre Diderot e Rabelais, cf. Benot, Yves, "Rabelais vu par Diderot: Un magasin de masques", na revista Les lettres françaises, edição de 26 março de 1953, p. 2.

(2). Sigo as interpretações de Glyn P. Norton, The Ideology and Language of Translation in Renaissance France and their Humanist Antecedents, Genève: Droz, 1984, sobretudo no Capítulo 8, The Translative Energies of Word, p. 259 e ss.

(3) “A representação própria e original que a juventude faz dos objetos essenciais é ainda indigente e vazia, ela é opinião, erro, indecisão, inexatidão, indeterminação. É pelo aprendizado que, em lugar de tal desvio, se instaura a verdade”. Cf. G.W.F. Hegel, Sobre o Ensino da Filosofia no Liceu (1812), in Ferry, L. e outros (ed.), Philosophies de l ´Université. L´idéalisme allemand et la question de l’université, Paris: Payot, 1979, p. 340.

(4). Nascido em 1559 na Suiça, com outros antipapistas como Petrus Ramus, foi vítima da Noite de São Bartolomeu. Enquanto o segundo foi assassinado, Causabon imigrou para a Inglaterra, tornando-se amigo de Hugo Grocio e considerado um dos mais eruditos intelectuais da modernidade. De modo geral, as universidades francesas sentiram muito a perda causada pela violência religiosa. Cf. Paul A. Welsby, Lancelot Andrewes, 1555-1626, Londres: S.P.C.K, 1958. Casaubon casou-se em 1586 com Florencia, filha de Henri Estienne. M. Pattison, na biografia de Casaubon, sugere que ele se apaixonara mais pela coleção de livros de Estienne. Em termos filosóficos, o seu trabalho mais notável encontra-se no Operum Aristoteli, nova editio Graece et Latine, Lyon, 1590. Admirador do estoicismo, ele redigiu notas sobre as Meditações de Marco Aurélio. Cf. Historiae Augustae scriptores sex, ed. I. Casaubon, Paris, 1603, p. 174 (ad “Marcus Aurelius” XXVIII): “Non ridere, sed rite ac suo pretio aestimare res humanas solitus vir hic sapientissimus. Hoc ille nos docet divinis suis libris, velut cum ait in secundo…” (segue-se uma citação das Meditações II.17). O enunciado, como é sabido, serviu a Spinoza: não rir, não chorar, compreender. Cf. Jill Kraye: Humanism and Early Modern Philosophy, M. W. F. Stone, London: Routledge, 2000, p. 126. O interesse na sátira era determinado pela vida política e moral: campeão do protestantismo, sua obra maior consistiu numa extensa refutação de Baronius que, a exemplo de Bellarmino, defendia as prerrogativas da Sé romana na política, educação, cultura. Cf. I. Casaubon, De rebus sacris et ecclesiasticis exercitationes XVI ad Baronii annales (1614). Mas a sua luta foi além da guerra contra a Igreja de Roma. Ele seguiu o caminho de desmistificar fraudes neoplatônicas, a exemplo do que fez Lorenzo Valla quanto ao Pseudo-Dionisio e à “doação” de Constantino. Em 1614, mostrou no De Rebus Sacris et Ecclesiaticis Exercitiones XVI que o Corpus Hermeticum não pode ter sido feito por um egípcio, Hermes Trismegistus. O estilo grego é do período de Plotino. E notava algo simples, mas que passou desapercebido: Platão, Moisés, Aristóteles, autores pré-cristãos ou comentadores cristãos nunca se referiram ao tal Hermes. Quem segue a fortuna dos setores secretos no século XVII, percebe o estrago feito por Casaubon.

(5). Cf. Aaron, Santesso, "The New Atlantis and Varronian Satire", in Philological Quarterly, v. 79, 2000. O autor mostra, com eficácia, que não se pode trocar “sátira menipéia” por “sátira varrônica”. Este ponto é importante, sobretudo quando se procura distinguir as formas de sátira recuperadas pela modernidade. Como diz Santesso: “Much more was known about Varro’s satires than about Menippus’s – though both were lost – primarily because more of Varro’s titles and fragments survived. St. Jerome counted “Libros CL” of Varro’s Satirarum Menippearum. Of these, we have some 95 titles and 591 fragments. In several cases, enough fragments survive that scholars have been able to offer tentative reconstructions of the original works; certainly, we are able to identify definite traits and interests.” (op. cit.).

