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terça-feira, 28 de março de 2017

Enviado por um grande amigo

SAUDADES DA ESQUERDA

Que esquerda chata! Por que não se mirar na outra, que não se levava tão a sério, que gostava de viver e de ser feliz? 

RICARDO RANGEL
Apalavra “esquerda” surgiu na Revolução Francesa para identificar quem lutava pelos interesses do povo e contra os privilégios da aristocracia (e, depois, da burguesia industrial). A partir de então, a esquerda esteve sempre ao lado das causas progressistas: da República e da democracia; do fim da escravatura nas colônias; contra o racismo (incluindo o antissemitismo); pela limitação da jornada de trabalho; pela semana inglesa; pelo direito de greve; pela emancipação feminina; pelo sufrágio universal; pelos direitos humanos etc. etc.
Quando a esquerda tomou o poder, entretanto, a porca torceu o rabo. Na Rússia, os bolcheviques executaram a família imperial e perseguiram os antigos camaradas; depois Stalin assassinou os próprios líderes bolcheviques e extinguiu qualquer traço de liberdade. Na China e em outros países não foi diferente.
Enquanto a esquerda que estava no poder estabelecia ditaduras que matavam aos milhões, a esquerda que não estava no poder tapava o sol com a peneira e continuava, como se nada houvesse, a denunciar e combater a opressão e a violência que ocorriam recorrentemente nas ditaduras de direita.
No Brasil, a esquerda resistiu à ditadura militar, lutou pela redemocratização, opôs-se aos privilégios e buscou justiça num país espetacularmente injusto. Havia equívocos e preconceitos, mas também generosidade e desprendimento, e o desejo de um socialismo com liberdade em vez de tirania.
E pelo menos uma parte da esquerda era leve, divertida, engraçada. Festiva. “Esquerda festiva” era uma expressão pejorativa usada pelos dois lados para dizer que era uma gente que não dava à luta a devida seriedade. A esquerda que ia à praia em Ipanema, lia (e escrevia) o “Pasquim”, almoçava na Carreta e bebia
whisky no Antonio’s (mais tarde, no Florentino), trabalhava duro e gastava tudo o que ganhava na Europa. E ria muito.
O que não a impedia de ocasionalmente passar uma temporada na cadeia. Mas, quando saía, voltava a rir de tudo e de todos. Uma esquerda que queria ser feliz e queria o socialismo porque achava que assim todo mundo seria feliz.
Até que, um belo dia, o muro de Berlim caiu, e ficou claro que não havia peneira que tapasse o sol: o socialismo era inviável. Qualquer socialismo. Os mais inteligentes desembarcaram da canoa furada, os que permaneceram a bordo foram ficando cada vez mais ressentidos, intransigentes, mal-humorados, raivosos. E cegos pela ideologia.
O PT criou o maior esquema de corrupção de todos os tempos? Preconceito de coxinha que não gosta de ver pobre em avião. Dilma cometeu fraude fiscal, levou o país ao precipício, inviabilizou seu governo e sofreu impeachment? É golpe.
A Lava-Jato, a maior operação de combate à corrupção já ocorrida no país (e no mundo), está mudando a cara do Brasil para melhor? Instrumento do golpe. Lula é um criminoso cinco vezes denunciado? Papo furado de golpista.
A Previdência é insustentável e inviabilizará o país em poucos anos? A CLT, criada há 70 anos em um país pré-industrial, engessa o país, atrapalha o desenvolvimento e dificulta o emprego? Papo furado de golpista.
E ficam mais intolerantes a cada dia. Tem gente de esquerda que segue Bolsonaro? É preciso denunciar esses fascistas disfarçados. Doria criou um programa para dar emprego e renda a moradores de rua? É trabalho escravo.
Homem falando de feminismo? Não pode. Menina branca de turbante? Vamos massacrá-la: nenhum branco tem o direito de usar um símbolo de cultura negra. A menina usa turbante por causa da quimioterapia? Que ache um símbolo branco para ocultar sua calvície.
Fernandinha Torres disse que a vitimização feminista a incomoda mais do que o preconceito machista? Vamos massacrá-la até que peça desculpas. Chico Alencar confraternizou com Aécio Neves? Vamos massacrá-lo até que peça desculpas. Leandro Karnal publicou foto com Sérgio Moro? Vamos massacrá-lo até que retire a foto e peça desculpas.
Que esquerda chata, sô! Por que não se mirar na outra, que não se levava tão a sério, que não perdia tempo com bobagem, que gostava de viver e de ser feliz, que não enchia o saco de ninguém? Até as brigas, como a do Chico Buarque com o Millôr, no Florentino, eram divertidas.
Saudades da esquerda de Dias Gomes e Ferreira Gullar, de Guarnieri e Cláudio Abramo, de Darcy Ribeiro e Tarso de Castro, de Hélio Pellegrino e Millôr Fernandes, de Ênio Silveira e Flávio Rangel. 


É com muita alegria que volto a escrever no GLOBO, para cujo caderno de informática contribuí por dez anos. É divertido ver as voltas que o mundo dá: como, de um suplemento técnico, vim parar no suplemento cultural, ainda por cima no mesmo espaço de Cora Rónai, editora do tal caderno de informática e minha amiga-irmã há 30 anos. É uma honra também dividir este espaço com alguém do gabarito de Miguel de Almeida. Acima de tudo, vai ser um enorme prazer encontrar vocês aqui quinzenalmente
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Quando o "Papa comunista" era Montini Revista ihu

Quando o "Papa comunista" era Montini

Revista ihu 




28 Março 2017

Foi no domingo de Páscoa, 26 de março de 1967. O dia em que o Papa Paulo VI anunciou ao mundo a encíclica Populorum progressio. O documento papal, que hoje celebra o cinquentenário de sua publicação, expressa uma visão profética do estado de coisas no mundo, justamente por que ele buscava inspiração nas fontes da Tradição e dos Padres da Igreja (século II a VII). Isso lhe permitiu também embaralhar as cartas, levar em consideração os condicionamentos e os posicionamentos pré-fixados do poder mundial, sem se deixar absorver por eles.

O artigo é de Gianni Valente, jornalista, publicado por Vatican Insider, 26-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na atmosfera estagnada da Guerra Fria, o Papa, em vez de dividir o mundo entre Leste e Oeste, entre comunistas e democratas, ousou testemunhar que a verdadeira cortina de ferro era a que separava o Norte do Sul, os "povos da opulência" dos "povos da fome". Assim, com uma simples constatação, ele quebrava, quase sem querer, um tabu precioso para os tutores do equilíbrio do poder então vigente: o do Papa capelão do Ocidente, da Igreja aliada com a frente capitalista. Na época, para os influentes círculos católicos do Ocidente, a simples menção do capitalismo "frente a tantos sofrimentos", como fazia a encíclica, era equivalente a pular sobre o muro, a passar para o lado do inimigo.

Uma encíclica "francesa"

Em uma encíclica sobre os perdedores da modernidade, Paulo VI vinha pensando desde o início de seu pontificado. Ele estava reunindo documentos e arquivos em uma pasta com longas anotações. A inspiração, como explica no parágrafo 4, veio a partir das viagens para a África, Ásia e América Latina, realizadas por Montini, primeiramente como arcebispo de Milão e, depois, como papa, durante as quais "podemos ver com nossos olhos e sentir de perto as gravíssimas dificuldades que afligem os povos de civilizações antigas, às voltas com o problema do desenvolvimento".

Na Ásia e na África, Países recém saídos de colonialismo tentavam tirar proveito da guerra fria para aumentar o preço da sua fidelidade a um dos dois lados. Na América Latina, assistia-se aos primeiros sinais de choque entre os regimes ditatoriais de "segurança nacional” com as oposições populares e as guerrilhas marxistas.

Para Paulo VI, a pedra angular da questão social, naquele momento histórico, era o desenvolvimento. Ele recuperou, no novo contexto, a "neutralidade política" da Igreja já prenunciada também por Pio XII na mensagem de rádio do Natal de 1951. A velha questão social tinha assumido dimensões planetárias. Onde antes havia o proletariado e a classe trabalhadora, nos meados dos anos sessenta estavam populações inteiras morrendo de fome no hemisfério sul.

No texto, Paulo VI derramou toda a sua sensibilidade cultural. A lista de citações de autores contemporâneos - novidade para uma encíclica papal - incluiu autores franceses caros a Montini: o filósofo Jacques Maritain, os teólogos do Concílio Marie-Dominique Chenu e Henri de Lubac. O inspirador dos trechos mais pragmáticos foi o dominicano bretão Louis Lebret, personagem anômalo e vulcânico, do tipo que ainda se encontrava na Igreja daquele tempo: ex-oficial da Marinha, tinha visto de perto as misérias dos povos famintos, e como dominicano tinha dado vida a movimentos e grupos de pesquisa que utilizavam as novas ciências sociais para tentar sugerir soluções concretas às emergências sociais. Devemos a ele as passagens que denunciavam, com competência técnica, os mecanismos financeiros que, já na época, esmagavam as economias dos Países em desenvolvimento.

