Flores

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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Entrevista dada por mim à Rádio ONU, onde já falo sobre a crise de financiamento da pesquisa no Brasil, o brain drain, etc.


Roberto Romano
Thursday, October 09, 2003
 
Unser Zeitalter ist das eigentliche Zeitalter der Kritik, der sich alles unterwerfen muß. Religion, durch ihre Heiligkeit, und Gesetzgebung durch ihre Majestät, wollen sich gemeiniglich derselben entziehen. Aber alsdann erregen sie gerechten Verdacht wider sich und können auf unverstellte Achtung nicht Anspruch machen, die die Vernunft nur demjenigen bewilligt, was ihre freie und öffentliche Prüfung hat aushalten können.

(Kant) Palavras sagradas, sobretudo em tempos de Termidor!
 
Site de rádio, ONU em português.

Entrevista com Roberto Romano feita em 21 de julho de 2003.


Pergunta (jornalista João Lins de Albuquerque) : O senhor acaba de participar da 55a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Como avalia a importância desse Encontro realizado no Recife?

Este Encontro é de uma importância fundamental porque é a primeira vez que temos um evento deste tipo num governo de esquerda —progressista— e com propostas bastante polêmicas para a sociedade civil e para a vida científica. No caso, evidentemente as propostas do governo, sendo polêmicas, encontraram criticas de parte da comunidade científica e aplausos, de outra parte. No campo da C/T, tivemos debates muito intensos que estão, inclusive, modificando a posição do governo, como no fundos setoriais.

Pergunta: o senhor tem afirmado que há um desestímulo programado para afastar do país professores universitários e até mesmo cientistas respeitados. Quão grave é esta situação?

É grave, inclusive levando-se em conta o seguinte: a Unicamp, universidade onde trabalho, é uma pequena universidade mas com bastante relevância, situada no sul do país. Ela está ameaçada de perder algo em torno de 20% de seus quadros com a possibilidade da reforma previdenciária que está vindo.

Pergunta: a fuga de cérebros, professor, o chamado “brain drain” é um tema que vem preocupando a própria Organização das Nações Unidas, a ONU, como vê o peso da ONU neste âmbito, que inclusive lançou os objetivos do Milênio para proteção e promoção das ciências nos países em desenvolvimento?

Acho uma tarefa digna dos maiores elogios e preocupações, por parte das autoridades acadêmicas, inclusive as brasileiras. Acho, inclusive, que não estamos levando em conta este fenômeno mundial. Sabemos os dados que existem na Rússia, no Mexico, na America do Sul inteira, e na África, onde o problema é mais doloroso, pois aquele continente está numa situação complicadíssima em termos antropológicos e está perdendo cérebros. Também na Asia, etc. Então, do ponto de vista internacional, é hora de se pensar efetivamente no aprofundamento dos saberes regionais e depois na circulação das idéias. Penso que está havendo uma circulação de indivíduos e grupos e pouca circulação dos saberes. A ONU tem um papel fundamental nesta linha.

Pergunta:

Investimentos estratégicos em C/T constitui também matério de importância fundamental para a defesa nacional?


É o primeiro item em termos de importância. Após a Segunda Guerra Mundial, vivemos com o medo de exercer políticas agressivas, sobretudo de potências médias e de pequenos países. Esquecemos que é preciso uma política não agressiva, mas de defesa nacional. Este é o ponto. Se não tivermos conhecimentos científicos e tecnológicos que nos dêm condições de defesa do nosso território, das nossas culturas, teremos uma adesão forçada a potências mundiais. Como aconteceu, infelizmente, neste último evento da invasão do Iraque pelas duas potências aliadas.

Pergunta: de acordo com dados da própria ONU, o Brasil investe ainda muito pouco em C/T. Estes investimentos tímidos precisarão aumentar no futuro?