6. Estas citações de Varrão foram extraídas de Franz Bucheler, Petronii Saturae et Liber Priapeorum, Berlin: Weidmann, 1912, p. 177-250. A indicação analítica é de Aaron Santesso, op. cit. O autor discute também a sátira Gerontodidaskalos (“O velho Professor”), na qual um velho e um jovem discutem e o idoso lamenta a corrupção e decadência do que enxerga e as compara aos tempos virtuosos e castos de sua juventude. O jovem dele caçoa, devido à sua falta de sofisticação.

(7). A. Santesso, op. cit.

(8). Isaac Casaubon, De Satyrica Graecorum poesi et Romanorum satira (1605), New York: Scholars’ Facsimiles & Reprints, 1973, p. 256-257.

(9). “Apud Latinos vero videtur Ennii exemplum posterioribus ingeniis fiduciam attulisse, ut non solum diversorum generum metra eodem congererent: sed etiam ut hybridas prorsus scriptiones ederent, e soluta oratione et numeris adstricta conflatas. Eiusmodi lasciviae Satira fuit, quam nos Varronianam nuncupamus”. Casaubon, I. : ed. cit., p. 256-257. A. Santesso, op. cit.

(10). “Longe igitur diversa fuit ratio poeseos in Satiris Varronis, et Menippi dialogis vel epistolis. Cum Graecus hic meras parodias ex alienis versibus contexuent: quam ob causam nemo unquam veterum inter poetas eum numeravit. Varro contra pulcherrimis carminibus quae ipse composuerat, Satiras suas consperserit: quas propterea M. Tullius poema nomimat, et quidem varium atque elegans” (Casaubon, p, 266). Para a descrição das obras de Varrão como “philosophiam,” cf., p. 267 e 259. A. Santesso, op. cit.

(11) . Roberto Romano, "A Fantasmagoria Orgânica" in Corpo e Cristal, Marx Romântico, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1985.

(12). Leviathan, cap. 29: Of Those Things that Weaken, or Tend to the Dissolution of a Common-wealth, na edição C.B. Macpherson, New York: Penguin Books, 1977, p. 374-375.

(13) Marivaux, Lettres sur les habitants de Paris, in F. Deloffre, Journaux et Oeuvres diverses, 9. ed., Paris: Garnier, 1969, p. 10.

(14). Por exemplo, o racismo explícito de C. De Pauw, Recherches philosophiques sur les Américains, 1774. O texto pode ser lido na edição eletrônica Gallica da Biblioteca Nacional da França.

(17). Cf. Philippe Roger, Paris, "Um Problema Embaraçoso de Filosofia" , in L´Homme des Lumières, de Paris à Petersbourg, Nápoles: Vivarium, 1995, p. 15-28.

(18) Toda essa passagem é devida a Philippe Roger, op. cit.

(19). Cf. H. Mayer, Os Marginalizados, Rio de Janeiro: Guanabara Ed., 1989, p. 9.

(20) Diderot, poète de l´energie, Paris: PUF, 1984, p. 70.

(21) Diderot´s chaotic order. Approach to a Synthesis, Princeton University Press, 1974, p. 43.

( 22) G. W. F. Hegel, "Prefácio" à Fenomenologia do Espírito. Uso a edição francesa de J. Hyppolite, Paris: Aubier, 1947, T. I, p. 40.

sexta-feira, 2 de março de 2018

17 anos atrás.....




São Paulo, sábado, 20 de outubro de 2001


Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

TENDÊNCIAS/DEBATES

Os EUA pedirem menos exibição de Bin Laden na TV atenta contra a liberdade de imprensa? SIM