Na companhia de Ambrósio e Tomás

Mas as passagens mais eficazes são aqueles em que Paulo VI aplica à nova situação, os conteúdos da Tradição, a partir dos Padres da Igreja. Cita o De Nabuthae de Santo Ambrósio, para reavivar a tradicional "hipoteca social" sobre a propriedade privada. Assim ataca o novo dogma da propriedade privada inviolável, e deduz a partir dos escritos do Santo Bispo de Milão também a legitimidade de medidas como a expropriação, precisamente numa época em que a questão inflamava as lutas entre fazendeiros e camponeses despossuídos na América Latina. Reconhece que "às vezes o bem comum exige a expropriação" se certas posses, por sua extensão excessiva, e em situações de miséria generalizada, são um óbvio "obstáculo para a prosperidade coletiva". Ele retoma também a fórmula mais dura e seca da encíclica Quadragesimo Anno do Papa XI para condenar "o imperialismo internacional do dinheiro". Recorre a termos da análise marxista para denunciar o neocolonialismo ("pressões políticas e de poder econômico exercidas para defender ou conquistar uma hegemonia dominadora"). Na ocasião, lança um aviso contra os desvios tecnocráticos ("a tecnocracia de amanhã pode ser uma fonte de males não menos temíveis que o liberalismo de ontem") e a hipócrita retórica de "livre comércio" utilizada para garantir a continuidade das relações de força entre o Norte e o Sul, jogando sujo com os preços das matérias primas.

Com a linguagem da teologia católica mais consolidada, Paulo VI avalia também a possibilidade histórica de que a raiva pela injustiça e a exploração possam causar violentas revoltas: a ganância obstinada dos ricos certamente irá suscitar o "julgamento de Deus e a ira dos pobres, com consequências imprevisíveis"(49). A insurreição armada, embora indicada como uma fonte de novas injustiças e desastres, é justificada "em caso de uma ditadura prolongada que atente seriamente contra os direitos humanos fundamentais e prejudique de forma perigosa o bem comum do País." A própria possibilidade já tinha sido reconhecida e justificada, nos mesmos termos, por Santo Tomás, em sua Summa Theologica.

Assim, citando Santo Thomas e os Padres da Igreja, Paulo VI trincava aquele dogma cultural dos tempos modernos segundo o qual a defesa da Tradição, na Igreja, deveria necessariamente coincidir com uma visão cultural e política "de direita". O Papa repetia que a opção preferencial pelos pobres, até o limite das consequências "subversivas", é uma escolha de Deus, inscrita no mistério de sua predileção.

Papa "maoísta"

"Warned up Marxism", marxismo aquecido. Assim, a encíclica montiniana foi liquidada pelo Wall Street Journal. Até o Times considerou que algumas partes do documento papal tinham "o tom estridente de uma polêmica marxista do início do século".

Aproveitando o ensejo das grandes manchetes além oceano, a imprensa italiana de direita também relançou o fantasma do Papa "vendido para o comunismo". O jornal romano Il Tempo falou em "pastoral da pregação substituída pela espada e sabre da insurreição e guerrilha", argumentando que "a tese da divisão do mundo em Países do Norte industrializados, imperialistas, egoístas, exploradores e Países do sul atrasados, explorados e camponeses, é própria de Mao e da China Popular". De qualquer forma - acrescentava o jornal romano - não havia nada para se preocupar, porque, apesar das palavras do Papa, "setores muito amplos, influentes e poderosos da Igreja Católica militam ao lado do lucro, possivelmente absolutos e exclusivos, ao lado do mundo industrializado e progredido".

O semanal satírico Il Borghese, em um artigo intitulado "Avanti populorum alla riscossa" (paródia do verso ‘Avanti popolo alla riscossa’ da famosa canção Bandiera Rossa do movimento operário italiano), afirmou que o Bispo de Roma tinha assumido "toda a tralha antiliberal e antiburguesa". Enquanto o Corriere della Sera minimizou, salientando que, na verdade, "o capitalismo lamentado pela encíclica não existe mais".

Por seu lado, a agência soviética Novosti reconheceu que "Populorum progressio talvez contenha as palavras mais duras ditas sobre o capitalismo desde que Jesus expulsou os vendilhões do templo", acrescentando, com uma nota de política eclesiástica, que "dificilmente a nova encíclica vai agradar ao Cardeal Spellman, para o qual servir a Deus é estar ao serviço da política americana".

Mas as críticas não vieram apenas da direita. Mesmo a imprensa burguesa-iluminada disparou contra a encíclica dos pobres. A revista italiana Epoca estampou como manchete de seu editorial "Populorum Progressio, regressio Ecclesiae". Enquanto o líder dos vaticanistas da época, Carlo Falconi, no jornal Espresso colocou em contraposição ao documento os textos sociais do Papa Roncalli, culpando os "centros paroquiais equipados com cinemas, campos desportivos e bares", identificados como "a trave no olho" de Igreja.

Foram os primeiros sinais do que, nos anos sucessivos, se tornaria o verdadeiro e próprio linchamento do Papa Montini pelos mais poderosos meios de manipulação da opinião pública ocidental. Enquanto os acolhimentos mais entusiásticos da encíclica foram registrados em Países em desenvolvimento e nas igrejas daqueles Países. Na Tanzânia, o presidente Julius Nyerere escreveu a "Declaração de Arusha", a Magna Carta do socialismo Africano, inspirado na encíclica de Montini. E, em agosto de 1968, em Medellín, a segunda Conferência Geral do episcopado da América Latina, inaugurada com a presença do Papa Paulo VI, realizou-se toda na esteira da Populorum progressio, que no documento final foi citada 28 vezes.

domingo, 26 de março de 2017

A epidemia de notícias falsas nas redes sociais

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Mercadores da mentira Kalleo Coura

A epidemia de notícias falsas nas redes sociais

O presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB) bateu na mesa e disse: “quem manda no Brasil sou eu. Quem é Supremo Tribunal Federal?”. No dia seguinte, o ministro do Supremo Ricardo Lewandowski avisou: “Aécio, Collor e Sarney são os próximos a irem pra cadeia”. Collor, por sua vez, ameaçou: “se eu for preso, vai faltar cela”. De Curitiba, o juiz Sérgio Moro decretou: “Vou varrer o Brasil, minha meta é colocar todos os corruptos na cadeia”. Já o ministro Marco Aurélio “detonou” os colegas de trabalho e disse: “o povo vai derrubar o STF”. Diante do cenário, coube à presidente do STF Carmen Lúcia alertar: “vamos ter guerra, não tem como escapar”.

Estas frases de efeito que fariam os olhos de qualquer jornalista brilhar ao serem ouvidas, foram compartilhadas centenas de milhares de vezes na internet por brasileiros revoltados com a situação política do país. O único porém é que as frases nunca foram ditas, apesar de terem sido publicadas pelo site Pensa Brasil, cujo slogan é “em busca da notícia”.

O site integra um rol de portais que publicam notícias falsas ou sensacionalistas com imenso potencial para viralizar nas redes sociais, aproveitando-se do fato de que a maioria dos leitores não se preocupa em checar a fonte das informações. Além do Pensa Brasil, adotam a mesma estratégia, dentre inúmeros outros, sites como Folha Brasil, Folha Digital e Brasil Verde Amarelo.

Por que alguém perderia seu tempo criando e disseminando notícias falsas? Como as mentiras são democráticas e suprapartidárias, a resposta, tudo indica, é uma só: dinheiro. É possível ser remunerado por esta prática graças aos anúncios do Google Adsense. Nos Estados Unidos, um dono de um site de notícias falsas afirmou em entrevista ao Washington Post arrecadar US$ 10 mil dólares por mês com a prática.
Americanos acreditam em notícias falsas em 75% das vezes

Guerra de informações

Um levantamento feito pelo BuzzFeed nos Estados Unidos revelou que, nos três meses finais das eleições americanas, as notícias falsas foram mais compartilhadas do que as matérias reais envolvendo os então presidenciáveis Hillary Clinton e Donald Trump feitas por The New York Times, Washington Post, The Wall Street Journal, The Guardian e outros quinze sites jornalísticos. O placar foi de 8,7 milhões compartilhamentos para os posts mentirosos contra 7,3 milhões para as notícias verdadeiras. A comparação foi replicada no Brasil pelo BuzzFeed local apenas com textos sobre a Operação Lava Jato. As dez notícias falsas sobre a maior investigação do país tiveram 3,9 milhões de compartilhamentos contra 2,7 milhões das dez reportagens reais.

“Quando um discurso intencionalmente mentiroso é veiculado e recebe aplausos, alguma coisa muito grave se revela. No caso, as notícias falsas são acolhidas porque batem com a expectativa subjetiva das pessoas, confirmando teses preconcebidas”, afirma o filósofo Roberto Romano, professor de Ética Política no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. “Esse é um problema seríssimo da democracia: ter um soberano, o povo, que opera segundo esse tipo de ideia preconcebida”, diz.

Nos Estados Unidos, a manchete falsa campeã de compartilhamentos foi “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump para presidente”, com quase um milhão de compartilhamentos. Uma pesquisa feita com 3 mil pessoas pela Ipsos e divulgada em dezembro mostra que adultos americanos acreditam nas manchetes falsas em 75% das vezes. Pessoas que citam o Facebook como uma das principais fontes de informações tendem a acreditar mais nas notícias falsas do que quem depende menos da plataforma. “A opinião do público, como refletida nesta pesquisa, mostrou que as notícias falsas foram lembradas por uma parcela significativa do eleitorado que as viram como críveis”, afirmou Chris Jackson, relações públicas da Ipsos, ao BuzzFeed.