Sim. E este foi um dos pontos mais graves do novo governo quando prometeu, de maneira um pouco irrealista, que até o final do governo Lula 2% do PIB serão aplicados em C/T. Sabemos que este é um dado dificílimo de ser conseguido, mormente se for levada a política macro-econômica que o governo também assumiu. Com a taxa de juros das mais elevadas talvez do planêta, não é possível atividade industrial. Se esta última não existe, a participação dos industriais —que já não era muito elevada ao longo dos anos— tende a diminuir. Portanto, é fundamental que haja modificação da política macro-econômica, com uma política de desenvolvimento industrial e aí, efetivamente, teremos condição de aumentar a taxa de participação de C/T no PIB.

Pergunta: um outro problema grave que o senhor tem denunciado é a falta de recursos nas universidades. Trata-se de um problema realmente grave?

É gravíssimo. Temos falta de recursos, problemas de gerenciamento, problemas de destinação das universidades, etc. um complexo extremamente grande, sobretudo se pensarmos que as universidades federais brasileiras estão espalhadas num território imenso, com pouquíssima possibilidade de conexão imediata. Muitas vezes notamos campi localizados em regiões que não atendem os desideratos de quem instaurou aquela instituição. Por outro lado, notamos instituições que trabalham em assuntos que interessam a outras regiões e não tem com elas conexão. Temos uma situação grave de desconexão, de falta de recursos, e também, paradoxalmente, de esbanjamento de recursos.

Pergunta: em resumo, o Brasil necessitaria inaugurar novas políticas nestas áreas?

Exatamente. Políticas realistas, sérias, consequentes, sobretudo políticas que levem em conta a diversidade das regiões. Somos uma Federação muito centralizada. Isto vem desde o Império e vigora durante toda a República. Enquanto não houver, do ponto de vista científico e tecnológico, e do ensino, uma descentralização das decisões, maior autonomia para as regiões, teremos este tipo de emperramento que muitas vezes tem origem burocrática e na super-concentração de poderes.

Pergunta: o senhor defende a tese mínima de soberania e defesa. Como explica isto?

Mínima, no sentido da defesa e não do ataque. O Brasil, é bom lembrar, no século 19, foi um país agressivo. Ele guerreou contra a Argentina, contra o Paraguai.Praticamente metade da população paraguaia foi dizimada na Guerra do Paraguai. O Brasil tem uma herança guerreira muito forte. Com isto, nos voltamos no século 20 à política interna. Mas é preciso que tenhamos condições de perceber que riquezas enormes existentes no país podem ser simplesmente saqueadas de um momento para outro.

Pergunta: como o senhor mesmo avalia o interesse pelo estudo da ética e da filosofia política pelos brasileiros?

Há um interesse muito grande, sobretudo devido aos problemas de ordem social. Temos problemas éticos gravíssimos: a violência urbana, violência rural, falta de educação da classe média para a vida coletiva. A própria ONU tem divulgado pesquisas sobre o trânsito brasileiro, mostrando que é um dos trânsitos mais violentos do planêta, temos enfim problemas graves do ponto de vista ético e isto se reflete na vida política, com a falta de respeito ao coletivo. Isto preocupa muito, porque efetivamente pesquisas sobre confiança no regime democrático. No Brasil, existem 37% de desconfiados no regime democrático, o que é muito grave, sobretudo para um país que atravessou, no século 20, quase 50 anos de ditadura.





Estado e crise no Brasil Roberto Romano

 
Estado e crise no Brasil

Roberto Romano

A crise brasileira agravou-se e os seus resultados são imprevisíveis. Desde o começo de nosso Estado nacional existe desequilíbrio entre os três poderes. O Executivo assumiu, no espírito do movimento contrário às revoluções francesa e norte-americana, o controle das políticas nacionais. O golpe do Termidor acabou com o princípio democrático e abriu o caminho para a representação popular. No programa jacobino, seguindo Rousseau, a soberania popular não poderia ser representada. Legislativo, Executivo e Judiciário seriam sujeitos ao controle da cidadania através de eleições. Seriam eleitos os juízes e os promotores. Ainda hoje, nos EUA existem resquícios desta prática. O Termidor acabou com a democracia direta e acentuou a hegemonia do Executivo sobre as demais esferas do Estado. Quando os liberais, como Benjamin Constant, desejaram atenuar tal supremacia, idearam o poder moderador a ser exercido pelo Chefe do Estado (rei ou presidente) para diminuir o atrito entre os poderes. O poder moderador seria neutro.

