Flores

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

George Shepherd

Departamento de Biologia Vegetal
Início de atuação: 1975

George Shepherd – Amor às plantas, ao IB e ao Brasil


Texto: Fabio Papes
Organização das imagens: Gustavo Shimizu; Autoria das imagens: Prof. George e vários outros autores
(Fabio e Gustavo foram alunos do Prof. George)


George no quintal de sua casa (2017)
Lupas, lentes de aumento, fragmentos de plantas, exsicatas botânicas, lâminas de microscópio, fotos de viagens pelo Brasil e pelo mundo. Em outro canto, sofás, mesinhas com objetos decorativos, pilhas de teses. E, sim, muitos, muitos livros! Num espaço assim, o professor aposentado do Instituto de Biologia George Shepherd nos recebeu em sua casa. O lugar, extremamente acolhedor ―uma mistura curiosa de laboratório, ateliê, biblioteca e lounge― revela sem dúvida que se trata da casa de um cientista. Um botânico apaixonado pela vida, com uma bela história para contar.

Uma história que se mescla com a do Instituto de Biologia da UNICAMP, que ele ajudou a construir. Com olhar alegre e sorridente, o professor nos revela a história por trás de sua chegada à nossa Universidade na década de 1970. George é escocês e realizava nos primeiros anos da década de 70 seu doutoramento na Universidade de Edimburgo, onde também se encontrava o futuro Prof. Titular do Instituto de Biologia, Gil M. Felippe. Prof. Gil havia terminado seu doutorado sob orientação do Prof. John Dale, com especialização na área de fisiologia vegetal (desenvolvimento), realizando seu pós-doutorado também em Edimburgo. As conversas sobre a flora tropical do Brasil foram inevitáveis, alimentando a ideia e o sonho de George de exercer sua profissão em um país nos trópicos. A República dos Camarões e o Brasil estavam na lista. Foi quando, em 1975, George recebeu uma carta-convite da UNICAMP para compor o corpo docente do recém-criado Departamento de Morfologia e Sistemática Vegetais, chefiado à época pelo Prof. Fernando R. Milanez.


George relembra que sua chegada ao IB foi inusitada, tumultuada e de certa forma muito engraçada. Em meados de 1975, George e o Prof. Peter Gibbs, também do Reino Unido, ambos contratados pela UNICAMP para compor o mesmo departamento, se dirigiram a Londres para esperar pelo embarque rumo ao Brasil assim que as passagens providenciadas pela universidade brasileira chegassem. A passagem chegou. Mas apenas para o Prof. Gibbs, não para George.

Já sem residência fixa por lá, George relembra que dormiu por vários dias no chão da sala da casa de um amigo, antes de retornar a Londres para retirar sua passagem junto à companhia aérea. A aventura só havia começado, no entanto. Horas de atraso na partida do voo a partir de Londres acarretaram em um atraso na chegada ao Rio de Janeiro, onde haveria uma troca de aeronaves antes que o já cansado George finalmente chegasse a São Paulo. Na capital paulista, uma delegação esperava ansiosa e apreensivamente pela chegada do recém-contratado professor, para levá-lo até o IB. Com o atraso na chegada ao Rio, fatalmente a conexão para São Paulo foi perdida e a companhia aérea reacomodou os passageiros em um avião turboélice Electra. A meio caminho entre o Rio e São Paulo, uma das hélices do avião parou de funcionar. George rememora que olhava pela janela, pensando se a parada significava apenas economia de combustível ou um desastre iminente. A agitação dos comissários de bordo e passageiros revelou que, infelizmente, a segunda hipótese era mais provável.
George, na sala de aula IB03

A aventura incluiu um pouso de emergência no aeroporto de Viracopos e uma carona para, finalmente, chegar são e salvo a Barão Geraldo. Enquanto isso, na capital, a delegação da UNICAMP se perguntava o que teria acontecido com o professor escocês. Assim, com sorriso no rosto, George relembra a odisseia de sua chegada ao IB.