“As notícias falsas chegaram a um clímax nesta eleição. O nível de desinformação geral, que já era muito grande, piorou a ponto de influenciar um pleito no país mais poderoso do mundo”, analisa o jornalista Rosental Calmon Alves, diretor-fundador do Centro Knight para Jornalismo nas Américas da Escola de Jornalismo da Universidade do Texas. “Precisamos ter uma educação cívica para que os cidadãos entendam e saibam distinguir o que é verdade do que é mentira e o jornalismo tem a responsabilidade de ajudar a educar as pessoas sobre isso”.

Engana-se quem imagina que apenas pessoas com menos instrução sejam iludidas por notícias falsas nas redes sociais. Recentemente o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Og Fernandes compartilhou em seu Twitter trechos de uma entrevista em que Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), dizia: “Eu li 3 mil livros. Eu leio Dante, mas os meus soldados, todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto deste país”. De fato, a entrevista foi publicada pelo jornal O Globo, mas trata-se de uma ficção, escrita por Arnaldo Jabor. Alertado, o ministro tuítou: “Sobre a entrevista do Marcola ser falsa, eu a recebi e não pesquisei, mas em sendo assim, as intenções foram ‘psicografadas’ pelo Jabor”.

Como notícias falsas favoráveis a Trump e desfavoráveis a Hillary foram propagadas por veículos estatais russos e por agitadores pró-Rússia na internet, pesquisadores americanos afirmaram que existia uma estratégia do governo russo para confundir a fronteira do verdadeiro e do falso e assim influenciar os resultados das eleições americanas e também de países europeus.

Segundo uma reportagem do The New York Times, em novembro o então primeiro ministro italiano Matteo Renzi discutiu privadamente com Obama e com a chanceler alemã Angela Merkel sobre como a campanha russa de desinformação poderia afetar os países. Renzi, alvo de inúmeras notícias falsas, renunciou ao cargo depois da derrota no referendo para reformar 43 artigos da Constituição do país.

Na primeira semana de dezembro, 900 mil alemães ficaram sem acesso à internet e a telefones devido a ataques de hackers russos, o que levou o governo a temer que o país seja o próximo foco de disseminação de notícias falsas propagadas pelos russos para “desestabilizar as democracias ocidentais”. A preocupação é tamanha que o governo estuda impor uma lei para multar o Facebook em até € 500 mil pela distribuição de notícias falsas. As eleições alemãs serão realizadas em outubro de 2017.

Nos Estados Unidos, mesmo depois da posse de Trump, a discussão sobre a verdade dos fatos e as notícias falsas continua quente. Inconformado com o tratamento crítico dado pela imprensa à cerimônia de posse do novo presidente, o porta-voz da Casa Branca Sean Spicer afirmou, sem base na realidade: “esta foi a maior audiência em uma cerimônia de posse, ponto final. Pessoalmente e em todo o mundo”. Dias depois, numa entrevista à MSNBC, ao ser questionada a respeito dessa afirmação, a assessora presidencial Kellyanne Conway respondeu a um repórter: “Não seja tão exagerado. Você está dizendo que é uma mentira. Nosso chefe de imprensa, Sean Spicer, apresentou fatos alternativos a isso”. Conway não explicou qual seria a diferença entre “fato alternativo” e deturpação da realidade. No dia seguinte, Spicer mais uma vez denotou desapreço pela verdade: “algumas vezes, nós podemos discordar dos fatos”.

Pensa, Brasil

O caso nacional

O site Pensa Brasil incomodou tanto o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva que o Instituto Lula emitiu em abril do ano passado uma nota intitulada “Pensa, Brasil: mentiras nas redes estão além de todos os limites”. Na nota, o Instituto afirma que “o portal ultrapassa todos os limites éticos ao recorrer a acusações absolutamente falsas de desvio e lavagem de dinheiro contra petistas, publicar relatos fantasiosos sobre ‘luxos’ da vida particular de Lula e sua família e até boatos grosseiros envolvendo alcoolismo, depressão e infidelidade conjugal”.

E conclui: “Tudo isso justificaria ação legal agressiva, não fosse o fato de que ninguém sabe quem são os responsáveis pelo site, cujo servidor sequer está sediado no Brasil — fica em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos”. Em outubro uma matéria do site afirmou que, segundo a imprensa internacional Lula teria “poupança de US$ 108 milhões em Luxemburgo”. O texto foi compartilhado 219 mil vezes pelo Facebook, segundo o contador do site. “Nos termos da lei, isso seria um crime de calúnia”, afirma José Roberto Batochio, advogado de Lula.

“O problema é que essas pessoas se protegem hospedando esses sites em lugares mais ou menos remotos de sorte a dificultar a verdadeira identificação e a partir daí liberar uma verdadeira torrente de calúnias e difamações, de acordo com suas idiossincrasias”, diz.

Apesar destas dificuldades, o cantor Gilberto Gil entrou na Justiça contra o Facebook e contra o site Pensa Brasil por uma matéria com o título: “Gilberto Gil diz: Lula que tanto lutou pelo povo não merecia passar por isso tudo por causa de um juizinho”. Como a notícia era, mais uma vez, falsa, o juiz Carlos Sergio dos Santos Saraiva determinou liminarmente que o texto fosse retirado do ar.

Apesar de estar hospedado nos Estados Unidos, o site disponibiliza um telefone de WhatsApp com o DDD 35 para quem quer fazer alguma denúncia. O mesmo número é divulgado no Facebook pela agência Artpubli Comunicação, de Poços de Caldas. No Linkedin, Alberto Silva aparece como publicitário da empresa, cuja razão social é Polyana A. R. Galdino – ME, a “Sra. Alberto Silva”, segundo escreveu numa sentença o juiz Paulo Rubens Salomão Caputo quando condenou Alberto, Polyana e outros réus a pagar solidariamente R$ 15 mil de danos morais num caso envolvendo um site anterior do casal, o Pensa Poços.

Procurado pela reportagem do JOTA, Alberto Silva confirmou representar o site Pensa Brasil e disse trabalhar com outras dez páginas similares, como Brasil Verde Amarelo, Folha Digital e Jornal do País. Silva negou que o site produza notícias mentirosas. “Não são notícias falsas. O que é uma notícia verdadeira para você? É aquilo que a Band e a Globo veiculam? Elas estão sendo processadas todos os dias por matérias que fizeram. Como posso falar que o que a Globo publicou é verdadeiro? Onde é que está a verdade?”, pergunta Silva.

“Para mim não existe uma verdade, existe ponto de vista, cada um tem o seu ponto de vista. A verdade mesmo nunca é contada”, tergiversa Silva, que adota um discurso de que o site não produz conteúdo, mas o recebe de freelancers e de assessores de políticos. “Concordo que temos uma pitadinha de sensacionalismo. Colocamos de um jeito para que o povo brasileiro possa entender. Por isso batemos recordes”, afirma.

Perguntado sobre a razão de alguns títulos não condizerem com o teor das matérias, Silva dá uma explicação rocambolesca: “Isso é questão de linha editorial, não saberia dizer porque é diferente. Eu não sou responsável pela linha editorial. Sou responsável pelo site. Se o carro é amarelo e dizemos que é azul, não sei porque. Mas recebemos os textos de freelancer e temos lá quem foi a fonte, quem foi que enviou”.

Assim como nos títulos e matérias, Silva também é exagerado em relação aos números do site. “Só no Pensa Brasil são 75 milhões de page views no mês. Não é com Adsense que ganhamos dinheiro, isso só representa 10% do total. O site chega a faturar em torno de US$ 25 mil dólares mensais com publicidade”, vangloria-se.

Silva avisa a quem se sentir ofendido, que ele garante o direito de resposta. “Se algo publicado é mentira, não fomos nós que criamos, foram os jornalistas que mandaram para gente. Quando algo sai no Estadão ou na Folhapress geralmente todos os veículos repercutem igual. O que a gente faz é mudar alguma coisinha, não é uma coisa drástica”, afirma.

Ele conta que, antes do impeachment, publicou um texto dizendo que a então presidente Dilma Rousseff iria renunciar a qualquer momento e que logo depois recebeu um telefonema de uma assessora da presidência requisitando que o texto fosse retirado do ar. “Disse que retiraria desde que ela concedesse uma entrevista ao Pensa Brasil. Como ela disse que não, o conteúdo está no ar até hoje”.

Depois de uma enxurrada de críticas, Google e Facebook anunciaram medidas para tentar conter a onda de mentiras

Como enfrentar as notícias falsas?

Segundo especialistas em Direito Digital consultados pelo JOTA, o Brasil já dispõe dos meios adequados para combater as notícias falsas. “Além da responsabilização civil, sempre que implicar calúnia, injúria e difamação, tanto o autor do texto quanto a pessoa responsável pelo site que o está postando podem ser responsabilizados”, afirma o advogado Ronaldo Lemos, pesquisador e representante do MIT Media Lab no Brasil.

Lemos, que é vice-presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, é avesso à ideia de derrubar sites que explicitamente mentem e ganham dinheiro com a mentira. “Acho perigoso ter um árbitro sobre o que são as notícias falsas. Tenho medo de que desta discussão surjam novos incentivos e novas formas de gerar mais remoção de conteúdo e censura. Já temos diversas crises de liberdade no país“, afirma Lemos.