No Brasil, tal doutrina foi torcida para garantir ao Chefe de Estado (desde Pedro I) o controle da instituição. O governante usou a sua prerrogativa não para harmonizar os poderes, mas para submeter o Parlamento e o Judiciário. A idéia da eminência popular foi afastada em favor desse modelo político.
Com a República, os privilégios do poder moderador foram herdados silenciosamente pela presidência da República, mantendo a permanente ditadura exercida pelo presidente sobre o Congresso e o Judiciário.

Onipotente em teoria, o Executivo precisa negociar as suas políticas com oligarquias regionais (representadas no Parlamento) e com forças sociais. O regime é presidencial e o Chefe de Estado aparentemente controla a República. Mas para adquirir maioria do Parlamento, ele deve ceder parcelas consideráveis de poder, nas chamadas negociações políticas. Para chegar aos seus alvos ele deve pressionar o Judiciário. Quando este último percebe que o Executivo foi além do suportável nas suas pressões sobre os tribunais e que ele ameaça os direitos da cidadania e dos outros poderes, ele assinala o seu veto em liminares e julgamentos onde o Executivo não vence etc. E aí, o presidente, os seus ministros, os seus partidos, usam todos os meios, legítimos ou espúrios, para dobrar a espinha dos juízes. Campanhas de imprensa, cortes dos recursos no orçamento, ameaças, perseguições. Tudo isso foi utilizado pela presidência e por ministros contra o Judiciário. Esta prática piorou nas ditaduras Vargas e militar.

Se queremos democracia no Brasil, precisamos repensar o Executivo e o Legislativo e definir com maior firmeza a essência do Judiciário. O modelo de Montesquieu é mais justo e eficaz do que os remendos de Benjamin Constant. A sua proposta, de início liberal, foi muito bem recebida pelo pensamento jurídico decisionista que torceu o conceito de poder moderador. Este não mais serviria como instrumento neutro, mas como técnica para subordinar deputados e juízes. Foi o que ocorreu no século 19 no Brasil. Foi isto o festejado em nosso modelo por Carl Schmitt. Enquanto vivermos com a idéia de um poder superior aos demais, teremos crises institucionais só resolvidas pela força ou pela corrupção. Golpes de Estado não precisam ser armados. 

“Soberano é quem decide sobre o estado de exceção”, dizia Carl Schmitt. Esta é, desde Francisco Campos (leitor de Schmtt), a única soberania conhecida pelos que manipulam o poder nacional. Este caminho não tem volta e conduz ao inferno do arbítrio e do mais triste despotismo.

instituto de Quimica, Unicamp.

Notícias

  • Café com Química
“A ética da autonomia universitária” 
Prof. Dr. Roberto Romano - IFCH / Unicamp
30 de agosto, 17h30
Sala IQ-06

Resumo: Vivemos instantes dramáticos para a pesquisa científica e humanística no mundo e no Brasil. Instituições como o CNPq e a Capes, a Finep e mesmo a Fapesp tem seus recursos postos em perigo, quando não cancelados. Em momento de tamanha crise, é preciso urgentemente retomar as teses sobre a autonomia da universidade e da pesquisa. Desde o Renascimento as formas de saber científico receberam apoio de governantes esclarecidos e da sociedade idem.

Após séculos de tensão, com interferências dos poderes na vida científica, chegamos ao século das Luzes, o ideal de autonomia foi formulado de modo inequívoco por muitos pensadores. No século 20, a autonomia dos campi foi negada por regimes totalitários e, mesmo nos EUA, ela foi negada em campanhas como a encetada pelo macartismo. Sem autonomia, não existe pesquisa científica e ensino dignos do nome. O que assistimos hoje em universidades como as federais do Brasil, e mesmo estaduais (como a UERJ) é assustador. Nenhum país consegue se manter independente, em nosso tempo, sem uma ampla e segura rede de saberes cientificos, tecnológicos, humanísticos.