Censura e terrorismo cultural
ROBERTO ROMANO

"Meu primo: você pode tremer e mudar de cor, reprimir sua respiração no meio de uma palavra, recomeçar e deter-se ainda, como se estivesse perdido e louco de terror?" (Shakespeare, Ricardo 3º)
O rei tirânico, nessa passagem da peça, ironiza o símile antigo da política enquanto espetáculo teatral. Nela, os dominados exibem apenas terror, intimidados pelo príncipe. Dentre as coisas nauseantes do universo regido por Ricardo 3º, salienta-se a perda completa da palavra autônoma. Todos se calam diante dele e são cúmplices da própria desgraça e da ruína coletiva. Esse ambiente pestífero fornece as cores das teorias políticas que justificam a censura e a repressão da escrita e do pensamento.
Contra ele se insurgiram estadistas e filósofos que definiram a democracia e a liberdade.
Para os defensores da repressão, como Hobbes, as pessoas privadas dependem do arbítrio exercido pelo soberano, o único que pode censurar a vida pública. Spinoza nega isso e afirma que o Estado não supõe a perda dos direitos individuais. Ele identifica soberania e povo, soma de indivíduos livres, o que resulta em limites para os governantes. Estes não teriam direitos acima e além dos cidadãos comuns. O pensador não aceita atenuar a liberdade de escrita.
Convidado para a Universidade de Heidelberg, ele recusou, pois foi-lhe dito, em carta oficial, que o eleitor palatino lhe daria "ampla liberdade de filosofar, desde que não criticasse a religião estabelecida". A sua réplica serve para todo universitário honesto: "Desconheço os limites do meu pensamento e não posso garantir que nunca irei incomodar a religião estabelecida".
Numa época de choque religioso, como a nossa, a lição spinozana mostra-se estratégica. A propaganda oficial norte-americana alardeia que o terrorismo é "islâmico". Na verdade dois fundamentalismos hoje se enfrentam: um se reclama do Alcorão e outro parasita os evangelhos. Entre as crenças, balança o pensamento de quem deve dedicar-se à pesquisa, e não aos slogans das seitas, dentro ou fora do poder estatal.
Se é grave a censura que controla a imprensa mundial, a começar pela americana, pior é o silêncio dos universitários diante do estupro à liberdade de pensamento, arrancada com a chantagem do terrorismo, pela direita dos EUA. Spinoza afirma, no "Tratado Teológico-Político", que a censura favorece bandidos e prejudica honestos. O Estado sob censura é o campo do medo e da tristeza, segundo o filósofo. Qualquer regime político, se confisca liberdades, deixa de ser democrático. Lembremos a frase de um pai da nação norte americana: "Quem joga fora a liberdade essencial para obter uma pequena segurança não merece nem liberdade nem segurança" (Benjamin Franklin, em 1759).
É crime de genocídio, hoje, aceitar em silêncio a censura e a autocensura que ocorre na maior parte da mídia, reduzindo seu papel ao de mera propagandista. Todas as desculpas para o assassinato da informação pública pressagiam desgraças e servilismo inauditos. De certo modo, todos repetimos a experiência descrita por Shakespeare em "Ricardo 3º", todos, em nossos papéis políticos, parecemos loucos e perdidos pelo terror. A censura na mídia a está matando enquanto forma de pensamento e de pesquisa. A universidade caminha a passos rápidos para aceitar limites à pesquisa e ao debate. Some o direito de busca, de erro, de exame.
Entramos no século 21 sob um dos maiores ataques à razão, feito por terroristas de Estado ou de seitas "religiosas". Após o golpe de 1964, feito sob patrocínio dos EUA em nossa terra, ressurgiram a censura, as prisões, a tortura e as violências que desgraçaram o país na ditadura Vargas. Os mesmos personagens, como Filinto Muller (que arrancava confissões aplicando ferros em brasa na pele dos adversários), definiram seu mando soberano. Tudo em nome da "segurança". Muitos jornalistas e universitários ficaram silentes diante da barbárie "cristã e ocidental". Algumas vozes tiveram coragem e ergueram a voz para protestar. Entre elas, a de Carlos Heitor Cony e a de Tristão de Athayde (o católico Alceu de Amoroso Lima).
Este cunhou a expressão certa para os atos dos militares no poder: "terrorismo cultural". Ele era um homem lúcido e honesto, ou melhor, um homem.


Roberto Romano, 55, filósofo, é professor titular de ética e filosofia política na Unicamp.

Terror cultural em novo ataque à liberdade acadêmica Roberto Romano. Sobre a censura do ministério da educação ao curso sobre o golpe de 2016

Foto: Antoninho PerriRoberto Romano da Silva é professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Autor de vários livros, entre eles “Brasil, Igreja contra Estado” (Editora Kayrós, 1979), “Conservadorismo romântico” (Editora da Unesp), “Silêncio e Ruído, a sátira e Denis Diderot” (Editora da Unicamp), “Razão de Estado e outros estados da razão” (Editora Perspectiva). 