A ferramenta Control+X da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) ajuda a ter uma ideia deste dilema. Ela divulgou dados preocupantes do tratamento dado à liberdade de imprensa por parte do Judiciário. Em 2016, políticos ajuizaram 97 ações requisitando que meios de comunicação se abstivessem de publicar algo relacionado a eles, um crescimento de 300% em relação a 2012. Pior: enquanto 13% dos pedidos de censura prévia foram aceitos pelos juízes em 2012, neste ano, os deferimentos chegaram a 15%. Nestes casos, não se trata de notícias falsas, mas, em tese, de conteúdo noticioso de fato.

As eleições de 2016 também superaram os últimos pleitos em pedidos para retirar sites do ar ou suspender programação de rádio ou circulação de jornais. Foram 606 pedidos – dos quais 342 foram atendidos pelo Judiciário –, contra 582 em 2014 e 412 em 2012. Entre os Estados com mais de dez ações, os que mais tiveram pedidos deferidos foram Ceará (76% dos casos), Espírito Santo (75%) e Bahia (71%).

Outra pesquisa citada por Lemos, feita pela PUC-Rio, mostra que de sete em cada dez casos julgados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em que há conflito da liberdade de expressão com os direitos de personalidade, os segundos acabam se sobrepondo ao primeiro.

O promotor Frederico Meinberg Ceroy, coordenador da comissão de direito digital do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, também não vê com bons olhos a possibilidade de tirar do ar sites que publicam apenas matérias mentirosas. “Qual a diferença na prática destes sites com o Sensacionalista, que produz humor com notícias falsas? Tem que ver especificamente quem é o prejudicado com a notícia. Você está usando o nome de alguém em vão. Quem se sentir prejudicado é a parte legítima para propor uma ação”, diz Ceroy. “Caso contrário, amanhã sites jornalísticos também vão ser censurados. Qual é diferença entre uma notícia falsa e uma matéria em que a fala de um entrevistado foi alterada?”, questiona o promotor, na mesma linha de raciocínio do representante do Pensa, Brasil.

“Enunciados, sobretudo escritos, têm uma carga muito grande de ambiguidade e não existe um parâmetro para dizer: este discurso tem 90% de enunciados verdadeiros, este outro 50%. É impossível”, analisa o filósofo Roberto Romano. “A única maneira de conseguir vencer um discurso ambíguo ou mentiroso é justamente pensar, criticar e comparar — e isto depende muito do grau de inteligência e de cultura de uma população”.

Já o advogado Renato Opice Blum, especialista em Direito Digital, acredita que, em último caso, como medida extrema, cabe a retirada de um site mentiroso do ar. “A liberdade de expressão protege a manifestação do pensamento. Não estamos falando disso, mas de uma alteração da verdade, com algum objetivo que não conhecemos”, afirma Opice Blum. Para o advogado, além da responsabilidade civil e da possibilidade de responder por injúria, calúnia e difamação perante as vítimas das mentiras, autores de sites de notícias falsas podem ser alvos também de ações relacionadas ao direito do consumidor. “Na prática você está apresentando um produto, a informação, que é fraudulento. É enganoso na apresentação. Você está ferindo o propósito do consumidor, mesmo que a remuneração seja indireta”, diz. Segundo ele, esta prática pode gerar uma ação de qualquer órgão do consumidor e de qualquer um que sentir lesado para reparação do conteúdo mentiroso e, em caso de recusa, retirada do conteúdo e, em último caso, do próprio site do ar.

O jornalista Rosental Alves discorda dessa visão. “Os aproveitadores das mentiras oferecem um perigo à sociedade maior do que o das mentiras, que são circunstanciais. O maior perigo, estrutural, é a criação de um ambiente caótico onde o Estado ou a Justiça se vejam tentados a usar alguma forma de censura ou alguma forma centralizada de determinar o que é verdade e o que é mentira. O remédio não pode ser pior do que a doença”, afirma. Para Alves, o caminho é mais liberdade, embora a imprensa tenha uma atitude muito passiva em relação à educação midiática dos leitores, assumindo a ideia de que as pessoas sabem distinguir o que é notícia, de opinião; verdade, de mentira. Neste sentido, é extremamente relevante a iniciativa do site da revista VEJA de escancarar inverdades disseminadas online.

A advogada Letícia Provedel, que defende Gilberto Gil na causa contra o Pensa Brasil, acredita que a principal forma de vencer as mentiras online é responsabilizando os autores civil e criminalmente. “Se não doer pesado no bolso, quem está sendo remunerado ao disseminar mentiras não vai parar”, afirma.

Recentemente o site Business Insider mostrou que o algoritmo do Google tende a privilegiar notícias falsas, já que mostra em cima nos resultados das buscas os links que estão sendo mais clicados.  A empresa, por sua vez, anunciou que irá retirar os anúncios do Adsense de sites de notícias mentirosas – o que tiraria do mercado aqueles que estão atrás de lucro fácil. O Facebook, depois de tentar minimizar o impacto das notícias falsas nas eleições americanas, anunciou que irá facilitar a sinalização pelo próprio usuário de que determinada notícia é falsa e que criará sistemas para detectar o que os usuários irão sinalizar como falso – antes das próprias pessoas o fazerem. Além disso, anunciou parcerias com serviços de checagem e com organizações que buscam fazer uma alfabetização midiática dos cidadãos.“São iniciativas como estas que devem ser feitas. Devemos combater as notícias falsas com mais informação e com informação de qualidade. Não com mais censura”, afirma Ronaldo Lemos.

No Brasil, uma mulher foi linchada por ser parecida com um retrato falado falso de uma adepta de magia negra

Quando a mentira vira tragédia

O debate sobre as notícias falsas está sendo travado em todas as partes do mundo. Em novembro, o então presidente americano Barack Obama afirmou que “é só estar no Facebook para as pessoas acreditarem. Cria esta nuvem de nonsense”. No mês seguinte, a candidata derrotada à presidência dos Estados Unidos Hillary Clinton afirmou num evento com congressistas que as notícias falsas “ameaçam a democracia” e que está claro que “há vidas em risco”.

Hillary se referiu ao episódio em que Edgar Maddison Welch, 28, da Carolina do Norte, entrou numa pizzaria da Comet Ping Pong munido de um rifle AR-15 e duas armas com o propósito de investigar se a loja era uma fachada para uma rede de prostituição infantil liderada por Clinton e outros democratas. Welch chegou a disparar seu rifle, mas ninguém foi ferido.

Próximo do Natal, o ministro da Defesa do Paquistão fez questão de relembrar Israel que o país detém bombas nucleares. Tudo porque ele acreditou numa notícia falsa em que se lia sobre o plano de Israel para atacar o país com o qual não mantém relações diplomáticas.

No Brasil, o jornalista Leonardo Sakamoto sofreu uma série de ameaças quando um jornal de Minas Gerais publicou uma entrevista falsa com ele sob o título “Cientista político diz que aposentados são ‘inúteis à sociedade’.” Uma avalanche de comentários hostis tomou conta da internet e, até mesmo na rua, o jornalista foi abordado em tom de ameaça. O caso está sob investigação, mas a notícia falsa ainda circula.

Há três anos, um boato disseminado no Facebook pela página Guarujá Alerta teve um desfecho trágico. A história era  que uma mulher raptava crianças e arrancava seus corações em rituais de magia negra. Junto do texto, circulava um retrato falado. Apesar de um extenso post feito pela mesma página de que aquela história era uma mentira repassada sem ter sido checada, Fabiane Maria de Jesus foi confundida com o retrato divulgado e foi linchada por uma turba na periferia do Guarujá, município do litoral paulista. O administrador da página não chegou a ser indiciado pela polícia.

Na era do pós-verdade, somos todos vítimas em potencial – pessoas e instituições. Quanto mais tempo demorar para as pessoas aprenderem a discernir uma notícia falsa de uma reportagem verdadeira e a agir com responsabilidade ao compartilhar informações, mais tragédias testemunharemos.

7 ?