Em nosso encontro, pretendo analisar a idéia de autonomia e a diferença entre o exercício privado e público da razão. Para fundamentar o debate, peço que os participantes do evento leiam o texto capital de imanuel kant: "O que são as Luzes?" e do mesmo autor "O conflito das Faculdades"

Unicamp tem primeiro professor indígena

NOTÍCIAS
JU Especial Cotas Étnico-Raciais

Unicamp tem primeiro professor indígena

Docente participa de disciplinas da graduação e da elaboração de dicionário de dialeto Kaingang falado por apenas 5 pessoas   
A listagem de disciplinas da graduação em Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp traz algo inédito neste segundo semestre de 2017: o nome do professor indígena Selvino Kókáj Amaral. Ele é um dos responsáveis pelas disciplinas Línguas Indígenas I e Tópicos de Línguas Indígenas. Selvino foi contratado por meio do “Programa Professor Especialista Visitante em Graduação”, da Pró-Reitoria de Graduação (PRG), e dá aulas sobre sua língua materna, o Kaingang, aprendido em casa, na comunidade de Guarita, no Noroeste do Rio Grande do Sul.

Como professor visitante, Selvino também ministra o curso extracurricular “Língua Kaingang viva: pesquisa e prática em uma língua Jê”, além de palestras abertas ao público e reuniões de trabalho com docentes e alunos. Outra participação importante do indígena na Unicamp é a finalização de um dicionário escolar do dialeto Kaingang paulista, que já vem sendo elaborado pelo grupo de pesquisa liderado pelo docente Wilmar D’Angelis.
Foto: Perri
O professor Selvino Kókáj Amaral em sala de aula no Instituto de Estudos da Linguagem: “pesquisa e prática em uma língua Jê”
O dialeto é falado atualmente por apenas cinco indígenas nas aldeias de Icatu (município de Braúna) e Vanuíre (município de Arco-Íris), no Oeste Paulista. Havia seis falantes do dialeto, até o falecimento de Dona Lídia Iaiati de Campos, em julho. Dias antes a equipe de pesquisadores esteve na aldeia e fez os últimos registros dos ensinamentos da senhora indígena.

No vídeo abaixo, as duas últimas mulheres falantes nativas do Kaingang (Dona Maria Rita, que fala em pé, e Dona Gavile, sentada). Quem opera a câmera é um jovem kaingang do RS, estudante de Letras na UFSM, chamado Josias Pó Vitorino. As outras pessoas que aparecem são: o professor Wilmar D’Angelis, a acadêmica de linguística do IEL Mariana Freitas

A contratação do professor Selvino foi defendida pela Coordenação do Bacharelado em Linguística, a partir de proposta do professor Wilmar D’Angelis, que divide a responsabilidade com o indígena pelas disciplinas da graduação. Líder do grupo de pesquisa “InDIOMAS - Conhecimento de Línguas Indígenas e Línguas de Sinais na relação Universidade & Sociedade” ele coordena as linhas de pesquisa "As línguas do ramo Jê Meridional e seus dialetos" e “Fonologia e ortografia de línguas indígenas”. Também coordena o "Projeto Web Indígena", em parceria com a ong Kamuri, voltado à inclusão digital proativa de línguas e comunidades indígenas. O projeto, que também tem a participação de Selvino, lançou em 2008 o site “kanhgag.org” (o primeiro totalmente em língua indígena no Brasil0.

A língua Kaingang é a terceira mais falada entre os indígenas também porque a etnia é a terceira com maior população no Brasil, concentrada no Rio Grande do Sul. Em segundo lugar, de acordo com dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), está o povo Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul e em primeiro os Tikuna, residentes no Amazonas. O professor Wilmar afirma que um pouco mais da metade da população Kaingang é falante da língua nativa. 