Terror cultural em novo ataque à liberdade acadêmica

​
Foto: Reprodução​Um professor que integra a Universidade de Brasília (UnB) apresenta plano de aulas segundo as normas acadêmicas oficiais, mas sofre ameaças de processo judicial e  censura. O episódio é inadmissível em terra democrática. Ele evoca a carta de Spinoza ao Eleitor Palatino, que lhe oferecera uma cátedra,  “respeitados os limites da religião estabelecida” (1). O pensador recusou a honra com palavras imortais: “ignoro os limites em que minha liberdade filosófica deveria ser contida para não parecer nutrir a vontade de incomodar a religião oficialmente estabelecida. O cisma não vem do  zelo religioso ardente, mas das paixões diversas ou amor da contradição que desvia de seu sentido e condena todas as palavras, mesmo se  expressam um pensamento reto” (2). O governo brasileiro de facto – se é de iure pode-se discutir – quer impor limites ao pensamento, tarefa da pura força física. 
Em política, nomes indicam o que deve ser, não o efetivo. Quando o último foge do modelo idealizado, o termo não mais lhe serve. Os discursos para o salvar acabam em pobre mentira.  Se um regime chega a tal ponto, expõe sinais de morte. Assim sucede com a “democracia” (3). Definida como dogma, ela não raro disfarça mandos tirânicos. Benjamin Constant afirmava: “o povo não tem o direito de ferir um só inocente, nem de tratar como culpado um só réu sem provas legais. Ele, pois, não pode delegar tal direito a ninguém” (Sur la souveraineté du peuple). A advertência não impediu muitos liberais de aderir ao poder fascista que exibia apoio popular. O liberalismo atual cede novamente ao fascio ou ao sigma.
A cautela importa dada a polissemia dos vocábulos. Se num regime democrático as oposições perdem  o direito de existência, a mendacidade salta aos olhos (4). Avishai Margali aponta Estados e sociedades decentes ou indecentes. Um capítulo nuclear de seu livro é o seguinte: Being Beastly to Humans (5). Sob o poder feroz todos se transformam em bichos com aparência humana. O Estado que só exibe as garras impede adesão racional, pois gera repulsa e pavor.  “A única esperança para cada um de nós, de não sermos tratados como bichos pelos nossos semelhantes é que todos os semelhantes (...) experimentem a si mesmos, de imediato, como entes sofredores e cultivem em seu foro íntimo a aptidão para a piedade, que no estado de natureza ocupa o lugar ‘das leis, dos costumes e da virtude’ e sem o exercício da qual começamos a compreender que, no estado de sociedade não pode existir nem leis, nem costumes, nem virtude” (Claude Lévi-Strauss) (6).
O Estado brasileiro, cuja base é uma “sociedade civil” impiedosa, trata como fera o cidadão sem poder e dinheiro (“a gente diferenciada”).  A atual equipe do Planalto usa a força para impor medidas odiosas contra os “negativamente privilegiados” (Max Weber). A reforma trabalhista diminui o preço da força de trabalho, aumenta o exército de reserva. Foi banido o aprimoramento dos trabalhadores (7). Os bens nacionais estão à venda, da água às técnicas pagas com dinheiro de impostos da cidadania.  Nenhum país abre mão daqueles elementos, mas o patrimônio acumulado é entregue a empresas europeias, norte-americanas, chinesas.
O genocídio indígena renasce no conúbio de ruralistas e governo. A maioria dos jovens mortos é negra. Quilombolas são ameaçados.  Os desvalidos teimam em viver, o que exige da polícia mais armas contra eles. Em 2016 o Brasil registou 61.619 mortes violentas. E o lobby parlamentar ligado à indústria de armamentos quer mais vendas aos “clientes”, conduzidas em projetos de “segurança” apresentados ao Congresso. Nos últimos dias foram condenadas mulheres a cuidar de nascituros em celas infectas. Foi preciso o STF para atenuar a barbárie. O governo, para gáudio do agronegócio, tentou abolir regras contra a escravidão. A reforma da Previdência foi adiada apenas. Mas a torneira dos cofres públicos garante apoio do Congresso e da “sociedade civil”.