Rolling Stones, Dezembro de 2015



Edição 112 - Dezembro de 2015

Nação-Tartaruga

Crise econômica, conservadorismo e lentidão no Congresso, o povo nas ruas: por que 2015 vai entrar para a história (pelo bem ou pelo mal)
por Aline Oliveira
O ano de 2015, além de ter sido o primeiro do segundo mandato de Dilma Rousseff , foi carimbado não apenas pela rejeição à presidente mas também pelo avanço de pautas conservadoras no Congresso, pela volta da recessão e pelos escândalos revelados na Operação Lava Jato. “Foi o ano da incerteza da população em relação ao Estado, que não está conseguindo garantir o mínimo para a vida do brasileiro”, resume Roberto Romano, professor titular de Ética e Filosofia Política da Unicamp. “O cidadão não teve segurança na política econômica, na polícia do governo, nas instituições, no Bolsa Família... nada teve estabilidade. Além disso, a cada dia é descoberto mais um meandro corrupto, e não de um determinado partido, mas de quase todos.” Apesar de toda a lama, 2015 foi também um tempo de manifestações e fortalecimento das minorias – o ano em que fomos obrigados a jogar luz sobre essas novas formas de organização social. “Estamos vendo uma mobilização desvinculada de partidos políticos e que valoriza os processos internos de democracia. São ações horizontais, discutidas entre todos, sem uma liderança clara”, analisa Pablo Ortellado, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e coautor do livro Vinte Centavos: a Luta contra o Aumento. A seguir, listamos as sete principais marcas dos últimos 12 meses, sob os prismas político, social e econômico. Um balanço de um ano que, pelo bem ou pelo mal, ficará para a história.
1 O CONGRESSO DO RETROCESSO
É grande a lista de pautas conservadoras desengavetadas pela Câmara dos Deputados ao longo de 2015. Dentre as mais (im)populares estão a Redução da Maioridade Penal (PEC 171/93), já aprovada pela Casa e aguardando votação no Senado; a revogação da lei do Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03), por meio da PEC 3722/12, que prevê a redução de 25 para 21 anos a idade mínima para a compra de armas; o Estatuto da Família (PEC 6583/2013), no qual são considerados núcleos familiares apenas aqueles compostos de casais heterossexuais; e a PEC 215/2000, capaz de mudar a demarcação de terras indígenas.
Avançaram, também, pautas como a das terceirizações (4330/04), já aprovada e aguardando apreciação dos senadores. “Foi um ano de atraso, de retrocesso enorme para os direitos civis e para os direitos dos trabalhadores”, opina o deputado federal Ivan Valente, presidente nacional do PSOL. “O que vimos em 2015 foi uma série de medidas moralistas e pretensamente chamadas de conservadoras, mas que eu chamo de reacionárias”, define o professor Roberto Romano, da Unicamp.
A PEC mais emblemática dos últimos meses é de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O projeto de lei 5069/2013 dificulta o aborto legal, pune a venda de abortivos e complica o atendimento às vítimas de estupro. “Que autoridade moral Eduardo Cunha e a bancada evangélica têm para isso?”, questiona Romano.
O avanço desse projeto gerou reação rápida nas ruas. Nos últimos dias de outubro, mulheres protestaram em várias cidades contra a proposta e contra Cunha. “Ele não contava com essa virada. Com o aborto, Cunha ganhou uma impopularidade dentro do movimento jovem e do movimento feminista. Teve até que escrever para o jornal Folha de S.Paulo para dizer que não era o único autor”, ressalta Valente.
O artigo citado pelo presidente do PSOL foi publicado no primeiro caderno do veículo em 24 de novembro. No texto, intitulado “Fizeram de mim o inimigo nº 1 das mulheres”, Cunha afirma que a PEC não é só dele, e que foi feita em “conjunto com outros 12 deputados”. Também garante que “não há pauta conservadora. O que existe é a pauta da maioria da sociedade brasileira, que é conservadora e tem representantes que formam a maioria no Parlamento”.

2 A RECESSÃO BATE À PORTA
Queda do PIB (Produto Interno Bruto), aumento da taxa de juros, elevação dos índices de desemprego, maior endividamento das famílias: 2015 teve todos os ingredientes para ser um dos anos mais difíceis das últimas décadas. “A referência que temos é do período Collor (1990-1992), em que foram registrados índices próximos aos que estamos vendo agora”, compara Mauro Rochlin, economista e professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas. O estudioso ainda acrescenta que “dois indicadores são reveladores da crise”. “Em primeiro lugar, vamos registrar uma queda do PIB da ordem de 3%. O país vai crescer muito menos e isso tem como consequência o segundo indicador, que é o emprego. A taxa de desemprego está aumentando de forma assustadora.”
“Caímos numa recessão e o impacto econômico em 2015 foi terrível em termos de empregos perdidos, inflação e crédito dificultado”, acrescenta David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). Nelson Barbosa, ministro do Planejamento, chegou a declarar, em 24 de novembro, que prevê uma recuperação da economia no segundo semestre de 2016. Afirmou ainda que vários projetos de infraestrutura podem contribuir com uma retomada do investimento.
Para Rochlin, ainda não dá para “enxergar a retomada, porque o que a gente vê em curtíssimo prazo é uma piora acentuada dos indicadores econômicos, com mais fechamento de postos de trabalho e queda do salário real”.

3 A ELEIÇÃO QUE NÃO ACABOU
o clima de disputa a que assistimos em outubro de 2014 durante o segundo turno das eleições presidenciais permaneceu ao longo de 2015. Com 51,6% dos votos, a petista Dilma Rousseff venceu o tucano Aécio Neves, que obteve 48,3%. Mas, pelo que foi visto, a vitória dela se limitou às urnas.
Sem maioria no Congresso, Dilma teve dificuldades para aprovar projetos, viu a confiança dos investidores diminuir, o aumento da crise econômica e recebeu das ruas e dos partidos opositores – entre eles PSDB, DEM e PPS – vários pedidos de impeachment. Em 2 de dezembro, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, comunicou que daria prosseguimento ao pedido de abertura de impeachment protocolado pelos advogados Miguel Reale Junior, Janaína Paschoal e Hélio Bicudo em outubro. O anúncio veio no mesmo dia em que a bancada do PT na Câmara havia afirmado que votaria pela continuidade do processo de cassação de Cunha no Conselho de Ética.
“Em 2015, Dilma teve zero governabilidade. Agora, ela não tem maioria efetiva na Câmara e tem maioria apertada no Senado”, analisa o professor David Fleischer.
Não bastasse isso, um ano após a eleição, em outubro de 2015, o Tribunal Superior Eleitoral iniciou uma ação para investigar a campanha que elegeu a presidente e seu vice, Michel Temer (PMDB). Foi a primeira vez que o TSE abriu uma Aime (Ação de Impugnação de Mandato Eletivo) contra um presidente empossado.

4 OPOSIÇÃO COM TETO DE VIDRO
Eleito, em fevereiro, presidente da câmara dos Deputados, com 267 votos, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se colocou como oposição ao governo de Dilma. A gestão dele foi marcada, ao longo do ano, por projetos que beneficiavam seus aliados, os deputados da chamada Bancada BBB (da bala, da Bíblia e do boi), como são conhecidos os parlamentares ligados a empresas de armamentos, igrejas evangélicas e representantes de interesses ruralistas.
“Ele ganhou uma simpatia de parte do eleitorado, mas estava desde o começo na Operação Lava Jato”, opina o deputado federal Ivan Valente. Considerada a maior investigação da Polícia Federal sobre corrupção conduzida até hoje no país, a Lava Jato desvendou um extenso esquema de corrupção na Petrobras, envolvendo políticos de diversos partidos, banqueiros e grandes empresários.
A máscara de Cunha começou a cair quando ele foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por uma série de crimes, como lavagem de dinheiro e corrupção. Ele negou ter contas na Suíça, mas o país europeu enviou dados à PGR que comprovam as contas bancárias secretas do deputado. Cunha então rompeu oficialmente com o governo, acusando-o de estar por trás das investigações feitas pela PGR. A pressão para que ele renuncie ao cargo só aumenta.
“Ele jogou o tempo todo com a rejeição da presidente e depois com as pautas conservadoras. Só não contava com o seguinte: a corrupção também é repudiada pela população. Cunha foi citado por seis delatores, mentiu na CPI da Petrobras e praticou, na presidência da Câmara, uma série de arbitrariedades. A situação dele já era bastante complicada no Conselho de Ética da Câmara. Agora, a prisão do senador Delcídio do Amaral criou um precedente não só para ele mas para todos os mais de 40 políticos envolvidos na Lava Jato”, observa Valente, que falou com a Rolling Stone Brasil no dia seguinte à prisão do petista.

5 A VOZ DAS RUAS
O ano de 2015 foi uma continuação de junho de 2013. É assim que os entrevistados pela reportagem definem as pressões populares que ocorreram nos últimos meses. Isso porque as eleições de 2014 e a Copa do Mundo fizeram com que as manifestações daquele ano fossem silenciadas. “Em 2013, houve um grande processo de mobilização bem-sucedido. Principalmente quando notamos a redução das passagens de ônibus para, em média, 70% da população brasileira residente das grandes cidades. Essa vitória abriu um enorme precedente e uma espécie de paradigma de mobilização de rua. Por isso, 2015 retomou essa veia de 2013, o que é extremamente saudável”, opina o professor Pablo Ortellado, da USP.
Para Marcia Lima, professora do Departamento de Sociologia da USP, pesquisadora do Cebrap e associada ao Centro de Estudos da Metrópole, as manifestações tinham como objetivo manter as conquistas sociais ameaçadas pelos projetos de lei que tramitaram no Congresso. “Essa onda conservadora levou à mobilização”, afirma. Outro ponto levantado é a insatisfação com a vida cotidiana. “As pessoas estão questionando, desde 2013, os modelos de educação, de transporte e de uma série de coisas”, ilustra Marcos Florindo, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “À medida que o cidadão começa a perceber as mazelas da sua vida social, tornase intolerável, por exemplo, ficar como uma sardinha dentro do ônibus por duas horas.” Uma das características mais positivas dessas manifestações, para os entrevistados, é que elas não têm vinculação a partidos políticos. “O que estamos vendo é a sociedade tentando impor suas vontades”, acrescenta Ortellado.