Há um grande interesse pela língua Kaingang por causa das suas características, especialmente a fonética. O Kaingang pertence a família linguística “Je”, uma família que só ocorre no território brasileiro. “A língua tem uma fonologia bastante rica, com padrões silábicos tão complexos quanto o português”, ressalta Wilmar. Porém aprender Kaingang pode ser bem mais difícil para quem fala português do que aprender tupi, observa o linguista. Do ponto de vista da pronúncia e dos padrões sonoros, o Kaingang é uma língua diferente”. Ela tem muito mais vogais, com padrões de funcionamento e combinações específicas.

“Não é uma língua de flexão como português ou como são, parcialmente, as línguas tupi. São importantes na língua Kaingang as marcas de aspecto que levam em conta os formatos dos objetos e suas posições espaciais, por exemplo”

Para Selvino as disciplinas na Unicamp não têm o objetivo de ensinar a falar o Kaingang, mas pensar sobre as características da língua. A experiência na Universidade ele também vai levar para as aldeias, nas aulas que oferece nas comunidades indígenas. “Eu sempre trabalho com palestras no Rio Grande do Sul e em algumas comunidades, com alunos que estão entrando nas universidades federais”, complementa. O professor indígena aprendeu o português somente aos 12 anos.
Foto: perri
O professor Wilmar D’Angelis (à esq.), coordenador das pesquisas, e Selvino Kókáj Amaral: trabalho colaborativo
O método de trabalho de Selvino segue a maneira como o professor Wilmar afirma gostar de trabalhar, que é de forma colaborativa. “Nós vamos focar os cursos em aspectos da língua, mas também queremos construir uma pesquisa colaborativa. A partir de determinado momento, os alunos vão escolher tópicos sobre a língua e o professor vai ser o falante que eles irão entrevistar ao longo do próprio curso para produzir hipóteses e tirar conclusões sobre aspectos da língua”.

Dicionário
A pesquisa para a elaboração do dicionário Kaingang paulista ganhou novo fôlego com a participação do professor Selvino. O projeto vem desde 2013, e já contou com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac) da Unicamp, além da própria Funai e da ong Kamuri.

“Foram os próprios indígenas que nos pediram um dicionário, mas depois começamos a fazer um trabalho mais amplo porque os professores indígenas aqui de São Paulo não falam a língua com falantes nativos, só os velhos”. O grupo de trabalho fez várias  oficinas junto com os indígenas para a produção do dicionário. “O processo de trabalho foi afinar a ortografia, melhorar a pronúncia e assimilar o conhecimento dos professores indígenas, sempre junto com os falantes mais velhos”.

A ideia é elaborar um dicionário escolar que possa ser usado para ensinar as crianças. “É uma maneira de registrar e conservar o que for possível desse dialeto de São Paulo que só tem alguns falantes. É um dialeto em desaparecimento e sua sobrevivência depende desse registro”, pontua.

O linguista considera um ganho para a Universidade a presença de Selvino como docente no IEL. “Temos a possibilidade de formar pesquisadores que trabalhem junto dos falantes indígenas na perspectiva que eu defendo e pratico, que é a da pesquisa colaborativa. As comunidades indígenas e as línguas indígenas não são nossos objetos de pesquisa, mas nossos parceiros”. 

O professor também ressalta a oportunidade de aproximar um pesquisador indígena do universo acadêmico. “São poucos indígenas que conseguem fazer mestrado, doutorado. É um caminho muito longo, difícil e complicado para eles e não é necessário todo esse caminho para uma pessoa que tem a intuição linguística como o Selvino tem. Na Unicamp ele também está se formando e desenvolvendo estratégias para continuar o trabalho garantir uma continuidade, conquistando cada vez mais autonomia para falar e pensar a sua própria língua”.

Silvino tem o projeto de escrever seu próprio livro também e será sobre a linguística Kaingang. “Minha formação não é acadêmica, mas é intelectual mesmo. A experiência serve de preparação para que eu possa escrever o meu livro que poderá servir tanto para as universidades como para as escolas de Ensino Médio e Fundamental.

Pela democracia e a ciência aberta Texto PETER SCHULZ. Jornal da Unicamp.