Práticas de terror estatal são retomadas. Abusos físicos e morais da polícia ressurgem nas invasões de universidades públicas. Em Santa Catarina o reitor da UFSC foi levado ao suicídio. Nada ocorreu para reparar o atentado. A mesma força violou a UFMG em manobra cujo nome caçoa das horas tristes da ditadura civil-militar. “Esperança equilibrista” é música que entoa o lamento dos torturados e banidos porque não aceitaram o arbítrio.
Para aumentar a popularidade o governo inventou novo abuso do monopólio estatal da força física.  A intervenção no Rio de Janeiro fica longe dos bairros ricos ou de classe média.  Após a tatuagem de números nos campos alemães de concentração, chegam técnicas up to date. O fichamento com foto obrigatória de gente honesta, a reduz ao plano dos bandidos. Inocentes são espremidos entre forças policiais e traficantes. Reféns, seus filhos morrem em escolas, creches, ruas.
A censura ataca o setor universitário, aliada ao   inaudito corte de verbas para pesquisas e serviços que ainda garantem um lugar para o Brasil no âmbito mundial. O docente da UnB, indicado no início do presente artigo,   propõe examinar em sala de aula os poderes nacionais após a derrubada da Chefe de Estado.  Com base em teorias expostas desde Maquiavel até Gabriel Naudé, incluindo a ciência política contemporânea,  ele nomeia o impeachment como golpe de Estado. Em vez de responder, por seus defensores acadêmicos, com doutrina e ciência, o governo abre processo judicial com a desculpa de que o professor assumiria teses de um partido político.
O método sequer é novo. O Serviço Nacional de Informação (SNI), para erradicar a oposição à ditadura, tinha escritórios nas reitorias e controlava nomeações, pesquisas, ensino. Fato nacional e internacional, o autoritarismo com véu democrático também opera no Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS, França). Em 2007 um funcionário de “segurança e defesa” vigiava as investigações sociológicas e sociopolíticas “sensíveis”, em especial sobre as dedicadas ao islã. O policial escreveu a pesquisadores para vetar opiniões ou estudos. “A decisão do CNRS deixa o mundo acadêmico perplexo. Seria preciso proibir uma pesquisa pelo medo de que seus resultados desagradem o poder? É o mesmo que estilhaçar os termômetros para garantir que a febre não aumente” (8). Emprestamos do CNRS o jeito autoritário. Globalização do Estado tutor de ideias.
É impossível respeitar um ministério dedicado ao plano educacional, mas exposto ao deboche por enobrecer um performer pornográfico. O indecoro não reside apenas no homenageado. Obscena é  a censura ao ensino universitário. Tais práticas retomam o terror cultural denunciado por Tristão de Athayde após 1964 (9). Elas   mimetizam o Decreto 477, o AI-5 aplicado à universidade. Todos se lembram de Athayde, mas   sumiu o nome dos censores e policiais que estupraram a liberdade de cátedra. Ninguém guardará o nome do arteiro que recebeu honras ministeriais, poucos recordarão a autoridade censória.  Mas a maioria saberá quem foi Luiz Carlos Cancellier  de Olivo. Serão honrados os que, nos campi, com Luis Felipe Miguel defendem o exame sem limites dos fatos e ideias, apesar dos Autos-de-fé. Existem momentos fortes e débeis na história dos povos (10). O agora brasileiro será entendido como a era de um poder estatal terrorista.