6 A VEZ DAS MINORIAS EMPODERADAS
Mulheres, negros e homossexuais são considerados socialmente minorias, sob o ponto de vista político e representativo.
Isso quer dizer que apesar de tais grupos serem maioria em quantidade de cidadãos (comprovadamente no caso dos negros e das mulheres), eles têm suas vozes silenciadas e foram historicamente subjugados e explorados.
O que se viu, nos últimos meses, foi um empoderamento desses nichos, capaz de refletir em uma mobilização – na maioria das vezes articulada por meio das redes sociais –, disposta a garantir direitos já conquistados e repudiar velhos modelos e normas sociais.
“Acho que existe uma nova era: é a era de não permitir retrocessos”, diz Marcia Lima. “O movimento das mulheres levantou a pauta do feminismo e do machismo na sociedade brasileira de uma forma absolutamente impressionante, sobretudo nas redes sociais”, analisa Ortellado. Para se ter uma ideia dessa força, no mês de novembro, as mulheres postaram nas redes sociais casos de machismo com a hashtag #meuamigosecreto; com #meuprimeiroassédio, elas relataram abusos sofridos na infância e adolescência. Só no Twitter foram expostos mais de 82 mil casos. “As formas de comunicação evoluíram muito. Na internet, você consegue criar uma comoção social, constituir grandes manifestações públicas. Isso tem colocado em cheque uma velha e tradicional forma de fazer política”, analisa Marcos Florindo.

7 CADEIA PARA OS PEIXES GRANDES
novembro foi um mês histórico para o Brasil. Pela primeira vez no país, desde a Constituição de 1988, um senador no exercício do mandato foi preso. E além do petista Delcídio do Amaral (PT-MS, no detalhe), ex- -líder do governo no Senado, também acabou encarcerado o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, ambos acusados de tentar obstruir investigações da Operação Lava Jato.
Ambos os casos, segundo o professor David Fleischer, dão um recado às grandes empresas: “Talvez não valha a pena arriscar o futuro da companhia com essas manobras de corrupção”.
Roberto Romano, professor titular de Ética e Filosofia Política da Unicamp, aponta para as novas habilidades de investigação. “O Sérgio Moro [juiz que comanda o julgamento dos crimes identificados na Operação Lava Jato] é conhecido internacionalmente como estudioso da Operação Mãos Limpas, na Itália. Ele percebeu todos os erros cometidos pelos juízes italianos e procurou evitá-los. E, assim como o Moro, há uma geração nova de juízes tecnicamente mais bem preparados.”

Saída para a crise está na organização dos "indignados"

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Publicado 26/02/2017 - 07h59 - Atualizado 26/02/2017 - 08h10
Por Milene Moreto
Cedoc/ RAC
"Não há nem sombra de eleição primária no Brasil. Aqui, quando chega a urna, o prato está feito. O eleitor não escolhe. Ele apenas aceita a imposição feita pelos partidos políticos."
A política brasileira vive um dos seus piores momentos. Após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, nada mudou em Brasília, pelo contrário: o caos ainda está instalado no governo do presidente Michel Temer (PMDB), a população continua dividida e as medidas adotadas pelo Poder Executivo Federal prometem piorar a vida dos brasileiros. Apesar do cenário caótico, na economia e na política, o doutor em filosofia e professor de Ética Política no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Roberto Romano, afirma que é possível mudar a forma como se conduz o Brasil. Para ele, os jovens devem forçar sua entrada nos partidos políticos e retomar sua organização para tirar o poder das mãos dos caciques que comandam o País desde a sua fundação. Apenas a mobilização e a união dos brasileiros serão capazes de instalar definitivamente no Brasil a democracia, segundo ele.
Correio Popular - Passamos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e existia por parte da população uma esperança de que o processo mudasse o comportamento dos políticos. Por que isso não ocorreu?
Roberto Romano - O problema da vida política no Brasil está nas conjunturas, e não nos elementos menores da ordem jurídica. O grande drama brasileiro está no fato de que o Brasil até hoje — e isso vai assustar os leitores —, não é uma república, não é uma federação e não é uma democracia. Ele tem traços de república, traços de federação e de democracia. A lógica do Estado Brasileiro, em vez de ser republicana, é oligárquica. O Brasil é dirigido por poucos indivíduos que controlam os partidos políticos, as regiões e que controlam o poder central. Numa república não deve haver privilégios. Vou dar dois exemplos, mas poderia dar muitos outros. Você tem no Brasil algo que é ignorado em todas as repúblicas contemporâneas, inclusive em monarquias, que é a prerrogativa de foro. É uma coisa odiosa e fere a própria essência de uma república, porque o princípio básico de uma república é a igualdade de todos perante a lei. Não é uma federação porque no Brasil municípios e estados não têm plena autonomia. O que há são os famosos três monopólios do Estado moderno: força cívica, norma jurídica e o monopólio da captação dos impostos. Você tem uma gigantesca passagem dos recursos dos municípios e dos estados para o poder central, e esses recursos não voltam. Municípios e estados estão sempre à míngua. O segundo ponto: não há distribuição igual e justa dos poderes do município, do estado e da república. Toda essa crise que vivemos nos presídios e nas polícias mostra que não há distribuição igual de poderes. E aí surge uma ineficiência fantástica da máquina do estado brasileiro.
Uma máquina ineficiente e gigantesca...
Gigantesca, burocrática e corrupta, necessariamente. O Estado federal não repassa, mas cobra a dívida dos municípios. O Poder Executivo federal age, em relação a unidades menores da federação, como um poder estrangeiro que venceu uma guerra e está cobrando um butim. Na questão da norma jurídica, há um abuso do poder central tanto do Legislativo quanto no Executivo e Judiciário. Tudo é feito tendo em vista os interesses do poder central e não dos estados e dos municípios. Nos Estados Unidos cada estado tem uma norma de segurança, de educação, de direto penal. Há uma federação de fato, embora lá o governo seja muito centralizado. Com esse governo Trump extremamente arbitrário, é possível ver a resistência dos municípios e dos estados. Aqui isso é impensável.
Temos alguma perspectiva para modificar esse sistema no Brasil?
Não existe em país nenhum no mundo a quantidade de privilégios que estão atribuídos a quem opera o Estado, do município até o poder central. Se somar só o que é gasto anualmente para manter carros para os representantes das câmaras, assembleias... Estamos falando de carros. Isso draga bilhões. Você paga o carro, que está sempre sendo renovado, a gasolina, os impostos, o pedágio, o motorista. Isso não existe em nenhum país do mundo. No antigo regime absolutista, o rei precisava do apoio da igreja e dos nobres. O absolutismo era um regime altamente corrompido porque o rei comprava esse apoio distribuindo privilégios. Tirava imposto da igreja, dos padres, dos bispos, dos cardeais. Os nobres não pagavam impostos como os demais. Mas nunca na história do absolutismo se tem notícia que o rei pagava carruagens. Aqui ainda pagamos. O que é terrível. Temos municípios sem recursos próprios que pagam esses privilégios para seus vereadores e prefeitos. Não tem dinheiro para fazer um poço e a sua excelência está lá cheio de si num carro oficial com motorista.
O senhor acha que vivemos um momento de passividade em relação a mudanças profundas na política?
Temos uma história de 500 anos de um Estado que abusa do monopólio da força, que abusa do monopólio do imposto e abusa da norma jurídica. Temos uma história de domesticação da cidadania por parte dos que operam o Estado. Só para falar da história mais recente, sem falar das insurreições que ocorreram no século 19 e que foram exterminadas na base do canhão, houve no século 20 duas ditaduras ferozes. Duas ditaduras que ignoraram o direito básico da cidadania. O povo brasileiro tem medo. É um povo que não tem a liberdade interior de exigir coisas. Quando no final das duas ditaduras as massas foram à rua é porque chegou num nível insuportável.
Como então podemos transformar o Brasil numa democracia real?
De fato, esses pontos não estão na mudança política que se discute no Congresso. Na realidade, eles vêm com a conversa absolutamente demagógica e mentirosa da reforma política. A reforma política é um conjunto de mentiras. É propaganda para jogar areia no olho do eleitor. Não existe reforma política verdadeira se você não tem uma democratização dos partidos políticos brasileiros, enquanto os partidos brasileiros forem propriedade de pequenos grupos de oligarcas. O que é o PMDB? Uma federação de oligarquias regionais comandada por determinados barões da política como Renan Calheiros, Romero Jucá, que estão aí há muitos anos fazendo estripulias sem que possam ser atingidos. Os partidos políticos brasileiros são encartilhados, oligarquizados, antidemocráticos. Não há nem sombra de eleição primária no Brasil. Aqui, quando chega a urna, o prato está feito. O eleitor não escolhe. Ele apenas aceita a imposição feita pelos partidos políticos.
O senhor acha que os próximos passos da política, como as reformas, podem despertar no brasileiro esse desejo de mudança ou uma discussão mais séria sobre o sistema político no País?
Quando há multidões indignadas, é necessário que elas estejam organizadas para dar o passo seguinte. Conseguimos desde 2012 muita gente nas ruas e na internet com alguns frutos interessantes. Por exemplo, a Lei da Ficha Limpa. A lei tem problemas até de ordem constitucional, mas é um avanço. O passo seguinte é precisar estar organizado não apenas para cobrar dos políticos, mas para colocar pessoas que sejam alternativas a esses políticos. Nos partidos políticos, um dos pontos importantes da sua não-democratização é que a juventude está expulsa deles. O problema é que o jovem não é bem-vindo nos partidos, e quando ele consegue entrar, tem que obedecer ordens dos velhos caciques. Não se criam novas lideranças. Os partidos tendem não apenas para a oligarquia como também para a gerontocracia. Se somar a idade média dos dirigentes partidários brasileiros dá milênios. Como renovar com eficácia? Tem que dar a um jovem uma responsabilidade adequada para a idade dele, mas que seja um desafio para ele aprender.
O senhor acha que falta força neste momento para cobrar essa mudança maior por causa da divisão que existe na sociedade hoje entre direita e esquerda?
Isso existe muito. Por força dessa não-democratização, você vai criando os grupos de esquerda e de direita. Você tem uma esquerda laboriosa, militante, mas ela não tem a arte do diálogo. Não aprendeu a arte do diálogo e da colaboração. Cada pequeno partido quer a vantagem para si. Quer que o seu programa vença os demais. Já na direita, na extrema direita que está se formando, o nome símbolo é o Jair Bolsonaro. Democratas se preocupariam muito com esse fato, de você ter dois nomes que se sobressaem dessa crise geral da política brasileira: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. As pesquisas estão dizendo isso. As pessoas que têm o desejo da democracia no Brasil deveriam estar muito alertas. Você tem a intolerância e o dogmatismo que não são manifestações da democracia.
Essas figuras que representam o lado mais conservador passam uma sensação de segurança maior em crises?
A população é sempre dividida entre a passagem do medo e a esperança. O que fazer? Apoiar um rei ou um presidente ou um regime porque ou você tem medo dele, ou por que você tem esperança? No caso dessa crise, os políticos mais tarimbados tentam dosar isso, o medo e a esperança. Se vocês votaram no meu adversário, vocês vão cair na desgraça, na falência da previdência social, não vai ter mais emprego. O grande slogan do Lula era “a esperança venceu o medo”. Essa é a velha receita política brasileira. Quando existe uma multidão exigindo um determinado caminho, é preciso indicar esse caminho, e uma vez instalado no governo, mudar de direção. Essa é a lógica da demagogia e da propaganda.
Em relação à Lava Jato, muitos projetaram no Judiciário uma salvação da política brasileira. E o que temos visto é um outro desfecho...
Eu acho a operação altamente positiva. Ela está identificando as fraturas do estado brasileiro que permitem a corrupção, a não democracia plena. Ela tem esse valor. Por outro lado, vejo dois pontos sobre os quais é preciso refletir muito. Esse desejo que a população tem de um salvador. Como os problemas não são resolvidos, existe a tendência de personalizar a saída no indivíduo. Projeta-se nele todas as suas esperanças e suas expectativas, deixando de lado a crítica. O juiz Sérgio Moro é o inatacável da República. Ora, ninguém é inatacável e ninguém deixa de errar. É preciso apoiar o juiz e a operação Lava Jato, mas com olhos críticos atentos para os erros. Eu vejo também um autoritarismo muito grande dos procuradores da Lava Jato. Eles se arrogaram o papel de grandes messias da regeneração da sociedade brasileira e do Estado.
Na sua opinião, qual será o desfecho da Lava Jato?
O juiz Sergio Moro é um profundo conhecedor da operação Mãos Limpas na Itália, que fracassou justamente porque os juízes e promotores italianos não tinham a prática das velhas raposas da política italiana. O que aconteceu? A partir do momento em que a operação Mãos Limpas começou a prender muitos políticos, os políticos reagiram fazendo leis favoráveis a eles. É exatamente o que está acontecendo agora no Brasil. A quantidade de leis em causa própria é absurda. Quando toda a política antiga da Itália estava desmoralizada, com centenas de políticos presos, o Berlusconi apareceu como moralizador. Ele inaugurou a prática de colocar o empresário como moralizador e corretor da política. Isso que acontece com o Doria em São Paulo e com o Trump nos Estados Unidos foi iniciado pelo Berlusconi.
O cenário então tende a permanecer inalterado?
A menos que a imprensa cumpra muito bem o seu papel para fazer o público pensar. Que esse público deixe de expressar na internet seu ódio e suas convicções.
Teremos um ano pela frente com um pouco de mais do mesmo? Temer centralizando o poder, políticos tentando se blindar contra denúncias e punições...
Com um agravante. Quando caiu o Collor, subiu o Itamar Franco. O Itamar era respeitado, governador de Minas, modernizante, íntegro e era uma liderança em Minas. Ele pegou o País num caos, com uma inflação tremenda, com corrupção, os oligarcas mandando e o que ele fez? Reuniu técnicos que fizeram o Plano Real, que começou o combate à inflação para melhorar a vida econômica do País. Havia um trabalho de utilizar pessoas técnicas e políticas para modificar a vida nacional. O que aconteceu? Por interesses menores, começou o desgaste da figura do Itamar Franco, que parte da imprensa paulista começou a chamar de República do Pão de Queijo. A esquerda não se comprometeu com ele. Luiza Erundina foi nomeada a ministra dele e foi expulsa do PT. Ele também era vice, estava vindo de um processo de impeachment, mas conseguiu numa política baseada em honestidade e técnica reverter o quadro. Tanto que os dois governos do Fernando Henrique e o primeiro do Lula foram resultado dessa transição de Itamar. Não é o caso de Michel Temer. Ele nunca foi prefeito, foi secretário de Segurança em São Paulo, ele nunca teve bases próprias. O grande líder do PMDB em São Paulo se chamava Orestes Quércia. Ele só conseguiu ter alguma presença maior no PMDB quando Quércia morreu. Ele não é uma liderança em São Paulo. Ele é um integrante da cúpula sem qualquer influência.
Diante desse cenário de desorganização social não podemos esperar grandes mudanças no sistema a curto prazo?
Quanto mais desesperadora é uma situação, mas precisamos ter cidadania. Eu, como republicano e democrata, acredito que nós devemos tomar a frente da vida política. Os partidos são fechados, nessa hora é tempo de toda a cidadania consciente correr para os partidos para tentar mudar as coisas lá dentro. Uma das armadilhas mais eficazes de manter o poder nas mãos dos corruptos é afastar o cidadão dos partidos. É preciso incentivar os jovens, os cidadãos, a entrarem nesses partidos e mudar a situação. Nossa única esperança está em nós mesmos.