George e o Prof. Fernando Martins – colegas desde 1975


Lembra também do lugar e das pessoas que o acolheriam pelos anos seguintes de sua vida. Entre os que acolheram o jovem professor, estavam alguns que viriam a ser colegas próximos no Departamento de Morfologia e Sistemática Vegetais. Pergunto a George se ele poderia mencionar nomes de figuras que ele considerava mais queridas em sua trajetória acadêmica, que o acompanharam desde sua chegada. Sem hesitação, George cita os professores Luiza Kinoshita (professora aposentada), João Semir (professor aposentado, colaborador no Depto. de Biologia Vegetal), Fernando Martins (docente ainda ativo em nosso Instituto, no Depto. de Biologia Vegetal) e o falecido prof. Hermógenes de Freitas Leitão Filho, que, segundo George relata, “sempre ensinou muitas coisas sobre a flora brasileira não só para os colegas, mas para uma geração inteira de alunos de pós-graduação. Além disso, foi uma pessoa muito agradável, alegre e sempre otimista, um excelente companheiro de barzinho em muitas noites memoráveis!”. “São colegas que trago muito próximos de minha história de vida, entre tantos outros que fizeram parte dela”, acrescenta George.

Qual atividade em sua carreira lhe trouxe mais alegria, mais realização?
Tenho certeza de que os momentos mais felizes da minha vida foram em viagens de campo e excursões pelo Brasil e pelo mundo para coleta de material botânico. Lembro de forma especial de uma viagem que fizemos para coleta de plantas no sul da Bahia. A lembrança de andarmos pelas vertentes e caminhos, nos campos altos, pastagens e florestas, coletando espécimes durante esta viagem, me faz muito feliz. Às vezes, as lembranças de momentos alegres incluem episódios simples que estas viagens traziam, como durante uma que fizemos ao sul dos estados de Goiás e Bahia e interior de Minas Gerais. As coletas durante o dia terminavam com música caipira e o contato próximo com as pessoas que viviam nesses lugares. Foram experiências incríveis. Outra memória boa foi a história do Herbário UEC. Quando cheguei, o Herbário tinha 1500 exsicatas; hoje, com a contribuição de todos ao longo dos anos, somos o 2º maior herbário do estado de São Paulo, reconhecidos no mundo todo como uma coleção essencial para quem estuda plantas brasileiras. Acredito também que a informatização quase total do herbário trouxe muitos avanços para o estudo de nossa flora. Algo que ainda vai melhorar no futuro, quando os bancos de dados possibilitarão extensa integração entre informações morfológicas, ecológicas e biogeográficas, importantes pra responder questões de taxonomia, ecologia e evolução em plantas.

A paixão de George pelas viagens de campo não se iniciou no Brasil. Ainda criança, George tinha interesse em plantas e taxonomia. Chegou a pedir a um de seus professores um livro sobre taxonomia com chaves de identificação. Acharam que seria conhecimento aprofundado demais para ele. Emprestou também um microscópio da escola, para observar espécimes vegetais, na melhor tradição naturalista do Reino Unido. Já na graduação, a observação, coleta e classificação de briófitas havia se transformado em um hobby, realizando um curso sobre o assunto e várias excursões de coleta em lugares pouco explorados do Reino Unido. “Lembro em particular de uma aventura no campo, quando fomos explorar briófitas e outras plantas em uma serra remota da Escócia. No retorno, eu e meus colegas nos distraímos do caminho por causa de uma neblina pesada que desceu sobre a serra. Ficamos perdidos por horas, chegando à conclusão de que estávamos andando em círculos. Demoramos horas e horas pra chegar à estrada mais próxima, num percurso de mais de 30 km. Eventualmente, achamos uma pousada, espécie de galinheiro que havia sido convertido em lugar de hospedagem. Mas a hospedagem foi boa, pois tomamos umas cervejas. Cervejas demais, considerando o longo caminho de volta que tínhamos à frente”, revela o professor.