1) Carta de Fabritius a Spinoza   (16/02/1673).
 
2) Resposta de Spinoza a Fabritius (30/03/1673). 
 
3) L. Canfora: La démocratie, histoire d’une idéologie (Paris, Seuil, 2006.
 
4) C. Castilla del Pino (org.) : El discurso de la mentira (Madrid, Alianza, 1988.
 
5) The Decent Society (London, Harvard Univ. Press, 1996).
 
6) Anthropologie structurelle, Deux, cit. por E. Fontenay :Le silence des bêtes, la philosophie à l’épreuve de l ‘animalité, Ed. Fayard, 1998, p. 483.
 
7) “Pais tem 5 milhões em busca de um emprego há pelo menos um ano”, Valor, 26/02/2018, p. A-3.
 
8) T. Todorov: “Menaces sur la démocratie”, Le Monde, 14/11/2009.

9) Xikito Affonso Ferreira: Histórias de meu avô Tristão, (Azulsol Ed. 2015).

10) J.G. A. Pocock: The machiavellian Moment. Florentine political though and the Atlantic Republic Tradition.(Princeton. Univ. Press, 2003).

Imagem de capa JU-online

Sessão da votação do impeachment de Dilma Rousse, em abril de 2016  | Foto: Marcelo Camargo | Agência Brasil

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Pter Schulz

Foto: Antoninho PerriPeter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).


Uma pulga atrás da orelha da Física


“Una
a linguagem nos seus modos completos
desentende-se com os sentidos
e forma seus idioletos”

Carlos Vogt
​Ilustração: Luppa Silva​Entre os vários temas da Física, entender as propriedades dos diferentes materiais concentra os esforços de boa parte da comunidade dedicada a essa ciência. Entre essas propriedades estão as chamadas propriedades eletrônicas, que resumidamente significa entender como os diferentes materiais conduzem (ou não) uma corrente elétrica. O ponto de partida é a partícula eletrônica por excelência, o famoso elétron, aquele pequeno planeta que “orbita” em torno de um “sol” – o núcleo atômico – na imagem de sistema planetário para o átomo, que ainda hoje povoa o imaginário de quase todos que estudaram Física ou Química no ensino médio.
Há mais de um século começou-se a entender as correntes elétricas em metais a partir da ideia de que muitos elétrons nesses metais estão simplesmente “livres”, desgarrando-se dos “sóis” que compõem a estrutura do material. Já os isolantes e os semicondutores, estes na origem de toda a nossa microeletrônica, que me permite digitar esse texto e que possibilitará lê-lo em outras telas, já são mais complicados: entender porque isolantes não conduzem normalmente correntes elétricas precisa levar em conta os núcleos atômicos em ordem unida e de como os elétrons estão ligados não a um ou outro desses núcleos, mas ao conjunto (inimaginavelmente grande) deles. Esse passo no entendimento só foi possível, é bom lembrar, com o advento da mecânica quântica.
Supercondutores, que conduzem corrente elétricas sem a menor resistência a temperaturas extremamente baixas, são ainda mais intrigantes. Supercondutividade é devida a interações muito peculiares entre pares de elétrons. Mas os problemas não param aí, pois para entender em detalhes os metais, isolantes e semicondutores, sem falar em polímeros e materiais biológicos, precisamos sim considerar as interações entre os elétrons, um problema de muitos corpos no jargão da área, que não é nada simples em função de alguns temperos quânticos nesse assunto. A chave, na verdade mais uma porta emperrada, desse assunto é o que se chama interação de troca-correlação. E é com ela, sem tentar entrar em seus detalhes, que começa a nossa história sobre o que é chamada de Teoria do Funcional Densidade. Caso o leitor tenha chegado até aqui, peço desculpas pelos termos técnicos que já apareceram e que ainda aparecerão, mas eles não são importantes para entender a pulga atrás da orelha do título [I].

