Flores

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

HU/Unisinos. Em 9 de agosto morria Edith Stein. No final restará apenas o grande amor

08 Agosto 2017
As últimas etapas da existência de Edith Stein podem ser sintetizadas por três nomes e três datas. Amersfoort, 2 de agosto de 1942: o condutor do blindado em que tinham sido forçadas a entrar Edith e Rosa (sua irmã), deportadas do mosteiro em retaliação à carta dos bispos holandeses contra o nazismo, errou o caminho e assim elas chegaram tarde da noite no campo de concentração.
O artigo é de Cristiana Dobner, publicado por L'Osservatore Romano, 07-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Westerbork: onde foram transportadas durante a noite entre 3 e 4 de agosto, e que foi assim descrito por Etty Hillesum: "No geral, há uma grande confusão em Westerbork, quase como em volta do último destroço de um navio em que se agarram uma profusão de náufragos prestes a se afogar. Às vezes, parece quase que seria mais fácil ser finalmente deportado, do que ter que sempre assistir ao medo e desespero daqueles milhares e milhares, homens, mulheres, crianças, inválidos, dementes, bebês, doentes, idosos, que em procissão quase ininterrupta desfilam ao longo de nossas mãos escorregadias".
Auschwitz: número 44074. Com um lacônico e burocrático comunicado: “Em 9 de agosto de 1942, na Polônia morreu Stein, Edith Teresia Hedwig, nascida em 12 de outubro 1891 em Breslávia, residente em Echt".
O jardineiro do mosteiro de Echt, um jornalista amigo e um jovem ex-deportado aproximaram-se dela nesses últimos momentos. Assim puderam se apresentar como testemunhas oculares aos processos que abriram o caminho para a beatificação e analisaram a vida e o testemunho diante da morte certa da fenomenóloga que se tornou irmã carmelita.
Dessa forma, é como se estivéssemos assistindo Edith Stein ao vivo. "Falava com humilde segurança, a ponto de comover aqueles que a ouviam. Uma conversa com ela (...) era como uma viagem para outro mundo. Naqueles momentos, Westerbork não existia mais ... Ela me disse: "Eu nunca pensei que os homens pudessem ser assim e... que meus irmãos tivessem que sofrer tanto". Quando não havia mais dúvida de que seria transferida para outro lugar, eu perguntei se poderia ajudá-la e (tentar libertá-la); ... novamente sorriu para mim suplicando que não fizesse isso. Por que fazer uma exceção para ela e seu grupo? Não teria sido justo tirar vantagem do fato de que ela fora batizada! Se não pudesse participar do destino dos outros, a sua vida seria arruinada: "Não, não, isso não!".
O jornalista Van Kempen encontrou-se diante de "uma mulher espiritualmente grande e forte". Durante a entrevista fumou um cigarro e perguntou-lhe "se ela também queria um". Ela respondeu-me que "Já havia fumado em certa época e que, quando estudante, também tinha dançado".
O jovem sobrevivente notou uma sua característica peculiar. “Ela era muito corajosa: as suas respostas espelhavam como ela era. Quando um SS blasfemava, ela não reagia, mas permanecia ela mesma. Absolutamente não tinha medo algum”.
Wielek, funcionário holandês, relata um diálogo em que "com confiança e humildade" Edith Stein disse: "O mundo é feito de contrastes ... Mas o final não será feito desses contrastes. Restará apenas o grande amor. Como poderia ser de outra forma?".

Do Carmelo de Echt às câmaras de gás de Birkenau. O destino em sete dias
(de Westerbork, por Ferdinando Cancelli)

Echt, Maastricht, Amersfoort, Westerbork, Birkenau. Entre a prisão da noite de 2 de agosto até à morte nas anônimas câmaras de gás em Birkenau passaram-se apenas sete dias: em uma única semana de setenta e cinco anos atrás, cumpria-se o destino das irmãs Rosa e Edith Stein.
"Vem, vamos para o nosso povo", disse Edith incentivando Rosa que deixava o Carmelo de Echt entre lágrimas. As testemunhas relatam a presença de uma pequena aglomeração e de alguns protestos, apesar da máquina da Gestapo ter tomado todas as precauções para esperar as irmãs Stein não em frente à porta do Carmelo, mas no cruzamento com a Peijerstraat, uma centena de metros mais distante. Logo em seguida a porta de um carro se fechou sobre a vida de duas mulheres inocentes.
O Carmelo de Echt permanece o mesmo: uma austera fachada de tijolos vermelhos, um pequeno portão, a entrada da igreja voltada para a Bovensestraat, muitas lojas modernas que apenas poupam este pequeno trecho de muros de aparência antiga. Os campos de transição de Amersfoort e de Westerbork estão longe de Maastricht e de Echt, para a região nordeste da Holanda, perdidos em uma rede de canais e vias fluviais que trazem à terra o céu desse luminoso verão holandês.
Em 4 de agosto de 1942, Edith e Rosa, juntamente com muitos outros judeus, chegam em Westerbork. Ainda hoje, à esquerda da entrada do pouco que resta do campo de concentração, pode ser vista a casa do comandante: uma bela construção, agora encerrada por uma gigantesca caixa de vidro. As cortinas nas janelas do primeiro andar pendem imóveis e sombrias por trás dos vidros, os mesmos vidros de onde muitas vezes vários comandantes devem ter lançado olhares indiferentes sobre a tragédia indescritível de tantas vidas destroçadas.
O vidro – perguntamo-nos - protege a casa ou protege quem olha para ela? Poder-se-ia aguentar a visão direta, por trás das cortinas, de tamanha normalidade frente a tal abismo de sofrimento?
E para completar, as árvores: com emoção olharmos para os carvalhos, as tílias e as bétulas que se elevam por todos os lugares ao redor da área. Elas realmente são as últimas testemunhas diretas: naqueles dias de setenta e cinco anos atrás, muitas já estavam presentes quando Rosa e Edith esperavam para embarcar no trem que as levaria para a morte longe dali.
Caminhamos pela relva de um verde intenso dos campos pensando sobre aqueles momentos terríveis: a escuridão que é visível por trás das janelas da casa do comandante é apenas um pálido resíduo das trevas que envolviam naquele tempo a charneca de Drenthe.
"Tivemos um dia realmente estranho - escreve Etty Hillesum, que naquele agosto estava em Westerbork para ajudar as pessoas em trânsito - Um transporte trouxe católicos judeus ou judeus católicos, freiras e padres que carregam a estrela amarela em suas vestes monásticas. Lembro-me de dois meninos, gêmeos, cujo lindo rosto moreno evocava o gueto e que, com o olhar cheio de uma serenidade infantil sob o seu capuz, contavam amavelmente, no máximo um pouco espantados, que tinham sido presos às quatro e meia da madrugada e que em Amersfoort tinham lhe servido repolho vermelho (...). Por cima de tudo - continua Hillesum – o crepitar ininterrupto de uma bateria de máquinas de escrever: a metralhadora da burocracia (...). Mais tarde, alguém me contou que naquela noite havia visto um grupo de religiosas avançar lentamente na penumbra entre dois barracões escuros recitando os seus rosários, imperturbáveis como se estivessem no claustro de sua abadia. Também encontrei - conclui -. duas religiosas pertencentes a uma família judia muito ortodoxa, rica e instruída de Breslau, com a estrela amarela costurada em seu hábito monástico".
Em 9 de agosto de 1942 Rosa e Edith Stein, depois de dois terríveis dias de viagem, desapareciam junto a outros milhares de pessoas no abismo de Birkenau.