Fraser Canyon, na Terra Nova e Labrador, Canadá
George também foi um dos primeiros botânicos a explorar as bizarras florestas no estado canadense de Labrador. No local, George e colegas chegaram a ficar sem barco, sem comida, com risco de ataque por ursos. A recompensa foi grande, no entanto. As fotos que nos mostra dessa excursão são ao mesmo tempo assustadoras e impressionantes. Na vastidão desolada da tundra canadense, imensos e profundos cânions se abrem, recobertos por uma densa vegetação que cresce protegida dos ventos fustigantes que atravessam o platô logo acima. George percorreu de forma pioneira alguns destes vales, como o cânion Fraser (figura ao lado).
Cimo, sempre enevoado, da Serra Fina.
Outras excursões memoráveis, já no Brasil, foram empreendidas para explorar pela primeira vez a flora da região da Serra Fina, na divisa entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em 1997, em uma destas viagens, um guia os conduziu para chegar ao ponto mais alto da Serra, o que levou cerca de 2 dias de caminhada intensa, em uma das travessias mais difíceis existentes no território brasileiro. Apesar da proximidade de grandes centros, nunca tinha havido uma expedição para explorar esta parte da região Sudeste. “Acampamos numa área plana perto da Pedra da Mina, onde havia água potável. A região é muito propensa à formação de neblina e logo nos vimos envoltos em espessa névoa e, depois, nuvens. Quando as nuvens se dissiparam, vimos que estávamos à beira de um enorme precipício”, conta George.

Barracas inundadas na Serra Fina. 
Excursões de campo têm inúmeros reveses e George nos revela um deles: “À noite, choveu forte. Descobrimos então porque o lugar onde montamos as barracas era tão favoravelmente plano. Era, na verdade, uma baixada, onde a água da chuva empoçava. As barracas inundaram e foi uma aventura e tanto!”, ri o professor. “Mas foram anos incríveis, onde grande conhecimento foi acumulado. Um de meus alunos realizou seu trabalho de tese sobre a flora da Serra Fina. Cerca de 10 novas espécies de plantas foram descritas lá desde então”.

Outra passagem engraçada foi numa excursão para o vale do Jequitinhonha, no sertão do norte de Minas Gerais, na década de 1990. “O lugar é muito remoto e algumas comunidades viviam isoladas. Lembro que a Luiza (Kinoshita) foi atração para a cidade. Nunca haviam visto uma pessoa com ascendência asiática por ali”, conta George, divertindo-se.

Begônias com pétalas curiosas (Serra Fina).
Pergunto a ele se lembrava de excursões para a Amazônia brasileira. Ele afirma, categórico, que nunca se interessou tanto pela Amazônia, apesar de sua famosa biodiversidade. Acabou desenvolvendo grande parte de suas pesquisas com foco na região Sudeste, cuja flora é rica e muitas vezes desconhecida também. O trabalho de levantamento florístico foi bastante impulsionado pelo Projeto “Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo”, tendo como sede principal a UNICAMP, com colaboração de numerosas outras instituições do estado de São Paulo, e financiamento da FAPESP.

Lançamento dos livros da Flora Fanerogâmica do estado de São Paulo (vol. 1, em 2001, e vol. 5, em 2007)
O Projeto foi idealizado e coordenado pelo Prof. Hermógenes de Freitas Leitão Filho, também do Depto. de Morfologia e Sistemática Vegetais da UNICAMP. Com o falecimento do Prof. Hermógenes, a coordenação do projeto passou para o Instituto de Botânica da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Dra. Maria das Graças Wanderley), e a coordenação do time da UNICAMP passou para George, posição que, segundo ele, o levou ainda mais longe na busca pelo levantamento florístico e conhecimento sobre a flora brasileira.

Qual você considera a realização científica mais relevante de sua carreira?