Foto: Reprodução
A Escada de Jacob por Joachim von Sandrart | Imagem: Reprodução
A história começa há pouco mais de 50 anos com um trio de cientistas, responsáveis pelos teoremas de Hohenberg-Kohn e as equações de Kohn-Sham, que em princípio resolvem o problema colocado. Os teoremas de Hohenberg-Kohn dizem mais ou menos o seguinte. O primeiro demonstra que as propriedades do chamado estado fundamental de um sistema de muitos elétrons são determinadas unicamente pela densidade eletrônica, ou seja, dos elétrons. O segundo teorema define um funcional de energia para o sistema e prova que a densidade eletrônica correta desse estado fundamental minimiza o funcional de energia. Que a natureza, digamos, busca essa menor energia é talvez uma das coisas mais fundamentais para a Física.
Esses teoremas estabeleceram o que se pode chamar de um paradigma na área, a Teoria do Funcional Densidade, emprestando aqui esse conceito desenvolvido por Thomas Kuhn em sua “Estrutura das Revoluções Científicas”. Um paradigma seria, resumidamente, “um conjunto de crenças, regras, compromissos e valores que são compartilhados pelos cientistas” [II]. A pegadinha está em achar a melhor aproximação para o tal funcional densidade para calcular os tais estados fundamentais. Desde a primeira aproximação proposta, a aproximação da densidade local (só para incluir mais um termo hermético para a maioria), criou-se uma família de aproximações, que parece que não para de crescer, de acordo não com uma árvore, mas com uma escada genealógica. Uma escada apelidada como escada de Jacob da Teoria do Funcional Densidade, que coloca uma certa ordem nas sucessivas gerações de métodos, que formam uma espantosa nuvem de siglas montada por Peter Elliott [III], sempre rumo à melhor descrição possível das propriedades dos materiais.   Cada sigla para um tipo de problema: é o que Kuhn chamaria de fase de “resolução de quebra-cabeças” da “ciência normal” seguindo um paradigma. São também os idioletos da epígrafe.
Nesse panorama surgiu há pouco mais de um ano um artigo na revista Science [IV] em que vários desses métodos/aproximações são comparados, propondo que “desenvolvimentos recentes na Teoria do Funcional Densidade melhoraram os valores obtidos para as energias, mas nem sempre melhoraram as densidades eletrônicas concomitantemente, sugerindo um desvio dos princípios teóricos que sustentam a teoria” [V], segundo comentário que acompanha o artigo. Ou seja, os teoremas mencionados acima estariam sendo violados. As reações foram imediatas em revistas e blogs dedicadas à Física e Química computacionais e o artigo de Medveded e seus colaboradores angariou mais de 100 citações em um ano. Voltando ao comentário na Science, a autora se pergunta. “O enigma leva a uma questão filosófica: importa que os funcionais aproximados se afastem do funcional exato (como pedem os teoremas) se eles dão melhores resultados?” E segue com uma consideração curiosa: “para aplicações em Química, Biologia e Física, energias [...] são de interesse primordial. Se as densidades (eletrônicas) não afetam essas propriedades e não são de interesse em si, então talvez densidades inexatas sejam irrelevantes”. Seria algo como “os fins justificariam os meios”, que Maquiavel não disse bem assim, e tudo bem desenvolver uma teoria baseada em um paradigma e violá-lo ao mesmo tempo.
O que Kuhn descreveria como uma crise de paradigma, um blog descreve como “crise da meia idade” em um post que critica a metodologia do artigo da Science [VI]. Seria interessante acompanhar como os diferentes grupos estão reagindo e ainda reagirão ao problema. Ficará demonstrado que as conclusões do artigo na Science estão erradas? Mas reproduzir resultados ou obter resultados negativos, embora importantes para a ciência, são desprezados pelos cientistas na hora de escolher como gastar seu tempo. As aproximações para funcionais densidades serão revistas ou será que as aproximações que ficaram já fora de moda voltarão a ser usadas? Os teoremas que dão sustentação ao paradigma serão questionados? Como essas diferentes comunidades dialogarão (ou não) entre si? [VII]  Afinal a comunidade de usuários da teoria é enorme comparada com a comunidade que estuda a teoria. O caso, de qualquer modo, é um candidato para um estudo interdisciplinar envolvendo físicos, químicos, filósofos, sociólogos e antropólogos da ciência.



[I] Quem chamou a minha atenção a essa assunto é um colega e amigo, Pablo Rivera.
[II] Eduardo Salles Braga, apresentação de “A função do Dogma na Investigação Científica” deThomas Kuhn: http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/arquivos/File/traduzindo/kuhn_funcao_dogma_na_investigacao_cientifica.pdf
[III] simplecompchem.blogspot.com.br/2016/06/
[IV] M. G. Medvedev, I. S. Bushmarinov, J. Sun, J. P. Perdew, K. A.Lyssenko, Science 355, 49 (2017).
[V] Comentário de Sharon Hammes-Schiefer na mesma edição da Science da referência acima, página 28.
[VI] https://dftwft.wordpress.com/2017/05/14/dft-mid-life-crisis/
[VII] O problema já havia sido colocado antes em um artigo de 2014, intitulado “Teoria do Funcional Densidade: fundamentos revisitados” de Eugene Kryachko e Eduardo Ludeña, aparentemente um pouco obscuro, mas onde a necessidade de rever alguns aspectos dos teoremas de Hohenberg-Kohn, descritos como controversos, é apontada. O artigo “Density Functional Theory: foundations reviewed” foi publicado na revista Physics Reports.

Imagem de capa JU-online


Capa do álbum Led Zeppelin IV, cujo destaque é a canção Stairway to Heaven, um dos maiores clássicos da história do rock | Reprodução

M

Mídias Sociais

Acesse as notícias do JU nas redes sociais da Unicamp
FacebookTwitter