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Semelhanças provocam mais rejeição do que diferenças

Semelhanças provocam mais rejeição do que diferenças

Civilização Extrema: parte 2 de 5


Reportagem:
Juliano Tatsch e Suzy Scarton
Arte:
Thiago Machado
Edição:
Daniel Sanes
Juliano Tatsch
Paula Sória Quedi
Edição para internet:
Paulo Serpa Antunes
Uma sociedade polarizada, na qual os radicalismos se sobrepõem ao equilíbrio ponderado de opiniões, vive um dilema de responsabilidades. Por onde passa a radicalização na esfera social? Ao mesmo tempo em que o recrudescimento das ações de intolerância é percebido como um elemento de massa, o papel do indivíduo nesse cenário não pode ser desprezado.
Assim, surge a seguinte questão: a intolerância é um fenômeno da sociedade, no qual a pessoa se vê como uma folha em meio à ventania, sendo levada pelo comportamento geral; ou é uma ação própria do indivíduo, que decide, sem grandes influências do fator externo, tomar o caminho da radicalização com base em sua visão de mundo?
Para o psicanalista e pós-doutor pela Universidade de Londres, na Inglaterra, João Angelo Fantini, a tolerância implica algo que as pessoas não aprovam, mas não podem evitar. Segundo o professor da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, a tolerância pode ser pensada como "um tipo de defesa narcísica inconsciente, cuja compensação para o sujeito se faria em termos do centralismo cultural ou impotência benevolente". A intolerância, por outro lado, indica que o "ponto de partida para reconhecer o outro é sempre negativo".
Organizador do livro Raízes da Intolerância (EdUFSCar, 2014), Fantini observa que a psicanálise aponta que as mais virulentas manifestações de intolerância são reservadas às pessoas "estranhas", que tentam agir e falar como aqueles que se julgam cidadãos natos. "Quanto mais esses 'estranhos' tentam emular e imitar, isto é, quanto mais eles tentam 'pertencer', mais feroz aparece a rejeição", observa.
Isso pode ser observado, por exemplo, no preconceito aos homossexuais. A rejeição mais forte é direcionada àqueles que, a um primeiro olhar, não deixam clara sua orientação sexual. O mesmo é percebido quando comunidades imigrantes deixam seus "guetos", ou bairros e ruas vistas como pertencentes a eles. O bairro árabe, a zona cigana, a rua dos profissionais do sexo não incomodam tanto como quando essas pessoas se misturam às outras. Diante disso, a concepção de uma sociedade "tolerante" e não "respeitosa" aponta para um conflito em constante latência, um quadro de tensão permanente.