Ex-orientandos do Prof. George
Eu acredito que a formação de pessoas está entre as coisas mais importantes que fiz na carreira. Quando chegou a chefiar o departamento, o Prof. Gibbs tinha um olhar muito atento à formação de um grupo de professores bem qualificados e produtivos, estimulando-os a publicar com qualidade. Mas também estávamos bastante preocupados com a formação de pessoal. Minha geração investiu muito na construção de uma boa infraestrutura de pesquisa e na idealização e implementação do curso de pós em Biologia Vegetal. Acredito que foi um sacrifício que fizemos. Ao invés de focar apenas em publicações, decidimos dedicar parte de nosso tempo à formação de um corpo de pessoas bem treinadas. Isso teve tremenda importância para o Brasil. Esse corpo de pessoas não existia quando cheguei aqui, havia pouquíssimos grupos de botânicos no país. Minha geração ajudou a profissionalizar a pós-graduação, aumentando muito o número de profissionais.
George com colegas do Instituto e alunos
George lembra com alegria do time de docentes que colaborou nessa empreitada, na construção da próxima geração de cientistas botânicos. “Hermógenes de Freitas Leitão Filho foi uma grande figura, sempre um excelente companheiro, além de ser excelente professor, entusiasmado com cursos de campo, na época relativamente raros aqui no Brasil. Ele inspirou uma geração inteira de alunos de Botânica. Lembro também da Luiza Kinoshita, excelente taxonomista e grande companheira de viagens de campo e do João Semir, grande conhecedor da flora brasileira e, claro, sempre brincalhão. Nunca ninguém fica triste perto dele! O João era capaz de identificar plantas e, no minuto seguinte, cantar um trecho de uma ópera durante nossa excursão” rememora George. “O Prof. Fernando Martins foi um bom colaborador ao longo dos anos. Foi ele quem, entre outras coisas, iniciou a linha de pesquisa com fitossociologia no Brasil. Já a Profa. Marlies Sazima se tornou uma das líderes em pesquisas sobre biologia floral no Brasil. Houve também muitas pessoas que se destacaram como alunos e mais tarde se tornaram colegas, como Jorge Tamashiro, Dulce Rocha, Ana Odete Vieira e Thomas Lewinsohn. Fico muito grato aos meus alunos, que foram muito importantes na minha evolução como professor e como pessoa, estimulando diversas linhas de pesquisa e tendo a paciência de testar inúmeras versões do programa ‘Fitopac’, cheias de ‘bugs’ e interfaces de usuário impenetráveis. Ainda sinto muita falta de dar aulas na graduação, onde a reação inicial normal dos alunos do primeiro ano (‘odiamos botânica!’) era um desafio e estímulo para melhorar as aulas. Fiquei muito honrado quando os alunos decidiram dar meu nome ao Centro Acadêmico do IB, e lembro também com muito carinho os alunos que me ajudaram como monitores nas aulas, particularmente Gustavo Shimizu, um dos mais entusiasmados monitores que tive na minha carreira como professor”.
É importante também lembrar que George é de uma família que tem história com nossa universidade! Sua esposa, Dra. Simone Liliane Kirszenzaft Shepherd, também foi professora do IB, no Depto. de Fisiologia Vegetal. Seu filho, David, foi aluno do curso de Geologia na UNICAMP. “Enfim, somos uma família ‘Unicampense'”, alegra-se o professor.
No último dia 3 de setembro, comemoramos o Dia do Biólogo. Que mensagem o Sr. gostaria de deixar para as novas gerações de biólogos, botânicos e cientistas em geral, diante dessa carreira tão bonita e prolífica que o Sr. teve?

Minha mensagem é que a beleza natural maravilhosa que temos corre perigo. É importantíssimo estudar e proteger antes que nosso mundo natural suma para sempre. Temos que continuar lutando para preservar. Não se pode evoluir uma Mata Atlântica novamente. O que temos aí, temos que preservar. Mais do que a catalogação, nosso trabalho deve ser no sentido de maximizar a sobrevivência dos ecossistemas ainda presentes. Se não fizermos isso, estaremos comprometendo os fundamentos do mundo biológico e também nossa própria espécie, afinal tudo que comemos tem origem em algum vegetal ou animal nativo. Às vezes, não entendemos a natureza, mas precisamos buscar a compreensão de tudo, esse fundo ecológico. Isso é tremendamente importante. Preservar e entender.


Saio da entrevista com a sensação de que conversei não apenas com um cientista importante, não apenas com alguém que ajudou a construir o Instituto onde obtive minha formação em Ciências Biológicas. George não foi apenas meu professor e de tantos outros biólogos que passaram pela UNICAMP. Percebo que, assim como outros que doaram sua vida à paixão pelas ciências biológicas, George é um grande homem, alguém que me inspira a seguir em frente. George é uma história de amor pelas plantas, pelo IB, pelo Brasil. Viva o George! Viva o IB!









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