O establishment da eugenia à tortura.

Notícia jornalística da palestra de Roberto Romano no Congresso 20 Anos de Constituição POA.


Jurídico a debate
O establishment da eugenia à tortura.

"Uma tirania sapiente e togada não é menos do que qualquer outra tirania"
"Platão: Nenhum juiz ou dirigente deve ser isento de responsabilidade pelo que faz como juiz ou dirigente"
"Os juízes estão assumindo cada vez mais tarefas não usuais, como foi o caso da Operação Mãos Limpas na Itália e de Baltasar Garzón, na Espanha. Esse aumento do poder não seria uma prova de declínio da Democracia?"
"Em a República, Platão relata ironicamente que certos juízes 'roncavam' durante os julgamentos; não seria o caso de verificarmos no dia-a-dia dos nossos tribunais brasileiros quantos juízes não estariam roncando?"
"Max Weber: 'O Juiz moderno é similar a uma máquina de refrigerantes onde o processo é inserido com a taxa e vomita o julgamento em razões derivadas do código'"
"Entre 2004 e 2005, das 479 denúncias judiciais de presos que afirmaram ter sido torturados, apenas 5 resultaram em condenação"

Roberto Romano da Silva iniciou sua fala sobre os rumos da Constituição no Brasil, apresentando dois lados do poder Judiciário. O primeiro, baseado em um caso de tortura de policiais em um menino pobre de Recife, relatado no artigo "Papel Amassado" ( o título faz referência ao modo como ficou a pele do garoto pela utilização de ácido), mostra como o Judiciário, "com independência, inimigo da fraude e da força bruta, pode vestir o manto do Estado". Lembrando que o Brasil foi novamente condenado pela ONU em virtude da utilização da tortura, Romano frisou que a sentença do juiz Dr. Nivaldo Mulatinho Filho, condenando os torturadores, "tudo faz para que a mancha da tortura suma dos jornais, dos Boletins de Ocorrência e da alma brasileira". Com este exemplo, Romano quis demonstrar que existem, neste país, incontáveis magistrados que se esmeram no cumprimento Lei.

Por outro lado, citando exemplos brasileiros e da história universal, o professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp, procurou demonstrar também as muitas e ponderáveis razões pelas quais os juízes devam ser obrigados a prestar contas de seus atos perante a sociedade. Pedindo desculpas posteriores pelo tom condenatório de sua fala, Romano baseou seu discurso em Platão: "Nenhum juiz ou dirigente deve ser isento de responsabilidade pelo que faz como juiz ou dirigente". Relatando as omissões históricas de parte do Judiciário nos episódios do Nazismo, Regime Militar, casos de tortura no Brasil, passando pelo recente Patriotic Act nos EUA, Romano alertou para o perigo do que chamou de "controle judicial sem voto": "Uma tirania sapiente e togada não é menos do que qualquer outra tirania",
citou, exemplificando a relação entre a lei e a interpretação da Lei, segundo o professor Domique Rousseau, professor de direito constitucional na Universidade de Montpellier (França): "De fato, a lei é ao mesmo tempo barulhenta e silente, no sentido de que ela é apenas constituída por palavras, mas é o juiz que dá um sentido preciso, um conteúdo concreto a tais palavras. Assim, quando a lei diz que todos os indivíduos que constituem uma ameaça para a ordem pública deve ser processado, ela não diz o que concretamente é uma 'ameaça para a ordem pública', é o juiz que, confrontado por tal ou tal situação, dá um sentido, um conteúdo, uma concretude às referidas palavras. É o juiz que finaliza a lei, que dela faz uma norma."