Novas tecnologias são terreno fértil para fanatismos

Não há quem não tenha presenciado ou participado de algum debate ríspido, às vezes agressivo, sobre um assunto qualquer. O embate de ideias é a base de uma democracia livre, e, assim sendo, deve ser fomentado. Quando esse enfrentamento, porém, ultrapassa o limite da civilidade e das opiniões, e se transforma em uma troca vazia de ataques sem argumentos, de ofensas sem pensamento reflexivo a respeito da questão, o que antes era o oxigênio de uma sociedade democrática vira o laço que a enforca.
É possível que o surgimento da internet tenha ocasionado a mais impactante transformação nos modos de comunicação, se não de vida, no último século. Os conceitos de distância e tempo foram ressignificados por meio das redes. O que era distante, agora, está ao alcance de um clique. O que demorava dias, semanas, meses para chegar, agora, é recebido instantaneamente.
A internet, com seus incontáveis benefícios, porém, é apenas uma ferramenta. E, assim como qualquer outra, pode ser usada para fazer o bem ou para fazer o mal. Se, desde o seu surgimento, ela já foi espaço propício para a disseminação da maldade, foi, mais recentemente, com o surgimento e posterior disseminação do uso das chamadas redes sociais, que a propagação do discurso de ódio, da intolerância, do extremismo chegou ao ápice.
Revolução recente
Para o filósofo Roberto Romano, ainda é cedo para se fazer uma análise definitiva sobre o papel da internet na formação de uma sociedade que não respeita o diferente. Segundo ele, toda grande inovação cultural leva muito tempo para ser assimilada e, antes de ser totalmente, já surgiu outra inovação mais avançada do que ela. "A humanidade precisa de certo tempo para digerir o que de mais profundo a revolução tecnológica produz. No caso da internet, das redes sociais, estamos apenas no começo. Não há, ainda, uma maturação, sequer tecnológica. Por enquanto, é um instrumento de ataque de todos contra todos", afirma.
Romano salienta o fato de que boa parte das pessoas que fazem uso de redes sociais, como Facebook e Twitter, não possui base da cultura anterior à revolução tecnológica. "Não tem a base da História, da Economia, da Matemática, por exemplo. A grande maioria não conseguiu dominar completamente essa cultura anterior. A humanidade ainda não conseguiu isso com o Renascimento (período compreendido entre os séculos XV e XVI)", aponta.
Falso anonimato
A novidade que as redes sociais representam também é ressaltada como um fator importante pelo psicanalista João Angelo Fantini. Ele alerta que, mesmo não existindo mais, o sentimento imaginário de anonimato que as redes proporcionam permanece. Assim, é possível pensar que as redes funcionam na mesma lógica da experiência dos indivíduos na massa (como em um estádio de futebol, por exemplo). "Ela oferece um falso anonimato e a possibilidade de imersão e de perda de limites, isto é, de o sujeito agir em público como se estivesse individualmente fora do alcance dos outros, revelando os segredos sujos que evitaria mostrar em sociedade", afirma.
Assim, se vendo em um espaço onde tudo é permitido, no qual não há limites nem regras, o indivíduo se comporta sem saber muito bem para onde ir, dançando conforme a música. Fantini salienta que o espetáculo nas redes sociais pode ser "um teatro onde cada um tenta defender - mais que suas ideias políticas - a sua própria crença". No campo da política, isso pode significar uma forma de defesa de crença pessoal que, não raramente, resulta em uma posição que ultrapassa os fatos, vindo a ser entendida mais como uma garantia à integridade do próprio indivíduo, uma forma de defesa narcísica. "Essa situação não atinge somente 'ignorantes', 'fascistas', 'comunistas' ou tantos outros significantes utilizados nos posts agressivos encontrados nas mídias sociais. Atinge qualquer um", afirma o pesquisador, lembrando a lição freudiana de que a informação e a educação não necessariamente afetam o modo como os indivíduos percebem o mundo. "Nosso inconsciente afeta nossa percepção de mundo, e nossos preconceitos podem nos levar a conclusões independentes da veracidade ou não das mensagens."
Bolhas de opinião
Caminhando por um terreno que não conhece bem, o indivíduo acaba por ser um ator pouco consciente do papel que interpreta, sendo, em boa parte das vezes, levado pela força do movimento de arrasto das redes. As redes sociais também provocam a formação de "bolhas", nas quais o indivíduo se isola de quem pensa diferentemente de si. O fenômeno é fator importante na formação da narrativa de pensamento único.
O papel que as "bolhas" possuem também é salientado pelo doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul Marcos Rolim. Por se aproximar e se ver cercado de pessoas que pensam como ele, o indivíduo passa seus dias dialogando com seus iguais. "Isso produz engrandecimento sistêmico. Perco a diferença, que só me pode ser oferecida pelo estranho, por quem vê o mundo diferente. E, quando há um contato, uma fricção entre as bolhas, isso só produz descarga elétrica", diz.
Debate cego
Por fim, a perda de espaço por parte da imprensa tradicional na formação de narrativas, que deveria atuar como mediadora e contraponto ao quadro de desinformação consciente - ou pós-verdade -, incrementa o cenário de radicalização dos discursos. "Com frequência, o resultado disso é um esgarçamento dos laços sociais em que, não raro, não apenas inimigos ou desconhecidos, mas mesmo velhos amigos param de trocar ideias e se entrincheiram junto a outros que - aparentemente - compartilham seus pontos de vista, passando a fazer fila com aqueles que, às vezes, têm apenas uma opinião em comum, mas outras não necessariamente compartilhadas", observa Fantini.
Dessa forma, o debate se desvirtua em seu sentido - de troca de ideias e pontos de vista -, passando a ser um ringue de imposição de visões. "Há uma diferença essencial entre um debate em busca de uma verdade e um confronto dirigido à imposição de convicções. O primeiro requer o reconhecimento de um limite de todo e qualquer saber e a existência de um vasto território de ignorância. O segundo somente requer domínio das artimanhas de uma grande habilidade retórica", aponta o psicanalista e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano Alfredo Jerusalinsky.
O estudioso ressalta que toda a ilusão de ser detentor de uma verdade total é fértil para o surgimento de posições extremistas, pois se tratam de discursos que suprimem a dúvida e a interrogação. "A liberdade consiste no exercício das diferenças. As diferenças não cabem onde somente há certezas", diz.
O individual e o coletivo
A polarização das discussões no campo político é influenciada pela relação entre fatores de cunho individual e de cunho coletivo. Jerusalinsky afirma que, quando uma pessoa ataca outra para fazer a defesa de um ponto de vista, o que ela esconde, na verdade, é o desejo de defender a si própria. Conforme o psicanalista, em termos de discurso e linguagem, o sujeito é o ponto de intersecção entre o individual e o coletivo. "Ele tem uma série de significações que o singularizam e o permitem saber quem é. Com essa bagagem de significações, ele vai em direção ao coletivo", explica.
De acordo com o pesquisador, que é mestre em Psicologia Clínica, quando o cidadão não se vê representado no campo do discurso - que compreende, entre outros, as políticas de Estado e de governo, os sistemas de poder, as leis escritas, que substituem as leis simbólicas -, começa a pedir que alguém resolva esse dilema. Assim, em desespero, o sujeito vai em busca de algo que represente alguma solução. Nessa busca, ele se torna passional, pois é a vida dele que está em jogo. "Ele não pode discutir isso com calma. Essa é a razão de a discussão não ser muito sensata."
Na análise do psicanalista, a radicalização das posições passa umbilicalmente pela ausência de representatividade do indivíduo na teia social, pois, quando o discurso social se torna totalitário, como atualmente, ele reduz o leque de alternativas de representação para o sujeito. Sem se ver representado por quem comanda o discurso social, a busca de novos traços identificatórios se amplifica. É aí que a internet ganha espaço. "A rede pode servir para criar grupos. Esses pequenos núcleos permitem viver na ilusão de que, pelo menos, não se está só. Não há para onde ir, mas, pelo menos, não se está só", conclui Jerusalinsky.

Linha que separa condutas opostas é frágil

Conforme o Dicionário Houaiss, respeito e tolerância são conceitos diferentes. Respeito é definido como "consideração, deferência, reverência", além de "estima ou consideração por alguém ou algo". Já a definição de tolerância é "indulgência, condescendência. Tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às adotadas por si mesmo".
Assim, a linha que separa a tolerância da intolerância é tênue. A história já deu provas disso. Uma crise econômica, com consequente aumento do desemprego, faz com que imigrantes passem a não ser mais vistos com olhos condescendentes. A ascensão de classes menos favorecidas a postos antes impossíveis de serem ocupados gera um inconformismo por parte daqueles que, até então, detinham o monopólio dessas conquistas. No Brasil, esse fenômeno se deu recentemente. "O preconceito de classe ganhou mais espaço depois da chamada década inclusiva. Segmentos que antes não circulavam em determinados espaços, passaram a circular. A chegada desses 'outsiders' causa um incômodo nos grupos que estavam estabelecidos", corrobora o pós-doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Dilton Cândido Santos Maynard.
O embate com o semelhante, com a reserva de nossas emoções mais virulentas àqueles que mais nos lembram e nos ameaçam por essa semelhança, foi chamado por Sigmund Freud (1856-1939), "pai" da psicanálise, de "narcisismo das pequenas diferenças". O psicanalista Alfredo Jerusalinsky afirma que esses sentimentos negativos são provocados por um efeito de espelho: o sujeito vê no outro o que ele desejaria ser (inveja), percebe o que o outro tem como uma privação de si próprio (ódio), e sente sua frustração como causada pelo outro (agressão). "Quase todo intolerante vive em constante pavor de não ser quem ele acredita ser. Cabe evocar uma magnífica obra de Saramago, O Homem Duplicado, em que o maior horror é descobrir que o outro é, em verdade, eu mesmo", salienta Jerusalinsky.
 

