Flores

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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Diderot....

“Amigo, para descrever um Salão que agrade a mim e a você, sabe o que seria preciso? Todo tipo de gosto, coração sensível a todos os encantos, alma suscetível a uma infinidade de entusiasmos diferentes, variedade de estilo que responda à variedade dos pincéis; ser capaz de grandeza e volúpia com Deshays, simplicidade e veracidade com Chardin, delicadeza com Vien, ser patético com Greuze, produzir ilusões possíveis com Vernet. Diga, pois: onde estaria tal Vertumno? “ (Diderot, 1763). ([1]) Com sua escrita flexível e célere Diderot inventou o Sobrinho de Rameau sob o sinal de Vertumno. Jean-François é o “boneco maravilhoso” que assume mil posições, canta árias as mais diversas, imita os sons da natureza e da arte e, sobretudo, prova que a sociedade humana é harmoniosa cacofonia. “O canto”, diz o vagabundo genial, “é imitação, por sons de uma escala inventada pela arte ou inspirada pela natureza, como você desejar, ou pela voz ou por um instrumento, dos ruídos físicos ou acentos da paixão; e você nota que, mudando lá dentro as coisas a mudar, a definição conviria exatamente à pintura, à eloquência, à escultura, e à poesia”.

A escrita do enciclopedista mostra, no seu ápice, uma singular percepção das artes como entrecruzamento e síntese. Se a Universidade não pode ser entendida como espaço de especialistas que matam a riqueza dos saberes (o Plano de Uma Universidade deixa clara tal tese), também a cultura se espraia e se emaranha em todos os sentidos, todas as técnicas, todas as almas. Com Diderot estavam lançados os lineamentos da crítica fundamentada numa epistemologia materialista inovadora e totalizante. ([2]) A Editora Perspectiva assumiu o risco de publicar em nossa lingua um autor plural que escrutina as faces enigmáticas do ser humano.([3]) Nos volumes sucessivos da opera omnia diderotiana a Editora escolheu e trouxe aos leitores brasileiros os textos de romances, teatro, crônicas, sátiras, filosofia, ciência, política, poesia. E coloca diante dos olhos públicos, agora, as reflexões do crítico sobre a pintura.

Iniciador de um gênero, Diderot foi seguido por escritores fundamentais da modernidade como Baudelaire ([4]), os irmãos Goncourt ([5]) e muitos outros, inclusive os que não confessam suas dívidas para com ele. O elogio sobre Diderot, no Diário dos Goncourt faz justiça à escrita e ao pensamento do enciclopedista : “Imagino Fragonard e Diderot saídos da mesma forma. Nos dois, mesmo fogo, igual estro. Uma página de Fragonard é como uma pintura de Diderot. Mesmo tom brincalhão e emotivo; quadros de família, enternecimento diante da natureza, liberdade de um conto livre (liberté d’un conte libre). Os dois brincam com a forma precisa, absoluta, do pensamento ou da linha. Diderot, conversador sublime mais do que escritor; Fragonard, mais desenhista que pintor. Homens do primeiro impulso, do pensamento jogado vivo e que nasce diante dos olhos ou da idéia” ([6])

Autor plural, erudito, ousado, Diderot tem nas artes seu grande território. Mesmo as profundezas metafísicas são banhadas pelos matizes de sua estética. Estudos recentes sobre ele sublinham os elos entre a sua visão dos sentidos e a espessura das cores e formas que entram no materialismo que vai além da imagética mecânica dos séculos 17 e 18. Gerhardt Stenger, um dos mais abalizados comentadores de sua filosofia, em livro estratégico sobre o materialismo dedica boa parte do estudo ao pensamento que liga arte e matéria. ([7]) 

Sendo assim, a Editora Perspectiva encerra com chave de ouro a edição de Diderot no Brasil. Os Salões reúnem todas as buscas do escritor. Neles temos poesia e pintura, música e teatro, filosofia e moral, política e religião. Graças ao trabalho delicado dos professores Jacó Guinsburg e Newton Cunha, que realizaram uma verdadeira decriptagem da escrita diderotiana (respeitando sempre a polifonia policrômica do filósofo), o leitor brasileiro tem diante de si uma parte substancial das Luzes, tão maltratadas pela monótona misologia de hoje, que recusa o plural, prefere o uniforme na ideologia, nas artes, nas elaborações do pensamento filosófico.  


[1] Diderot, citado por Gaillard, Aurélia : “Pour décrire un Salon”, Diderot et la peinture (1759-1766) (Bordeaux, Presses Universitaires, 2007), p.9

[2] Oliver, Alfred Richard : The Encyclopedists as Critics of Music (New York, Columbia Univesity Press, 1947).


[3] Não por acaso, as Recherches sur Diderot et L’Encyclopédie, para dar título à notícia sobre as traduções da Perspectiva escreveu que “Diderot fala português”.
[4] “Diderot cria o prototipo de um gênero literário novo. Ele consegue tornar sensíveis as aproximações estéticas  das obras que apresenta. Ele nos comunica seus entusiasmos e mesmo suas reservas, sempre presas a um ponto de partida moralizador. Os inícios de Baudelaire no gênero que ele iria conduzir à perfeição, testemunham no entanto uma imitação muito escolar de seu modelo” Michel Jamet, in Baudelaire, Ouvres complètes (Paris, Laffont, 1980, p. 975.
[5] “Os Goncourt retomam da análise de Diderot seus dois momentos essenciais: de uma parte, a interpretação da pintura de Chardin como imitação transparente da natureza; de outra parte, a atenção crescente à técnica pictórica, que ameaça a lisibilidade da imagem”. Dominique Pety, “La peinture de Chardin dans les Salons de Diderot et dans l ‘art du XVIIIe siècle des frères Goncourt” In Cabanes, Jean-Louis (ed.) Les frères Goncourt : art et écriture (Bordeaux, Presses Universitaires, 1997). P. 377 ss.
[6] Le journal, Année 1859 in Mémoires de la vie littéraire, I, 1851-1865 (Paris, Laffont, 1989), p. 494.
[7] Stenger, Gerhardt : Nature et liberté chez Diderot, après l’Encyclopédie (Paris, Universitas, 1994). O autor publicou, no contexto das comemorações dos trezentos anos de Diderot uma obra prima de agudeza e sentido de justiça. Em Diderot, le combattant de la liberté (Paris, Perrin, 2013), temos uma análise fina e percuciente do pensador inquieto, ágil e profundo. Stenger também aponta, o que é raro entre os especialistas, os erros crassos de Diderot na avaliação de pensadores materialistas de seu tempo, como é o caso de Helvetius. O capítulo “Diderot crítico de arte”é um dos estudos mais sólidos sobre o tema, trazendo sugestões novas para o exame do assunto.

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