Romano, recorrendo novamente a Dominique Rosseau, afirmou que os juízes estão assumindo cada vez mais tarefas não usuais (como foi o caso da Operação Mãos Limpas na Itália e o caso de Baltasar Garzón, na Espanha), e pergunta: o aumento do poder dos juízes não seria uma prova de declínio da Democracia? E ele mesmo alerta sobre a gravidade de achar-se insuficiente a relação entre representantes e representados, deixando exclusivamente ao judiciário esta mediação. Ao denunciar o "juridiquês" de forma contundente, estendendo o exemplo desta praxis semântica a outras classes não menos doutoradas, como a dos médicos, Romano procura mirar na essência das relações do establishment, a começar pela linguagem, como já o fez Noam Chomsky: "Quando um jurista quer chamar alguém de ignorante, diz que o sujeito é leigo, esquecendo que a tradução de leigo é laós, povo, portanto soberano".

Voltando a Platão, em a República, Romano cita a ironia do filósofo da Grécia antiga ao relatar que certos juízes "roncavam" durante os julgamentos: "Na República existe um retrato irônico do juiz que ronca durante os trabalhos (405c)". E Romano pergunta: "Seria interessante acompanhar o dia a dia dos tribunais para saber quantos juízes brasileiros roncam, seja porque não escutam os reclamos do cidadão comum (o termo consagrado é leigo, como nas organizações religiosas hierocráticas), seja porque não perdem tempo para ler todas as peças dos processos, seja porque já têm, a priori, a sentença antes de ouvir as partes. Se o Legislativo responde, de um modo ou de outro, ao cidadão, se o Executivo é obrigado a fazer o mesmo, os juízes respondem, quando assumidos como prejudiciais apenas aos seus pares, em julgamentos sigilosos cujos frutos são verdadeiros arcana para o mundo civil".

Providencial Platão nestas alturas da explanação, uma vez que, pela fala do professor de filosofia política, evidenciou-se que os gregos, há milhares de anos, já discutiam a questão da publicização dos atos e da negativa do voto secreto para aos juízes. E Romano acabou citando também Max Weber, em um dos seus pontos contundentes, quando pergunta a si mesmo o que é um juiz moderno: "O Juiz moderno é similar a uma máquina de refrigerantes onde o processo é inserido com a taxa e vomita o julgamento em razões derivadas do código". É bom que se diga que mencionou Weber entre dois contextos onde relatava o posicionamento do judiciário Norte Americano perante o Patriotic Act ("Quantos juízes valendo-se dos seus recursos burocráticos votaram no Patriotic Act), e o procedimento do judiciário alemão diante da eugenia praticada no regime nazista (jurisprudencialmente com origem num caso dos EUA, onde um togado afirmou que três gerações de imbecis justificavam o ato) para exemplificar no que se transforma um juiz dentro de "rede burocrática" que justifica a omissão ou o julgamento. Em suma, baseado nos casos de impunidade de tortura no Brasil, exemplificando que das 479 denúncias judiciais entre 2004 e 2005, apenas 5 resultaram em condenação, Romano, catártico, termina parafraseando o apóstolo Paulo (que por sua vez roubou de Platão): a letra vige, mas o espírito desapareceu.

* Cf. Cf. Roberto Romano "Como papel Amassado" in Júlio César França Lima e Lúcia Maria Wanderley Neves : Fundamentos da Educação Escolar do Brasil Contemporâneo (Rio de Janeiro, Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Editora Fiocruz, 2007), pp. 133 ss.

Juízes políticos?

Juízes políticos?

O Estado brasileiro, nos três Poderes, exala miasmas irrespiráveis
 
Roberto Romano*

26 Março 2017 | 05h00 

Alguém se candidata ao cargo de juiz. Para ganhar votos, distribui bolinhos, cupons de gasolina, pizzas para professores de escolas públicas, bebidas grátis para a patuleia. É assim que a campanha eleitoral de Thomas Spargo lhe fornece a toga em Nova York, no ano da graça de 1999. Eleito, Spargo cria elos com políticos que arrecadam estranhos fundos partidários. Sua esperteza lhe garante lugar elevado na judicatura, pois chega em 2001 à Suprema Corte do Estado. Ele sofre processo na Comissão de Conduta Judicial, mas não muda o comportamento. Em 2006 é destituído por exigir propina de advogados, sua condenação sai em 2009. 

A crônica não é lisonjeira, na terra que preza a dupla Law and Order. Mas boa maioria dos juízes norte-americanos opera na mesma zona cinzenta entre atividades judiciais e partidárias. É o que o jornal The New York Times batizou de “realismo legal”. Os magistrados labutam, na essência, em horizonte político (J. Bybee, k.: All Judges are Political, except when they are not, acceptable hypocrisies and the Rule of Law, Stanford Law Books, 2010). 

Se nos Estados Unidos ocorre o conúbio de tribunal e política, que dizer do Brasil? A União Nacional dos Juízes Federais (Unajuf) quer magistrados em pleitos e partidos (Estado, 14/3). Mas aqui nenhum juiz é sufragado pela stulta plebs. Nossas togas são escolhidas em concursos, sem favores e votos do eleitor. A dignidade do tribunal, em terras brasileiras, não seria conspurcada por ofertas de pizzas e bebidas gratuitas aos cidadãos. Os juízes pertencem a uma estirpe superior. Seu ânimo e suas sentenças nada devem aos escrutínios em que se pronuncia o “leigo”. Tais enunciados, entretanto, resumem uma ilusão. Estamos aqui em pleno domínio do mito, cauim sorvido em talagadas que reiteram a dormência geral. 

Segundo Thomas Spargo, os juízes são políticos “except when they are not”. O sentido da frase é tarefa da mais árdua hermenêutica. Nos Estados Unidos, adianta Bybee, “muitos reconhecem que o processo judicial é permeado pela política. Outros parecem acreditar que as decisões judiciais são definidas por fundamentos puramente legais”. Mas cerca de 87% dos juízes, em 39 unidades da Federação, passam pelas urnas. Aqueles pleitos não diferem dos efetivados para os demais Poderes públicos. E eles custam muito financeiramente. Em 2004 a eleição para a Suprema Corte de Illinois gastou mais do que 18 das 34 eleições para o Senado realizadas no mesmo ano. Anúncios na TV e outros meios são garantidos por grupos de interesse e partidos políticos (Cf. Bybee, J. (Ed): The Collision of Courts, Politics, and the Media, Stanford, 2007). 

Custos chamam doadores, doadores nem sempre (o Brasil é prova) buscam alvos legais. Logo, a fé na obediência imparcial e objetiva à Constituição sofre abalos. A média das pesquisas feitas entre 1989 e 2009 mostra que 67% dos entrevistados consideram os juízes imparciais. Mas 70% têm certeza que as sentenças trazem máculas políticas. Para atenuar o problema desde 1940 alguns Estados empregam recrutamento diverso do das urnas. É o “Plano Missouri”. Comissões não partidárias avaliam candidatos e os recomendam. Aos cidadãos é perguntado apenas se aprovam ou não os juízes; 34 Estados usam variantes do “Plano Missouri”. Tais consultas são menos onerosas do que as outras.
Mas, cautela! O processo ordenado supostamente no mérito dos candidatos, adianta Bybee com provas, “pode envolver politicagem (politicking) e lobbies nos bastidores”. 

O âmbito federal, no qual os juízes não passam por eleições, é mais confiável? Indicados pelo presidente, acolhidos por senadores, magistrados têm permanência garantida, desde que seus costumes sejam pautados pelo decoro. Encantador universo do sonho. Na vida real não é assim. Na Suprema Corte “independente do povo, dos legisladores e de todo poder sob o firmamento”, os juízes “percebem a si mesmos independentes do próprio céu” (Shklar, J. N., Legalism: Law, Morals, and Political Trials). A seleção para os pretórios federais, hoje, “é um assunto altamente político, com funcionários eleitos que perseguem os nomeados para resolver problemas importantes de partidos e proeminentes grupos de interesse” (Hart, H. L.A., The Concept of Law). Poderíamos seguir as teses do autor e de outros sobre a Justiça enleada em política nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, na Itália, etc. Do jurista Bybee, urge consultar a importante resenha Electing Judges: The Surprising Effects of Campaigning on Judicial Legitimacy”, em Book Review 22, 2012. Para uma análise diversa, Tamanaha, B. Z., Beyond the Formalist-realist Divide: The Role of Politics in Judging, 2010. 

No Brasil, causa tristeza a mendicância – ou o termo chulo usado por Romero Jucá – de quem deseja lugar nos tribunais superiores e no Supremo. A lista de votos inclui muitos fornecidos por congressistas corruptos. Candidatos prometem a políticos, depois presos e condenados, “matar no peito” processos contra eles. Outros aceitam parolagens em chalanas e são aprovados, mesmo constatado plágio em seu doutoramento. Uma consulta à biografia de Saulo Ramos ilustra o ponto. Há diferença entre tais zumbaias e a demagogia dos juízes eleitos pelos cidadãos? Os nossos candidatos à toga não distribuem pizzas aos parlamentares. Eles prometem – se entregam é outro assunto – leniência explícita ou velada. São curiosos os encontros entre julgadores e réus, no segredo dos gabinetes ou no exterior. Salamaleques, num Congresso que tudo troca, parecem piores do que a bajulação das massas. A promiscuidade se transforma em regra. Procuremos saídas que mantenham a dignidade do juiz, da lei, do cidadão honesto. O Estado brasileiro, nos três Poderes, exala miasmas irrespiráveis. 

*Professor da Unicamp, é autor de 'Razão de Estado e outros Estados da Razão'