A incapacidade do diálogo e a intolerância religiosa

Ainda que posições e atos radicais ocorram e sejam vistos em todos os campos sociais, praticamente sem exceções, atualmente, quando se ouve a palavra "extremismo", a primeira imagem que vem à cabeça é a dos terroristas islâmicos levando o horror ao mundo ocidental. A contradição entre uma religião e ações violentas em nome dela é evidente. A relação entre ambas, porém, é histórica, e é impossível falar de uma sem mencionar a outra. Perseguir quem professa uma fé diferente da sua faz parte do processo de desenvolvimento e consolidação das crenças religiosas.
Doutor em Filosofia pela L'École des Hautes Études en Sciences Sociales, da França, e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano observa, porém, que o extremismo ganha espaço em um momento posterior ao seu surgimento das religiões. O filósofo aponta que, uma vez atingido esse momento do estabelecimento de dogmas, há o perigo do extremismo, uma vez que o fato religioso se tornou um fato de poder. "Aí, a intolerância aumenta, pois se trata de garantir a obediência, e não mais a revelação divina."
A forma como a fé é professada é ponto primordial para se entender as tendências intolerantes de cada religião. Uma das considerações diz respeito à linha-base das crenças, ou seja, as figuras divinas que devem ser louvadas. Dentro desta análise, é comum a constatação de que religiões monoteístas - que professam um deus único - seriam mais passíveis de se tornarem ou criarem ambientes propícios a atitudes radicais.
O teólogo Ricardo Gondim aponta, entretanto, que a crítica não se sustenta, pois, dentro do próprio monoteísmo, existem diversas ideias e concepções a respeito de Deus. "Quanto mais a religião tenta se sistematizar, se estruturar dogmaticamente, maior é a tendência de se tornar intolerante", pondera o pastor e presidente da Igreja Betesda.
Motivos do extremismo
Paralelamente a isso, surge a curiosidade a respeito dos motivos que levam as pessoas a se tornarem adeptas de uma religião. As normas que fundamentam as crenças são pontos preponderantes na decisão de um indivíduo em seguir aquela fé? Para o professor de Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo Jung Mo Sung, os praticantes de qualquer religião consideram os dogmas como fator secundário. "Se você perguntar quais são as doutrinas fundamentais às pessoas que vão às igrejas, elas não sabem. A religião é muito mais do que doutrina. É pertencer a uma comunidade que compartilha de uma certa visão de mundo. Se você perguntar para católicos e protestantes o que é a Santíssima Trindade, ninguém sabe", enfatiza.
O teólogo explica que todas as religiões - assim como qualquer grupamento - têm delimitações do que é certo e do que é errado, que acabam por condicionar a formação de grupos. "Diferenciação é diferente de intolerância", salienta.
Globalmente identificado com o islamismo, o extremismo religioso parte da interpretação de que aqueles que não seguem as palavras do Alcorão - escritura sagrada - são infiéis e que, por isso, não merecem viver; e que a sociedade muçulmana foi corrompida pelos valores morais do Ocidente, sendo necessário um retorno ao Islã original. A religião criada pelo profeta Maomé no século VI, porém, não é, em sua totalidade, a motivação para o terror, sendo usada por alguns grupos extremistas como uma "cortina de fumaça" para esconder suas reais razões, político-econômicas.
Gondim não crê que documentos e textos sagrados provoquem manifestações extremas por parte de fiéis. Para ele, o conservadorismo, dentro de determinada crença, faz com que surja a ideia de que a herança legada pelos primeiros seguidores daquela religião possa ser perdida. "Vemos isso com exuberância no mundo muçulmano, mas não é privilégio deles. Tem o fundamentalismo judaico, que legitima o atropelo que estão fazendo com os palestinos, porque, no passado, essa terra foi dada por Abraão", exemplifica.
Jung Mo Sung, por sua vez, identifica, junto com interpretações equivocadas dos escritos fundadores, pontos de intolerância nos textos religiosos sagrados. No caso da Bíblia cristã, o teólogo lembra que o critério para a aceitação do diferente não passa pela religião do outro, mas sim se o que ela professa vai contra o que é entendido como aliança. "Se essa religião defende o direito do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro, que é a ladainha dos profetas, ótimo. A intolerância deles não é com religião. É com o princípio ético que está por trás do discurso religioso."
Um caso recente ocorrido no Brasil exemplifica bem a posição do estudioso. Quando das últimas eleições presidenciais, em 2014, conservadores católicos e evangélicos se uniram contra candidatos defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do aborto. As diferenças religiosas foram suplantadas pelos interesses comuns.
Para Gondim, no caso da intolerância islâmica, é necessário salientar que ela se relaciona mais fortemente com os regimes ditatoriais que dominam o Oriente Médio do que com a própria religião em si. "A pergunta que temos que fazer é como se desenvolveu essa intolerância do Islã em relação ao mundo ocidental. A resposta está no colonialismo, principalmente o inglês, que devastou com a configuração do Oriente Médio meramente por fins econômicos", argumenta.
A religião como 'cortina de fumaça'
O ingrediente político-econômico, aliás, está intrinsecamente ligado aos casos de radicalização, aparentemente, de motivação religiosa. O professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Francisco Marshall enxerga, no cenário global, um conflito pouco insuflado por motivações religiosas, e sim alimentado pela indústria armamentícia e pela disputa por fontes e canais de transmissão da produção petrolífera.
"O que parece, para o mundo, uma guerra religiosa é um cenário fomentado por indústrias que vivem dessas guerras. Quando olhamos para o Estado Islâmico, temos de ter o cuidado para não enxergar, ali a cultura islâmica, que tem, em todo o mundo, soluções de convívio saudáveis", aponta.
O extremismo religioso e as ideologias são as duas grandes vertentes que, caminhando lado a lado, favorecem posturas extremas. Para o doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul Marcos Rolim, é improvável que uma pessoa seja capaz de praticar o mal absoluto se não compartilhar de uma ideologia e de uma religião. "É preciso que alguma ideia, algum dogma ampare essa decisão que permite que alguém exploda uma bomba e mate centenas de inocentes", reflete.
Os grupos terroristas organizados - Estado Islâmico, Al Qaeda, Boko Haram, entre outros - proporcionam, também, uma outra forma de relação entre seus integrantes. Esses movimentos oferecem, aparentemente, uma nova forma de laço social. O psicanalista João Ângelo Fantini indica, também, estudos que apontam o tédio e a falta de perspectivas futuras como motivação para um engajamento em atividades aparentemente mais significativas. "Estudos mostram que a adoção de uma ideologia política mais extrema seria uma maneira que as pessoas têm de voltar a injetar significado em uma situação chata, ou seja, o tédio parece ser também uma influência, muito embora não se saiba qual a importância do seu papel", observa.