Foto: Antoninho PerriPeter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

Pela democracia e a ciência aberta


Foto: Reprodução Este passeio pelos sítios do mundo começa aqui em casa mesmo com a coluna de Reginaldo Moraes, vizinho nesse espaço virtual, sobre a transição democrática na Espanha (“As transições políticas e o papel entorpecente do medo”). O texto aborda um tema oportuno e atual para as nossas paragens, mas oportuna é também a efeméride, pois em junho celebrou-se na Espanha os 40 anos das primeiras eleições legislativas gerais naquele país, após a morte de Franco dois anos antes. E recomendo aqui um documentário lançado pelo El País, “Quando a Espanha aprendeu a votar”: são 18 minutos com testemunhos de personagens, imagens e vídeos da época. É sempre bom assistir a uma crônica que celebra a democracia.


Alguns anos antes dessas eleições discutiu-se uma reforma de ensino na Espanha, no bojo da qual foram criadas em 1968 as universidades autônomas de Madrid e Barcelona. Ambas estão nos rankings das melhores universidades com menos de 50 anos, como era o caso da Unicamp, um pouco mais velha e também fundada durante uma ditadura.

Passear pelos sítios dessas e outras universidades europeias em agosto é quase tedioso: com as férias de verão, os portais das universidades, de Lisboa a Helsinki, ficaram quase estáticos por três semanas. O portal da Sorbonne exibiu nesse período uma imagem desejando boas férias, agora há dias vemos a de “bom retorno”
Foto: Reprodução
Imagem capturada do portal da Sorbonne em 25 de agosto
Restava olhar para as agendas do que acontecerá a partir de setembro. Entre as inúmeras possibilidades detive-me em uma universidade bem mais nova do que a Sorbonne, mas mais antiga que as espanholas mencionadas: a Universidade Livre de Berlim, fundada em 1948, não em uma ditadura, mas devido à guerra fria, pois a universidade de 1810 ficara do outro lado da cortina de ferro.  No portal da Universidade Livre encontra-se a versão em inglês da página sobre acesso aberto (à publicação científica), vale a pena dar uma olhada: A universidade é signatária da ”Declaração de Berlim para acesso aberto ao conhecimento em ciências e humanidades” e o equivalente de seu conselho universitário recomenda a que todos os seus membros publiquem em revistas de acesso aberto, para o que há um fundo para cobrir os custos dessa iniciativa. Na agenda está previsto para setembro o “Open Science workshop” e a programação aparece no sítio: www.fu-berlin.de/en/sites/open_access/termine/open_science_workshop.html.

Esse evento é bastante oportuno, no cenário em que continua indefinida a queda de braço entre um consórcio de universidades, sociedades científicas e bibliotecas públicas alemãs e a Elsevier, uma das maiores editoras de periódicos científicos do mundo. O consórcio alemão demanda um contrato com a Elsevier de abrangência para todo o país, que deve incluir preços justos de assinaturas de periódicos, acesso aberto de todos os artigos de autoria de pesquisadores das instituições alemãs e acesso permanente aos artigos completos de todas as publicações eletrônicas da editora. As negociações, em novo impasse, já duram um ano. O consórcio também deverá liderar negociações com outras duas gigantes desse mercado: a Springer e a Wiley. (veja em: www.chemistryworld.com/news/german-universities-take-on-elsevier-/3007807.article). Leva a pensar...

Veja também no sítio da casa:

Artigo antigo meu, de 2002, fruto de uma palestra sobre Ciência para Justiça e Equidade, publicado na Revista Saúde e Sociedade número 11 (1) 53-66, 2002. Na crise de morte que sofrem a ciência, a justiça e a ética no Brasil, talvez o texto ainda seja útil.PDF

http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v11n1/07.pdf

Roberto Romano comenta posição do Brasil no ranking da corrupção/ Entrevista antiga, ao Globo News, mas ainda pode ser útil.

Roberto Romano comenta posição do Brasil no ranking da corrupção ...

g1.globo.com/globo-news/.../v/roberto-romano.../4766420/
27 de jan de 2016
Segundo o professor de ética e política da Unicamp, a democracia tem muito a nos ensina/