Preconceito, sede de poder e intolerância religiosa no Brasil

Religiões de matriz africana são alvo recorrente de ataques
Religiões de matriz africana são alvo recorrente de ataques
MARCELO CAMARGO/ABR/JC
Caminhando em direção contrária às suas "irmãs" cristãs e islâmicas, nas religiões de matriz africana, o desenvolvimento de uma crença radical nunca se fez presente. São raros os casos de intolerância partindo de pessoas que seguem as religiões afro. Por outro lado, elas são vítimas recorrentes de preconceito e perseguição no Brasil.
O filósofo Roberto Romano aponta o escravismo e as desigualdades sociais como fatores de preconceito. "Há conexões muito fortes entre a intolerância e a composição socioeconômica dos seus seguidores", diz. Ele salienta que, apesar disso, não se pode dizer que é uma questão apenas de ordem econômico-social. "Há um elemento de fanatismo forte", enfatiza. O doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo Jung Mo Sung acredita, no entanto, que o preconceito contra religiões afro-brasileiras já foi maior, uma vez que já foram até proibidas no País.
No atual momento, o preconceito e a intolerância estão mais presentes nas chamadas igrejas neopentecostais. Tais instituições - que têm na Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) a maior expoente - encabeçam um movimento político, religioso e socioeconômico razoavelmente recente. "Há um discurso antimoderno, de combate ao Estado laico, à pesquisa científica, à saúde pública, às questões de gênero, que representa um retrocesso muito forte", pondera o professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Francisco Marshall.
Invertendo a lógica da pregação religiosa, que, primordialmente, clama por amor, convivência harmoniosa, justiça social e paz entre os povos, o movimento neopentecostal no Brasil - principalmente por parte de sua maior representante - é focado na desconstrução do outro. "São igrejas baseadas em uma proposta negativa. O discurso religioso de certos pastores, que não sabem o que propor de positivo, vive da pregação agressiva contra os outros", afirma Sung.
A sedução do poder
A intolerância religiosa anda de mãos dadas com a assunção das crenças a posições de comando. Religiões ou doutrinas que nunca detiveram poder, de modo geral, não são origem e multiplicadores de posições radicais, vide as religiões afro e o budismo. Por outro lado, a Igreja Católica foi o próprio poder por séculos, e as evangélicas atuais estão, a cada eleição, ganhando espaço nos Legislativos e Executivos municipais, estaduais e federal.
A chamada bancada evangélica no Parlamento tem se fortalecido, com a religião assumindo posições de poder e fazendo uso de um discurso excludente para angariar mais fiéis/eleitores. Sung destaca que algumas autoridades de determinadas igrejas se beneficiam com o aumento de violência, pois, fomentando a agressividade no campo religioso, seus poderes são fortalecidos. "Se você ganha poder político em nome da intolerância, a intolerância passa a ser uma coisa vital. Como se elegeu a bancada evangélica? Dizendo que evangélico só pode votar em evangélico, porque o resto é do diabo. Se você abandona esse discurso, perde poder político", afirma.
Desta forma, incluso em um meio no qual questionar as diretrizes da religião e das lideranças religiosas é difícil - na medida em que isso significaria, de algum modo, questionar a própria fé -, o fiel se encontra entre a cruz e a espada quando vê que aquilo em que acredita já não mais é o que sua religião defende.
Para o teólogo Ricardo Gondim, o entendimento de que nem tudo o que as religiões defendem deve ser seguido cegamente passa pela percepção de que elas são constituições humanas, e não leis divinas que desceram do céu. Assim, por serem construtos sociais, convivem com lutas internas por poder, vaidades e tensões. O teólogo enfatiza que a intolerância religiosa consiste na inabilidade em dialogar com quem pensa diferentemente.
"Não gosto das expressões 'intolerância' e 'tolerância'. Gosto da expressão 'coexistência', saber coexistir com o diferente e dialogar. E diálogo pressupõe que eu não tenho toda a verdade, eu não sou dono da verdade; e quando a gente percebe que as nossas construções religiosas são humanas, e não vindas diretamente da boca de Deus, eu me abro para o diálogo. Sei que não tenho a única resposta e que ela está democraticamente espalhada entre todos", conclui.
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HU/Unisinos. Nigéria: aproximadamente 50 mortos católicos em ataque.

07 Agosto 2017

O ataque armado contra os fiéis católicos da igreja de St Philips Ozubulu, em AmaKwa (Nigéria), de acordo com as primeiras e confusas notícias teria causado pelo menos 50 vítimas. Algumas fontes locais apontam número próximos até de 100. Por enquanto, as autoridades policiais e os hospitais da região não podem confirmar nada.

A nota foi publicada por Il Sismografo, 06-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na cidade, reina um grande caos e, ao mesmo tempo, muita desolação. Por enquanto, todas as fontes concordam em um detalhe: na igreja, no momento do ataque, havia pelo menos 150 fiéis.

Diversas agências relatam: “De acordo com a imprensa local, o comando estava em busca de um barão das drogas local. Os agressores haviam procurado o traficante de drogas em sua casa, sem sucesso. Mas disseram ao comando que o homem se encontrava na igreja. Assim que chegou ao local, o comando começou a disparar enlouquecidamente, atingindo também os fiéis. O governador de Anambra, Willie Obiano, visitou o local do ataque”.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

HU/Unisinos.


Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Revista ihu on-line

Mais Lidos

07 Agosto 2017
Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

A reportagem é de Mauro Lopes, publicada por Caminho Pra Casa, 05-08-2017.
Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais. Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

O bispo de Caicó fez questão de referenciar sua posição nos gestos do Papa. Ele relatou um encontro muito especial de Francisco em 2015: “No último sábado de 2015 numa audiência privada, que não foi revelada por Francisco, mas foi revelada pela pessoa que foi a esta audiência privada, o Papa recebeu em sua casa o transexual Diego Neria Lejarraga e sua namorada [Macarena]. Como se deu esse encontro? O Papa recebeu uma carta desse transexual espanhol falando da dor que ele tinha, do preconceito que ele sofria na sua comunidade católica da Europa. Fruto disso, o Papa telefonou para ele e marcou essa audiência. E depois da audiência esse rapaz deu uma entrevista a um jornal espanhol na qual ele dizia que na sua comunidade esse transexual tinha sido chamado pelo padre e pelo povo como ‘filha do diabo’. Sensibilizado, Francisco tentou acolher aquele que não foi acolhido pelo irmão na Igreja.” (se quiser saber mais sobre esse encontro, leia aqui)

Numa postura que fugiu à diplomacia usual na hierarquia da Igreja, dom Antônio Carlos acusou os opositores de Francisco de menosprezarem a misericórdia: “Papa Francisco é acusado por alguns dentro da Igreja que querem ser mais romanos do que o Papa, de que ele quer baratear a doutrina católica baratear a doutrina católica, dizem que nós estamos vendendo, que ele está vendendo a doutrina católica por coisa barata. Na verdade, o que o Papa Francisco está querendo é que é o ponto de partida da doutrina católica seja a misericórdia; e a misericórdia, gente, não é baratear: a misericórdia é muito cara. Cristo pagou um preço caro pela misericórdia. A misericórdia é um preço caro que a gente paga por ser fiel ao Mestre Jesus.”

A reação de segmentos católicos conservadores foi a usual: acusação de “blasfêmia”, de condescendência com um “pecado grave” (a homossexualidade, na visão desses segmentos), organização de abaixo-assinados endereçados ao núncio apostólico e ao Vaticano. Houve ofensas de todo tipo e manifestações de ódio ao bispo na internet e em programas de rádio e TV de conservadores. No domingo (6 de agosto), diante das pressões, dom Antônio Carlos divulgou uma “nota de esclarecimento” na qual reafirma os aspectos essenciais de sua homilia.

Leia a íntegra da homilia de dom Antônio Carlos Cruz Santos:

Nesta semana, na quarta feira do dia de Sant’Ana [26 de julho], no programa do Marcos Dantas, na 95 [uma rádio de Caicó] houve uma entrevista que me provocou. Marcos Dantas entrevistou o professor Wether dos Santos Filho sobre sua dissertação de mestrado. Sabe qual era a dissertação de mestrado do professor? Sobre a prevalência e fatores associados à ideação suicida entre travestis e transexuais.

A tese que o professor levantava era a partir dos números de suicídios entre travestis e transexuais. Ao ouvir essa reportagem tive a oportunidade de conversar com o professor e fiquei pensando em tantos irmãos e irmãs com orientação homoafetiva que se sentem incompreendidos e não amados por nós, que somos Igreja, pelas suas famílias, pela sua sociedade e até por si mesmos, como acontecia na época da escravidão.

Fiquei lembrando nesses 25 anos de ministério de tantas histórias e sofrimentos de irmãos e irmãs com orientação afetiva que vieram partilhar conosco carregando sua dor e sobretudo a dor de não se sentir acolhido e amado.

Lembro-me de um fato, num determinado lugar que eu trabalhei; certa vez uma mãe veio me procurar porque seu filho jovem tinha revelado para ela a sua orientação homoafetiva. Esta mulher ocupava naquela cidade um lugar de certo prestígio e ela não dava conta de digerir esta orientação do seu filho; como mãe que iria amar, mas pelo peso da cultura que ela carregava, pelo peso da sociedade que ela carregava não dava conta de aceitar. Ela entendia a orientação seu filho como uma forma de exposição negativa dela, que sentia no lugar de certo conforto e acolhimento na sociedade. Tentei fazer com esta mãe um caminho, mas não é fácil fazer um caminho quando estamos diante dessas questões; cheguei a propor um acompanhamento o rapaz, que nunca me procurou.

Pouco tempo depois esta mulher teve um câncer. Possivelmente aquele câncer era a somatização daquilo que ela não conseguia digerir no seu filho; e esse câncer foi capaz de leva-la a óbito. Quando eu fui fazer as exéquias, o filho estava ao meu lado e o filho sabia dessa conversa, porque com certeza mãe tinha dito para ele. E a única coisa que aquele filho fez, chorando, ao olhar para mim, foi dizer: “eu sei que eu sou o culpado da morte de minha mãe”. Infelizmente não me era possível naquele momento eu dizer outra coisa, para não revelar aquilo que era um direito dele, algo que eu escutei no num outro momento mais privado. Cheguei a dizer “me procure”; ele nunca procurou, mas fiquei pensando na dor que essa pessoa carrega de levar essa culpabilidade que não tem. A culpa não era da sua orientação; a culpa era da sua mãe não ter dado conta de vencer os preconceitos.

Todos vocês sabem que um tema que me toca muito é o tema do suicídio no nosso Seridó [região de sertão no RN e PB]. Por isso, quando ouvi essa entrevista me chamou a atenção. E nós estamos no Seridó, onde o IBGE nos diz que 90% da população se diz católica. Eu não tenho ilusão de imaginar que os 90% são católicos praticantes, mas significa dizer que mais de 90% bebe deste caldo da cultura católica; aqui está a expressão [faz um gesto dirigindo-se à comunidade reunida na missa], a festa de Sant’Ana. Tem pessoas que nem frequentam as missas dominicais mas que estão na festa de Sant’Ana por causa desse caldo da cultura católica. E eu pergunto se não é um desafio para nós, num lugar tão bonito como esse, com a longa tradição, com a cultura tão bonita mas ao mesmo tempo tão rígida como carregamos aqui no sertão, se nós não teríamos que dar uma boa notícia para tantos irmãos e irmãs que sofrem, como esta mãe sofreu, que sofrem como esse filho sofreu; que com certeza estão nos ouvindo e estão no meio de nós; que muitas vezes esperam de nós uma palavra, uma boa notícia.

O Evangelho por excelência é evangelho da inclusão; o Evangelho é sim uma porta estreita, é um amor exigente, mas é uma porta sempre aberta. Deus nunca fecha a porta para ninguém. Por isso talvez seria momento de, assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?

Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam perceber o dom de Deus.

Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma, o nosso preconceito não permite perceber esse dom.

O que é um preconceito, gente? O preconceito é um conceito antes de uma experiência. Como um preconceito cegou a vista de gerações diante da escravidão, como o preconceito cega a Europa frete o drama dos refugiados, como o preconceito torna insensíveis tantas lideranças políticas do nosso país diante da dor dos mais pobres com as leis, seja a reforma trabalhista, como a reforma previdenciária ou agora está sendo previsto ser revista a lei sobre as comunidades quilombolas. Tudo preconceito.
Papa Francisco é acusado por alguns dentro da Igreja que querem ser mais romanos do que o Papa, de que ele quer baratear a doutrina católica baratear a doutrina católica, dizem que nós estamos vendendo, que ele está vendendo a doutrina católica por coisa barata. Na verdade, o que o Papa Francisco está querendo é que é o ponto de partida da doutrina católica seja a misericórdia; e a misericórdia, gente, não é baratear: a misericórdia é muito cara. Cristo pagou um preço caro pela misericórdia. A misericórdia é um preço caro que a gente paga por ser fiel ao Mestre Jesus.
Quando o Papa Francisco esteve a primeira vez aqui no Brasil, na Jornada Mundial da Juventude, em 2013, quando ele voltava para Roma, naquela entrevista que ele sempre concede no avião, a repórter brasileira Ilze Scamparini fez uma pergunta ao Papa a respeito de um escândalo homossexual que tinha acontecido no Vaticano naqueles dias. E dentro da resposta ele nos dá esta pérola, falando dos nossos irmãos homoafetivos e ele usa a expressão gay. Porque gay na Europa não tem o mesmo sentido para nós; quando falamos gay tem uma palavra carregada de preconceito, na Europa não há por isso; por isso aqui no Brasil é melhor chamar homoafetivo. Então, ele estava referindo como se fala na Europa, e ele disse: se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade quem sou eu para julgar?

[Aplausos]

O Catecismo da Igreja Católica, diz o Papa, diz assim: não se deve marginalizar estas pessoas: por isso devem ser integradas na sociedade. É bom que os ortodoxos também leiam o Catecismo da Igreja Católica.

No último sábado de 2015 numa audiência privada, que não foi revelada por Francisco, mas foi revelada pela pessoa que foi a esta audiência privada, o Papa recebeu em sua casa o transexual Diego Neria Lejarraga e sua namorada [Macarena]. Como se deu esse encontro? O Papa recebeu uma carta desse transexual espanhol falando da dor que ele tinha, do preconceito que ele sofria na sua comunidade católica da Europa. Fruto disso, o Papa telefonou para ele e marcou essa audiência. E depois da audiência esse rapaz deu uma entrevista a um jornal espanhol na qual ele dizia que na sua comunidade esse transexual tinha sido chamado pelo padre e pelo povo como “filha do diabo”. Sensibilizado, Francisco tentou acolher aquele que não foi acolhido pelo irmão na Igreja.

O Papa Francisco, na sua Amoris Laetitia [Exortação Apostólica A Alegria do Amor, sobre a famíia], falando sobre o amor na família, ele dedica o capítulo oitavo para aquelas situações que ele chama de situações irregulares, falando sobretudo de segunda união e ele propõe três passos.

Eu me pergunto se aqueles três passos que o Papa Francisco propõe para acompanhar os irmãos em situações irregulares na vida a dois nós também nós não teríamos que dar em relação aos nossos irmãos homoafetivos: acompanhar, discernir e integrar; acompanhar, discernir e integrar.

Não seria esta a sabedoria salomônica que deveríamos aprender de Jesus? Não é essa misericórdia que é parte da nossa herança com Deus como nos fala o salmo? Não somos todos, independente da nossa orientação, imagem de Cristo?

Cristo quando olha para a gente ele não olha para os nossos órgãos genitais; olha para o nosso coração. E quando ele nos chama, nos chama pelo coração e nós vamos com tudo, inclusive com as nossas orientações e somos todos imagem do Senhor.

Não é esta a pérola que Sant’Ana está nos dando hoje como nos lembra o Evangelho? A pérola da misericórdia de seu neto, de seu Deus e nosso Deus, do filho de Maria, do filho de Deus nosso irmão. Que Sant’Ana nos ensine, como ensinou a Maria, a ter os olhos fixos no transpassado Jesus e um olhar misericordioso para os transpassados na história.

Hoje quero contemplar como um dos transpassados da história os nossos irmãos e irmãs homoafetivos, que não são acolhidos nem chamados por nós.

Que Sant’Ana nos mostre o caminho para Jesus.

[Aplausos]

Parque do Carmo, festa da cerejeira, ontem, domingo. Um esplendor.






domingo, 6 de agosto de 2017

Fundada há 70 anos, Livraria Francesa coleciona momentos de glória e crise

Livros

Fundada há 70 anos, Livraria Francesa coleciona momentos de glória e crise


Karime Xavier/Folhapress
Silvia Monteil, neta do fundador da Livraria Francesa, que acaba de completar sete décadas
Silvia Monteil, neta do fundador da Livraria Francesa, que acaba de completar sete décadas
Entre o fervilhar de vendedores ambulantes e desempregados que leem anúncios de vagas, o nº 275 da Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, preserva um endereço que é sinônimo do livro francês no Brasil, com a história e a presença da "intelligentsia" paulista. É ali a sede da Livraria Francesa, que acaba de completar sete décadas. 

Por essas estantes excursionaram intelectuais, estudantes, professores ou curiosos à procura de novidades vindas direto de Paris. 

O engenheiro Paul Monteil, fundador da livraria, resolveu vender tudo e montar o espaço pouco depois do fim da Segunda Guerra. O empreendimento atravessou várias fases. Resiste com firmeza às crises, mantendo a filosofia de oferecer aos leitores pérolas editoriais que aterrissam em importações diárias por via área, e duas grandes realizadas anualmente por via marítima. 

O resultado é um leque variado que comporta mais de 100 mil títulos, à disposição dos bolsos e interesses de leitores que dominam a língua de Baudelaire. 

Silvia Monteil é neta do fundador, mas agora tem apoio de quatro sócios. Hoje, a livraria se expandiu para o Rio de Janeiro e Brasília. 

Em São Paulo são quatro lojas (uma delas no ABC). Atendem em todo o país, e parece que a curiosidade das novas gerações –apesar da hegemonia anglófona–, não diminuiu. Segundo Silvia, "o livro didático é o que nos permite manter a linha e o fundo da livraria, sem alterar sua tendência original". 

As parcerias são vitais para que a Francesa siga ativa. Nos últimos dez anos, estreitou a colaboração com universidades e com a Aliança Francesa, para além dos clientes habituais que percorrem o corredor e adentram o salão escoltados pelas lombadas elegantes da coleção Plêiade. 

A mais antiga funcionária é Daysi Kobushi, responsável pela seleção disponível. Há 40 anos, ela tem por companhia o cheiro dos livros e o brilho das estantes. Assistiu a muitas histórias e tornou-se "tiete" de visitantes ilustres. 

"Temos e tivermos vários clientes fiéis. O professor Antonio Candido [1918-2017], o sociólogo Maurício Tragtenberg [1929-1998], o filósofo Paulo Arantes e o professor Roberto Romano." 

Há histórias curiosas de clientes, como a do tradutor Jamil Almansur Haddad (1914-1988), que entrava e ficava falando sozinho diante das estantes, conversando com os volumes. 

Outra é a do frequentador que enviou um pacote de livros com um bilhete que informava a devolução de exemplares que havia tomado "emprestado", e agradecia pela "ajuda". 

Convém sublinhar que décadas atrás a Barão de Itapetininga era uma via que concentrava livrarias como a Partenon, a Civilização e a Brasiliense, esta com sua famosa caipirinha e clientes cativos que se abasteciam de obras e drinques. A Livraria Francesa fazia parte desse circuito. 

JEAN-PAUL E MICHEL
 
Nos anos 1960, criou alarde a noite de autógrafos de Jean-Paul Sartre, que viajou pelo país com Simone de Beauvoir. "Minha avó contava que a fila se estendeu pela Barão de Itapetininga, venderam muitos livros", diz Silvia. 

Nos anos 1970, o visitante ilustre foi Michel Foucault. "Ele entrou calado, com sua blusa cacharel, e seguiu até a seção de filosofia para ver se seus livros estavam lá.", rememora Daysi Kobushi. 

A livraria trilhou esses anos como testemunha das transformações políticas, culturais e econômicas, inclusive nos períodos de recrudescimento. "Nos anos da ditadura, os livros da Maspero [editora tradicional parisiense, fundada em 1954, com foco em livros de esquerda] não eram embrulhados com o papel da livraria para evitar que a polícia soubesse que eram adquiridos aqui", recorda-se Daysi. 

Um fato burlesco acerca da perseguição praticada no período deu-se com um gerente que fora chamado pela polícia para explicar por que havia um livro sobre bombas, cujo título era "Construction des bombes hydrauliques" (construção de bombas hidráulicas). "Eles acreditavam que era um manual para terroristas...", conta Daysi, aos risos. 

Todas as tendências se reuniam ali, mas com predominância da esquerda, devido à ligação de Paul Monteil ao partido comunista. "Meu avô chegou a hospedar Di Cavalcanti no sítio que tinha em São Roque para fugir da repressão de Vargas. Ele mesmo se escondeu lá por um tempo, devido à sua ligação com o partido", lembra-se Silvia. 

O livreiro francês sempre teve problemas, conforme relembra a neta: "Naquela altura chegou a ser preso, mas o Oswald de Andrade intercedeu e ele foi solto". 

Com a morte de Paul, em 1973, coube à esposa e à filha –Juliette e Claudie– darem continuidade à livraria. Seu destino, agora, está assegurado pela neta. A programação para saudar a efeméride prosseguirá até o fim do ano, com debates e leituras.

O poeta Carlos Drummond de Andrade homenageou, no Rio, sua livraria predileta com um poema, e a Leonardo da Vinci se eternizou. Bem que a Francesa merecia algo similar, por ser um ícone discreto desta megalópole. 

LIVRARIA FRANCESA
QUANDO de seg. a sex., das 9h30 às 18h30; sáb. das 10h às 14h
ONDE r. Barão de Itapetininga, 275; tel. (11) 3231-4555
JORGE HENRIQUE BASTOS, jornalista, crítico e tradutor, organizou "Poesia Brasileira Contemporânea - dos Modernistas à Atualidade" (ed. Antígona).

Quem ganha e quem perde com a vitória de Temer na Câmara

Quem ganha e quem perde com a vitória de Temer na Câmara

Sessão que barrou denúncia escancara fraquezas das principais siglas brasileiras e embaralha forças para eleições de 2018

São Paulo – A sessão da Câmara dos Deputados que enterrou a denúncia contra Michel Temer por corrupção passiva, na última quarta, terminou sem vencedores ou perdedores absolutos. Até o governo que conseguiu quase 100 votos (somados abstenções e ausências) a mais do que o necessário para se livrar do Supremo Tribunal Federal (STF), sai dessa batalha mais exposto e dependente de barganhas do que nunca
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“Em termos de técnica política, retornamos à era Sarney”, afirma o cientista político Roberto Romano, professor emérito da Unicamp, em referência às cenas de fisiologismo explícito que rondaram a sessão do dia 2.
 
Para os cientistas políticos ouvidos por EXAME.com, a votação do dia 2 inaugura uma provável nova fase para a crise política com um Congresso dividido (foram apenas 36 votos de diferença), algumas das principais siglas claramente desordenadas e um maior descompasso entre opinião pública e Legislativo. Uma combinação de fatores que embaralha (ainda mais) o jogo de forças e o clima para as eleições de 2018.
 
PSDB
Dividido em dois, o PSDB é, provavelmente, a legenda que deixa a votação dessa quarta com a pior crise de identidade. A orientação do líder da sigla na Câmara, deputado Ricardo Trípoli (PSDB), para que a bancada votasse contra o relatório do também tucano Paulo Abi-Ackel bem como seu placar interno são sintomas do racha estrutural que define o partido há algum tempo.
Nesse ponto, afirmam os especialistas, o potencial eleitoral do PSDB para 2018 fica prejudicado. “Vai ser difícil recuperar algum pacto interno para o ano que vem”, diz Romano. Desse processo sobra uma tarefa paradoxal: se explicar para seus eleitores por ter avalizado Temer e para o governo, por ter orientado seus deputados a se oporem a ele.

DEM

Até pouco tempo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), era visto como quase um emissário do governo na Casa. Mas, ao longo do percurso da denúncia, ele conseguiu se livrar da pecha de traidor do Planalto ao mesmo tempo em que marcou um certo distanciamento de Temer.

Resultado: “Ele adquiriu um certo cacife e, dada a fragilidade do PSDB, pode ser constituir como uma alternativa à centro-direita no Congresso”, afirma Aldo Fornazieri, professor de ciências políticas da FESP-SP. Seu partido, o DEM, se prepara para uma refundação nos próximos meses. Não será surpresa se uma leva de parlamentares migrarem para a versão 2.0 dos Democratas.

PT

Em frente às câmeras, os deputados do PT engrossaram o coro da oposição e votaram em peso contra o relator. Mas, nos bastidores, uma ala importante da bancada defendia a manutenção de Temer no poder. “O PT faz um cálculo equivocado que o governo vai sangrando até o fim e de que ele (PT) será o herdeiro desse fracasso de Temer”, diz Fornazieri. O problema dessa lógica é de que não há garantias de que o candidato petista vencerá as eleições. E se for, terá uma herança, de fato, maldita para resolver.

Michel Temer

Há três meses na corda bamba, Temer deu uma clara demonstração de força ao conquistar os 263 votos contrários ao avanço da denúncia. Mas a vitória, todos sabem, custou caro ao Planalto e a perspectiva é uma governabilidade ainda mais dispendiosa daqui para frente.

Com um número talvez não previsto de traições na própria base (foram quase 90 deserções de aliados), Temer deixa a votação dessa quarta mais dependente dos partidos que compõem o centrão.  “É um governo que vai ter que fazer concessões até o fim porque o centrão coloca a faca no pescoço do presidente”, afirma Fornazieri, da FESP/SP.

Com apenas 5% de aprovação popular, sob o risco de não cumprir a meta fiscal e diante da sombra de novas denúncias, Temer até pode terminar os próximos 17 meses ainda na Presidência, mas a certeza é de que não serão os mais fáceis.